Uma Segunda Chance…( 3· Cap )

Durante alguns meses o “feio-porém-simpático” e eu trocamos cartas. E assim eu fui entrando numa onda de animação e me envolvendo numa história que não era nada de espetacular mas era o que a vida me oferecia. Era tão bom acreditar que um me queria! Era tão bom brincar de alegria e aventura! Era tão bom, que eu me deixei levar.
Quantos de nós vive assim a vida? Sem grandes paixões, sem grandes mistérios, sem perdas ou danos também? Conheço uma porção de gente assim. Vive bem, sem sobressaltos. Pois resolvi ser mais uma…
Tentamos, num segundo encontro, recuperar o não-sei-o-que que tivemos na noite do baile de Carnaval, descobrir em que poderia dar aquela história. Em nada… não pôde dar em nada. Saí do encontro com a certeza de que não dava para inventar um amor. Tinha que ser de verdade ou não ser. Não foi.
No ano seguinte o J. S. Elcano voltou ao Brasil. Desta vez não aportou em Recife e sim em Salvador e Fortaleza. Eu soube por minha amiga.
E, coincidência demais – se é que existem as coincidências – eu estaria trabalhando em Fortaleza exatamente naquela semana. A estadia do barco coincidiu, nos dois últimos dias, com um treinamento de trabalho que eu estava organizando lá, e eu havia combinado encontrar o “amigo-feio-porém-simpático” do ano anterior para almoçar. Amigos e nada mais.
Na volta do almoço, enquanto caminhávamos pelas calçadas de Meireles, a linda praia cearense, um carro branco parou no meio da rua e dele desceu a criatura…
Tum! Mandrake! Cadê meu pulmão!?
Cumprimentou o amigo, perguntou-lhe alguma coisa, voltou-se para mim e sorriu…Ai, meu Deus! Cadê meus joelhos!??
Minha porção moderna sorriu de volta e estendeu a mão… e ele me puxou por ela… e me abraçou.
Como assim?? Assim, forte. Assim, de repente. Assim, no meio da rua. Assim, demorado… muito demorado. Eu derreti dentro daquele abraço, desapareci num delicioso perfume… e voltei à pré-história. “Mais um pouco… mais um pouco!” Mais… Fechei os olhos…
– Ehhhhêêi!!! zombou o amigo, em tom enciumado.
Nos soltamos sem graça… mergulhando olhos nos olhos. “Nossos olhos, donos de nós dois” Fui entendendo melhor a Riobaldo. Fiquei engasgada, muda e feliz. E não sei o que se passou nos segundos depois, mas vi o carro branco ir embora com cara de nunca mais…
Parecia que este seria o fim da história. Uma história que nunca começou.
Não era mais tempo de sonhar com paixões pré-históricas, com barbas grisalhas e sorrisos tarja preta. Era tempo de viver a realidade de cada dia.
Ninguém viu… Ninguém viu, eu sei.
Não fossem os ventos loucos do destino…
Um dia, recebi um cartão postal de Barcelona. Letra do meu amigo simpático. Escrevia de um bar, onde estava com seu antigo companheiro do Elcano, que entre tapas e copas perguntou por mim. Sim???? Perguntou por mim?
Sim, com a lembrança da viagem decidiram mandar um cartão. Num lado ele escrevia, queixando-se da falta de notícias. No outro havia uma mensagem curta, escrita com outra letra. Algo assim como “Vivo em Barcelona. Quando quiser vir conhecer, serei com prazer, seu guia.”
Vivo… prazer… guia. Só isso. E tudo isso. Eu queria… eu queria!
Seria maravilhoso se eu pudesse e o dinheiro desse. Mas eu não podia. Nem tinha o dinheiro. E não podia nem escrever-lhe porque sequer sabia o seu endereço.
Enchi o peito de coragem e escrevi ao meu amigo pedindo o endereço de Barcelona. Assim. Claro que pensei no que ele poderia pensar, mas não me importava. Recordava o abraço surrealista de Fortaleza como num filme repetido na minha memória e não sei se também era assim na dele, mas eu queria… sim, sim sim… eu queria tanto que sim!
Recebi o endereço um mês depois.
Diante do papel em branco, hesitei. Escrever o quê? Dizer o quê? “Onde estava?” “Por que demorou tanto?” Não. Melhor um cartão. Assim, “Feliz Natal e obrigada pelo convite. Bem que gostaria…” Um cartão pequeno… para não ter espaço de escrever loucuras. “Pois é…Já conheci Barcelona… é encantadora! Adorei a Sardana dançada na praça, a paella, o bairro gótico. Quem sabe um dia…com você como guia, seria muito melhor.”
E esperei…
E ele respondeu… e eu adorei. E assim continuamos. Nesse tom de alegria contida. Uma troca de cartas ou cartões de Páscoa, Aniversário, Natal outra vez. Contávamos coisas de trabalho, mudanças na vida. Bilhetes de poucas frases. Eu o chamava Lobo do Mar e ele gostava.
Nunca perguntei por que me escreveu. Nunca perguntei o que sabia de mim. Não queria quebrar aquele fiozinho de nada que nos unia.
Unia? Unia a que?
Unia-nos uma alegria mútua em receber notícias. Era só isso que dizíamos: “Estamos vivos. Seguimos aqui. Existimos de verdade.”
Era como um raio de luz em casa quando eu chegava do trabalho e encontrava uma carta sua sob a porta. Cada vez que recebia um daqueles envelopes de cor acinzentada, era um ritual. Um exercício de lentitude para não gastar a pequena felicidade.
Uma ducha fresca, café na caneca azul, a rede, a música. Enquanto isso, o envelope ficava fechado sobre a mesa… encantando a casa com uma letra firme e bonita. Abria devagar. Lia uma frase ou duas. Repetia a leitura… até o beijo final. Um beijo de amigo, mas um beijo! Hum!

Havia ritual também para a resposta. Um vinho na taça, a música no ar, uma noite de saudade antiga…
Contava-lhe coisas da minha vida, medos, tristezas… viagens encantadas.
Por três anos ficamos assim. Estranhos amigos que nunca haviam conversado pessoalmente e sem condições de mudar nada nesse panorama. A distância e o tempo entre as cartas eram muito grandes. Grandes demais. Eu morava longe… muito longe. Parece que ele também.
Em algum momento desse tempo, eu adoeci na alma. Mergulhei num fosso profundo de uma dor desconhecida. Perdi-me de meu coração. Minha luz se apagou. Morri.
Uma pequena parte, sobrevivente de mim, colava fotos antigas na porta da geladeira para lembrar-me como eu era. Mas essa é outra história, que não cabe aqui. Quem sabe um dia eu conte.
Seus pequenos bilhetes eram traços de luz na minha paisagem cinza. Eram cheiro de mar azul, distante e inatingível como o horizonte. Sempre deliciosos.
Mudamos ambos de endereço, cartas se perderam e milagrosamente se encontraram, estranhas forças nos ajudaram a não perdermos o contato.
Quando me recuperei, estava às vésperas do Natal de 2000. Respondi a sua última carta dando meu endereço eletrônico e muitos dias depois, recebi um e-mail seu.
“Bom dia. Isso é um teste”.
Como assim? Só isso?!
Com o coração aos pulos, sintoma de que eu estava mesmo quase curada, respondi com uma foto antiga e sorridente, dizendo: “Que feliz você me faz!.”
Feliz era uma palavra esquecida, empoeirada de saudade de mim. Tanto tempo sem usá-la!
Saí para o trabalho com uma ânsia nova no peito… agora eu estava muito mais perto!
Faziam quase seis anos que havíamos estado naquela festa… E quase seis meses que não nos escrevíamos… Era quase seis de janeiro de 2001.
Era dia sete, para ser muito exata.

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Categorias: Coisas de Amor | Tags: | Deixe um comentário

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