Era Uma Vez Um Verão… (1·cap.)

Tudo começou numa noite de verão . Uma amiga que trabalhava no Consulado Espanhol convidou-me para uma festa no porto. Como assim no porto? Ainda não haviam recuperado os casarões antigos, ainda não havia a fervilhante multidão nos bares e restaurantes chiques da atual “cidade antiga”, nem nada. O porto estava bem diante de uma cidade caindo aos pedaços, cheia de fantasmas, velha e apodrecida, escura e depredada. Como assim uma festa? Ela explicou-me que seria uma recepção especial oferecida pelo Consulado e o barco escola da Armada Espanhola às autoridades e à sociedade, à fina flor da cidade… Uma recepção dentro do Juan Sebastián Elcano.

Fui.

Era um belíssimo veleiro de 4 mastros e 21 velas e estava perfeitamente iluminado, limpo, brilhante nas madeiras e metais. Lindo! Cada oficial tinha como função receber na palma da mão todos os convidados. E foi assim que nos receberam. Três amigas e eu.Tudo perfeito, menos eu, claro. Como quase sempre, nas ocasiões especiais desta história, algo saía errado. Eu ainda não sabia o que me esperava. Engraçado é que na soma dos erros, saí ganhando. Mas durante o percurso, quase perdi todas. Se tivesse tido forças para desistir, teria perdido tudo.

Mas estou adiantando as coisas… voltemos à festa.

Enquanto um jovem aluno mostrava-me o barco, perdi-me da amiga com quem havia chegado e fiquei só, num mar de desconhecidos. Claro, nunca fiz parte da fina flor da sociedade nem da política de minha cidade. Meu bairro era o dos intelectuais, mas era subúrbio. Era Casa Forte. E tampouco havia – ainda – se transformado no reduto chique da cidade. Era bom e bonito. Mas era longe. Não sei do que, mas era longe. Todos diziam: “mas você mora longe, heim!” 

Voltando…

Segui meu guia por onde me indicava e fui convidada a descer para a câmara dos oficiais a tomar algo. Sim, claro! Avancei tranquila…o salto da sandália enganchou num degrau de uma escada assassina e escorreguei. Caí inteira em cima de alguém. Não me lembro de nada porque, provavelmente pela vergonha, fiquei ausente. Sabe como é? Quando estou numa situação de ridículo, eu cego. Não vejo nada nem ninguém. Simplesmente sorrio e escapo o mais rápido possível do cenário, com uma expressão ausente no olhar. Assim não vejo a reação dos outros. Escapei dos braços vestidos de branco que me ampararam, sem olhar para cima. Balbuciei uma desculpa e fui assim, sem olhar para nada, só para o chão do corredor estreito para não cair outra vez, em direção ao coração da festa, a câmara dos oficiais. Afortunadamente cheguei sem nenhum torção de tornozelo, sem um arranhão, nem na pele nem na dignidade. Ninguém viu… ninguém viu… Primeiro erro. 

Servi-me de um vinho branco e busquei minhas amigas. Elas estavam com um grupo de espanhóis e brasileiros e me apresentaram alguns deles. Relaxei e comecei a desfrutar da beleza de recepção que eles estavam oferecendo e a olhar o mundo em torno de mim. Havia um sem número de homens jovens e maduros, vestidos em seus uniformes de gala, sorrindo e conversando, atendendo a cada convidado com gentileza e cortesia. Era um momento de representação oficial da Espanha à cidade que os acolhia e nisso eles eram muito bons! De repente meu olhar parou na porta da cabine… Entrava naquele instante o homem mais interessante da festa. Não, da festa não! Do mundo. Do universo! Não era nenhum deus do Olimpo. Era só um homem de verdade, de feições irregulares… e que eu achei simplesmente lindo! Mandrake!* Pensei como criança. ( A brincadeira da minha infância era pegar o outro desprevenido e gritar “Mandrake!”. E o pobre tinha que ficar imóvel até que a gente admitisse que se movesse.) Pois pensei Mandrake! Parei de respirar. Trocamos um primeiro olhar… e ele sorriu… e o resto da sala ficou embaçada… Ele tinha um olhar-de-mar-azul e um sorriso de derreter icebergs, quanto mais meus pobres joelhos. Um segundo depois, alguém o segurou pelo braço e ele atendeu. E eu fiquei ali, querendo dar para ele meus abraços mais sentidos, meus beijos mais demorados, minha alma, meu juízo (que juízo?). Queria contar-lhe minha história, conhecer a sua. Perguntar-lhe onde estava, por que demorou tanto? Que saudade, meu deus! Meu coração cresceu e brilhou, assim como em Amelie Poulain( É exatamente assim, eu juro! Quando vi o filme, me reconheci na cena imediatamente! E vamos e venhamos, o filme é bárbaro, gostoso e lindo.Ou não? ) Desconcertei com a força do que eu senti. Desviei o olhar, engoli alguma coisa que me afogava a garganta, peguei outra taça de vinho e a festa ficou em câmara lenta. Escutava mas não escutava o que me diziam, via mas não via as pessoas chegando, a sala se enchendo de ninguém. Pelo canto do olho observava seus movimentos, as belas mãos, a barba espessa manchada de fios grisalhos combinando perfeitamente com o uniforme de um branco impecável. E o sorriso, que apesar de maravilhoso deveria vir com “tarja preta“, porque causava em mim efeitos colaterais incontroláveis. Descobri que era daqueles capazes de causar palpitações no meu coração, alucinações, fantasias, tremores na boca do estômago, ansiedade de adolescente. Não… euforia de adolescente!

Tum-tum-tum! Taquicardia.

Fiquei absurdamente enamorada. Na hora. E eu que nunca pensei ser possível esta história de ” amor à primeira vista”! Pelo menos não para mim. Isso era coisa de outros com mais sorte na vida afetiva, o que eu nunca tive. Sorria meio descrente quando minha mãe contava que ao ver meu pai, disse “vou casar com ele”. Era noiva. Acabou o noivado, se conhecerem e se casaram em um ano. Benditos foram. E ali estava eu, querendo poder dizer a mesma coisa. Que ridícula imitação! pensei racionalizando. Eu sempre racionalizo. Mas acho que minha porção de gene pré-histórico nos hormônios me avisou que algo havia naquele homem que era meu… e avisou aos gritos, tambores e apitos. Eu não estava preparada para o turbilhão de sintomas que vinham junto desta selvagem lembrança genética: Boca seca, palpitações desordenadas, fraqueza nas pernas… e uma vontade de voar… virar água… virar mar… dissolver… Meu lado Ulla (batizei assim a porção pré histórica) reconheceu nele as mais profundas ânsias. Ahrnmgmmm! Gemi alto. Será que alguém ouviu? Não dizem que o olhar e o sorriso são as portas da alma? Então? Ulla o reconheceu pela alma. Ulla sou eu. Ele nasceu para mim, pronto! Pensei absolutamente em SURTO Tentei disfarçar o riso nervoso e perguntei a uma amiga da minha amiga, que estava mais perto, quem era aquela criatura, pelamordedeus!!! Devo ter parecido muito ansiosa porque ela disse, com a cara fechada e um olhar de recriminação: “Esse não.” Tóin! Assim, seca. Não entendi ( ou acho que sim, eu entendi ) mas não perguntei mais nada. Não consegui dizer mais nada. Aceitei. Obedeci como em anos de adestramento. Segundo erro.

Servi-me de mais uma taça de vinho. Gelado, fresco… descia suave e se espalhava pelo sangue, resfriava meu repentino calor. Tentei não olhar muito mas era tão difícil! E eu não sabia mais onde ficar, como mexer-me, o que conversar. Ele estava sempre perto das autoridades e eu concluí que devia ter um cargo importante. Cada vez que o mirava parecia que qualquer pessoa podia perceber meu coração pulsando fora do corpo, meus joelhos de geléia, meu desconcerto, minha saudade. Saudade de que, meu deus? Saudade do que nunca tive? Fiz força para estar com os outros, os muitos ninguéns que estavam ali. Não lembro deles. Estava quase em coma com aquele sorriso espalhado pela sala, dirigido à uns e outros,todos…Miserável!

E eu querendo apagar o mundo inteiro, desligar todos da tomada e estarmos sós, numa festa para comemorar nosso encontro! Queria beber com ele, dançar com ele, entrar pelo olho de mar azul e me espalhar como o vinho pelo seu sangue. Era assim piegas o que eu pensava? Era. E assim piegas esse mistério de amor à primeira vista? Era. E era por isso que quem nunca sentiu, não acreditava ser possível? Era. Era assim… que fazer? Disfarçar. E quando ele me olhava – e eu notei que me olhava – eu tentava fingir que não estava olhando para nada… meu perfeito olhar ausente, aprendido de toda uma vida. 

Nunca soube paquerar, se é que essa palavra ainda existe. Sempre fui mais escolhida que escolhi. Admirava as mulheres que sabiam onde estar para que seu interesse as vissem. Admirava as mulheres que sabiam se aproximar com a carinha mais sedutoramente ingênua do mundo e fazerem parecer que tinha sido ele quem tomara a dianteira. Precisava de umas aulas! Urgente!

Essa mania que eu tinha de me “ausentar” não dava muitas chances de alguém se aproximar de mim, exceto aqueles muito ousados, que na maioria das vezes eram uns pretenciosos que atacavam qualquer carinha bonita, não importando muito se levariam ou não um fora. Minha cara de ausência já foi motivo de muitas impressões errôneas a meu respeito. De orgulhosa a metida a gostosa já me chamaram de tudo. E era só timidez. Há tímidos que se escondem por fora, não saem, não falam. E há tímidos que se escondem por dentro, parecem estar ali mas não estão. Eu aprendi a segunda e mais idiota forma de me esconder. Quando me intimidava, entrava e saía dos lugares sem olhar para ninguém. O olhar blasé de ausente. De que eu tinha medo? Não sei. Eu era assim e pronto. Só falava com conhecidos. E conhecidos de conhecidos. E com eles podia ser divertida, bem humorada, conversadeira e contadora de estórias. E meus amores nasceram assim, da convivência.

Mas aquela noite eu era outra. Uma nova outra ou quem sabe uma antiga outra, pré histórica outra, que eu não conhecia. No esforço de disfarçar o caos das minhas fantasias, emudeci. Só sentia, mais do que via, meu pedaço-perdido encarnado naquele homem lindo, alto, com olhos de mar e barba de nuvens, dono de um sorriso angelical que me jogava nas profundezas do inferno. Eu estava em pânico e me escondi por trás do copo… por trás do cigarro, por trás de mim mesma. E ele não se aproximou, mas esteve sempre ali. Estava trabalhando, atendendo, explicando coisas… sempre rodeado de outros que nunca eram os mesmos meus. Quando a festa acabou, um grupo nos convidou para alargar a noite num restaurante dançante na praia. Fui.

Precisava de ar, muito ar.

Dez minutos depois de estar sentada na mesa do restaurante, quem senta diante de mim? Heim? Acertou quem disse ELE. O sorriso proibido. O olhar azul, o impossível dono da minha agonia. E quem senta junto dele? ELA, a amiga que havia dito “ele não.” Como assim ? Ele e eu, assim… um diante do outro e não trocamos nem uma palavra. Só olhares furtivos, daqueles que passam sem parar, como se o outro só estivesse no meio do caminho… Eu buscava alguma coisa para dizer mas não vinha nada. Nada normal. O que vinha à mente eram as loucas perguntas: “Por que demorou tanto? Onde estava?” Mas nem isso eu saberia dizer em seu idioma e ainda por cima com a música alta e as conversas paralelas. Um jovem ao meu lado falava comigo e eu não entendia nada, mas assentia com a cabeça como se…

O mundo parecia tão lento!

Recitei em silêncio os versos de Neruda… ” como se tudo o que existe fossem pequenos barcos que navegam, para estas tuas ilhas que me aguardam”. Pedi um whisky. Quando o grupo começou a dançar, alguém se levantou e o convidou. Ai! Quem? ELA. Tóin! Dançaram uma música que durou um século, duas…toda a eternidade. Fui ficando triste e um tanto embriagada. Quando o jovem ao meu lado quis me beijar depois de tantos assentimentos surdos… despertei. Ridículo não. Tenho mais de trinta! Louca e piegas sim, e daí? Ninguém viu… ninguém viu… Que é que estou fazendo aqui? Levantei, me desculpei e fui embora. Quarto erro? Deixei de contar. Quando ele voltou para mesa a me procurar, minha cadeira estava vazia. Por que demorou tanto? Ele pensou que eu estava dançando também e esperou. Mas eu nunca voltei. E eu só soube – que os braços brancos que me ampararam na escada eram os seus, que seguia disfarçadamente meus movimentos na festa, que se assegurou antes de irmos ao restaurante que eu estaria lá, que sabia a cor mel dos meus olhos e acreditava que meu sorriso era o mais lindo do mundo, que eu era a pessoa mais especial que havia visto, que eu era uma mulher com M grande, que esperava poder dançar e falar comigo ali, sem estar mais trabalhando… e que cometeu quase os mesmos erros que eu, embora por outros motivos – muito anos depois.

E demorou… demorou muito.

fotos: Buque Escuela Juan Sebastian Elcano

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