No Mundo Que Ninguém Via…( 5·Cap )

No mundo que ninguém via, eu estava feliz. No mundo que ninguém sabia, eu tinha um amor.
Do outro lado desse mundo, tudo desmoronava. Os dias eram difí­ceis de viver.
Os minutos que eu tinha diante do computador, escrevendo e lendo nossas cartas diárias, eram como um bálsamo de felicidade. E eu prolongava-os ao máximo que podia.
Funcionavam como uma nuvem, onde eu me pendurava para não desabar diante dos problemas. E eram muitos problemas.
Nem vou citar todos, que não valem a pena. Apenas cito aqui o pior deles.
Durante os primeiros seis meses de 2001 assistia impotente como minha mãe desaparecia dentro de si mesma. Via o Alzheimer e as isquemias cerebrais destruirem sua razão e confundirem seus sentimentos. Apagarem sua visão e limitarem seus movimentos. Via minha mãe morrer um pouco a cada dia. Como perdia seu sorriso, sua alegria. Como ia virando uma criança, um bebê… um feto. E depois… uma casca vazia.
Contei a ela sobre as cartas que trocava com olhos-de-mar-azul , disse-lhe que estava apaixonada de verdade. Chorei sobre seu peito murcho a falta que ela me fazia. Não sei se me ouvia. Mas por trás de sua face envelhecida e imóvel, por trás de seu silêncio de árvore morta, parecia dizer-me: “Viva, minha querida. Viva cada pedacinho de sua vida intensamente. Não perca nenhuma migalha de alegria. Realize os seus sonhos, acredite neles. Viva a cada dia um dia. Aproveite cada segundo de luz e de sombras, cada segundo de risos e de lágrimas.”
Na sua lenta despedida, minha mãe me ajudou a valorar, com outras medidas, a vida. Na sua miserável morte, minha mãe me pariu outra vez.
Quarenta e cinco dias depois de sua partida, comemorei meu aniversário num pequeno cais de Recife, entre as gaivotas, os amigos mais queridos e um por de sol.
Muita gente não entendeu como alguém podia comemorar um aniversário um mês e meio depois da morte da própria mãe. Mas eu e ela sabí­amos o que isso significava. E bastava.
No mundo que ninguém sabia, eu e ela sabí­amos. No mundo que ninguém via, eu e ela tí­nhamos um trato…
Enquanto tudo parecia desmoronar por fora, eu renascia por dentro. A vida ganhou…
Em Olinda, no antigo casarão colado ao mar, na companhia dos velhos pescadores e suas redes…eu ressuscitava. Fui resolvendo, pouco a pouco, os outros problemas.
E estava grávida de amor. Ainda não sabia quanto faltava para dar luz àquela história que começou na festa do Juan Sebastian Elcano… mas sentia que era um caminho. Acreditava que podia segui-lo.
Enquanto isso, guardava as luas cheias, os navios iluminados, as manhãs de brisa salgada, as ânsias de beijos. E enchia com elas as minhas cartas de ardor apaixonado.
Um dia, ele me perguntou se eu queria que fosse passar comigo o Ano Novo. No Brasil.
Sim, eu queria. Claro que eu queria. Sim, sim, sim… por favor, sim!
Explodi de alegria, virei estrela no céu de Olinda!
Tinha dez dias para preparar tudo. Cadê minha fada madrinha!!??
Mãaee!!! Gritei apavorada e feliz!
O dia chegou, finalmente. Era um sábado. Dia 29 de Dezembro.
A casa já estava limpa. As compras na geladeira. Frutas tropicais, queijos e vinhos. Champanha. O mar com seu verde vestido. Perfeito!
Fui tomar um banho, disposta a sair e comprar flores, mandar lavar o carro, fazer as unhas e escovar os cabelos. Tinha tempo de sobra até às 08:30 da noite. Dentro do peito, um motorzinho ligado avisava que eu estava um tanto nervosa. Mas nada de pânico. Está tudo certo… vai dar tudo certo.
Um bom banho para começar um bom dia.
Cadê a água? Não pode ser! A casa era uma gambiarra, mas nunca havia faltado água, desde que eu estava ali. Fui ver a bomba. Não funcionava. Chamei o vizinho. O velho dono do antigo casarão, especialista em gambiarras. Ele veio. Mexeu daqui, mexeu dali. Uma hora depois, o velho ainda estava lá, com outro velho, mexendo nos fios, mais velhos que ambos juntos…. e Bum!!! Explodiram a bomba.
Não pode ser! Hoje não!
Eu olhava desolada para eles, com lágrimas nos olhos. Ficaram com pena de mim. Me prometeram resolver tudo, que saí­sse tranquila.
Como assim tranquila? Era sábado. No dia seguinte, domingo. Depois, véspera de Ano Novo e MEU ANO NOVO! Numa casa sem água?
Nada de pânico. Pense! Resolva! Respirei fundo e pensei.
Telefonei para uma amiga e pedi sua casa de praia emprestada por uns dias. Ela disse que sim. Suspirei e saí­. Quando voltei, a bomba estava trocada. Viva! Entrei em casa pensando em descansar um pouco, arrumar as flores…
E então… a campanhia da porta tocou. Recebi a visita de minha tia querida, que havia resolvido tomar um whiskezinho comigo.
Hoje não… hoje não! Pensei, mas não disse…
Servi um whisky na varanda, olhando o relógio. 4:30 da tarde.
Bom, um whiskezinho para relaxar não estava mal… Contei a ela o que estava acontecendo, quem eu estava esperando. Rimos juntas da inusitada história. Ela meio descrente… eu perfeitamente consciente que estava valendo cada segundo.
O velho vizinho acena pela janela e grita: ” Estão roubando seu carro!”
Heim?!!
Pois… saí­mos correndo para a calçada. Não era o meu carro. Era o dela. Haviam quebrado o vidro traseiro de seu carro novo, levado seu som, sua bolsa, as jóias que ela guardava no porta malas e que eram seu ganha pão.
Minha tia em prantos na calçada…os vizinhos em volta do carro. 5 horas da tarde. Fomos juntas à delegacia mais próxima. Um idiota nos recebeu com a maior calma do mundo. Abriu um livro enorme e passou página por página, até chegar numa em branco. E começou a fazer perguntas. Passou uma eternidade para registrar a queixa numa letra gótica de dar gosto. Parecia fazer um convite de casamento. 6 horas. Minha tia exigindo que os policiais da delegacia saí­ssem atrás dos ladrões. Eles dizendo que não tinham viatura. Ela chorando… eu suando em bicas.
Convenci a coitada a voltar para casa. 7:30 da noite.
Mergulhei numa ducha gelada, agradecendo a Deus pela água, esquecida dos cabelos escovados, lavando o corpo e a alma de um suor pegajoso. Lavando a tensão, o desespero. Vesti a primeira roupa que encontrei, sem ajuda de fada madrinha nem nada…e voei para o aeroporto.
Mas estava em Olinda… e não podia voar.
O trânsito era lento como sempre aquelas horas. Atravessar Boa Viagem num sábado, às 8:00 da noite, era um exercí­cio de paciência e auto controle. Comecei a cantar bem alto.
“Ah… minha mãe… minha mãe, menininhaaaa do Gantois… ”
Quando cheguei ao aeroporto dos Guararapes, eram 8:40. Contava com o tempo que se leva para sair de um voo internacional. Estava tudo certo. Tudo ia dar certo…
Esperei. Não saiu. Conferi o número do voo no painel. Não era aquele. O voo estava atrasado. Chegaria às 9:30. Ótimo. Assim respiraria um pouco.
Fui no banheiro, arrumei o cabelo, passei batom. Às 9:15 avisaram que o voo só chegaria as 10:30.
Humhm… Um café. Um cigarro… dois…
Fui novamente ao banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes… mais batom. Às 10:00 avisaram que o vôo chegaria às 11:30. Pedi um Campari… dois. Fumei mais uns cigarros… Não sei quantos. Às 11:00 horas avisaram que o voo não tinha hora para chegar.
Heim!?
Fui ao balcão da TAP para saber o que estava acontecendo. O avião tinha feito uma escala forçada na Ilha de Cabo Verde. Previsão de chegada às duas da madrugada.

Ai, meu Deus! Pense! Resolva!
Telefonei para uma amiga e fui para sua casa. Deitei no sofá da sala e dormi um sono acordado, daqueles que a gente sabe que não está dormindo.
Às duas da madrugada estava outra vez no aeroporto, com a cara amassada, olheiras até o pescoço, o cabelo domado numa trança, fumando um cigarro atrás do outro, esperando diante do portão de desembarque um desconhecido sonhado há quase 7 anos atrás… a quem eu já havia escrito mil declarações de amor e paixão e que sequer havia beijado.
Aeronave no pátio… respirei fundo e esperei.
As pessoas começaram a sair e encontrarem-se com os seus… e para mim, nada. E foram saindo e saindo…e nada, e NADA!
Como assim?
Eram dez para três da madrugada, quando uma barba mais grisalha do que eu lembrava e os olhos de mar azul cruzaram o portão de desembarque e se encontraram com as minhas olheiras profundas.
O sorriso “tarja preta” se abriu e ele disse:
Por fim

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