O Lorde e Ela…

Meu pai tinha gostos requintados.
Gostava de barcos a vela e golf. Jogava tênis e tocava piano. Sonhava ter um veleiro e por isso era sócio do Cabanga Iate Club, mesmo sem barco. Freqüentava o Caxangá Golf Club da Várzea e falava Inglês com sotaque londrino, mesmo antes de ir à Inglaterra.
Era um lorde…
Como arquiteto, ele dizia, tinha que estar no lugar e na hora certa para ganhar um bom projeto, sem jamais parecer que precisava dele. Exactly!
Minha mãe era mãe. Dona de casa e mãe. Seus filhos eram a sua glória, a casa própria seu sonho realizado. O resto era “supérfluo”. Na juventude estudava belas artes e pintava lindamente. Era ceramista também, mas não acreditava no próprio talento e sua arte nunca saiu de casa. Cuidava das rosas e jasmins, de nós e do homem da sua vida com uma dedicação tão extremada que na famí­lia a chamavam de Amélia.
Mas ela era uma leoa. Uma linda leoa.
Ele também era um leão e sentia por ela os ciúmes mais ferozes que já vi na vida.
Pois sim… meu pai de lorde só tinha os gostos. Na intimidade do lar, muitas vezes, agia como um homem das cavernas. Gostava de seus livros e sua música, seus cachimbos e seus conhaques…mas não sabia muito bem se mover nos papéis de pai e marido. Era louco por ela, mas seus ciúmes também eram loucos.
Amava-nos, mas nunca nos disse. E isso não tinha explicação.
Quando saíam juntos, bastava que ela soltasse uma das suas risadas cristalinas e maravilhosas, para ele fechar a cara e querer ir embora.
Um vez, estávamos no Caxangá Golf Club, uma daquelas manhãs maravilhosas de sol e brisa fresca. Meus pais estavam rodeados por seus amigos ingleses, italianos e japoneses com as respectivas madames, quando se acercou um garçom para tomar nota das bebidas. Ele cantava o pedido, para animar a gente a beber:
– Uma cerveja…uma caipirinha… uma Coca-Cola…uma Fanta Laranja ou uma Soda Limonada? Assim… um por um.
Na vez da minha mãe, ela trocou os cabos. Ia pedir uma Fanta, decidiu por uma Soda. E pediu, com seu sorriso maravilhoso:
Uma Foda, bem gelada.
O silêncio que se seguiu e a cor esverdeada que se espalhou pelo rosto do meu pai durou eternos segundos, até que o garçom respondeu, impassí­vel:
Pois não senhora. Bem gelada!
E passou para o seguinte.
Cinco minutos mais tarde estávamos todos no carro, voltando para casa.
O Lorde, para isso, não tinha muito senso de humor.
*Lord Ribblesdale -John Singer Sargent

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