Desaprendendo a Ser Só…( 7·Cap )

Nove dias para viver um sonho de muitos anos. Sem chuva ou com ela.
Assim, resolvi aproveitar a casa que minha amiga havia me emprestado por uns dias e que fica em Toquinho, uma praia do municí­pio de Ipojuca, ao sul de Recife. De passagem, poderí­amos comer em Porto de Galinhas, num restaurante que eu adoro, chamado Beijupirá.
Ah! Que dias… Nem sei se dá para contá-los.
O restaurante é naturalmente decorado com buganvilhas de todas as cores, velas enormes aos pés das árvores para as belas e românticas noites do verão nordestino… redes por toda a varanda, mesas coloridas por toalhas pintadas à mão. Serviço de primeira, na arte e no sabor. Daiquiris de todas as frutas nordestinas, peixes e mariscos cozidos com molhos de manga, maracujá, castanhas, canela…um bom gosto nas cores e nas formas. Lindo!
Depois, a casa de Toquinho…
Dentro de um condomí­nio, a casa fica entre o rio e o mar. Rodeada por um gramado verdí­ssimo e flores tropicais, na frente uma pequena piscina, terraços amplos e bem decorados, quartos com ar-condicionado, duchas de água quente, camas mais que confortáveis. Tudo com um bom gosto de detalhes nos objetos, quadros, colchas de cama, armários…
A casa é um paraí­so dentro de um paraí­so. Tem tudo o que a gente precisa. Do trivial à sofisticada maquina de café expresso. Todos os utensí­lios necessários para pintar e bordar na cozinha. Meu desespero é que não sabia nem pintar nem bordar… e cozinhar? Nem se fale!
Mas ele já estava avisado! O cozinheiro estava eleito por unanimidade de (dois) votos.
E na sala uma porta enorme sempre aberta de frente para um mar verde e lindo, uma praia quase deserta para passear. Chalé dez estrelas…
Minha amiga pressurosa já havia dado as ordens e estava tudo pronto, aberto e limpo quando chegamos…
Pois aí­ ficamos por quatro dos nove dias que tí­nhamos. Não deu para sair antes. É difí­cil deixar o paraí­so…Passamos ali a noite de Ano Novo, apesar dos muitos convites que eu tinha para Reveillon em Boa Viagem e festas entre amigos. Preferimos a paz de Toquinho. A sós!
E neste dia e nesta noite, o sol e a lua cheia ganharam a batalha com a chuva e nos deram uma piscina de água fresca de dia e prateada e morna à noite. Passamos horas misturando nossos idiomas, escutando a música, comendo tudo o que os meninos nativos, com suas bacias sobre a cabeça, nos ofereciam por cima do muro. Patolas de caranguejo, ostras frescas, camarões…
E à noite, acendemos todas as velas da casa, fizemos uma ceia fria, brindamos ao novo ano.
Uma emoção estar ali, vivendo uma noite como aquela! Que presente da vida! Para não esquecer jamais!
E tome felicidade embalsamando o planeta! Inesquecí­vel e inenarrável…
Quatro dias que pareceram uma ficção romântica. Nunca pensei ser possí­vel vivê-los de verdade.
Mas ainda tí­nhamos 5 dias! E nesses eu queria mostrar minhas cidades: Recife e Olinda.
Chovia a cântaros, mas não nos acovardamos. Em Olinda comemos no maravilhoso Oficina do Sabor, dançamos e ouvimos jazz ao vivo no Uruguai Club, um casarão antigo totalmente restaurado e decorado numas das milhares de ladeiras da cidade histórica. Comemos tapioca e queijo assado na brasa, no alto da Sé. Visitamos o Museu de Mamulengos, o Mercado da Ribeira, as lojas de artesanatos e talhas de madeira, passeamos pelo casco histórico da cidade e suas dezenas de igrejas. Afundamos nos sorvetes de pinha, pitanga, cajá, graviola e maracujá, na melhor sorveteria do mundo! Trocamos os sabores entre beijos e risadas de loucos, como uma das minhas cartas prometia.
Em Recife era imprescindí­vel mostrar meu berço, o Poço da Panela e Casa Forte, meu baobá, os casarões da Estrada Real do Poço,minha antiga casa, o rio que gostava de ler, ouvir a batucada das crianças que se preparavam para o Carnaval do Poço. Comer bacalhau e agulha frita com cerveja no bar da Beata, que nem é bar nem ela é beata e que fica no beco sem calçamento por trás da igrejinha branca onde mora meu pai … Rir e conversar com ela, uma senhora de brancos cabelos que vive descalça, com seus pés de unhas pintadas de rubro, a boca quase sem dentes porque ela diz que tem nojo dos postiços. E que só abre o ” bar” e bota a mesa no meio da rua para quem ela gosta… Quando chega quem ela não gosta, guarda a mesa e “fecha” o bar.
Mas comigo ela vem e senta, dentro de seu vestidinho de flores miúdas, e conta antigas histórias do bairro e do marido, morto numa das enchentes do rio…
E tomar café e licor na casa dos amigos… e depois ir escutar coros e música clássica na casa de meu irmão.
Provar uma caipirosca de limão no Capibar e interpretar as histórias que conta o lixo, catado do rio por seu dono e que exposto na balsa de madeira ancorada, impressiona como prova da nossa falta de consciência e cidadania. E sentar no Bistrô Rodin, na Praça de Casa Forte, para comer crepe… e no Café Burle Marx para tomar um whisky e escutar as músicas especiais que seu dono escolhe a dedo. E enquanto isso contar as histórias que eu dividi com as enormes árvores, companheiras de minha infância e adolescência, no caminho diário para o colégio das freiras francesas.
Visitar o ateliê de Brennand, na Várzea, e embobecer diante de suas esculturas e os antigos fornos onde fabricava suas peças, únicas no planeta. Atravessar todas as pontes do centro da cidade, entrar no antigo mercado de São José e andar entre as muitas tendas de redes e artigos de cordas, os santos macumbeiros e católicos, mostrar os cheiros que me traziam a infância de volta e a saudade da mão macia de minha avó…
E depois ir ver o mar do Pina e suas crianças pulando dos barcos de pescadores, e beber a caipirosca nevada mais saborosa da cidade, empoleirados no Biruta Bar, um bar de madeira e palha plantado na areia da praia…
De vez em quando percebí­amos que chovia… mas o mundo em Recife não parava por isso. Nem a praia… nem o Bargaço, lotado de gente para comer suas peixadas e moquecas de lagosta e camarões… Nem o antigo Bairro do Recife, com seus bares e restaurantes cheios de gente, seus edifí­cios barrocos e casarões coloniais.
Ali entramos no Café Cordel, para um café com licor acompanhados por música e literatura de cordel pernambucanos…
Nem o Tio Pepe, com suas tábuas de carnes ou peixes assadas na “chapa” com macaxeira e seu doce de leite “doido”, servido com gotas de brandy…
Nem as barracas que vendem água de coco diante da praia de Boa Viagem.
A chuva não impediu nada do que eu queria compartilhar, exceto um bom banho de sol deitados nas cadeiras da praia, tomando a cervejinha gelada de Pêu, o sujeito mais simpático dos milhares que se espalham pela orla.
As tempestades e nuvens negras não escureceram meu coração embriagado e luminoso de paixão… nem diminuí­ram a alegria que impregnava meu sangue de calor e que me fez dançar na varanda do casarão de Olinda, sob a chuva diluviana que caí­a morna sobre a cidade…
Chuva tão deliciosa que meu namorado-de-nove-dias, meu destino-de-quase-sete anos, acabando de sair da ducha não resistiu ao chamado e mergulhou no melhor banho de céu que já tomamos na vida…
Nove dias… tí­nhamos só nove dias.
Como viver depois? Eu não queria nem pensar…
Multipliquei os minutos, os segundos…aproveitei cada momento de fala e de silêncio cúmplices, fotografei na memória cada movimento de mãos, cada sorriso. Guardei sob a pele cada carí­cia.Gravei na alma as conversas dentro da rede do salão, as músicas que escolhí­amos ouvir durante o café da manhã…o carinho dos olhares, os cheiros, o dormir abraçados de pernas entrelaçadas, os bom dias, os boa noites, o amor feito com amor, que é a melhor forma de amar…
Como foi possí­vel estar sem isso por tanto tempo da vida?
Não queria pensar… não ia pensar…
Queria parar o tempo, desligar o resto do mundo. Queria virar sereia dentro de seu olhar de mar azul e viver dentro dele para sempre…
Mas para sempre não existe… e o dia chegou.
Meus olhos já se despedindo de cada movimento seu, meu olfato de seu cheiro, minhas mãos de sua pele…
Foram só nove dias… e meus olhos desacostumaram de ser sozinhos, meu coração esqueceu que estava há anos guardado em seus limites, meu corpo desaprendeu a viver sem ser amado.
Em nove dias. Só nove… meu corpo e minha alma esqueceram o que era solidão.
Tantos anos para acostumá-los e em nove dias haviam esquecido tudo.
Não sabiam mais… não queriam mais aprender. Estava perdida!
Mas valeu a pena…

 

Sem chorar e sem gritar escolhi calmamente uma roupa, um sapato, uma bolsa, um batom.
Fechamos lentamente a maleta e voltamos ao aeroporto. As longas conversas amordaçadas no silêncio da saudade antecipada…
Ninguém perguntou “e agora?”
E desta vez o voo não atrasou.
O sol do verão de Pernambuco voltou brilhante e caloroso nos dias que se seguiram a sua partida. E as minhas lindas cidades se vestiram de risos e cores…
Agora só meus olhos estavam molhados e escuros…

 

 

 

 

Foto:Bendition-Júlio Romero de Torres

Anúncios
Categorias: Coisas de Amor | Tags: | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s