Eu Pelo Avesso…

Tomando um café no terraço e lendo Obras em Prosa de Fernando Pessoa, separei esse texto:
“Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteí­sta se sente árvore (?) e até a flor, eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada (?), por uma suma de não-eus sintetizado num eu postiço.”
………………………………….
Em meu quarto de espelhos, figuras que não são eu me mostram eus que não reconheço, mas que existem.
E então “apanho do chão dos meus propósitos a energia suficiente” para agir como não-sou, e perco-me entre vassouras, baldes e ferro de engomar!
Doméstica é um desses não-eus que insistem em espelhar-se de vez em quando, por mais que eu tente não vê-lo.

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Categorias: Outro Fala Por Mim, Poesia & BelosTextos | Tags: | Deixe um comentário

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