Arquivo do mês: outubro 2004

Nove Dias Para Viver…( 6·Cap )

De duzentas mil maneiras haví­amos imaginado aquele encontro no aeroporto… e ele acontecia de uma forma completamente distinta a todas elas.
Os milhares de beijos vorazes, trocados por bocas famintas de saudade eterna, os abraços plenos de ardor, cheios das mãos ansiosas, urgentes. As palavras de amor sussurradas em tantas frases, antes só escritas, ganhando o tom das vozes embargadas de paixão… ficaram guardados numa vertigem interna.
Para não cair, abracei-o em silêncio. Queria dizer: “Onde estava? Por que demorou tanto?” Mas as palavras que pulsavam dentro da alma não se formavam na boca.
Finalmente eu podia fazer-lhe as pré-históricas perguntas, mas naquela hora ele não iria entender…
Estávamos ali. Ao vivo e a cores. Na verdade, desbotadas cores. Derretidos os olhos e tremulas as pernas, num abraço imóvel, quase sem respirar. Paralisados… mais pela incredulidade de estarmos juntos do que pelo cansaço. Tí­nhamos nove dias pela frente para falar, para tocar-nos… para sentir-nos. Tinha nove dias para perguntar-lhe tudo o que quisesse.
No estacionamento do aeroporto, um primeiro e tí­mido beijo, com gosto de primeiro beijo de adolescente. Desengonçado, inseguro, tremulo. Depois dos trilhões de beijos virtuais, com todos os gostos e formas, o primeiro era tão ingênuo e infantil que sorrimos.
O velho casarão de Olinda nos esperava com seu cheiro de mar, sua varanda florida, sua rede de céu e nuvens. Os queijos e vinhos, flores, frutas… tudo ainda embrulhado. A saí­da intempestiva de casa não havia permitido que eu arrumasse a mesa como queria.
Mas não importava… ainda tí­nhamos nove dias para aproveitar tudo.
Enquanto ele tomava um banho reparador, depois de mais de 20 horas entre voos e aeroportos, botei uma música, escancarei a porta de vidro e o mar entrou em gotí­culas frescas e salgadas, embalsamando a sala com um maravilhoso cheiro de madrugada marinha…
Perfeito!
– Que queres beber? Perguntei sorrindo.
– Uma cerveja
– Heim?! Tinha vinho, whisky, vodca, champanha… menos cerveja.
– Não tem. Suspirei.- Comprei tudo, menos cerveja. E comecei a rir.De cansada, nervosa, medrosa. Surtada!
– Não passa nada… não passa nada. Ele disse.- Tomamos um vinho… já está. Ele me acalmava, abrindo a garrafa.
Tomei a primeira taça como se fosse água… e a segunda. O vinho também acalmava. Contei-lhe minha semana insone, meu dia sem água, a explosão da bomba, o assalto, a delegacia, a espera interminável no aeroporto. Eu falava e ria…acho que ele entendeu mais ou menos o que eu dizia.
Ele contou-me sobre o problema no avião, a impossibilidade de ler, de dormir, o nervoso, o medo de não chegar. E rí­amos…e rí­amos. E a felicidade foi se espalhando pelo sangue, como o vinho.
Finalmente, com o sol lutando para nascer por trás de nuvens escuras sobre o mar de Olinda, lindo, lindo… fomos para a cama. Estupidamente cansados.

Ainda tí­nhamos nove dias para sonhar acordados. Nove dias para corporificar um amor fantasiado em longas madrugadas de insonias. Nove dias para aproveitar o sol, a lua e os mares de um verão em Pernambuco. Nove dias para viver todas as ânsias e saudades alimentadas por um ano de e-mails diários. Nove dias para viver os sete anos de espera.
Quando me vi entre seus braços, com os lábios a meio centí­metro dos seus, a barba perfumada de maresia e vinho, esqueci o cansaço, o medo, a semana insone, a agonia do dia e da noite. Esqueci todas as misérias do mundo, todas as tristezas e desesperanças da vida. Recordei que só tinha nove dias. Que podiam ser os nove primeiros…ou os últimos. E que eles já haviam começado.
” Como se tudo o que (em mim) existe fossem pequenos barcos que navegam, para estas tuas ilhas que me aguardam.” Pensei de novo Neruda…
– Por que demorou tanto? Perguntei baixinho.
– Estou aqui. Ele respondeu.
E então começou a chover. E choveu para sempre.
Por nove dias e noites choveu no verão de Pernambuco.
Foto: Rain-Boris

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No Mundo Que Ninguém Via…( 5·Cap )

No mundo que ninguém via, eu estava feliz. No mundo que ninguém sabia, eu tinha um amor.
Do outro lado desse mundo, tudo desmoronava. Os dias eram difí­ceis de viver.
Os minutos que eu tinha diante do computador, escrevendo e lendo nossas cartas diárias, eram como um bálsamo de felicidade. E eu prolongava-os ao máximo que podia.
Funcionavam como uma nuvem, onde eu me pendurava para não desabar diante dos problemas. E eram muitos problemas.
Nem vou citar todos, que não valem a pena. Apenas cito aqui o pior deles.
Durante os primeiros seis meses de 2001 assistia impotente como minha mãe desaparecia dentro de si mesma. Via o Alzheimer e as isquemias cerebrais destruirem sua razão e confundirem seus sentimentos. Apagarem sua visão e limitarem seus movimentos. Via minha mãe morrer um pouco a cada dia. Como perdia seu sorriso, sua alegria. Como ia virando uma criança, um bebê… um feto. E depois… uma casca vazia.
Contei a ela sobre as cartas que trocava com olhos-de-mar-azul , disse-lhe que estava apaixonada de verdade. Chorei sobre seu peito murcho a falta que ela me fazia. Não sei se me ouvia. Mas por trás de sua face envelhecida e imóvel, por trás de seu silêncio de árvore morta, parecia dizer-me: “Viva, minha querida. Viva cada pedacinho de sua vida intensamente. Não perca nenhuma migalha de alegria. Realize os seus sonhos, acredite neles. Viva a cada dia um dia. Aproveite cada segundo de luz e de sombras, cada segundo de risos e de lágrimas.”
Na sua lenta despedida, minha mãe me ajudou a valorar, com outras medidas, a vida. Na sua miserável morte, minha mãe me pariu outra vez.
Quarenta e cinco dias depois de sua partida, comemorei meu aniversário num pequeno cais de Recife, entre as gaivotas, os amigos mais queridos e um por de sol.
Muita gente não entendeu como alguém podia comemorar um aniversário um mês e meio depois da morte da própria mãe. Mas eu e ela sabí­amos o que isso significava. E bastava.
No mundo que ninguém sabia, eu e ela sabí­amos. No mundo que ninguém via, eu e ela tí­nhamos um trato…
Enquanto tudo parecia desmoronar por fora, eu renascia por dentro. A vida ganhou…
Em Olinda, no antigo casarão colado ao mar, na companhia dos velhos pescadores e suas redes…eu ressuscitava. Fui resolvendo, pouco a pouco, os outros problemas.
E estava grávida de amor. Ainda não sabia quanto faltava para dar luz àquela história que começou na festa do Juan Sebastian Elcano… mas sentia que era um caminho. Acreditava que podia segui-lo.
Enquanto isso, guardava as luas cheias, os navios iluminados, as manhãs de brisa salgada, as ânsias de beijos. E enchia com elas as minhas cartas de ardor apaixonado.
Um dia, ele me perguntou se eu queria que fosse passar comigo o Ano Novo. No Brasil.
Sim, eu queria. Claro que eu queria. Sim, sim, sim… por favor, sim!
Explodi de alegria, virei estrela no céu de Olinda!
Tinha dez dias para preparar tudo. Cadê minha fada madrinha!!??
Mãaee!!! Gritei apavorada e feliz!
O dia chegou, finalmente. Era um sábado. Dia 29 de Dezembro.
A casa já estava limpa. As compras na geladeira. Frutas tropicais, queijos e vinhos. Champanha. O mar com seu verde vestido. Perfeito!
Fui tomar um banho, disposta a sair e comprar flores, mandar lavar o carro, fazer as unhas e escovar os cabelos. Tinha tempo de sobra até às 08:30 da noite. Dentro do peito, um motorzinho ligado avisava que eu estava um tanto nervosa. Mas nada de pânico. Está tudo certo… vai dar tudo certo.
Um bom banho para começar um bom dia.
Cadê a água? Não pode ser! A casa era uma gambiarra, mas nunca havia faltado água, desde que eu estava ali. Fui ver a bomba. Não funcionava. Chamei o vizinho. O velho dono do antigo casarão, especialista em gambiarras. Ele veio. Mexeu daqui, mexeu dali. Uma hora depois, o velho ainda estava lá, com outro velho, mexendo nos fios, mais velhos que ambos juntos…. e Bum!!! Explodiram a bomba.
Não pode ser! Hoje não!
Eu olhava desolada para eles, com lágrimas nos olhos. Ficaram com pena de mim. Me prometeram resolver tudo, que saí­sse tranquila.
Como assim tranquila? Era sábado. No dia seguinte, domingo. Depois, véspera de Ano Novo e MEU ANO NOVO! Numa casa sem água?
Nada de pânico. Pense! Resolva! Respirei fundo e pensei.
Telefonei para uma amiga e pedi sua casa de praia emprestada por uns dias. Ela disse que sim. Suspirei e saí­. Quando voltei, a bomba estava trocada. Viva! Entrei em casa pensando em descansar um pouco, arrumar as flores…
E então… a campanhia da porta tocou. Recebi a visita de minha tia querida, que havia resolvido tomar um whiskezinho comigo.
Hoje não… hoje não! Pensei, mas não disse…
Servi um whisky na varanda, olhando o relógio. 4:30 da tarde.
Bom, um whiskezinho para relaxar não estava mal… Contei a ela o que estava acontecendo, quem eu estava esperando. Rimos juntas da inusitada história. Ela meio descrente… eu perfeitamente consciente que estava valendo cada segundo.
O velho vizinho acena pela janela e grita: ” Estão roubando seu carro!”
Heim?!!
Pois… saí­mos correndo para a calçada. Não era o meu carro. Era o dela. Haviam quebrado o vidro traseiro de seu carro novo, levado seu som, sua bolsa, as jóias que ela guardava no porta malas e que eram seu ganha pão.
Minha tia em prantos na calçada…os vizinhos em volta do carro. 5 horas da tarde. Fomos juntas à delegacia mais próxima. Um idiota nos recebeu com a maior calma do mundo. Abriu um livro enorme e passou página por página, até chegar numa em branco. E começou a fazer perguntas. Passou uma eternidade para registrar a queixa numa letra gótica de dar gosto. Parecia fazer um convite de casamento. 6 horas. Minha tia exigindo que os policiais da delegacia saí­ssem atrás dos ladrões. Eles dizendo que não tinham viatura. Ela chorando… eu suando em bicas.
Convenci a coitada a voltar para casa. 7:30 da noite.
Mergulhei numa ducha gelada, agradecendo a Deus pela água, esquecida dos cabelos escovados, lavando o corpo e a alma de um suor pegajoso. Lavando a tensão, o desespero. Vesti a primeira roupa que encontrei, sem ajuda de fada madrinha nem nada…e voei para o aeroporto.
Mas estava em Olinda… e não podia voar.
O trânsito era lento como sempre aquelas horas. Atravessar Boa Viagem num sábado, às 8:00 da noite, era um exercí­cio de paciência e auto controle. Comecei a cantar bem alto.
“Ah… minha mãe… minha mãe, menininhaaaa do Gantois… ”
Quando cheguei ao aeroporto dos Guararapes, eram 8:40. Contava com o tempo que se leva para sair de um voo internacional. Estava tudo certo. Tudo ia dar certo…
Esperei. Não saiu. Conferi o número do voo no painel. Não era aquele. O voo estava atrasado. Chegaria às 9:30. Ótimo. Assim respiraria um pouco.
Fui no banheiro, arrumei o cabelo, passei batom. Às 9:15 avisaram que o voo só chegaria as 10:30.
Humhm… Um café. Um cigarro… dois…
Fui novamente ao banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes… mais batom. Às 10:00 avisaram que o vôo chegaria às 11:30. Pedi um Campari… dois. Fumei mais uns cigarros… Não sei quantos. Às 11:00 horas avisaram que o voo não tinha hora para chegar.
Heim!?
Fui ao balcão da TAP para saber o que estava acontecendo. O avião tinha feito uma escala forçada na Ilha de Cabo Verde. Previsão de chegada às duas da madrugada.

Ai, meu Deus! Pense! Resolva!
Telefonei para uma amiga e fui para sua casa. Deitei no sofá da sala e dormi um sono acordado, daqueles que a gente sabe que não está dormindo.
Às duas da madrugada estava outra vez no aeroporto, com a cara amassada, olheiras até o pescoço, o cabelo domado numa trança, fumando um cigarro atrás do outro, esperando diante do portão de desembarque um desconhecido sonhado há quase 7 anos atrás… a quem eu já havia escrito mil declarações de amor e paixão e que sequer havia beijado.
Aeronave no pátio… respirei fundo e esperei.
As pessoas começaram a sair e encontrarem-se com os seus… e para mim, nada. E foram saindo e saindo…e nada, e NADA!
Como assim?
Eram dez para três da madrugada, quando uma barba mais grisalha do que eu lembrava e os olhos de mar azul cruzaram o portão de desembarque e se encontraram com as minhas olheiras profundas.
O sorriso “tarja preta” se abriu e ele disse:
Por fim

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Pedacinhos de Felicidade…( 4· Cap )

Voltando àquela história…
Depois do dia 7 de janeiro de 2001 uma fase nova inaugurou-se em minha vida e eu criei um recanto secreto para ela.
Escrevi-lhe pequenos e-mails a cada dia. Poesias de Hilda Hilst eram respondidas com poesias de Pedro Salinas. Poemas de Neruda com outras de Octávio Paz
Construí cartões virtuais com todo cuidado e tentei passar, em poucas palavras, mensagens mais amplas. Imagens e músicas sempre foram minhas melhores formas de linguagem e derramei sobre o teclado meus tesouros guardados.
Ao final da primeira semana, tive que passar dois dias fora de casa e não pude escrever. Quando voltei havia uma mensagem que começava assim… “Agora começo a entender aos drogaditos, pois tenho dependência de tuas mensagens. Hoje não recebi nenhuma e estou com síndrome de abstinência.”
Sentiu falta de mim, foi!? Como assim???
Tum-tum-tum…Taquicardia. Eu não tomava jeito!
Com um ENORME sorriso de satisfação e o coração derramando mel pelo sangue, tomei mais gosto em escrever. Fui construindo cartas mais longas, contando coisas mais íntimas. Falei sobre meus pensamentos, minhas pessoas, meus sonhos perdidos, minhas mágoas. Falei do meu cotidiano, contei das minhas sensações de deslumbre, tristeza, surpresa, medos. E aos poucos fui me mostrando inteira, sem disfarces.
Mostrei-lhe minha lua cheia, minhas tempestades, um amanhecer na praia depois de uma festa com os amigos, a névoa branca das madrugadas insones, a paisagem de minha minúscula janela, a solidão de um vinho tinto no tapete da sala, as lembranças de infância, de Casa Forte, do Poço da Panela. E ao final, beijos… muitos beijos. Foram crescendo em número e em diversidade: gelados de sorvete, de borboleta, com gosto de café ou vinho… contaminados de ânsias.
As respostas vinham no mesmo tom, no mesmo ritmo e com a mesma ânsia contida. Eram como um alimento para minha alma, uma companhia diária, uma alegria.
O ritual agora não era mais deixar o envelope fechado sobre a mesa. Era deixar sua mensagem sem ler até imprimi-la, enquanto fazia o café e escolhia a música. Depois ler devagar, na rede da sala. Provar mil e duas vezes os beijos. Responder com calma em uma, duas ou mais respostas.
Eu gostava tanto daqueles minutos que os prolongava o máximo que podia.
Depois de ter ressuscitado, minha alma estava tão mais lúcida, tão mais verdadeira, tão mais despudorada de minhas emoções. Falava como se ele estivesse ali, ao meu alcance. Como se sua imagem se expandisse pela casa inteira… se projetasse pelas paredes, se espalhasse pela paisagem da janela, grudasse na minha lua tardia. Como se tudo o que eu via guardasse dentro a sombra de sua fisionomia.
Contei-lhe tudo… falei sobre a lembrança que eu tinha de seu sorriso tarja preta, de seu abraço numa cidade que não era nem a minha nem a dele num encontro que não tinha explicação para acontecer. Ele falou da festa, de meu corpo caindo em seus braços, dos meus cabelos e do mel dos meus olhos, da música que nunca dançamos…
Imaginamos mil vezes como teria sido, se tivesse sido…
E fomos contando um ao outro retalhos de nossas vidas, as mudanças de valores com a passagem do tempo, a solidão de algumas escolhas… O “se” do passado mesclando-se com o “se” de um futuro que mal ousávamos sugerir em fantasias esboçadas, cheias de sentimentos disfarçados.
Eu escrevia em Português, sempre. E ele em Espanhol, sempre. Não sei como nunca precisamos de tradutores. O dicionário, que morava ao lado do teclado, mal era solicitado. Incompreensível para dois quase estranhos, estrangeiros que nunca haviam estudado, falado ou escrito um o idioma do outro.
Eu não podia mais viver um dia sem ler antes suas mensagens. Andava com várias delas na bolsa para poder lê-las a qualquer hora do dia. Trancava-me nos banheiros e lia uma e outra vez as mesmas palavras, como se fossem dizer mais do que diziam.
Ele não podia mais deixar de ler as minhas. Imprimia, guardava para reler com mais tempo e cuidado depois do trabalho. Nas viagens, buscávamos cyber-cafés para não deixar nunca mais o outro deserto e sozinho.
Pois sim…fui criando coragem e um dia escrevi assim, sem disfarces:
“Tudo o que vejo e sinto é para ser contado a você, por mim, um dia. Levo você comigo a toda parte. Falo com seu eu dentro de mim quando dirijo, trabalho, durmo ou como.
Queria poder dividir tudo com você. Acho que estou apaixonada. Por favor, não ria. Se isso não for amor, deveria ser. Mas seja o que isso for, tomara que seja o que quer ser.”

Esperei. A carta seguinte não dizia nada. Contava algo do dia…normal. Tremi, entristeci…mas não me arrependi.
No dia seguinte abri o correio sem qualquer expectativa especial. Tum! Logo nas primeiras frases perdi o fôlego. Era uma carta linda, forte, aberta de sentimentos e desejos. Era uma resposta apaixonada, loucamente apaixonada! Eita! Parei de ler no meio… imprimi. Respirei ofegante. Voltei a ler… com o papel na mão, para garantir que era concreto e real… as palavras estavam ali mesmo. Eram de verdade! Saltitei pela casa como louca. Ninguém via… ninguém via.
Eu parecia a música de Violeta Parra, ” Volver a los 17″. Perdi a noção do ridículo, perdi o ar dos pulmões. Queria gritar e gritei com a cara enfiada numa almofada.
Ninguém ouviu…ninguém.
Trimmm, trimmmm!…No meio da minha emoção quase não escutei o telefone tocar. Ah! não, agora não! Não queria falar com ninguém naquele instante. Era um instante só para mim. Mas atendi. Pensava em dizer “foi engano, aqui não mora essa criatura.. ela voou, qualquer coisa assim… Disse um “alô” sumido, sufocado…
Era ele.
Tum-tum-tum… Taquicardia! Esse homem ainda ia me matar! Comecei a andar pela casa inteira, subindo pela cama, descendo do outro lado, abrindo e fechando a geladeira, rindo como louca, sem saber o que dizer. Completamente idiotizada.
Era a primeira vez que falávamos um com o outro. Nem no abraço de Fortaleza tínhamos podido falar… foi um abraço calado e absurdo. E naquela manhã estávamos finalmente falando, entre risos nervosos… de nada. Só estávamos dizendo: “Estamos aqui. Existimos de verdade.” Não recordo qualquer outro sentido …
E depois, o aparelho silencioso parecia guardar suas palavras dentro. Eu queria desmontá-lo para ver como elas eram, pegar as sílabas nas mãos, sentir no tato a pronuncia tão linda, colher as gotinhas de saliva, as digitais, guardá-las dentro do travesseiro, embalar minhas noites com elas.
Onde já havia lido isso?
Não fui trabalhar naquele dia. Completamente em transe fui andar pela praia… fui ver o mar… fui rir sozinha da brisa, do sol, das bicicletas, da vida… fui sonhar com o horizonte.
Ninguém sabia… ninguém via.

Desta vez decidi não abrir mão de sonhar, de querer, de amar. Não me importava muito se teríamos um futuro juntos, o importante era o presente, era o que dávamos um ao outro em companhia, cumplicidade, afeto.
O importante era estar feliz… absurda e profundamente feliz.
O mar estava sereno, a brisa também. O mundo estava perfeitamente em harmonia comigo.
A felicidade profunda é serena. E basta.
Voltei para casa e escrevi: “Pode ser que isso não seja amor, mas essa viagem virtual promete coisas lindas. E se for amor, ele também é isso: uma promessa.
Uma promessa feita e paga infinitas vezes.
Seja como for, estou feliz e colorida como uma borboleta.”

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Uma Segunda Chance…( 3· Cap )

Durante alguns meses o “feio-porém-simpático” e eu trocamos cartas. E assim eu fui entrando numa onda de animação e me envolvendo numa história que não era nada de espetacular mas era o que a vida me oferecia. Era tão bom acreditar que um me queria! Era tão bom brincar de alegria e aventura! Era tão bom, que eu me deixei levar.
Quantos de nós vive assim a vida? Sem grandes paixões, sem grandes mistérios, sem perdas ou danos também? Conheço uma porção de gente assim. Vive bem, sem sobressaltos. Pois resolvi ser mais uma…
Tentamos, num segundo encontro, recuperar o não-sei-o-que que tivemos na noite do baile de Carnaval, descobrir em que poderia dar aquela história. Em nada… não pôde dar em nada. Saí do encontro com a certeza de que não dava para inventar um amor. Tinha que ser de verdade ou não ser. Não foi.
No ano seguinte o J. S. Elcano voltou ao Brasil. Desta vez não aportou em Recife e sim em Salvador e Fortaleza. Eu soube por minha amiga.
E, coincidência demais – se é que existem as coincidências – eu estaria trabalhando em Fortaleza exatamente naquela semana. A estadia do barco coincidiu, nos dois últimos dias, com um treinamento de trabalho que eu estava organizando lá, e eu havia combinado encontrar o “amigo-feio-porém-simpático” do ano anterior para almoçar. Amigos e nada mais.
Na volta do almoço, enquanto caminhávamos pelas calçadas de Meireles, a linda praia cearense, um carro branco parou no meio da rua e dele desceu a criatura…
Tum! Mandrake! Cadê meu pulmão!?
Cumprimentou o amigo, perguntou-lhe alguma coisa, voltou-se para mim e sorriu…Ai, meu Deus! Cadê meus joelhos!??
Minha porção moderna sorriu de volta e estendeu a mão… e ele me puxou por ela… e me abraçou.
Como assim?? Assim, forte. Assim, de repente. Assim, no meio da rua. Assim, demorado… muito demorado. Eu derreti dentro daquele abraço, desapareci num delicioso perfume… e voltei à pré-história. “Mais um pouco… mais um pouco!” Mais… Fechei os olhos…
– Ehhhhêêi!!! zombou o amigo, em tom enciumado.
Nos soltamos sem graça… mergulhando olhos nos olhos. “Nossos olhos, donos de nós dois” Fui entendendo melhor a Riobaldo. Fiquei engasgada, muda e feliz. E não sei o que se passou nos segundos depois, mas vi o carro branco ir embora com cara de nunca mais…
Parecia que este seria o fim da história. Uma história que nunca começou.
Não era mais tempo de sonhar com paixões pré-históricas, com barbas grisalhas e sorrisos tarja preta. Era tempo de viver a realidade de cada dia.
Ninguém viu… Ninguém viu, eu sei.
Não fossem os ventos loucos do destino…
Um dia, recebi um cartão postal de Barcelona. Letra do meu amigo simpático. Escrevia de um bar, onde estava com seu antigo companheiro do Elcano, que entre tapas e copas perguntou por mim. Sim???? Perguntou por mim?
Sim, com a lembrança da viagem decidiram mandar um cartão. Num lado ele escrevia, queixando-se da falta de notícias. No outro havia uma mensagem curta, escrita com outra letra. Algo assim como “Vivo em Barcelona. Quando quiser vir conhecer, serei com prazer, seu guia.”
Vivo… prazer… guia. Só isso. E tudo isso. Eu queria… eu queria!
Seria maravilhoso se eu pudesse e o dinheiro desse. Mas eu não podia. Nem tinha o dinheiro. E não podia nem escrever-lhe porque sequer sabia o seu endereço.
Enchi o peito de coragem e escrevi ao meu amigo pedindo o endereço de Barcelona. Assim. Claro que pensei no que ele poderia pensar, mas não me importava. Recordava o abraço surrealista de Fortaleza como num filme repetido na minha memória e não sei se também era assim na dele, mas eu queria… sim, sim sim… eu queria tanto que sim!
Recebi o endereço um mês depois.
Diante do papel em branco, hesitei. Escrever o quê? Dizer o quê? “Onde estava?” “Por que demorou tanto?” Não. Melhor um cartão. Assim, “Feliz Natal e obrigada pelo convite. Bem que gostaria…” Um cartão pequeno… para não ter espaço de escrever loucuras. “Pois é…Já conheci Barcelona… é encantadora! Adorei a Sardana dançada na praça, a paella, o bairro gótico. Quem sabe um dia…com você como guia, seria muito melhor.”
E esperei…
E ele respondeu… e eu adorei. E assim continuamos. Nesse tom de alegria contida. Uma troca de cartas ou cartões de Páscoa, Aniversário, Natal outra vez. Contávamos coisas de trabalho, mudanças na vida. Bilhetes de poucas frases. Eu o chamava Lobo do Mar e ele gostava.
Nunca perguntei por que me escreveu. Nunca perguntei o que sabia de mim. Não queria quebrar aquele fiozinho de nada que nos unia.
Unia? Unia a que?
Unia-nos uma alegria mútua em receber notícias. Era só isso que dizíamos: “Estamos vivos. Seguimos aqui. Existimos de verdade.”
Era como um raio de luz em casa quando eu chegava do trabalho e encontrava uma carta sua sob a porta. Cada vez que recebia um daqueles envelopes de cor acinzentada, era um ritual. Um exercício de lentitude para não gastar a pequena felicidade.
Uma ducha fresca, café na caneca azul, a rede, a música. Enquanto isso, o envelope ficava fechado sobre a mesa… encantando a casa com uma letra firme e bonita. Abria devagar. Lia uma frase ou duas. Repetia a leitura… até o beijo final. Um beijo de amigo, mas um beijo! Hum!

Havia ritual também para a resposta. Um vinho na taça, a música no ar, uma noite de saudade antiga…
Contava-lhe coisas da minha vida, medos, tristezas… viagens encantadas.
Por três anos ficamos assim. Estranhos amigos que nunca haviam conversado pessoalmente e sem condições de mudar nada nesse panorama. A distância e o tempo entre as cartas eram muito grandes. Grandes demais. Eu morava longe… muito longe. Parece que ele também.
Em algum momento desse tempo, eu adoeci na alma. Mergulhei num fosso profundo de uma dor desconhecida. Perdi-me de meu coração. Minha luz se apagou. Morri.
Uma pequena parte, sobrevivente de mim, colava fotos antigas na porta da geladeira para lembrar-me como eu era. Mas essa é outra história, que não cabe aqui. Quem sabe um dia eu conte.
Seus pequenos bilhetes eram traços de luz na minha paisagem cinza. Eram cheiro de mar azul, distante e inatingível como o horizonte. Sempre deliciosos.
Mudamos ambos de endereço, cartas se perderam e milagrosamente se encontraram, estranhas forças nos ajudaram a não perdermos o contato.
Quando me recuperei, estava às vésperas do Natal de 2000. Respondi a sua última carta dando meu endereço eletrônico e muitos dias depois, recebi um e-mail seu.
“Bom dia. Isso é um teste”.
Como assim? Só isso?!
Com o coração aos pulos, sintoma de que eu estava mesmo quase curada, respondi com uma foto antiga e sorridente, dizendo: “Que feliz você me faz!.”
Feliz era uma palavra esquecida, empoeirada de saudade de mim. Tanto tempo sem usá-la!
Saí para o trabalho com uma ânsia nova no peito… agora eu estava muito mais perto!
Faziam quase seis anos que havíamos estado naquela festa… E quase seis meses que não nos escrevíamos… Era quase seis de janeiro de 2001.
Era dia sete, para ser muito exata.

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Noiva de Carnaval…( 2·Cap )

Estava acostumada a acordar com a sensação de que um sonho tinha sido verdade. Talvez pelo exercício de anos de análise, onde sonhos eram matéria prima para minhas sessões de terapia, eu sonhava muito e recordava com facilidade dos detalhes de meus sonhos. Alguns eram tão reais que davam medo! Inúmeras vezes matei irmãos, pai e mãe. E muitas outras morri, perdi-me numa cidade que não conhecia, sobrevoei meu bairro como um passarinho, fui engolida por uma onda tsunami e abracei um desconhecido que não tinha rosto mas era o eleito, o homem que mudaria a minha vida. Eu era uma fábrica de sonhos. E ainda sou.

Pois sim… Até tomar um café bem quente, as sensações da experiência onírica não passavam. Às vezes procurava por meu irmão antes de lavar a cara, só para garantir que estava vivo. E hoje ainda desperto com os sentimentos que meus sonhos me deixaram pela noite adentro. No dia seguinte àquela noite, acordei com a mente envolvida em brumas espessas. Vivi ou sonhei? Se fechava os olhos, revivia tudo: a festa, o barco, aquele sorriso, minha porção pré-histórica com todos os efeitos especiais. Daquela vez as sensações não passaram nem com o café, nem com a ducha, nem tinha para quem ligar, a quem perguntar…

Perguntar o que? A quem? Ninguém viu. Ninguém viu…
Uma das minhas amigas havia se encantando com um oficial com quem conversou na festa e dançou no restaurante – que sorte teve aquela mulher! – e convidou-o, junto com outros amigos dele, para um Baile de Carnaval.
Esse era o nosso baile…o famoso Siri na Lata, um baile anárquico que começou como uma revanche ao tradicional Baile Municipal da cidade mas que se transformou no melhor dos bailes recifenses. No Municipal os convidados do prefeito tinham que ir de smoking ou fantasias luxuosas. No outro era a sátira, as máscaras, as noivas, as ciganas e piratas engendrados em casa mesmo. Era só misturar os trapos e criar os disfarces e quem quisesse podia ir de tênis e bermuda. A festa era mil vezes melhor que qualquer outro baile carnavalesco da cidade. Nunca perdíamos um!
Será que eu teria uma segunda chance? Será que olhos-de-mar-azul iria estar naquele grupo? Não perguntei. Mas tinha a certeza que sim, sim, sim… por favor sim!
Surtei de novo.

Inventar uma fantasia foi provocar um furacão dentro de casa. Desarrumei todas as malas de trapos, todos os recantos do guarda roupa, revirei todas as gavetas, provei os tops brilhantes, a antiga cigana, a estraçalhada havaiana… nada me agradava.
Engordei? Cresci?Avancei no quarto de minha mãe…vasculhei seu baú. Nada. Nada! Estou no conto errado!
E a cortina de peixes do banheiro? As redes protetoras das janelas? O velho cortinado do berço de minha filha? Nada.
Apelei para a cozinha…a toalha da mesa! Sim! Estampas de uvas roxas e parras verdes. Dava uma saia e um top…Yes!Ariadne!! Perfeito!! A mulher de Baco!
Mas minha mãe negou-se. “Não vai dar tempo”, ela disse.
Madrasta!! Xinguei-a injustamente.
A coitada da minha mãe andava atrás de mim, tentando ajudar-me, mas criar uma fantasia com aquela agonia no coração era impossível!
(A verdade é que tudo aquilo, menos a cortina do banheiro, uns dias depois viraram fantasia de Carnaval, graças a ela.) Mas eu queria JÁ! Que inferno de vida! – Cadê minha fada madriiiiiiinhaaaa??
Ao final, desisti. Uma saia curta e estampada, implorada à minha irmã, 15 anos mais nova, e um top lilás. Tipinho bailarina de dança moderna. Batom, lápis, perfume e já …  Estava perfeitamente comunzinha. Mas eu iria a esse baile de qualquer jeito! E os olhos brilhavam tanto que me vi bonita. 

Fomos juntas, minha amiga e eu, buscá-los no Elcano.

Tum-tum-tum… Taquicardia!

Entraram dois ninguéns e o ele dela no carro. Ela feliz e risonha e eu deserta. Apaguei os olhos. Sequei, murchei, virei areia… A noite perfeitamente estrelada, uma brisa de mar entrando pelo salão aberto do Atlântico Clube de Olinda, a música ensurdecedora da orquestra, as cores vibrantes da decoração e das fantasias, mil caras conhecidas… e eu deserta. Uma cerveja, duas ou três… 

“Olinda, quero cantar… a ti-i…esta canção!” Dizem que quem canta seus males espanta. Ou não?…quatro. Há séculos que eu treinava apagar meus sonhos. Já estava ficando esperta, quase cínica. “Não aconteceu nada, fui eu quem criou a criatura. Não existe um Ele. Não o meu“. Outra cerveja, por favor …cinco. “Quanto riso.. oh! quanta alegria…”

Encontrava os amigos, os lindos e queridos amigos de sempre, cada qual com seus trapos criativos, seus sorrisos. Os espanhóis estavam em êxtase com a música, as danças pernambucanas, a noite de Olinda. Foi muito divertido levá-los pois não tinham nem idéia de como podia ser um Carnaval no Brasil… e menos ainda em Olinda.
O Siri na Lata foi uma boa amostra.
“Eu quero ver se tem troça que escolha, como em Olinda que tem o Ceroula, mas se tiver para mim é legal, passarei lá na lua todo o carnaval.”
Todo mundo cantando em uníssono, o salão inteiro berrando com a orquestra… lindo! lindo!
A lua dando um banho extra de luz ao terraço aberto do clube.
Fiquei “ó-te-ma”, como dizem as mulheres que sabem das coisas…
Alguém botou uma grinalda de flores e um véu de noiva na minha cabeça. “Brinque, dance, seja feliz, é Carnaval! ” Cervejas, música, amigos, cheiro de mar e de lua… “Lança, lança perfume!” Virei de novo bailarina, boneca de areia molhada, salgada de suor e brisa marítima, noiva de Carnaval…
“Abra suas asas, solte suas feras… caia na gandaia… entre nesta festaaaa!!!! Me leve com vocêêê…”

Abri, soltei, caí na festa… casei inúmeras vezes com vários pretendentes, com direito a benção do padre e tudo (sempre há alguém vestido de padre).
“Fiquei” com um dos espanhóis, o último noivo, que não entendia nada, mas estava adorando a brincadeira.
Fiquei é palavra nova, me ensinou minha filha.
Ele era feio e simpático. Alegre e engraçado. Ia embora dali a umas horas. Nenhum risco. Nenhum “surto”. Nenhuma sensação de estar sonhando. Tudo muito normal, trivial. Sem fantasia.
Fiquei por puro exagero. O feio-porém-simpático estava nas nuvens. Gostei! Era bom poder ser a nuvem de alguém. Estávamos precisando de abraços e era Carnaval!
É preciso ter cuidado com o que este Carnaval faz com a gente. Mas ninguém tem.
Dançamos, bebemos e cantamos até às 7 da manhã. Às 4 da tarde o barco partiu. Não fui à despedida, mas minha amiga, enamorada, derretida, enfeitiçada e completamente insana, sim…

Eu estava no conto errado. Eu era só a amiga da outra. A princesa encantada era ela. Sacudi os ombros, levantei o pescoço e fui brincar meu Carnaval. Livre, leve e solta. Eu e minhas muitas máscaras…

Olhos-de-mar-azul só soube da festa em mar alto e distante, através dos animados relatos de seus companheiros de viagem. Soube das fantasias, das músicas, da alegria, dos frevos impossíveis de dançar…e de quem estava lá. Ele soube de tudo. Tu-do!
Bem pouco, quem mandou não ir!
Mas é que, depois de um compromisso oficial, ele tinha perguntado à pessoa errada o que fazer aquela noite em nossa cidade.
Sabem a quem, não é? 

Mas o destino ainda iria dar um jeitinho…

 

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Era Uma Vez Um Verão… (1·cap.)

Tudo começou numa noite de verão . Uma amiga que trabalhava no Consulado Espanhol convidou-me para uma festa no porto. Como assim no porto? Ainda não haviam recuperado os casarões antigos, ainda não havia a fervilhante multidão nos bares e restaurantes chiques da atual “cidade antiga”, nem nada. O porto estava bem diante de uma cidade caindo aos pedaços, cheia de fantasmas, velha e apodrecida, escura e depredada. Como assim uma festa? Ela explicou-me que seria uma recepção especial oferecida pelo Consulado e o barco escola da Armada Espanhola às autoridades e à sociedade, à fina flor da cidade… Uma recepção dentro do Juan Sebastián Elcano.

Fui.

Era um belíssimo veleiro de 4 mastros e 21 velas e estava perfeitamente iluminado, limpo, brilhante nas madeiras e metais. Lindo! Cada oficial tinha como função receber na palma da mão todos os convidados. E foi assim que nos receberam. Três amigas e eu.Tudo perfeito, menos eu, claro. Como quase sempre, nas ocasiões especiais desta história, algo saía errado. Eu ainda não sabia o que me esperava. Engraçado é que na soma dos erros, saí ganhando. Mas durante o percurso, quase perdi todas. Se tivesse tido forças para desistir, teria perdido tudo.

Mas estou adiantando as coisas… voltemos à festa.

Enquanto um jovem aluno mostrava-me o barco, perdi-me da amiga com quem havia chegado e fiquei só, num mar de desconhecidos. Claro, nunca fiz parte da fina flor da sociedade nem da política de minha cidade. Meu bairro era o dos intelectuais, mas era subúrbio. Era Casa Forte. E tampouco havia – ainda – se transformado no reduto chique da cidade. Era bom e bonito. Mas era longe. Não sei do que, mas era longe. Todos diziam: “mas você mora longe, heim!” 

Voltando…

Segui meu guia por onde me indicava e fui convidada a descer para a câmara dos oficiais a tomar algo. Sim, claro! Avancei tranquila…o salto da sandália enganchou num degrau de uma escada assassina e escorreguei. Caí inteira em cima de alguém. Não me lembro de nada porque, provavelmente pela vergonha, fiquei ausente. Sabe como é? Quando estou numa situação de ridículo, eu cego. Não vejo nada nem ninguém. Simplesmente sorrio e escapo o mais rápido possível do cenário, com uma expressão ausente no olhar. Assim não vejo a reação dos outros. Escapei dos braços vestidos de branco que me ampararam, sem olhar para cima. Balbuciei uma desculpa e fui assim, sem olhar para nada, só para o chão do corredor estreito para não cair outra vez, em direção ao coração da festa, a câmara dos oficiais. Afortunadamente cheguei sem nenhum torção de tornozelo, sem um arranhão, nem na pele nem na dignidade. Ninguém viu… ninguém viu… Primeiro erro. 

Servi-me de um vinho branco e busquei minhas amigas. Elas estavam com um grupo de espanhóis e brasileiros e me apresentaram alguns deles. Relaxei e comecei a desfrutar da beleza de recepção que eles estavam oferecendo e a olhar o mundo em torno de mim. Havia um sem número de homens jovens e maduros, vestidos em seus uniformes de gala, sorrindo e conversando, atendendo a cada convidado com gentileza e cortesia. Era um momento de representação oficial da Espanha à cidade que os acolhia e nisso eles eram muito bons! De repente meu olhar parou na porta da cabine… Entrava naquele instante o homem mais interessante da festa. Não, da festa não! Do mundo. Do universo! Não era nenhum deus do Olimpo. Era só um homem de verdade, de feições irregulares… e que eu achei simplesmente lindo! Mandrake!* Pensei como criança. ( A brincadeira da minha infância era pegar o outro desprevenido e gritar “Mandrake!”. E o pobre tinha que ficar imóvel até que a gente admitisse que se movesse.) Pois pensei Mandrake! Parei de respirar. Trocamos um primeiro olhar… e ele sorriu… e o resto da sala ficou embaçada… Ele tinha um olhar-de-mar-azul e um sorriso de derreter icebergs, quanto mais meus pobres joelhos. Um segundo depois, alguém o segurou pelo braço e ele atendeu. E eu fiquei ali, querendo dar para ele meus abraços mais sentidos, meus beijos mais demorados, minha alma, meu juízo (que juízo?). Queria contar-lhe minha história, conhecer a sua. Perguntar-lhe onde estava, por que demorou tanto? Que saudade, meu deus! Meu coração cresceu e brilhou, assim como em Amelie Poulain( É exatamente assim, eu juro! Quando vi o filme, me reconheci na cena imediatamente! E vamos e venhamos, o filme é bárbaro, gostoso e lindo.Ou não? ) Desconcertei com a força do que eu senti. Desviei o olhar, engoli alguma coisa que me afogava a garganta, peguei outra taça de vinho e a festa ficou em câmara lenta. Escutava mas não escutava o que me diziam, via mas não via as pessoas chegando, a sala se enchendo de ninguém. Pelo canto do olho observava seus movimentos, as belas mãos, a barba espessa manchada de fios grisalhos combinando perfeitamente com o uniforme de um branco impecável. E o sorriso, que apesar de maravilhoso deveria vir com “tarja preta“, porque causava em mim efeitos colaterais incontroláveis. Descobri que era daqueles capazes de causar palpitações no meu coração, alucinações, fantasias, tremores na boca do estômago, ansiedade de adolescente. Não… euforia de adolescente!

Tum-tum-tum! Taquicardia.

Fiquei absurdamente enamorada. Na hora. E eu que nunca pensei ser possível esta história de ” amor à primeira vista”! Pelo menos não para mim. Isso era coisa de outros com mais sorte na vida afetiva, o que eu nunca tive. Sorria meio descrente quando minha mãe contava que ao ver meu pai, disse “vou casar com ele”. Era noiva. Acabou o noivado, se conhecerem e se casaram em um ano. Benditos foram. E ali estava eu, querendo poder dizer a mesma coisa. Que ridícula imitação! pensei racionalizando. Eu sempre racionalizo. Mas acho que minha porção de gene pré-histórico nos hormônios me avisou que algo havia naquele homem que era meu… e avisou aos gritos, tambores e apitos. Eu não estava preparada para o turbilhão de sintomas que vinham junto desta selvagem lembrança genética: Boca seca, palpitações desordenadas, fraqueza nas pernas… e uma vontade de voar… virar água… virar mar… dissolver… Meu lado Ulla (batizei assim a porção pré histórica) reconheceu nele as mais profundas ânsias. Ahrnmgmmm! Gemi alto. Será que alguém ouviu? Não dizem que o olhar e o sorriso são as portas da alma? Então? Ulla o reconheceu pela alma. Ulla sou eu. Ele nasceu para mim, pronto! Pensei absolutamente em SURTO Tentei disfarçar o riso nervoso e perguntei a uma amiga da minha amiga, que estava mais perto, quem era aquela criatura, pelamordedeus!!! Devo ter parecido muito ansiosa porque ela disse, com a cara fechada e um olhar de recriminação: “Esse não.” Tóin! Assim, seca. Não entendi ( ou acho que sim, eu entendi ) mas não perguntei mais nada. Não consegui dizer mais nada. Aceitei. Obedeci como em anos de adestramento. Segundo erro.

Servi-me de mais uma taça de vinho. Gelado, fresco… descia suave e se espalhava pelo sangue, resfriava meu repentino calor. Tentei não olhar muito mas era tão difícil! E eu não sabia mais onde ficar, como mexer-me, o que conversar. Ele estava sempre perto das autoridades e eu concluí que devia ter um cargo importante. Cada vez que o mirava parecia que qualquer pessoa podia perceber meu coração pulsando fora do corpo, meus joelhos de geléia, meu desconcerto, minha saudade. Saudade de que, meu deus? Saudade do que nunca tive? Fiz força para estar com os outros, os muitos ninguéns que estavam ali. Não lembro deles. Estava quase em coma com aquele sorriso espalhado pela sala, dirigido à uns e outros,todos…Miserável!

E eu querendo apagar o mundo inteiro, desligar todos da tomada e estarmos sós, numa festa para comemorar nosso encontro! Queria beber com ele, dançar com ele, entrar pelo olho de mar azul e me espalhar como o vinho pelo seu sangue. Era assim piegas o que eu pensava? Era. E assim piegas esse mistério de amor à primeira vista? Era. E era por isso que quem nunca sentiu, não acreditava ser possível? Era. Era assim… que fazer? Disfarçar. E quando ele me olhava – e eu notei que me olhava – eu tentava fingir que não estava olhando para nada… meu perfeito olhar ausente, aprendido de toda uma vida. 

Nunca soube paquerar, se é que essa palavra ainda existe. Sempre fui mais escolhida que escolhi. Admirava as mulheres que sabiam onde estar para que seu interesse as vissem. Admirava as mulheres que sabiam se aproximar com a carinha mais sedutoramente ingênua do mundo e fazerem parecer que tinha sido ele quem tomara a dianteira. Precisava de umas aulas! Urgente!

Essa mania que eu tinha de me “ausentar” não dava muitas chances de alguém se aproximar de mim, exceto aqueles muito ousados, que na maioria das vezes eram uns pretenciosos que atacavam qualquer carinha bonita, não importando muito se levariam ou não um fora. Minha cara de ausência já foi motivo de muitas impressões errôneas a meu respeito. De orgulhosa a metida a gostosa já me chamaram de tudo. E era só timidez. Há tímidos que se escondem por fora, não saem, não falam. E há tímidos que se escondem por dentro, parecem estar ali mas não estão. Eu aprendi a segunda e mais idiota forma de me esconder. Quando me intimidava, entrava e saía dos lugares sem olhar para ninguém. O olhar blasé de ausente. De que eu tinha medo? Não sei. Eu era assim e pronto. Só falava com conhecidos. E conhecidos de conhecidos. E com eles podia ser divertida, bem humorada, conversadeira e contadora de estórias. E meus amores nasceram assim, da convivência.

Mas aquela noite eu era outra. Uma nova outra ou quem sabe uma antiga outra, pré histórica outra, que eu não conhecia. No esforço de disfarçar o caos das minhas fantasias, emudeci. Só sentia, mais do que via, meu pedaço-perdido encarnado naquele homem lindo, alto, com olhos de mar e barba de nuvens, dono de um sorriso angelical que me jogava nas profundezas do inferno. Eu estava em pânico e me escondi por trás do copo… por trás do cigarro, por trás de mim mesma. E ele não se aproximou, mas esteve sempre ali. Estava trabalhando, atendendo, explicando coisas… sempre rodeado de outros que nunca eram os mesmos meus. Quando a festa acabou, um grupo nos convidou para alargar a noite num restaurante dançante na praia. Fui.

Precisava de ar, muito ar.

Dez minutos depois de estar sentada na mesa do restaurante, quem senta diante de mim? Heim? Acertou quem disse ELE. O sorriso proibido. O olhar azul, o impossível dono da minha agonia. E quem senta junto dele? ELA, a amiga que havia dito “ele não.” Como assim ? Ele e eu, assim… um diante do outro e não trocamos nem uma palavra. Só olhares furtivos, daqueles que passam sem parar, como se o outro só estivesse no meio do caminho… Eu buscava alguma coisa para dizer mas não vinha nada. Nada normal. O que vinha à mente eram as loucas perguntas: “Por que demorou tanto? Onde estava?” Mas nem isso eu saberia dizer em seu idioma e ainda por cima com a música alta e as conversas paralelas. Um jovem ao meu lado falava comigo e eu não entendia nada, mas assentia com a cabeça como se…

O mundo parecia tão lento!

Recitei em silêncio os versos de Neruda… ” como se tudo o que existe fossem pequenos barcos que navegam, para estas tuas ilhas que me aguardam”. Pedi um whisky. Quando o grupo começou a dançar, alguém se levantou e o convidou. Ai! Quem? ELA. Tóin! Dançaram uma música que durou um século, duas…toda a eternidade. Fui ficando triste e um tanto embriagada. Quando o jovem ao meu lado quis me beijar depois de tantos assentimentos surdos… despertei. Ridículo não. Tenho mais de trinta! Louca e piegas sim, e daí? Ninguém viu… ninguém viu… Que é que estou fazendo aqui? Levantei, me desculpei e fui embora. Quarto erro? Deixei de contar. Quando ele voltou para mesa a me procurar, minha cadeira estava vazia. Por que demorou tanto? Ele pensou que eu estava dançando também e esperou. Mas eu nunca voltei. E eu só soube – que os braços brancos que me ampararam na escada eram os seus, que seguia disfarçadamente meus movimentos na festa, que se assegurou antes de irmos ao restaurante que eu estaria lá, que sabia a cor mel dos meus olhos e acreditava que meu sorriso era o mais lindo do mundo, que eu era a pessoa mais especial que havia visto, que eu era uma mulher com M grande, que esperava poder dançar e falar comigo ali, sem estar mais trabalhando… e que cometeu quase os mesmos erros que eu, embora por outros motivos – muito anos depois.

E demorou… demorou muito.

fotos: Buque Escuela Juan Sebastian Elcano

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Mulher Maravilha…

Eu era uma moça moderna. Ou pensava que era. Separada, filha pequena, apartamento no terceiro andar, sem elevador. Professora, estudante, aprendiz de “la vida”. Auto suficiente! Alta, bem proporcionada (isso nunca foi ser magra, heim!). Dinâmica ( eu???), inteligente, preparada (sim?) segura ( quem?? ) diziam outros. Era tão bom ter amigos assim! Era uma daquelas mulheres dispostas a matar dez leões por dia. Todos os dias se fosse preciso. E era. Uma noite, um destes monstros pré históricos entrou voando pela janela do apartamento e poft! estalou, negro e ameaçador, bem na parede em frente a mesa da sala onde estava debruçada na correção das provas de meus alunos. Pânico! Não gritei porque não podia. E a criança dormindo? Deslizei de mansinho para o chão e engatinhando procurei, sem pensar, a porta mais perto. Era a de saí­da. Quando consegui pensar, estava no hall do prédio, de camisola, agachada em frente à porta de casa, olhando pela brecha mí­nima para a peste da barata. O bicho não se movia, mas eu não me atrevia a entrar. A danada era das voadoras supersônicas, senão como teria conseguido voar até a janela de um terceiro andar!? Tentei voltar de gatinhas e atravessar a sala em direção ao quarto da minha filha, pensando na criançinha indefesa… e Frrrruuuuu… asas supersônicas sobre minha cabeça. Voltei de ré em meio segundo. Que desespero! Não podia ficar ali fora! Que mãe desnaturada abandonaria sua filha na mesma casa com aquele animal perigoso, fedido e asqueroso ? Eu! Só eu mesmo! Acordei com o voz do vizinho, às 6 da manhã, encolhida em cima do pequeno tapete.-Você está bem? -Heim!?-Aconteceu alguma coisa? -Não, nada… eh… sim… uma b…bbarata. E olhei para dentro. A danada não estava mais ali.

Salvou-me a chegada da empregada. Das duas coisas. Do risinho irônico do vizinho e de ter que entrar sozinha em casa com aquele monstro lá dentro. Passei direto para o quarto e fiquei lá até a faxineira matar e mostrar o cadáver da miserável.

Com o corpo todo doí­do, tomei uma ducha fria, um café amargo, organizei a coitadinha ( que mãe!!!), desci os três andares de escada com as pastas de provas sem corrigir, e preparei-me para todos os leões que teria que matar aquele dia.

Barata não!

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Eu Pelo Avesso…

Tomando um café no terraço e lendo Obras em Prosa de Fernando Pessoa, separei esse texto:
“Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteí­sta se sente árvore (?) e até a flor, eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada (?), por uma suma de não-eus sintetizado num eu postiço.”
………………………………….
Em meu quarto de espelhos, figuras que não são eu me mostram eus que não reconheço, mas que existem.
E então “apanho do chão dos meus propósitos a energia suficiente” para agir como não-sou, e perco-me entre vassouras, baldes e ferro de engomar!
Doméstica é um desses não-eus que insistem em espelhar-se de vez em quando, por mais que eu tente não vê-lo.

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Faça Fácil…

Por mais confortável que fosse o colo de minha mãe nos anos que se seguiram à minha separação e a ajuda que me deu cuidando da neta nas muitas viagens de trabalho, decidi que queria casa própria. Queria deixar de ser mãe e filha na mesma casa. Queria cuidar de mim mesma e de minha filha. Queria meu próprio espaço, com direito a não ter que ver o Faustão. Isso! Com direito a sequer escutar a sua voz por trás da porta fechada do quarto. Com direito a não ligar a televisão por toda uma semana!!! Por um mês… por um ano, se eu quisesse. Pois… assim. Aluguei um poleirinho no décimo quinto andar de um prédio, em Boa Viagem. Pequenino, bonitinho….e quente. Era poente. O sol vinha de se punha dentro da sala todos os dias. Tudo bem… tudo bem. Era meu canto, isso era o importante. E eu podia pagar. Isso também era importante. Um tapete, uma rede, almofadas.Uma janela para o espaço, por onde entrava a lua tardia e solitária. Uma mesa emprestada. Dois quartos mí­nimos, onde só cabiam mesmo as camas e o computador. Banheiro minúsculo e cozinha ridí­cula! Era um corredor com um balcão de dois palmos e uma pia. Uma cozinha que eu não sabia usar, mas tudo bem… tudo bem… tudo se aprende! O apertamento ( com “e”) era tão pequeno que eu brincava com os amigos contando a piada de que ” aqui não tem lá dentro, é tudo aqui mesmo!” E fiz uma placa perto da porta que dizia: “Cuidado! Janela próxima!” Mas era aconchegante, esbanjava calor humano. Meus quadros, minhas velas, meus livros e discos. A rede e a grande janela. E a televisão SEMPRE desligada. Delí­cia de vida! Comecei meus dias de Tonhão. Eu não sabia fazer nada. Nem montar cortinas (Tudo bem, eu gosto de sol, mas ele queria mudar-se para dentro da minha casa e ficar lá, para sempre), nem montar varais para roupas lavadas, nem estantezinhas de ferro dessas que mentem dizendo “Faça Fácil.” Fácil??? Passava horas enrolada com aquelas grades que não encaixavam de forma alguma nas fendas dos suportes. E quando eu pensava que havia conseguido, ao primeiro peso de livro, desmontava inteira! Miserável! Mas não desisti. Já que tinha casa, de-ve-ria aprender a fazer as coisas sozinha. Não tinha dinheiro para ficar pagando para os mil-pequenos-serviços que um lar necessita. Tudo se aprende. Ou não? Um dia, cheguei em casa cheia de boa vontade, uma sacola de suportes para shampoo e toalhas, prateleiras para o corredor-cozinha e uma furadeira Black & Decker. Emprestada. Lógico. Vesti meu traje Tonhão Gay, ( camiseta e calcinha ) e fui para o banheiro empunhando a furadeira como um Rambo. Medi a parede para furar longe da torneira do registro de água. Dois palmos à direita… e frummmmmm…. frummmmmmmmm….pozinho branco para todo lado. Bucha de plástico. Parafuso… Ótimo. Segundo movimento. Frummmmm…. frumpfhr….e um jorro de água me atingiu direto no olho. Como assim? Tapei o buraco com o dedo. COMO ASSIM?? Estiquei a mão e fechei a torneira do registro. Tirei o dedo. Fruvrrrrrrrrrrrrr… água. Muita água. E com força. Fui fechar outra torneira na área de serviço. Essa deveria ser a geral. Não era. Peguei um balde para aparar a água que já inundava o banheiro e a cozinha. Botei o dedo lá e fiquei tentando telefonar para meu irmão e gritar por socorro. Tun-tun-tun! Ocupado. Ocupado. Ocupado… Quando finalmente consegui que atendesse, eu já estava quase chorando. Em pânico, relatei o sucedido. Ele soltou uma gargalhada enorme e disse: ” Foi mesmo…??? Hahahahah. Chame um encanador”. “Fdp*##, cretino, canalha”. Pensei. Mas não disse. A mãe dele era a minha! Agradeci pela ajuda e conselho… e desliguei, com ódio por essa criatura ser meu parente! Chamei o porteiro e pedi para ele subir. Vesti um short e fiquei lá, com o dedo tapando o furo. Mas não estava dando para segurar o jorro. Quando o sujeito chegou, descobrimos que o cano que eu furei não era o meu, o privado. Eu havia furado o cano DO prédio. Tiveram que fechar o registro geral e cortar a água dos 90 apartamentos, bem na hora em que todos estavam chegando do trabalho. !!!!…Putz! Finalmente um encanador chegou com sua maletinha, tapou o furo com não-sei-o-quê e cimento. E cobrou: “100 real, dona”. Quanto??? Cem reais. Isso mesmo. E sem pendurar o suporte para shampoo. Eram mais de dez da noite quando finalmente pude secar a casa, tirar a roupa ensopada e tomar um banho. Foi meu último ato como “Tonhão”  Decidi que na próxima, iria vestir uma roupinha bem feminina e chamar um amigo Rambo para tomar um vinhozinho… quem sabe ele pendurava aquelas “benditas” prateleiras.

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Pensava Que Latejar Era Ser Uma Pessoa…

Frase de Clarice Lispector, no livro A Paixão Segundo GH
Quando me joguei para fora do teatro, nem palco, nem coxias. Queria a realidade da rua, queria um parque, uma praia. Queria respirar ar puro…
E queria uma explicação. Por quê?
O sentimento de menosvalia era profundo. Saí­a para caminhar pelas calçadas com duas sensações: liberdade e medo. Uma liberdade doce, de ser dona do meu destino… E um medo sem nome, entranhado no osso. Que incompetência para escolher! Como fui capaz?
Perdi a confiança em mim.
As pessoas me perguntavam por que saí do casamento­. Minha pergunta era outra: como foi que eu entrei?
Uns dias depois vi, na vitrina de uma livraria, a resposta. Um tí­tulo, que parecia de neon azul, vibrava por trás do cristal:
“Mulheres Inteligentes, Escolhas Insensatas.” Entrei em transe, e mesmo sem dinheiro, saquei o cartão e comprei sem perguntar o preço. Salvava, com esse ato, meu orgulho, minha auto estima. Sorria e pensava: “Escolhi mal, mas sou uma mulher inteligente.” Caminhei saltitando pelo meio da rua.
Tóin! Ufff…

Que dor descobrir que eu era pior do que pensava!
O livro era uma m*, escrito para ganhar dinheiro com as fraquezas alheias.
Ter comprado a bosta do livro foi a confirmação de que eu não podia mesmo confiar na bosta do meu discernimento, e afundei de novo na bosta da dor, como nunca na bosta da minha vida…
Burra! Burra! Burra!
Mas, com o tempo, as dores adormecem…
E meio adormecida, numa noite do Poço da Panela – para onde eu havia voltado – encontrei num livro de Clarice Lispector, o seguinte texto:
“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.
Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas.
Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar, mas a ausência da terceira me faz falta e me assusta. Era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? “
“É difí­cil perder-se…”
…”Foi como adulta então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulta terei a coragem infantil de me perder? “
“Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer com o que é achado.”
“As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende…
E não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir…”
“Mas enquanto estava presa, estava contente?
Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa?”
…”essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar.”
“Eu me pergunto: se eu olhar a escuridão com uma lente, verei mais que a escuridão? A lente não devassa a escuridão, apenas a revela, ainda mais. ”
Ah! Clarice. Obrigada. Isso é que é escrever!!
Olhei minhas duas pernas, meus 30 anos, empinei o nariz, endireitei os ombros….
E…tropecei mil vezes nas duas enormes e compridas pernas desconhecidas, mas sobrevivi.
Nunca mais caí­ nos contos de neon azul, que hoje fazem a festa dos editores, das farmácias e dos supermercados.
Mesmo que eu esteja em pleno surto de idiotice… sigo andando.
*Marlene Dietrich

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Nossa Vida Não Tinha Dentro, Éramos Fora… e Outros…

Essa é uma frase de Fernando Pessoa. Está no texto ” Na Floresta do Alheamento.”
A primeira vez que a li, eu tinha 30 anos e não pude mais tirá-la da cabeça. Ela foi tomando meu espaço interior, se expandindo e desvendando os véus que embaçavam a percepção do que era a minha vida, do que era a nossa vida.
“Nossa de que dois?” Perguntava Pessoa. E descobri que o único nosso na vida que levávamos era um filho. O resto nunca chegou a ser nossoComecei a olhar para tudo como se estivesse dentro e fora dali. Dois estranhos que dividiam um espaço fí­sico, como atores num cenário. Por trás das cortinas, nenhum palco azul. Nas coxias, um vazio, um oco. Um silêncio. Uma falta constante, eu nem sabia de que.
Quando estávamos sem os outros que nos rodeavam, não estávamos juntos. Vivíamos numa falsa harmonia. Tentei por um ano ainda construir um nós, mas foi impossí­vel. Ninguém constrói isso sozinho. A solidão a dois era muito maior que o estar comigo mesma.
A solidão é fera… a solidão devora“… canta Alceu.
Resolvi que tinha que salvar-me. Tinha que ir embora. E então me disseram que ficasse, que um casamento é assim mesmo, que pensasse nela, que pensasse na “pobre menina”.
Pensei…
Como ensinar a uma mulher o que é ser uma mulher sem ser uma? Como ensinar a verdade e a confiança, vivendo uma mentira? Como ensinar alguém a ser feliz quem não era? Como abandonar o direito de ser inteira ? Como abrir mão de saciar um corpo e um coração cheio de ânsias?
Fazer a mala não foi tão fácil. Poucas coisas cabiam nelas.
Depois descobri que vivia melhor sem muitas das coisas que pensava que eram muito importantes. E só hoje sei que quanto menos coisas levamos, mais levemente nos movemos…
Saí­ do cenário para viver uma vida real. Nem sempre doce e feliz, mas uma vida com um futuro.
Eu tinha um destino a construir.
Sabia que havia algo especial que ainda iria viver…

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Perguntas…


Lendo Clarice Lispector, sob o efeito do enorme calor que me tira as forças…

“…ao homem lhe parece que há começo só quando adquire conhecimento através de sua torpe mirada. Ao mesmo tempo -aparente contradição – eu já comecei muitas vezes…”
A vida só começa quando se toma consciência de que se vive?
Há vida quando se pulsa ignorante de si mesmo?
Quando há morte?
Creio já ter morrido algumas vezes…

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Rosinha…

Ela tinha esse nome doce e suave. Fisicamente também parecia uma rosinha. Morena, magrinha, baixinha. Era toda inha a minha Rosinha. Foi ela quem recebeu meus documentos no Departamento de Pessoal da primeira grande empresa em que trabalhei.
Depois de alguns anos, estávamos compartilhando a mesma sala de trabalho.
Conversávamos muito sobre seu assunto predileto: Religião.
Extremadamente cristã, Rosinha queria converter-me. Não perdia uma missa, uma novena, um enterro, um batizado. Não perdia uma ocasião em que pudesse falar de seu amor por Jesus.
Falava da Bí­blia com a devoção de fé requerida pela Igreja Católica: sem questionamentos.
E enquanto eu lia Deus, Uma Biografia, e lhe dizia que o deus de sua bí­blia era vingativo, cruel e fofoqueiro, um grande olho acusador e abelhudo. E que éramos tão imperfeitos por termos sido feitos à sua imagem e semelhança, ela apenas franzia a testa e me benzia de longe.
E enquanto eu lhe dizia que a Igreja Católica só admitiu a existência de alma nas mulheres em meados do século XVII, ela apenas sorria … e me benzia de longe.
Então eu a provocava dizendo que o Deus misericordioso e protetor que ela conhecia só tinha aprendido a ser assim com seus filhos. Que “Ele” aprendeu sendo Pai e vendo os próprios defeitos, que tinha reproduzido de si mesmo em sua prole… pelo DNA. E aí­ ela ficava confusa e recitava um Salmo em minha salvação…
– Deus não tem defeitos, menina! Dizia ela, com pena de mim.
Ficamos muito amigas. E nunca parei de provocá-la. Acho que queria que me convencesse, ao final de tudo.
Estou falando de Rosinha porque foi ela quem me ensinou a cuidar de meus sonhos. Ela chamava-os de pedidos, preces.
Dizia que se eu quisesse muito alcançar uma “graça“, pedisse a Deus com todos os detalhes, sem medo de exagerar. Que não era para pedir generalizando. Tipo assim: ” que tudo dê certo“.
– Não… assim não. Tem que pedir o que é esse tudo!
E aí­ quem sorria era eu.
Eu achava injusto e mesquinho pedir a um Deus em quem não acreditava.
Numa fase especialmente negra e confusa de minha vida pessoal e profissional, resolvi aceitar o conselho e tentar.
Pois então…
Só em começar a organizar minhas idéias para saber realmente o que pedir já foi um grande salto para a luz.
Tudo bem. Dizer luz é muito, mas uma penumbra se fez. Descobri que pedia pouco à vida e me conformava com menos ainda. E, por cima, gastava um tempo danado me queixando por não ter.
Descobri que eu não sabia querer!
Virei a mesa… e fiquei presa embaixo dela. Foi terrí­vel. Não sabia viver o que pedia para mim. Me encontrei com sonhos que não eram meus, que se mostravam uma farsa. Por um lado foi bom, pois só vivendo-os e descobrindo isso, pude livrar-me deles e assim construir outros.
Mas doeu… doeu muito.
O processo durou uns dois ou três anos…ou mais, não sei. Desencavei sonhos mais puros. Sonhos de antigamente, nos quais eu não mais acreditava. Limpei a poeira, reescrevi os detalhes. E comecei a caminhar em direção a eles, a viver melhor… ser mais feliz.
E recriei um Deus. Diferente do descrito na Bí­blia. Um que fosse todo um colo de Pai. Que me fizesse pensar em mim mesma e nos outros com mais cuidado e compaixão. Que me ajudasse a ser mais doce comigo e com os outros. Que me ensinasse a criticar menos e criar mais. Que me ajudasse a escolher… como um bom Pai faria. Aprendi a pedir… aos amigos, aos irmãos, a mim mesma e à vida.
Aprendi que “não precisar deixa a gente muito só”. Já dizia Clarice.
Agora não tenho mais medo de pedir ou de agradecer o colo do novo Pai que criei para mim. Perdi muitas coisas que acreditava fundamentais, mas ganhei outras, hoje muito mais importantes para minha paz, minha alegria de viver. Sou uma pessoa melhor, para mim e para os outros. Sou menor e mais ampla.
Foi Rosinha com seus sorrisos condescendentes quem me abriu esta porta. Doce e suave Rosinha, nem sabe disso. Ou sabe? Vai ver ela era um anjo…
Por onde andará Rosinha?
*Uldra – George Frederick Watts

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Neuras de Mulheres…


Visita de rotina aos médicos. Todo ano a mesma peregrinação. Mastologista, ginecologista, oftalmologista, dentista…
Mas um dia, resolvi incluir um “ista” novo na minha odisseia: um dermatologista. Já era hora de procurar uns creminhos mágicos para tentar retardar ao máximo as marcas da inevitável entrada nos enta.
Para ser sincera e nem um pouco modesta, entrei gloriosa nesta seita, com direito a uma festa memorável que durou até às 10 horas da manhã do dia seguinte. Festa com música ao vivo ao som de “Los Años Dorados”, na melhor boate da cidade com todos os amigos. Tenho fotografias para provar. Estava tudo maravilhoso! Na verdade, me sentia espetacular. Tudo certo.
Ninguém podia cantar para mim a frase da Calcanhoto “nada ficou no lugar…”

Mas não sei o que deu no espelho lá de casa que resolveu, do dia para noite, tomar ares de conto de fadas. Aliás, conto de bruxas! E mostrar coisinhas que nunca haviam aparecido. Ou eu não havia notado? Pontinhos azuis nos tornozelos, pintinhas negras no colo, nos braços, bolinhas vermelhas na bunda, olheiras mais profundas…
Como assim???
Assim…sem avisar nem nada. De repente o idiota resolveu mostrar e pronto.
Ah, não. Isso não vai ficar assim. Ista novo na lista do convênio. O melhor. Queria o melhor especialista de todos os ISTAS !
Achei. Marquei. E fui tão nervosa quanto para um encontro ” bem intencionado” daqueles que a gente escolhe a roupa í­ntima com cuidado, que é para não fazer feio nem parecer que foi uma escolha proposital…
Sabe como é, né?
Pois sim. O sujeito era um dermatologista famoso. Via e futucava a pele de toda a nata feminina e masculina da cidade. Assim, me armei de humildade, disposta a mostrar cada defeitinho novo que estava observando através do maquiavélico e ex-amigo espelho de meu quarto.
Depois de fazer uma ficha com meus dados, o “doutor” me olhou, finalmente nos olhos, e perguntou: “O que lhe trouxe aqui?” Fiquei vermelha como um tomate. E muda.
Ele sorriu e esperou. Quase de olhos fechados desfiei minhas queixas.
Hum…ele observou ” in loco” cada uma delas, com uma luz de 200wtz e uma lupa… e começou o seu diagnóstico:
“As pintinhas são sinais de sol, por todo o sol que já tomou na vida. Com a idade ( tóin! ) elas vão aparecendo, cada vez mais numerosas. Você vai precisar de um protetor solar para sair de casa pela manhã, mesmo sem ir à praia. Para dirigir mesmo. Usar nos braços e pernas e rosto e pescoço.”
E praia? Perguntei.
“Evite. Só de 6 às 10 da manhã, sob proteção máxima, guarda sol, óculos e chapéu. Bronzear-se, nunca mais.”
Ahmmm… (a turma só chega às 11:00 !?)
“Os pontinhos azuis são pequenos vasos que não suportam a pressão do corpo sobre os saltos altos. Evite-os. Use sapatos com saltos anabela ou baixos, de preferência. Compre uma meia elástica, Kendall, para quando tiver que usar os saltos altos.”
Ahmmmaaaan??? (Kendall?? E as minhas preciosas sandalinhas??)
“As bolinhas na bunda são normais, por causa do calor. Para evitá-las use mais saias que calças compridas. Evite o jeans e as calcinhas de lycra. As de algodão puro são as melhores…e folgadas.”
Ahmnunght???? (e pude ” ver” as de minha mãe, enormes, na cintura, de florzinhas cor de rosa…..vou chorar!)
“As olheiras são de famí­lia. Não há muito o que fazer. Use esse creminho à noite, antes de dormir e procure não dormir tarde. Alimentação leve, com muita fruta e verdura, pouca carne e muito peixe. Nada de tabaco, nem álcool… nem café…”
E a histérica aqui­ começou a rir…
Agradeci, peguei suas receitinhas e saí­ rindo, rindo… me dobrando de tanto rir!
No carro comecei a falar sozinha e dizer tudo o que deveria ter dito e não disse:
” Trabalho muito, doutor! … muitas noites vou dormir às 2 horas da manhã, escrevendo e lendo. Bebo e fumo. Tomo café. Saio pelas noites de boemia com os amigos e os violões para as serenatas de lua cheia….e que noites!!!!
Adoro os saltos, principalmente nas sandálias fininhas. Impossí­vel a meia elástica (argh!!) Calcinhas de algodão? E folgadas??? Adoro as justinhas e rendadas… E não abandono meu jeans nem sob ameça de morte!!! É meu melhor amigo!
Dormir lambuzada? Neste calor? E minhas duchas frias com sabonete Johnson para ficar fresquinha como um bebê, cada noite?
E nada de praia? O senhor está louco é??? Endoideceu foi??? Moro em Recife, com esse mar e tudo… e tenho só 40 anos… meia vida inteira pela frente!
Doutor Fulustreco, na minha idade não vou viver como se tivesse feito trinta anos em um!! Até um dia desses tinha 39… e agora em vez de 40 estou fazendo 70? …
Inclua aí­ na sua lista de remédios para as mulheres de 40 a 60, MEIA LUZ…
Acho que é só isso que eu preciso! Um bom abajur com uma luz de 15wts…
E um namorado que use óculos…
É isso… só isso! Entendeu????”
Parei o carro no sinal, olhei de lado… e um garoto de uns 25 anos piscou o olho para mim. Rá!… e ele nem usava óculos!
Nunca fiz o que me recomendou o fulustreco ista.
Minhas olheiras são parte de meu charme. E valem o que faço pelas noites adentro… Ah! se valem!
As bolinhas da bunda desapareceram com uma solução caseira de vitamina A, que quase todas as mulheres usavam e eu não sabia, até que contei minha historinha do “bruxo mal”.
Os sinaizinhos estão aqui, sem grandes alardes… e até que já acho bonitinho.
O espelho é muito menor…o outro eu dei a minha filha. Rá!
E meu namorado diz que estou cada dia mais linda! Principalmente quando estou de saltos e rendas, disposta a encarar uma noite de vinhos e música. Hum!
É claro que ele usa óculos.
Mas quando quero ficar fatal mesmo… tiro os seus óculos…e acendo o abajur.

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O Lorde e Ela…

Meu pai tinha gostos requintados.
Gostava de barcos a vela e golf. Jogava tênis e tocava piano. Sonhava ter um veleiro e por isso era sócio do Cabanga Iate Club, mesmo sem barco. Freqüentava o Caxangá Golf Club da Várzea e falava Inglês com sotaque londrino, mesmo antes de ir à Inglaterra.
Era um lorde…
Como arquiteto, ele dizia, tinha que estar no lugar e na hora certa para ganhar um bom projeto, sem jamais parecer que precisava dele. Exactly!
Minha mãe era mãe. Dona de casa e mãe. Seus filhos eram a sua glória, a casa própria seu sonho realizado. O resto era “supérfluo”. Na juventude estudava belas artes e pintava lindamente. Era ceramista também, mas não acreditava no próprio talento e sua arte nunca saiu de casa. Cuidava das rosas e jasmins, de nós e do homem da sua vida com uma dedicação tão extremada que na famí­lia a chamavam de Amélia.
Mas ela era uma leoa. Uma linda leoa.
Ele também era um leão e sentia por ela os ciúmes mais ferozes que já vi na vida.
Pois sim… meu pai de lorde só tinha os gostos. Na intimidade do lar, muitas vezes, agia como um homem das cavernas. Gostava de seus livros e sua música, seus cachimbos e seus conhaques…mas não sabia muito bem se mover nos papéis de pai e marido. Era louco por ela, mas seus ciúmes também eram loucos.
Amava-nos, mas nunca nos disse. E isso não tinha explicação.
Quando saíam juntos, bastava que ela soltasse uma das suas risadas cristalinas e maravilhosas, para ele fechar a cara e querer ir embora.
Um vez, estávamos no Caxangá Golf Club, uma daquelas manhãs maravilhosas de sol e brisa fresca. Meus pais estavam rodeados por seus amigos ingleses, italianos e japoneses com as respectivas madames, quando se acercou um garçom para tomar nota das bebidas. Ele cantava o pedido, para animar a gente a beber:
– Uma cerveja…uma caipirinha… uma Coca-Cola…uma Fanta Laranja ou uma Soda Limonada? Assim… um por um.
Na vez da minha mãe, ela trocou os cabos. Ia pedir uma Fanta, decidiu por uma Soda. E pediu, com seu sorriso maravilhoso:
Uma Foda, bem gelada.
O silêncio que se seguiu e a cor esverdeada que se espalhou pelo rosto do meu pai durou eternos segundos, até que o garçom respondeu, impassí­vel:
Pois não senhora. Bem gelada!
E passou para o seguinte.
Cinco minutos mais tarde estávamos todos no carro, voltando para casa.
O Lorde, para isso, não tinha muito senso de humor.
*Lord Ribblesdale -John Singer Sargent

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A Casa e o Rio…

Vivi quase toda a minha vida no Poço da Panela, ao lado do belo rio Capibaribe. 
Nossa casa era o resultado de muitos anos de sonho de minha mãe. Ela jamais desistiu da idéia de possuir sua própria casa, apesar das grandes dificuldades que viveu. E não se surpreendeu quando por fim, um dia, meu pai chegou com um papel grande e amarelado e começou a desenhá-la. Era um bom e jovem arquiteto e havia comprado um terreno num beco sem nome e sem saí­da, no bairro de Casa Forte. 
O terreno estava muito próximo a um sí­tio de vegetação cerrada e árvores centenárias, por onde se podia ouvir os sinos de uma igreja pequena e branca ou os ruí­dos de um barco de madeira que fazia a travessia dos pobres para a outra margem do rio.
Eram vozes abafadas, que escutávamos como se fossem de duendes e fadas. Entrávamos ali seguindo a velha Estrada Real do Poço, enfeitada por casarões antigos, cujos donos eram herdeiros da época em que tudo aquilo era um engenho de cana-de-açúcar. 
No meio da Estrada estava a antiga sede do engenho, mal assombrada e tenebrosa a qualquer hora do dia ou da noite. Do nosso lado, os pequenos caminhos, o mato. Muito mato e os braços largos do rio. 
Como se desenha um sonho? 
Não foi fácil. Do papel para as primeiras pedras dois anos se passaram. 
Um sonho não tem preço, mas as pedras têm. E eram muito caras para a realidade financeira da famí­lia, no iní­cio dos anos 60. Hoje sei que a vida com um sonho é sempre mais próspera. 
Minha mãe economizava até em palitos de fósforo, o que deixou uma marca em seu comportamento pelo resto de sua vida. Nunca jogava nada fora. Acendia um palito já usado na boca acesa do fogão e o guardava outra vez, até que não era mais possí­vel segurá-lo entre os dedos. Lavava, passava, varria, cozinhava. Usava um vestido até que se rasgasse… Mas finalmente, um dia, fomos ver a construção. Minha mãe e suas mudas de jasmins e roseiras. Meu pai e suas folhas de papel. 
Foi um domingo de festa para nós. Três crianças, quatro pedreiros e o grande sorriso de meus pais. Que mais era necessário? Ah, sim… uma panela grande de barro marrom e todos os ingredientes de uma feijoada. 
Trabalhamos todos naquele dia. Carregando areia, levantando muros, plantando, pulando de monte em monte de areia e barro. 
Escolhemos o lugar onde seriam plantadas as árvores que depois seriam minhas amigas por toda a vida. Abacateiros, coqueiros, jambeiros, goiabeiras. 
Esse foi o nosso programa por muitos domingos mais, tantos que perdi a conta. 
Quase quatro anos depois, a construção ainda era construção. Suas paredes já se revestiam de madeira escura, o piso de parquet negro e marfim, as flores já eram uma realidade…
E faltavam só 4 meses para a grande inauguração. Passarí­amos o Natal de 65 na Casa. 
Meu pai comprou um piano. Assim, sem avisar…
Chegou um final de tarde quase sem pisar no chão. Não era um piano negro e de cauda como o da casa de meu avô. Era pequeno e clarinho, mas era um PIANO! Comecei a estudar com uma professora que tocava na igreja da praça. Meu pai tocava todas as noites e eu bailava no terraço de cerâmica encerado, de meias soquetes para deslizar melhor. Nunca tive muito jeito para bailarina e caí­a cada vez que inventava rodar como elas. Mas era uma possí­vel-futura-pianista

Uma noite ele veio… o rio. Foi sua primeira incursão pelas ruas de Casa Forte. Invadiu quase todas as casas, manchou, molhou, enlameou tudo até a altura de meio metro. Na nossa ele foi mais cruel. Fez saltar todo o parquet do piso, entortou as tábuas de madeira do escritório… e levou o piano. Mas antes o fez bailar sobre a água… descolou cada tecla de marfim… arrepiou a madeira… enegreceu tudo.
Acabou com meu sonho de artista, de famosa pianista… e eu já sabia que nunca seria uma bailarina. 
Meu pai chorou. E nunca mais falou do assunto. Creio que queria esquecer tamanha tragédia. Ou talvez seu silêncio dissesse que nunca a esqueceria… 

Ao final do ano nos mudamos para A Casa, que nunca, jamais deixou de ser uma obra em construção. Pois é. Por mais que meu pai fizesse planos e projetos de decoração e mobiliário e fosse, aos poucos, trocando pisos e portas, comprando luminárias e estofados novos, a briga entre ele e o rio foi ficando cada vez mais acirrada. E violenta. Por dez anos o Capibaribe, que lambia nosso muro nas épocas de verão e dava um toque de habitantes da selva às aventuras de criança, nas épocas de inverno ameaçava subir, inundava o jardim. E por quatro ou cinco vezes elevou-se, cada vez mais alto. Até que um dia cobriu A Casa deixando apenas o reservatório de água de fora, como um bote abandonado e fantasmagórico. A cada subida, meu pai o desafiava com novas estratégias de esconder seus tesouros : os livros e os discos. Subia-os às prateleiras mais altas da estante e até mesmo nos ocos do telhado do gabinete. 
Eram muitos os livros de meu pai. Uma biblioteca de teto ao chão de livros, dicionários e enciclopedias. Entre os mais amados, as obras completas de Shakespeare, Pessoa, Neruda, Bandeira, Eça de Queirós, Edgar Alan Poe. O melhor de Rubem Braga, Fernando Sabino, João Cabral, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Rachel de Queiroz. Variava de coleções completas sobre arte em pintura e arquitetura à mitologia ou séries de fição cientí­fica e suspense policial… 
Era um cupim de livros, o meu pai.
Os livros e a música eram suas paixões e ele costumava freqüentar livrarias e sebos semanalmente. Mas… na pressa de salvar a famí­lia de morrer afogada, eles perdiam em prioridade. Ficavam na casa, escondidos em alguma altura, onde meu pai, com esperança ainda não vencida, pensava que não seriam alcançados… 
Ledo engano. O rio gostava de ler… E sempre subia um pouco mais, até encontrá-los… Derretia as capas dos discos, cobria os sulcos com uma lama escorregadia.
Dos livros só levava as letras… as frases… deixava o papel grudado e inchado como um cadáver… como um ato de pirraça, para a gente saber o que tinha perdido, para a gente saber que ele era maior. Ele vinha e se demorava lendo. Dias e dias… 
Nossa casa era a primeira atingida pelas suas ganas e a última a quem permitia voltar. Assim, quase não salvávamos nada do que ele deixava. A lama negra e gosmenta era grossa e fedorenta como petróleo e havia ficado por tempo demais. Entranhava em tudo… Então, ví­amos meu pai chorar, apanhando de pá e carro-de-mão, a papa de livros e discos que o rio, sem dó, espalhava pela casa inteira… Lavávamos os discos com água e sabão, nús de suas capas coloridas. Coleções inteiras de Bach e Beethoven, as suas óperas prediletas, os Jazz e os Blues, as Grandes Orquestras. Uma raiva impotente e uma tristeza profunda se instalavam na casa e em nossos corações. Alguns discos era possí­vel comprar outra vez, mas a maioria estava perdida para sempre. Eram selos esgotados, fora de catálogo. 
Ainda guardo uns livros sujos de lama seca, que o rio não lavou as frases. As poesias de Neruda, a solidão de Garcia Marquez, a pedra do reino de Ariano Suassuna… Talvez o rio já os tivesse lido das outras vezes e só lambeu as capas, não os abriu. Com um pouco de sol, deu para salvar. 

Na última batalha entre ele e meu pai, tivemos que viver por seis meses em um apartamento emprestado, pois foi exatamente nesta que ele descobriu o esconderijo do telhado. Derrubou o teto… e leu tudo. Só voltamos para casa no ano seguinte. E meu pai estava vencido. Não quis mais brigar… parou de sonhar. Morreu dois anos depois. Tinha 50 anos. 
Tentamos batizar com o seu nome o beco sem saí­da onde vivíamos, mas ele não era suficientemente importante para lutar com outro morto: o pároco da pequena igreja branca. 

Alguns anos depois, construí­ram barreiras no rio e nosso antigo campo de batalha valorizou-se. Venderam lotes e lotes para novos habitantes do romântico bairro do Poço da Panela, que foi se transformando num rincão da nova elite da cidade. Casas modernas se espalharam por toda parte. E até edifí­cios, contrariando muitas leis de proteção ao meio ambiente e e manutenção do Patrimônio Histórico. 
O casarão mal assombrado é agora um museu, as ruas estão calçadas e diante de nosso antigo jardim há uma pequena praça triste e mal cuidada, árida e sem razão de ser. Três bancos de concreto, dois ou três arbustos que tentam sobreviver ao abandono… Não há mais cipós nem as árvores frondosas onde nos pendurávamos em nossas fantasias de reino das selvas. Enterraram as árvores até que morreram sufocadas. E a nossa casa também morreu… Não caiu, nem foi reformada. Está lá ainda, mas é só uma sombra esmaecida do que foi antes. Nem jasmins, nem roseiras… nem cheiro de mato verde… Metade do antigo jardim é cimentado. Nem cocos, nem goiabas, nem jambos, nem pitangas, nem araçás… Nem uma música no ar, nem o barulho dos sapos e grilos da beira do rio. Ele também não está mais lá, o rio… Mudaram o seu curso. E muitas casas estão construí­das onde antes eram seus braços. Também ele não tinha mais nada a perder.

Seu parceiro de briga não lhe comprava mais os livros… nem lhe fazia ouvir La Bohème às alturas, nas madrugadas enevoadas e úmidas do Poço… 
No beco, ainda sem saí­da, há agora um nome : o do padre da paróquia. E meu pai mudou-se, depois de morto, para a pequenina igreja branca. Lá, o rio ainda lambe as paredes de seus muros… 
Estão juntos de novo.
E se pode sentir, mais que ouvir, entre as badaladas dos velhos sinos de bronze, suas queixas mútuas de amigos rabugentos… 
Antigos e eternos companheiros de lutas e sonhos.

**Soube agora, em 2011, que a casa foi derrubada e um edifício está lá, em seu lugar. Não fui ver.

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Livro Infantil…

Uma antiga piada foi transformada num bonito livro infantil, lido com emoção por um professor, numa escola pública da África do Sul.
Não sei o nome do livro nem o do professor, mas guardei cada frase para compartilhar aqui.
Quando eu nasci, eu era negro.
Quando você nasceu, você era rosa.
Quando eu cresci, eu ainda era negro.
Quando você cresceu, você ficou branco.
Quando eu pego sol, eu fico negro.
Quando você pega sol, você fica vermelho.
Quando eu sinto frio, eu continuo negro.
Quando você sente frio, você fica azul.
Quando eu tenho medo, eu fico negro.
Quando você tem medo, você fica verde.
Quando eu adoeço, eu fico negro.
Quando você adoece, você fica amarelo.
Quando eu morrer, eu vou permanecer negro.
Quando você morrer, você vai ficar cinza
E é você que me chama de Homem de cor?

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Exí­lio…

Li num site que encontrei por acaso, um texto que fala de exí­lio. Me encantei com ele. Comparei-o um pouco com a minha saí­da do Brasil e minha opção de viver uma nova etapa da vida, buscando e encontrando os prazeres que ela me traz. Sei que meus sentimentos seriam completamente diferentes se estar aqui não tivesse sido uma escolha minha e sim uma contingência da vida, uma obrigação ou pior… um castigo.

Enquanto sigo pelos caminhos dos meu novo lugar de viver – um monte perto de bonitos e minúsculos povoados – na solidão de uma tarde nebulosa e fria, sem outra companhia que meus pensamentos, surpreendo-me comparando-a com a outra solidão que eu sentia, às vezes, em plena avenida movimentada de minha cidade natal. Como são diferentes!
Penso que o exí­lio não é estar longe apenas de seu lugar…
É principalmente estar longe de si mesmo, de seus sonhos…de sua alma.
É viver só de memórias com gosto de tristes saudades. 
O texto diz assim:

Quando os relógios marcam a hora invertida; quando as árvores de tua rua deixam de saudar-te e te sentes observado como uma pantera doente; quando esperas uma resposta que não chega desde o vento ausente, uma resposta daquele rosto desconhecido, de uma garrafa quebrada, uma resposta qualquer (e não chega) ; quando a distância te invade e pisas os restos de memória pelo asfalto que não reconhece teus passos; quando o vazio se empina sobre teu coração, sobre teus olhos, com a fúria calada de um sax seco; quando já não há nem ontem nem amanhã e o carteiro não vem; quando o neon te devolve uma palavra equivocada; quando o rosto dela deixa de pertencer-te… Então, moço, já não há mais escusas: algo assim é o exí­lio” 

Não conheço o autor, mas precisava reproduzi-lo. Achei suas palavras inquietantes… E  por quê eu não sinto essa melancolia impotente enquanto caminho pelas ruas deste lugar? Sinto como se este “aqui e agora” estivesse destinado para mim desde sempre e já fizesse, há muito mais tempo do que eu pudesse saber, parte da minha história nesta vida. Quem sabe se já não foi em outras?

Se eu fosse a budista que queria ser, acreditaria que já vivi aqui. Infelizmente, por mais tente aprender com os livros como O Monge e o Filósofo, e admire a filosofia budista, ainda não possuo essa crença feliz de que somos uma sucessão de vidas em tempos e espaços distintos.

Quem sabe um dia…

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Vem de Repente um Anjo Triste Perto de Mim…

Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando,
clamando…
Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros…
com os meus caminhos…
com as minhas nuvens…
Mário Quintana

*Para Hilda Hilst no dia de sua morte.

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Mais Uma Vez…

Pois sim… meus blogs foram sequestrados.Mais uma vez!
Agora muito mais “profissionalmente” que da outra, pois até mesmo os arquivos estão presos sob fiança.
Tenho que pagar $35,00 por cada uma das páginas para acessá-los e recuperar os arquivos.
Que tal a jogada? Boa não é?
Mas eu já estava prevenida.
Quem é simples sapo precisa aprender a defender-se…
Ainda bem que eu tenho TODOS eles.
Convido-os a lerem os posts republicados. Diziam-me que eram bons. Infelizmente perdi as provas, que eram os comentários.
Que pena imensa!
Mas desistir? Jamais!


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