Síndrome de Moêma…( 8· Cap )

Eu não podia mais olhar o mar de Olinda, sem desejar irracionalmente entrar por ele e nadar. Cruzar a linha do horizonte…
Eu estava com a Sí­ndrome de Moêma, a í­ndia que nadou atrás do barco de seu amado até desaparecer nas águas profundas do oceano. Romântico demais. Mas nem nadar eu sabia!
O que me dava esse surto romântico não era o aeroporto… era o mar. Talvez porque ele era do mar. Talvez porque o aeroporto era o real e eu ainda via aqueles nove dias como um sonho.
Mesmo sendo ridí­culo, surtei como Moêma.
Aquele homem tinha essa capacidade. Desde a primeira noite, desde a festa do barco. Me tirava do sério. Sua presença causava profundas alterações no meu equilí­brio mental e físico!
E sua ausência?
Fiquei igual a música do Dorival. “Pobre Rosinha de Chica, que era bonita, agora parece que endoideceu… Vive na beira da praia, olhando pras ondas, dizendo baixinho…”
Sei lá o que eu dizia! Falava com o vento…

Depois daqueles nove dias de vida intensa, cada segundo mil dias, cada dia mil vidas, voltar ao todo dia de sempre não estava sendo fácil.
Eu não estava infeliz, não estava com fome, não tinha sede, não tinha sono, nem calor, nem frio, nem medo. Não tinha angústia. E me faltava tudo.
Faltava ele. Faltava eu em mim. Mas não estava deprimida, nem triste. O que eu sentia só tinha um nome: Saudade.
Muita. Toda. Dele e de mim. De sua presença na cama, na rede, na mesa. E da mulher que eu pude ser ao seu lado. Uma mulher há muito esquecida.
Vai passar, pensei. Vai passar. Um dia passa…Como tudo na vida.
O que tinha que fazer era guardar na lembrança. Seria uma história boa de contar…
Mas todo dia era dia de lembrar. Nunca consegui guardar.
Sentia saudade. Muita. Toda.
E assim o tempo foi passando. Como diz a Maria…Dia sim e o outro também, o tempo acontecia.
Continuávamos trocando e-mails quase diários, mas o mundo saiu do lugar. Agora o que era estar perto não era mais o de antes. Queria o cheiro, a voz, a textura da pele e dos pêlos. Tinha sede dos beijos, fome do corpo. Sonhava coisas, dormia acordada.
Angústia? Não sentia. O que tinha era saudade. Muita e toda.
Um mês depois tive dengue. Todos os dias vinham me tirar o sangue, e as plaquetas caiam mais e mais. O médico quis internar-me num hospital. Morriam pessoas ali…tive medo. E se eu não saí­sse de lá? E se eu morresse lá? Pedi mais um dia.
Fiquei ali deitada, sem poder fazer absolutamente nada. Nem andar, nem trabalhar, nem ler, nem ver televisão, nem escrever no computador, nem nada de nada… só podia pensar. E entendi outra lição de minha mãe, que curiosamente chamava-se Moêma, e sua morte imóvel e cruel: “O tempo não espera. A vida não espera”.
Que nadar que nada, sua burra! Você tem que voar!

Não podia mais esperar que as coisas acontecessem para mim. Precisava fazê-las acontecer.
Telefonei e perguntei: “Eu vou. Você quer?”
E prendi a respiração!
Sim, ele queria. Sim, sim… SIM!
Estava igual a mim. Como um “zumbi”, ele disse.
Quase caí­ da cama de felicidade. Nem pular eu podia.
De agenda na mão buscamos as possí­veis datas. Semana Santa seria a mais perto, mas terí­amos somente oito dias. E em Julho, trinta e quatro.
Trin-ta-eeeeee-quaaaaa-tro! Deslizei macio para o chão como um gato…
Assim. Seria mais uma vez no verão, desta vez do outro lado do oceano. Um verão espanhol.
O universo estava outra vez coordenado.
E eu fiquei ali pensando que o chão era uma nuvem… parecia nuvem.
Com um plano desses para viver, as plaquetas subiram no dia seguinte. E no outro. E no outro mais. E mais…
Eu sabia que iria demorar ainda quatro meses, mas isso fazia parte de Ítaca. Planejar uma viagem é viajar.
E eu já estava fazendo as malas.
Essa história ainda se tornaria boa de contar…
*Muchacha en La Ventana – Salvador Dalí­

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