Nove Dias Para Viver…( 6·Cap )

De duzentas mil maneiras haví­amos imaginado aquele encontro no aeroporto… e ele acontecia de uma forma completamente distinta a todas elas.
Os milhares de beijos vorazes, trocados por bocas famintas de saudade eterna, os abraços plenos de ardor, cheios das mãos ansiosas, urgentes. As palavras de amor sussurradas em tantas frases, antes só escritas, ganhando o tom das vozes embargadas de paixão… ficaram guardados numa vertigem interna.
Para não cair, abracei-o em silêncio. Queria dizer: “Onde estava? Por que demorou tanto?” Mas as palavras que pulsavam dentro da alma não se formavam na boca.
Finalmente eu podia fazer-lhe as pré-históricas perguntas, mas naquela hora ele não iria entender…
Estávamos ali. Ao vivo e a cores. Na verdade, desbotadas cores. Derretidos os olhos e tremulas as pernas, num abraço imóvel, quase sem respirar. Paralisados… mais pela incredulidade de estarmos juntos do que pelo cansaço. Tí­nhamos nove dias pela frente para falar, para tocar-nos… para sentir-nos. Tinha nove dias para perguntar-lhe tudo o que quisesse.
No estacionamento do aeroporto, um primeiro e tí­mido beijo, com gosto de primeiro beijo de adolescente. Desengonçado, inseguro, tremulo. Depois dos trilhões de beijos virtuais, com todos os gostos e formas, o primeiro era tão ingênuo e infantil que sorrimos.
O velho casarão de Olinda nos esperava com seu cheiro de mar, sua varanda florida, sua rede de céu e nuvens. Os queijos e vinhos, flores, frutas… tudo ainda embrulhado. A saí­da intempestiva de casa não havia permitido que eu arrumasse a mesa como queria.
Mas não importava… ainda tí­nhamos nove dias para aproveitar tudo.
Enquanto ele tomava um banho reparador, depois de mais de 20 horas entre voos e aeroportos, botei uma música, escancarei a porta de vidro e o mar entrou em gotí­culas frescas e salgadas, embalsamando a sala com um maravilhoso cheiro de madrugada marinha…
Perfeito!
– Que queres beber? Perguntei sorrindo.
– Uma cerveja
– Heim?! Tinha vinho, whisky, vodca, champanha… menos cerveja.
– Não tem. Suspirei.- Comprei tudo, menos cerveja. E comecei a rir.De cansada, nervosa, medrosa. Surtada!
– Não passa nada… não passa nada. Ele disse.- Tomamos um vinho… já está. Ele me acalmava, abrindo a garrafa.
Tomei a primeira taça como se fosse água… e a segunda. O vinho também acalmava. Contei-lhe minha semana insone, meu dia sem água, a explosão da bomba, o assalto, a delegacia, a espera interminável no aeroporto. Eu falava e ria…acho que ele entendeu mais ou menos o que eu dizia.
Ele contou-me sobre o problema no avião, a impossibilidade de ler, de dormir, o nervoso, o medo de não chegar. E rí­amos…e rí­amos. E a felicidade foi se espalhando pelo sangue, como o vinho.
Finalmente, com o sol lutando para nascer por trás de nuvens escuras sobre o mar de Olinda, lindo, lindo… fomos para a cama. Estupidamente cansados.

Ainda tí­nhamos nove dias para sonhar acordados. Nove dias para corporificar um amor fantasiado em longas madrugadas de insonias. Nove dias para aproveitar o sol, a lua e os mares de um verão em Pernambuco. Nove dias para viver todas as ânsias e saudades alimentadas por um ano de e-mails diários. Nove dias para viver os sete anos de espera.
Quando me vi entre seus braços, com os lábios a meio centí­metro dos seus, a barba perfumada de maresia e vinho, esqueci o cansaço, o medo, a semana insone, a agonia do dia e da noite. Esqueci todas as misérias do mundo, todas as tristezas e desesperanças da vida. Recordei que só tinha nove dias. Que podiam ser os nove primeiros…ou os últimos. E que eles já haviam começado.
” Como se tudo o que (em mim) existe fossem pequenos barcos que navegam, para estas tuas ilhas que me aguardam.” Pensei de novo Neruda…
– Por que demorou tanto? Perguntei baixinho.
– Estou aqui. Ele respondeu.
E então começou a chover. E choveu para sempre.
Por nove dias e noites choveu no verão de Pernambuco.
Foto: Rain-Boris

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