Faça Fácil…

Por mais confortável que fosse o colo de minha mãe nos anos que se seguiram à minha separação e a ajuda que me deu cuidando da neta nas muitas viagens de trabalho, decidi que queria casa própria. Queria deixar de ser mãe e filha na mesma casa. Queria cuidar de mim mesma e de minha filha. Queria meu próprio espaço, com direito a não ter que ver o Faustão. Isso! Com direito a sequer escutar a sua voz por trás da porta fechada do quarto. Com direito a não ligar a televisão por toda uma semana!!! Por um mês… por um ano, se eu quisesse. Pois… assim. Aluguei um poleirinho no décimo quinto andar de um prédio, em Boa Viagem. Pequenino, bonitinho….e quente. Era poente. O sol vinha de se punha dentro da sala todos os dias. Tudo bem… tudo bem. Era meu canto, isso era o importante. E eu podia pagar. Isso também era importante. Um tapete, uma rede, almofadas.Uma janela para o espaço, por onde entrava a lua tardia e solitária. Uma mesa emprestada. Dois quartos mí­nimos, onde só cabiam mesmo as camas e o computador. Banheiro minúsculo e cozinha ridí­cula! Era um corredor com um balcão de dois palmos e uma pia. Uma cozinha que eu não sabia usar, mas tudo bem… tudo bem… tudo se aprende! O apertamento ( com “e”) era tão pequeno que eu brincava com os amigos contando a piada de que ” aqui não tem lá dentro, é tudo aqui mesmo!” E fiz uma placa perto da porta que dizia: “Cuidado! Janela próxima!” Mas era aconchegante, esbanjava calor humano. Meus quadros, minhas velas, meus livros e discos. A rede e a grande janela. E a televisão SEMPRE desligada. Delí­cia de vida! Comecei meus dias de Tonhão. Eu não sabia fazer nada. Nem montar cortinas (Tudo bem, eu gosto de sol, mas ele queria mudar-se para dentro da minha casa e ficar lá, para sempre), nem montar varais para roupas lavadas, nem estantezinhas de ferro dessas que mentem dizendo “Faça Fácil.” Fácil??? Passava horas enrolada com aquelas grades que não encaixavam de forma alguma nas fendas dos suportes. E quando eu pensava que havia conseguido, ao primeiro peso de livro, desmontava inteira! Miserável! Mas não desisti. Já que tinha casa, de-ve-ria aprender a fazer as coisas sozinha. Não tinha dinheiro para ficar pagando para os mil-pequenos-serviços que um lar necessita. Tudo se aprende. Ou não? Um dia, cheguei em casa cheia de boa vontade, uma sacola de suportes para shampoo e toalhas, prateleiras para o corredor-cozinha e uma furadeira Black & Decker. Emprestada. Lógico. Vesti meu traje Tonhão Gay, ( camiseta e calcinha ) e fui para o banheiro empunhando a furadeira como um Rambo. Medi a parede para furar longe da torneira do registro de água. Dois palmos à direita… e frummmmmm…. frummmmmmmmm….pozinho branco para todo lado. Bucha de plástico. Parafuso… Ótimo. Segundo movimento. Frummmmm…. frumpfhr….e um jorro de água me atingiu direto no olho. Como assim? Tapei o buraco com o dedo. COMO ASSIM?? Estiquei a mão e fechei a torneira do registro. Tirei o dedo. Fruvrrrrrrrrrrrrr… água. Muita água. E com força. Fui fechar outra torneira na área de serviço. Essa deveria ser a geral. Não era. Peguei um balde para aparar a água que já inundava o banheiro e a cozinha. Botei o dedo lá e fiquei tentando telefonar para meu irmão e gritar por socorro. Tun-tun-tun! Ocupado. Ocupado. Ocupado… Quando finalmente consegui que atendesse, eu já estava quase chorando. Em pânico, relatei o sucedido. Ele soltou uma gargalhada enorme e disse: ” Foi mesmo…??? Hahahahah. Chame um encanador”. “Fdp*##, cretino, canalha”. Pensei. Mas não disse. A mãe dele era a minha! Agradeci pela ajuda e conselho… e desliguei, com ódio por essa criatura ser meu parente! Chamei o porteiro e pedi para ele subir. Vesti um short e fiquei lá, com o dedo tapando o furo. Mas não estava dando para segurar o jorro. Quando o sujeito chegou, descobrimos que o cano que eu furei não era o meu, o privado. Eu havia furado o cano DO prédio. Tiveram que fechar o registro geral e cortar a água dos 90 apartamentos, bem na hora em que todos estavam chegando do trabalho. !!!!…Putz! Finalmente um encanador chegou com sua maletinha, tapou o furo com não-sei-o-quê e cimento. E cobrou: “100 real, dona”. Quanto??? Cem reais. Isso mesmo. E sem pendurar o suporte para shampoo. Eram mais de dez da noite quando finalmente pude secar a casa, tirar a roupa ensopada e tomar um banho. Foi meu último ato como “Tonhão”  Decidi que na próxima, iria vestir uma roupinha bem feminina e chamar um amigo Rambo para tomar um vinhozinho… quem sabe ele pendurava aquelas “benditas” prateleiras.

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Categorias: Corpo&Alma de Mulher | Tags: | Deixe um comentário

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