Nua No Verão Europeu… ( 9·Cap )

Aeroporto dos Guararapes. Recife, julho de 2002.
Passagem na mão, duas pequenas malas, cuidadosamente arrumadas para viver meus trinta e quatro dias de amor.Trintaaaa-eeee-quaaaatro! Vou morrer! Pensei, tentando acalmar o “bichinho” que me comia o estômago.
Nas cartas que trocamos, mil planos de passeios. Conhecer Toledo, Ávila, Salamanca, Segóvia, Burgos, Valladolid. Vasculhar todas as paredes do Prado. Bicicletar pela Ruta Verde. Muito banho de piscina nas noites do verão madrilenho…vinhos, velas, música, e amar…
Amar muitooooo!!!
Desta vez eu estava disposta a marcar território. Deixar minhas pegadas por todos os cantos. Fazer-me inolvidável! Queria que se viciasse em mim…
Desta vez eu estava disposta a perguntar: “E agora?”
Pois então…
Três dias antes havia tentado ficar mais bonita. Fui cortar o cabelo, é claro! O cabeleireiro é o lugar mais procurado pelas mulheres nos dias de tensão insuportável. O resultado nem sempre é satisfatório. Eles se aproveitam da sua cara de desespero e prometem transformar-lhe na Top Model mais espetacular da face da terra! E você, como boa histérica, concorda! Não deu outra. Saí­ da sessão terapêutica chinfrim com o cabelo mais curto do que desejava, liso como o de uma japonesa e com mechas da cor de mercúrio cromo. Fashion!!!
Ele iria levar um baita susto.
Tudo bem. Eu diria que sou muitas mulheres numa só. Não. Clichê demais. Diria a verdade e pronto. Agora não podia voltar atrás!
Cada vez que passava por um espelho, olhava para a desconhecida que sorria para mim e pensava: “Que merda!”
Se eu sorria é porque estava bem. Tudo bem. Vai dar tudo certo. Um simples cabelinho cor-de-rosa alaranjado não iria me impedir de aproveitar cada segundo dos trintaaaaaaeeeequatrooooo dias que tinha pela frente!
“Mas que merda!” Passei dois dias lavando a cabeça a cada três horas, para ver se melhorava um pouquinho. Melhorou. Metade da tinta ficou na toalha.
E o dia chegou.
A viagem foi interminável. Saí­a de Recife às 20:45 e chegava em Madrid às 13:30 do dia seguinte. Sem fumar! Classe turista, o que significa também, sem dormir!
Aeroporto de Madrid. O “bichinho” nervoso já tinha comido o estômago, o fí­gado e estava gostosamente mastigando meu intestino…
E tome andar…esteira rolante para cá, esteira rolante para lá, e sobe aqui e desce ali… seguindo todo mundo. Elegantí­ssima no meu terninho grafite, blusa vermelha de gola alta (para combinar com os cabelos) e lindí­ssimos sapatos novos, de saltos perfeitos. Vermelhos também.
Estava bonita, pensei. Mulher apaixonada está sempre bonita.
Agora as malas e pronto! “Viver e não ter a vergonha de ser feliz…” Cantava o bichinho come-come dentro de mim.
As malas. Cadê minhas malas?
Todo mundo pegando as malas e nada das minhas. Esperei. Esperei. Esperei. Finalmente, apareceu uma delas. Suspirei de alí­vio. Agora vai aparecer a outra e pronto. Tudo certo.
Não apareceu. Esperei mais. Nada. Todo mundo foi embora e eu fiquei ali, não acreditando que sumira uma das malas.
Por que os aeroportos fazem essas coisas comigo?
Resolvi ir lá fora e dizer a ele que…(?)
Ele? Que ele?
Onde estava ele??
Não estava lá. Como assim?? Atrasado. Só estava atrasado, pensei positivo.
Voltei para a esteira das malas. Nada.
No balcão da companhia me deram um papel para preencher. Disseram que por causa da escala em Lisboa, provavelmente a mala viria em outro vôo. Podia ir tranqüila que eles a levariam em casa. Dei o endereço e saí­ da sala, preocupada com a minha demora em aparecer. Ele não estava. Esperei. Esperei. Esperei. Ele não apareceu.
O bichinho que acabava de mastigar o último pedaço do meu intestino teve um ataque de indigestão e procurei um banheiro urgente! Esteira rolante para lá, esteira rolante para cá, vira a esquerda, depois a direita. Vou morrer aqui! Desesperei.
Quando voltei para o portão de desembarque e percebi que ele não iria aparecer, resolvi tomar uma providência. Ligar para o celular e perguntar o que estava acontecendo. Simples não?
Não. Eu não tinha moedas. Onde trocar dinheiro?
Esteira para lá, esteira para cá, direita, esquerda, uma cafeteria. Tomei uma água, que eu não arriscaria nem uma coca-cola com aquele bichinho nervoso dentro de mim, e com o troco telefonei. Ele estava diante de outro portão de desembarque há quase uma hora. Lá estava, no painel, o número do meu vôo, mas por erro do aeroporto eu saí­ pelo 6 doméstico e ele me esperava no 2 internacional. Se conhecem o aeroporto de Madrid devem imaginar as distâncias.
Pois, finalmente nos encontramos, rindo de tudo… como fazem os apaixonados. Contanto que estejam juntos, o resto é resto. Ou não?
Mais ou menos…
A mala desaparecida era a maior. Nela estavam os tênis, os biquí­nis, shorts e camisetas. Todos os cintos, sapatos e bolsas, os presentes, as camisolas lindí­ssimas, as bijuterias, os lenços coloridos.
E toda a roupa í­ntima.Toda.
Isto quer dizer que fiquei com os vestidos, calças compridas e blusas que estavam na mala menor.
Esqueci a cor dos cabelos. Agora o problema era trágico! Que idéia a minha de viajar com sapatos de salto e vermelhos! Eles só combinavam com o terninho e com a roupa de noite.
E para ficar em casa, andar pelas ruas da cidade, bicicletar? De saltos?
Também não tinha o que vestir, nem podia ir à piscina sem biquí­ni, sem sandália. Nem podia vestir verde ou azul… como combinar tudo com VERMELHO!!!??? E não tinha nem uma mí­sera calcinha para trocar!
“E agora?” Perguntei, em amplo sentido.

Passamos dois dias inteiros em casa. Esperando a mala aparecer e aproveitando para conhecer-nos melhor. Muito melhor!
Mas, e os planos? E Toledo? E o Prado? E a Espanha???
Ligava para o aeroporto mil vezes, e mil vezes a mesma resposta. Nada. A Tap culpava a Ibéria e vice-versa. Nenhuma das duas me deu os cem dólares que eu tinha direito (e nem sabia disso). Falavam numa indenização se a mala não aparecesse em até três meses.
Heim!!?? TRÊS meses?
A mala nunca apareceu. O verão da Europa à noite é frio e eu usava sua jaqueta para sair e que me cobria até o joelho. Fashion!
Em casa, sua sandália tamanho 42, seu short “modelito” europeu, isto é samba-canção, e camisetas brancas tamanho 48. As Top Model morreriam de inveja!
Tivemos que comprar um biquí­ni. Já viram o fundo de um biquí­ni europeu? Tipo saco frouxo na bunda, e alto até o meio das costas? Comprar também umas calcinhas e sutiãs simplezinhos, pois que um euro valia quase quatro reais (que absurdo!) Um sapato e uma bolsa (quanto???) Um tênis e duas camisetas. Alisei.
Zero acessório. Zero bijuterias, lenços, cintos…
Se eu queria impressionar meu namorado com as maravilhosas roupas que levava, puft!
Mas se queria ser inolvidável, BINGO!
* Maletas – J. Enrique Gonzalez

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Categorias: Coisas de Amor | Tags: | Deixe um comentário

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