Arquivo do dia: outubro 19, 2004

Faça Fácil…

Por mais confortável que fosse o colo de minha mãe nos anos que se seguiram à minha separação e a ajuda que me deu cuidando da neta nas muitas viagens de trabalho, decidi que queria casa própria. Queria deixar de ser mãe e filha na mesma casa. Queria cuidar de mim mesma e de minha filha. Queria meu próprio espaço, com direito a não ter que ver o Faustão. Isso! Com direito a sequer escutar a sua voz por trás da porta fechada do quarto. Com direito a não ligar a televisão por toda uma semana!!! Por um mês… por um ano, se eu quisesse. Pois… assim. Aluguei um poleirinho no décimo quinto andar de um prédio, em Boa Viagem. Pequenino, bonitinho….e quente. Era poente. O sol vinha de se punha dentro da sala todos os dias. Tudo bem… tudo bem. Era meu canto, isso era o importante. E eu podia pagar. Isso também era importante. Um tapete, uma rede, almofadas.Uma janela para o espaço, por onde entrava a lua tardia e solitária. Uma mesa emprestada. Dois quartos mí­nimos, onde só cabiam mesmo as camas e o computador. Banheiro minúsculo e cozinha ridí­cula! Era um corredor com um balcão de dois palmos e uma pia. Uma cozinha que eu não sabia usar, mas tudo bem… tudo bem… tudo se aprende! O apertamento ( com “e”) era tão pequeno que eu brincava com os amigos contando a piada de que ” aqui não tem lá dentro, é tudo aqui mesmo!” E fiz uma placa perto da porta que dizia: “Cuidado! Janela próxima!” Mas era aconchegante, esbanjava calor humano. Meus quadros, minhas velas, meus livros e discos. A rede e a grande janela. E a televisão SEMPRE desligada. Delí­cia de vida! Comecei meus dias de Tonhão. Eu não sabia fazer nada. Nem montar cortinas (Tudo bem, eu gosto de sol, mas ele queria mudar-se para dentro da minha casa e ficar lá, para sempre), nem montar varais para roupas lavadas, nem estantezinhas de ferro dessas que mentem dizendo “Faça Fácil.” Fácil??? Passava horas enrolada com aquelas grades que não encaixavam de forma alguma nas fendas dos suportes. E quando eu pensava que havia conseguido, ao primeiro peso de livro, desmontava inteira! Miserável! Mas não desisti. Já que tinha casa, de-ve-ria aprender a fazer as coisas sozinha. Não tinha dinheiro para ficar pagando para os mil-pequenos-serviços que um lar necessita. Tudo se aprende. Ou não? Um dia, cheguei em casa cheia de boa vontade, uma sacola de suportes para shampoo e toalhas, prateleiras para o corredor-cozinha e uma furadeira Black & Decker. Emprestada. Lógico. Vesti meu traje Tonhão Gay, ( camiseta e calcinha ) e fui para o banheiro empunhando a furadeira como um Rambo. Medi a parede para furar longe da torneira do registro de água. Dois palmos à direita… e frummmmmm…. frummmmmmmmm….pozinho branco para todo lado. Bucha de plástico. Parafuso… Ótimo. Segundo movimento. Frummmmm…. frumpfhr….e um jorro de água me atingiu direto no olho. Como assim? Tapei o buraco com o dedo. COMO ASSIM?? Estiquei a mão e fechei a torneira do registro. Tirei o dedo. Fruvrrrrrrrrrrrrr… água. Muita água. E com força. Fui fechar outra torneira na área de serviço. Essa deveria ser a geral. Não era. Peguei um balde para aparar a água que já inundava o banheiro e a cozinha. Botei o dedo lá e fiquei tentando telefonar para meu irmão e gritar por socorro. Tun-tun-tun! Ocupado. Ocupado. Ocupado… Quando finalmente consegui que atendesse, eu já estava quase chorando. Em pânico, relatei o sucedido. Ele soltou uma gargalhada enorme e disse: ” Foi mesmo…??? Hahahahah. Chame um encanador”. “Fdp*##, cretino, canalha”. Pensei. Mas não disse. A mãe dele era a minha! Agradeci pela ajuda e conselho… e desliguei, com ódio por essa criatura ser meu parente! Chamei o porteiro e pedi para ele subir. Vesti um short e fiquei lá, com o dedo tapando o furo. Mas não estava dando para segurar o jorro. Quando o sujeito chegou, descobrimos que o cano que eu furei não era o meu, o privado. Eu havia furado o cano DO prédio. Tiveram que fechar o registro geral e cortar a água dos 90 apartamentos, bem na hora em que todos estavam chegando do trabalho. !!!!…Putz! Finalmente um encanador chegou com sua maletinha, tapou o furo com não-sei-o-quê e cimento. E cobrou: “100 real, dona”. Quanto??? Cem reais. Isso mesmo. E sem pendurar o suporte para shampoo. Eram mais de dez da noite quando finalmente pude secar a casa, tirar a roupa ensopada e tomar um banho. Foi meu último ato como “Tonhão”  Decidi que na próxima, iria vestir uma roupinha bem feminina e chamar um amigo Rambo para tomar um vinhozinho… quem sabe ele pendurava aquelas “benditas” prateleiras.

Categorias: Corpo&Alma de Mulher | Tags: | Deixe um comentário

Pensava Que Latejar Era Ser Uma Pessoa…

Frase de Clarice Lispector, no livro A Paixão Segundo GH
Quando me joguei para fora do teatro, nem palco, nem coxias. Queria a realidade da rua, queria um parque, uma praia. Queria respirar ar puro…
E queria uma explicação. Por quê?
O sentimento de menosvalia era profundo. Saí­a para caminhar pelas calçadas com duas sensações: liberdade e medo. Uma liberdade doce, de ser dona do meu destino… E um medo sem nome, entranhado no osso. Que incompetência para escolher! Como fui capaz?
Perdi a confiança em mim.
As pessoas me perguntavam por que saí do casamento­. Minha pergunta era outra: como foi que eu entrei?
Uns dias depois vi, na vitrina de uma livraria, a resposta. Um tí­tulo, que parecia de neon azul, vibrava por trás do cristal:
“Mulheres Inteligentes, Escolhas Insensatas.” Entrei em transe, e mesmo sem dinheiro, saquei o cartão e comprei sem perguntar o preço. Salvava, com esse ato, meu orgulho, minha auto estima. Sorria e pensava: “Escolhi mal, mas sou uma mulher inteligente.” Caminhei saltitando pelo meio da rua.
Tóin! Ufff…

Que dor descobrir que eu era pior do que pensava!
O livro era uma m*, escrito para ganhar dinheiro com as fraquezas alheias.
Ter comprado a bosta do livro foi a confirmação de que eu não podia mesmo confiar na bosta do meu discernimento, e afundei de novo na bosta da dor, como nunca na bosta da minha vida…
Burra! Burra! Burra!
Mas, com o tempo, as dores adormecem…
E meio adormecida, numa noite do Poço da Panela – para onde eu havia voltado – encontrei num livro de Clarice Lispector, o seguinte texto:
“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.
Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas.
Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar, mas a ausência da terceira me faz falta e me assusta. Era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? “
“É difí­cil perder-se…”
…”Foi como adulta então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulta terei a coragem infantil de me perder? “
“Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer com o que é achado.”
“As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende…
E não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir…”
“Mas enquanto estava presa, estava contente?
Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa?”
…”essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar.”
“Eu me pergunto: se eu olhar a escuridão com uma lente, verei mais que a escuridão? A lente não devassa a escuridão, apenas a revela, ainda mais. ”
Ah! Clarice. Obrigada. Isso é que é escrever!!
Olhei minhas duas pernas, meus 30 anos, empinei o nariz, endireitei os ombros….
E…tropecei mil vezes nas duas enormes e compridas pernas desconhecidas, mas sobrevivi.
Nunca mais caí­ nos contos de neon azul, que hoje fazem a festa dos editores, das farmácias e dos supermercados.
Mesmo que eu esteja em pleno surto de idiotice… sigo andando.
*Marlene Dietrich

Categorias: Cicatrizes da Alma, Poesia & BelosTextos | Tags: | Deixe um comentário

Nossa Vida Não Tinha Dentro, Éramos Fora… e Outros…

Essa é uma frase de Fernando Pessoa. Está no texto ” Na Floresta do Alheamento.”
A primeira vez que a li, eu tinha 30 anos e não pude mais tirá-la da cabeça. Ela foi tomando meu espaço interior, se expandindo e desvendando os véus que embaçavam a percepção do que era a minha vida, do que era a nossa vida.
“Nossa de que dois?” Perguntava Pessoa. E descobri que o único nosso na vida que levávamos era um filho. O resto nunca chegou a ser nossoComecei a olhar para tudo como se estivesse dentro e fora dali. Dois estranhos que dividiam um espaço fí­sico, como atores num cenário. Por trás das cortinas, nenhum palco azul. Nas coxias, um vazio, um oco. Um silêncio. Uma falta constante, eu nem sabia de que.
Quando estávamos sem os outros que nos rodeavam, não estávamos juntos. Vivíamos numa falsa harmonia. Tentei por um ano ainda construir um nós, mas foi impossí­vel. Ninguém constrói isso sozinho. A solidão a dois era muito maior que o estar comigo mesma.
A solidão é fera… a solidão devora“… canta Alceu.
Resolvi que tinha que salvar-me. Tinha que ir embora. E então me disseram que ficasse, que um casamento é assim mesmo, que pensasse nela, que pensasse na “pobre menina”.
Pensei…
Como ensinar a uma mulher o que é ser uma mulher sem ser uma? Como ensinar a verdade e a confiança, vivendo uma mentira? Como ensinar alguém a ser feliz quem não era? Como abandonar o direito de ser inteira ? Como abrir mão de saciar um corpo e um coração cheio de ânsias?
Fazer a mala não foi tão fácil. Poucas coisas cabiam nelas.
Depois descobri que vivia melhor sem muitas das coisas que pensava que eram muito importantes. E só hoje sei que quanto menos coisas levamos, mais levemente nos movemos…
Saí­ do cenário para viver uma vida real. Nem sempre doce e feliz, mas uma vida com um futuro.
Eu tinha um destino a construir.
Sabia que havia algo especial que ainda iria viver…

Categorias: Cicatrizes da Alma | Tags: | Deixe um comentário

Perguntas…


Lendo Clarice Lispector, sob o efeito do enorme calor que me tira as forças…

“…ao homem lhe parece que há começo só quando adquire conhecimento através de sua torpe mirada. Ao mesmo tempo -aparente contradição – eu já comecei muitas vezes…”
A vida só começa quando se toma consciência de que se vive?
Há vida quando se pulsa ignorante de si mesmo?
Quando há morte?
Creio já ter morrido algumas vezes…

Categorias: Cicatrizes da Alma, Pensando Alto | Tags: | Deixe um comentário

Rosinha…

Ela tinha esse nome doce e suave. Fisicamente também parecia uma rosinha. Morena, magrinha, baixinha. Era toda inha a minha Rosinha. Foi ela quem recebeu meus documentos no Departamento de Pessoal da primeira grande empresa em que trabalhei.
Depois de alguns anos, estávamos compartilhando a mesma sala de trabalho.
Conversávamos muito sobre seu assunto predileto: Religião.
Extremadamente cristã, Rosinha queria converter-me. Não perdia uma missa, uma novena, um enterro, um batizado. Não perdia uma ocasião em que pudesse falar de seu amor por Jesus.
Falava da Bí­blia com a devoção de fé requerida pela Igreja Católica: sem questionamentos.
E enquanto eu lia Deus, Uma Biografia, e lhe dizia que o deus de sua bí­blia era vingativo, cruel e fofoqueiro, um grande olho acusador e abelhudo. E que éramos tão imperfeitos por termos sido feitos à sua imagem e semelhança, ela apenas franzia a testa e me benzia de longe.
E enquanto eu lhe dizia que a Igreja Católica só admitiu a existência de alma nas mulheres em meados do século XVII, ela apenas sorria … e me benzia de longe.
Então eu a provocava dizendo que o Deus misericordioso e protetor que ela conhecia só tinha aprendido a ser assim com seus filhos. Que “Ele” aprendeu sendo Pai e vendo os próprios defeitos, que tinha reproduzido de si mesmo em sua prole… pelo DNA. E aí­ ela ficava confusa e recitava um Salmo em minha salvação…
– Deus não tem defeitos, menina! Dizia ela, com pena de mim.
Ficamos muito amigas. E nunca parei de provocá-la. Acho que queria que me convencesse, ao final de tudo.
Estou falando de Rosinha porque foi ela quem me ensinou a cuidar de meus sonhos. Ela chamava-os de pedidos, preces.
Dizia que se eu quisesse muito alcançar uma “graça“, pedisse a Deus com todos os detalhes, sem medo de exagerar. Que não era para pedir generalizando. Tipo assim: ” que tudo dê certo“.
– Não… assim não. Tem que pedir o que é esse tudo!
E aí­ quem sorria era eu.
Eu achava injusto e mesquinho pedir a um Deus em quem não acreditava.
Numa fase especialmente negra e confusa de minha vida pessoal e profissional, resolvi aceitar o conselho e tentar.
Pois então…
Só em começar a organizar minhas idéias para saber realmente o que pedir já foi um grande salto para a luz.
Tudo bem. Dizer luz é muito, mas uma penumbra se fez. Descobri que pedia pouco à vida e me conformava com menos ainda. E, por cima, gastava um tempo danado me queixando por não ter.
Descobri que eu não sabia querer!
Virei a mesa… e fiquei presa embaixo dela. Foi terrí­vel. Não sabia viver o que pedia para mim. Me encontrei com sonhos que não eram meus, que se mostravam uma farsa. Por um lado foi bom, pois só vivendo-os e descobrindo isso, pude livrar-me deles e assim construir outros.
Mas doeu… doeu muito.
O processo durou uns dois ou três anos…ou mais, não sei. Desencavei sonhos mais puros. Sonhos de antigamente, nos quais eu não mais acreditava. Limpei a poeira, reescrevi os detalhes. E comecei a caminhar em direção a eles, a viver melhor… ser mais feliz.
E recriei um Deus. Diferente do descrito na Bí­blia. Um que fosse todo um colo de Pai. Que me fizesse pensar em mim mesma e nos outros com mais cuidado e compaixão. Que me ajudasse a ser mais doce comigo e com os outros. Que me ensinasse a criticar menos e criar mais. Que me ajudasse a escolher… como um bom Pai faria. Aprendi a pedir… aos amigos, aos irmãos, a mim mesma e à vida.
Aprendi que “não precisar deixa a gente muito só”. Já dizia Clarice.
Agora não tenho mais medo de pedir ou de agradecer o colo do novo Pai que criei para mim. Perdi muitas coisas que acreditava fundamentais, mas ganhei outras, hoje muito mais importantes para minha paz, minha alegria de viver. Sou uma pessoa melhor, para mim e para os outros. Sou menor e mais ampla.
Foi Rosinha com seus sorrisos condescendentes quem me abriu esta porta. Doce e suave Rosinha, nem sabe disso. Ou sabe? Vai ver ela era um anjo…
Por onde andará Rosinha?
*Uldra – George Frederick Watts

Categorias: Cicatrizes da Alma, Memórias e Saudades | Tags: , | Deixe um comentário