Pensava Que Latejar Era Ser Uma Pessoa…

Frase de Clarice Lispector, no livro A Paixão Segundo GH
Quando me joguei para fora do teatro, nem palco, nem coxias. Queria a realidade da rua, queria um parque, uma praia. Queria respirar ar puro…
E queria uma explicação. Por quê?
O sentimento de menosvalia era profundo. Saí­a para caminhar pelas calçadas com duas sensações: liberdade e medo. Uma liberdade doce, de ser dona do meu destino… E um medo sem nome, entranhado no osso. Que incompetência para escolher! Como fui capaz?
Perdi a confiança em mim.
As pessoas me perguntavam por que saí do casamento­. Minha pergunta era outra: como foi que eu entrei?
Uns dias depois vi, na vitrina de uma livraria, a resposta. Um tí­tulo, que parecia de neon azul, vibrava por trás do cristal:
“Mulheres Inteligentes, Escolhas Insensatas.” Entrei em transe, e mesmo sem dinheiro, saquei o cartão e comprei sem perguntar o preço. Salvava, com esse ato, meu orgulho, minha auto estima. Sorria e pensava: “Escolhi mal, mas sou uma mulher inteligente.” Caminhei saltitando pelo meio da rua.
Tóin! Ufff…

Que dor descobrir que eu era pior do que pensava!
O livro era uma m*, escrito para ganhar dinheiro com as fraquezas alheias.
Ter comprado a bosta do livro foi a confirmação de que eu não podia mesmo confiar na bosta do meu discernimento, e afundei de novo na bosta da dor, como nunca na bosta da minha vida…
Burra! Burra! Burra!
Mas, com o tempo, as dores adormecem…
E meio adormecida, numa noite do Poço da Panela – para onde eu havia voltado – encontrei num livro de Clarice Lispector, o seguinte texto:
“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.
Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas.
Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar, mas a ausência da terceira me faz falta e me assusta. Era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? “
“É difí­cil perder-se…”
…”Foi como adulta então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulta terei a coragem infantil de me perder? “
“Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer com o que é achado.”
“As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende…
E não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir…”
“Mas enquanto estava presa, estava contente?
Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa?”
…”essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar.”
“Eu me pergunto: se eu olhar a escuridão com uma lente, verei mais que a escuridão? A lente não devassa a escuridão, apenas a revela, ainda mais. ”
Ah! Clarice. Obrigada. Isso é que é escrever!!
Olhei minhas duas pernas, meus 30 anos, empinei o nariz, endireitei os ombros….
E…tropecei mil vezes nas duas enormes e compridas pernas desconhecidas, mas sobrevivi.
Nunca mais caí­ nos contos de neon azul, que hoje fazem a festa dos editores, das farmácias e dos supermercados.
Mesmo que eu esteja em pleno surto de idiotice… sigo andando.
*Marlene Dietrich

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Categorias: Cicatrizes da Alma, Poesia & BelosTextos | Tags: | Deixe um comentário

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