Noiva de Carnaval…( 2·Cap )

Estava acostumada a acordar com a sensação de que um sonho tinha sido verdade. Talvez pelo exercício de anos de análise, onde sonhos eram matéria prima para minhas sessões de terapia, eu sonhava muito e recordava com facilidade dos detalhes de meus sonhos. Alguns eram tão reais que davam medo! Inúmeras vezes matei irmãos, pai e mãe. E muitas outras morri, perdi-me numa cidade que não conhecia, sobrevoei meu bairro como um passarinho, fui engolida por uma onda tsunami e abracei um desconhecido que não tinha rosto mas era o eleito, o homem que mudaria a minha vida. Eu era uma fábrica de sonhos. E ainda sou.

Pois sim… Até tomar um café bem quente, as sensações da experiência onírica não passavam. Às vezes procurava por meu irmão antes de lavar a cara, só para garantir que estava vivo. E hoje ainda desperto com os sentimentos que meus sonhos me deixaram pela noite adentro. No dia seguinte àquela noite, acordei com a mente envolvida em brumas espessas. Vivi ou sonhei? Se fechava os olhos, revivia tudo: a festa, o barco, aquele sorriso, minha porção pré-histórica com todos os efeitos especiais. Daquela vez as sensações não passaram nem com o café, nem com a ducha, nem tinha para quem ligar, a quem perguntar…

Perguntar o que? A quem? Ninguém viu. Ninguém viu…
Uma das minhas amigas havia se encantando com um oficial com quem conversou na festa e dançou no restaurante – que sorte teve aquela mulher! – e convidou-o, junto com outros amigos dele, para um Baile de Carnaval.
Esse era o nosso baile…o famoso Siri na Lata, um baile anárquico que começou como uma revanche ao tradicional Baile Municipal da cidade mas que se transformou no melhor dos bailes recifenses. No Municipal os convidados do prefeito tinham que ir de smoking ou fantasias luxuosas. No outro era a sátira, as máscaras, as noivas, as ciganas e piratas engendrados em casa mesmo. Era só misturar os trapos e criar os disfarces e quem quisesse podia ir de tênis e bermuda. A festa era mil vezes melhor que qualquer outro baile carnavalesco da cidade. Nunca perdíamos um!
Será que eu teria uma segunda chance? Será que olhos-de-mar-azul iria estar naquele grupo? Não perguntei. Mas tinha a certeza que sim, sim, sim… por favor sim!
Surtei de novo.

Inventar uma fantasia foi provocar um furacão dentro de casa. Desarrumei todas as malas de trapos, todos os recantos do guarda roupa, revirei todas as gavetas, provei os tops brilhantes, a antiga cigana, a estraçalhada havaiana… nada me agradava.
Engordei? Cresci?Avancei no quarto de minha mãe…vasculhei seu baú. Nada. Nada! Estou no conto errado!
E a cortina de peixes do banheiro? As redes protetoras das janelas? O velho cortinado do berço de minha filha? Nada.
Apelei para a cozinha…a toalha da mesa! Sim! Estampas de uvas roxas e parras verdes. Dava uma saia e um top…Yes!Ariadne!! Perfeito!! A mulher de Baco!
Mas minha mãe negou-se. “Não vai dar tempo”, ela disse.
Madrasta!! Xinguei-a injustamente.
A coitada da minha mãe andava atrás de mim, tentando ajudar-me, mas criar uma fantasia com aquela agonia no coração era impossível!
(A verdade é que tudo aquilo, menos a cortina do banheiro, uns dias depois viraram fantasia de Carnaval, graças a ela.) Mas eu queria JÁ! Que inferno de vida! – Cadê minha fada madriiiiiiinhaaaa??
Ao final, desisti. Uma saia curta e estampada, implorada à minha irmã, 15 anos mais nova, e um top lilás. Tipinho bailarina de dança moderna. Batom, lápis, perfume e já …  Estava perfeitamente comunzinha. Mas eu iria a esse baile de qualquer jeito! E os olhos brilhavam tanto que me vi bonita. 

Fomos juntas, minha amiga e eu, buscá-los no Elcano.

Tum-tum-tum… Taquicardia!

Entraram dois ninguéns e o ele dela no carro. Ela feliz e risonha e eu deserta. Apaguei os olhos. Sequei, murchei, virei areia… A noite perfeitamente estrelada, uma brisa de mar entrando pelo salão aberto do Atlântico Clube de Olinda, a música ensurdecedora da orquestra, as cores vibrantes da decoração e das fantasias, mil caras conhecidas… e eu deserta. Uma cerveja, duas ou três… 

“Olinda, quero cantar… a ti-i…esta canção!” Dizem que quem canta seus males espanta. Ou não?…quatro. Há séculos que eu treinava apagar meus sonhos. Já estava ficando esperta, quase cínica. “Não aconteceu nada, fui eu quem criou a criatura. Não existe um Ele. Não o meu“. Outra cerveja, por favor …cinco. “Quanto riso.. oh! quanta alegria…”

Encontrava os amigos, os lindos e queridos amigos de sempre, cada qual com seus trapos criativos, seus sorrisos. Os espanhóis estavam em êxtase com a música, as danças pernambucanas, a noite de Olinda. Foi muito divertido levá-los pois não tinham nem idéia de como podia ser um Carnaval no Brasil… e menos ainda em Olinda.
O Siri na Lata foi uma boa amostra.
“Eu quero ver se tem troça que escolha, como em Olinda que tem o Ceroula, mas se tiver para mim é legal, passarei lá na lua todo o carnaval.”
Todo mundo cantando em uníssono, o salão inteiro berrando com a orquestra… lindo! lindo!
A lua dando um banho extra de luz ao terraço aberto do clube.
Fiquei “ó-te-ma”, como dizem as mulheres que sabem das coisas…
Alguém botou uma grinalda de flores e um véu de noiva na minha cabeça. “Brinque, dance, seja feliz, é Carnaval! ” Cervejas, música, amigos, cheiro de mar e de lua… “Lança, lança perfume!” Virei de novo bailarina, boneca de areia molhada, salgada de suor e brisa marítima, noiva de Carnaval…
“Abra suas asas, solte suas feras… caia na gandaia… entre nesta festaaaa!!!! Me leve com vocêêê…”

Abri, soltei, caí na festa… casei inúmeras vezes com vários pretendentes, com direito a benção do padre e tudo (sempre há alguém vestido de padre).
“Fiquei” com um dos espanhóis, o último noivo, que não entendia nada, mas estava adorando a brincadeira.
Fiquei é palavra nova, me ensinou minha filha.
Ele era feio e simpático. Alegre e engraçado. Ia embora dali a umas horas. Nenhum risco. Nenhum “surto”. Nenhuma sensação de estar sonhando. Tudo muito normal, trivial. Sem fantasia.
Fiquei por puro exagero. O feio-porém-simpático estava nas nuvens. Gostei! Era bom poder ser a nuvem de alguém. Estávamos precisando de abraços e era Carnaval!
É preciso ter cuidado com o que este Carnaval faz com a gente. Mas ninguém tem.
Dançamos, bebemos e cantamos até às 7 da manhã. Às 4 da tarde o barco partiu. Não fui à despedida, mas minha amiga, enamorada, derretida, enfeitiçada e completamente insana, sim…

Eu estava no conto errado. Eu era só a amiga da outra. A princesa encantada era ela. Sacudi os ombros, levantei o pescoço e fui brincar meu Carnaval. Livre, leve e solta. Eu e minhas muitas máscaras…

Olhos-de-mar-azul só soube da festa em mar alto e distante, através dos animados relatos de seus companheiros de viagem. Soube das fantasias, das músicas, da alegria, dos frevos impossíveis de dançar…e de quem estava lá. Ele soube de tudo. Tu-do!
Bem pouco, quem mandou não ir!
Mas é que, depois de um compromisso oficial, ele tinha perguntado à pessoa errada o que fazer aquela noite em nossa cidade.
Sabem a quem, não é? 

Mas o destino ainda iria dar um jeitinho…

 

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