Rosinha…

Ela tinha esse nome doce e suave. Fisicamente também parecia uma rosinha. Morena, magrinha, baixinha. Era toda inha a minha Rosinha. Foi ela quem recebeu meus documentos no Departamento de Pessoal da primeira grande empresa em que trabalhei.
Depois de alguns anos, estávamos compartilhando a mesma sala de trabalho.
Conversávamos muito sobre seu assunto predileto: Religião.
Extremadamente cristã, Rosinha queria converter-me. Não perdia uma missa, uma novena, um enterro, um batizado. Não perdia uma ocasião em que pudesse falar de seu amor por Jesus.
Falava da Bí­blia com a devoção de fé requerida pela Igreja Católica: sem questionamentos.
E enquanto eu lia Deus, Uma Biografia, e lhe dizia que o deus de sua bí­blia era vingativo, cruel e fofoqueiro, um grande olho acusador e abelhudo. E que éramos tão imperfeitos por termos sido feitos à sua imagem e semelhança, ela apenas franzia a testa e me benzia de longe.
E enquanto eu lhe dizia que a Igreja Católica só admitiu a existência de alma nas mulheres em meados do século XVII, ela apenas sorria … e me benzia de longe.
Então eu a provocava dizendo que o Deus misericordioso e protetor que ela conhecia só tinha aprendido a ser assim com seus filhos. Que “Ele” aprendeu sendo Pai e vendo os próprios defeitos, que tinha reproduzido de si mesmo em sua prole… pelo DNA. E aí­ ela ficava confusa e recitava um Salmo em minha salvação…
– Deus não tem defeitos, menina! Dizia ela, com pena de mim.
Ficamos muito amigas. E nunca parei de provocá-la. Acho que queria que me convencesse, ao final de tudo.
Estou falando de Rosinha porque foi ela quem me ensinou a cuidar de meus sonhos. Ela chamava-os de pedidos, preces.
Dizia que se eu quisesse muito alcançar uma “graça“, pedisse a Deus com todos os detalhes, sem medo de exagerar. Que não era para pedir generalizando. Tipo assim: ” que tudo dê certo“.
– Não… assim não. Tem que pedir o que é esse tudo!
E aí­ quem sorria era eu.
Eu achava injusto e mesquinho pedir a um Deus em quem não acreditava.
Numa fase especialmente negra e confusa de minha vida pessoal e profissional, resolvi aceitar o conselho e tentar.
Pois então…
Só em começar a organizar minhas idéias para saber realmente o que pedir já foi um grande salto para a luz.
Tudo bem. Dizer luz é muito, mas uma penumbra se fez. Descobri que pedia pouco à vida e me conformava com menos ainda. E, por cima, gastava um tempo danado me queixando por não ter.
Descobri que eu não sabia querer!
Virei a mesa… e fiquei presa embaixo dela. Foi terrí­vel. Não sabia viver o que pedia para mim. Me encontrei com sonhos que não eram meus, que se mostravam uma farsa. Por um lado foi bom, pois só vivendo-os e descobrindo isso, pude livrar-me deles e assim construir outros.
Mas doeu… doeu muito.
O processo durou uns dois ou três anos…ou mais, não sei. Desencavei sonhos mais puros. Sonhos de antigamente, nos quais eu não mais acreditava. Limpei a poeira, reescrevi os detalhes. E comecei a caminhar em direção a eles, a viver melhor… ser mais feliz.
E recriei um Deus. Diferente do descrito na Bí­blia. Um que fosse todo um colo de Pai. Que me fizesse pensar em mim mesma e nos outros com mais cuidado e compaixão. Que me ajudasse a ser mais doce comigo e com os outros. Que me ensinasse a criticar menos e criar mais. Que me ajudasse a escolher… como um bom Pai faria. Aprendi a pedir… aos amigos, aos irmãos, a mim mesma e à vida.
Aprendi que “não precisar deixa a gente muito só”. Já dizia Clarice.
Agora não tenho mais medo de pedir ou de agradecer o colo do novo Pai que criei para mim. Perdi muitas coisas que acreditava fundamentais, mas ganhei outras, hoje muito mais importantes para minha paz, minha alegria de viver. Sou uma pessoa melhor, para mim e para os outros. Sou menor e mais ampla.
Foi Rosinha com seus sorrisos condescendentes quem me abriu esta porta. Doce e suave Rosinha, nem sabe disso. Ou sabe? Vai ver ela era um anjo…
Por onde andará Rosinha?
*Uldra – George Frederick Watts

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Categorias: Cicatrizes da Alma, Memórias e Saudades | Tags: , | Deixe um comentário

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