Pedacinhos de Felicidade…( 4· Cap )

Voltando àquela história…
Depois do dia 7 de janeiro de 2001 uma fase nova inaugurou-se em minha vida e eu criei um recanto secreto para ela.
Escrevi-lhe pequenos e-mails a cada dia. Poesias de Hilda Hilst eram respondidas com poesias de Pedro Salinas. Poemas de Neruda com outras de Octávio Paz
Construí cartões virtuais com todo cuidado e tentei passar, em poucas palavras, mensagens mais amplas. Imagens e músicas sempre foram minhas melhores formas de linguagem e derramei sobre o teclado meus tesouros guardados.
Ao final da primeira semana, tive que passar dois dias fora de casa e não pude escrever. Quando voltei havia uma mensagem que começava assim… “Agora começo a entender aos drogaditos, pois tenho dependência de tuas mensagens. Hoje não recebi nenhuma e estou com síndrome de abstinência.”
Sentiu falta de mim, foi!? Como assim???
Tum-tum-tum…Taquicardia. Eu não tomava jeito!
Com um ENORME sorriso de satisfação e o coração derramando mel pelo sangue, tomei mais gosto em escrever. Fui construindo cartas mais longas, contando coisas mais íntimas. Falei sobre meus pensamentos, minhas pessoas, meus sonhos perdidos, minhas mágoas. Falei do meu cotidiano, contei das minhas sensações de deslumbre, tristeza, surpresa, medos. E aos poucos fui me mostrando inteira, sem disfarces.
Mostrei-lhe minha lua cheia, minhas tempestades, um amanhecer na praia depois de uma festa com os amigos, a névoa branca das madrugadas insones, a paisagem de minha minúscula janela, a solidão de um vinho tinto no tapete da sala, as lembranças de infância, de Casa Forte, do Poço da Panela. E ao final, beijos… muitos beijos. Foram crescendo em número e em diversidade: gelados de sorvete, de borboleta, com gosto de café ou vinho… contaminados de ânsias.
As respostas vinham no mesmo tom, no mesmo ritmo e com a mesma ânsia contida. Eram como um alimento para minha alma, uma companhia diária, uma alegria.
O ritual agora não era mais deixar o envelope fechado sobre a mesa. Era deixar sua mensagem sem ler até imprimi-la, enquanto fazia o café e escolhia a música. Depois ler devagar, na rede da sala. Provar mil e duas vezes os beijos. Responder com calma em uma, duas ou mais respostas.
Eu gostava tanto daqueles minutos que os prolongava o máximo que podia.
Depois de ter ressuscitado, minha alma estava tão mais lúcida, tão mais verdadeira, tão mais despudorada de minhas emoções. Falava como se ele estivesse ali, ao meu alcance. Como se sua imagem se expandisse pela casa inteira… se projetasse pelas paredes, se espalhasse pela paisagem da janela, grudasse na minha lua tardia. Como se tudo o que eu via guardasse dentro a sombra de sua fisionomia.
Contei-lhe tudo… falei sobre a lembrança que eu tinha de seu sorriso tarja preta, de seu abraço numa cidade que não era nem a minha nem a dele num encontro que não tinha explicação para acontecer. Ele falou da festa, de meu corpo caindo em seus braços, dos meus cabelos e do mel dos meus olhos, da música que nunca dançamos…
Imaginamos mil vezes como teria sido, se tivesse sido…
E fomos contando um ao outro retalhos de nossas vidas, as mudanças de valores com a passagem do tempo, a solidão de algumas escolhas… O “se” do passado mesclando-se com o “se” de um futuro que mal ousávamos sugerir em fantasias esboçadas, cheias de sentimentos disfarçados.
Eu escrevia em Português, sempre. E ele em Espanhol, sempre. Não sei como nunca precisamos de tradutores. O dicionário, que morava ao lado do teclado, mal era solicitado. Incompreensível para dois quase estranhos, estrangeiros que nunca haviam estudado, falado ou escrito um o idioma do outro.
Eu não podia mais viver um dia sem ler antes suas mensagens. Andava com várias delas na bolsa para poder lê-las a qualquer hora do dia. Trancava-me nos banheiros e lia uma e outra vez as mesmas palavras, como se fossem dizer mais do que diziam.
Ele não podia mais deixar de ler as minhas. Imprimia, guardava para reler com mais tempo e cuidado depois do trabalho. Nas viagens, buscávamos cyber-cafés para não deixar nunca mais o outro deserto e sozinho.
Pois sim…fui criando coragem e um dia escrevi assim, sem disfarces:
“Tudo o que vejo e sinto é para ser contado a você, por mim, um dia. Levo você comigo a toda parte. Falo com seu eu dentro de mim quando dirijo, trabalho, durmo ou como.
Queria poder dividir tudo com você. Acho que estou apaixonada. Por favor, não ria. Se isso não for amor, deveria ser. Mas seja o que isso for, tomara que seja o que quer ser.”

Esperei. A carta seguinte não dizia nada. Contava algo do dia…normal. Tremi, entristeci…mas não me arrependi.
No dia seguinte abri o correio sem qualquer expectativa especial. Tum! Logo nas primeiras frases perdi o fôlego. Era uma carta linda, forte, aberta de sentimentos e desejos. Era uma resposta apaixonada, loucamente apaixonada! Eita! Parei de ler no meio… imprimi. Respirei ofegante. Voltei a ler… com o papel na mão, para garantir que era concreto e real… as palavras estavam ali mesmo. Eram de verdade! Saltitei pela casa como louca. Ninguém via… ninguém via.
Eu parecia a música de Violeta Parra, ” Volver a los 17″. Perdi a noção do ridículo, perdi o ar dos pulmões. Queria gritar e gritei com a cara enfiada numa almofada.
Ninguém ouviu…ninguém.
Trimmm, trimmmm!…No meio da minha emoção quase não escutei o telefone tocar. Ah! não, agora não! Não queria falar com ninguém naquele instante. Era um instante só para mim. Mas atendi. Pensava em dizer “foi engano, aqui não mora essa criatura.. ela voou, qualquer coisa assim… Disse um “alô” sumido, sufocado…
Era ele.
Tum-tum-tum… Taquicardia! Esse homem ainda ia me matar! Comecei a andar pela casa inteira, subindo pela cama, descendo do outro lado, abrindo e fechando a geladeira, rindo como louca, sem saber o que dizer. Completamente idiotizada.
Era a primeira vez que falávamos um com o outro. Nem no abraço de Fortaleza tínhamos podido falar… foi um abraço calado e absurdo. E naquela manhã estávamos finalmente falando, entre risos nervosos… de nada. Só estávamos dizendo: “Estamos aqui. Existimos de verdade.” Não recordo qualquer outro sentido …
E depois, o aparelho silencioso parecia guardar suas palavras dentro. Eu queria desmontá-lo para ver como elas eram, pegar as sílabas nas mãos, sentir no tato a pronuncia tão linda, colher as gotinhas de saliva, as digitais, guardá-las dentro do travesseiro, embalar minhas noites com elas.
Onde já havia lido isso?
Não fui trabalhar naquele dia. Completamente em transe fui andar pela praia… fui ver o mar… fui rir sozinha da brisa, do sol, das bicicletas, da vida… fui sonhar com o horizonte.
Ninguém sabia… ninguém via.

Desta vez decidi não abrir mão de sonhar, de querer, de amar. Não me importava muito se teríamos um futuro juntos, o importante era o presente, era o que dávamos um ao outro em companhia, cumplicidade, afeto.
O importante era estar feliz… absurda e profundamente feliz.
O mar estava sereno, a brisa também. O mundo estava perfeitamente em harmonia comigo.
A felicidade profunda é serena. E basta.
Voltei para casa e escrevi: “Pode ser que isso não seja amor, mas essa viagem virtual promete coisas lindas. E se for amor, ele também é isso: uma promessa.
Uma promessa feita e paga infinitas vezes.
Seja como for, estou feliz e colorida como uma borboleta.”

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