Para Viver Todas As Estações…( 10· Cap )

Assim foi…
Durante os maravilhosos dias de um verão espanhol, com uma mala desaparecida e sem ter o que vestir, um cabelo cor de mercuriocromo fashion e a pele coçando loucamente pelo clima seco de Madri, eu sabia que era dentro daqueles olhos que eu queria estar pelo resto dos meus dias.
Só não sabia se havia conseguido convencer o dono deles que eu era um pouquinho melhor do que ele estava vendo…
A pergunta era: “E agora?”
E desta vez eu tinha que fazê-la.
Ensaiei mil vezes diante do espelho do banheiro, em tons diversos: casual, direto e firme, doce, sexy. Cabelo preso, cabelo solto. ( Miséria de cabelo!!!) Rindo ou séria.
E onde? E quando? Na hora da cama? Da mesa? Do banho? Em Salamanca? Toledo, Ávila, Segóvia? Enquanto eu treinava, o tempo passava. E dos trinta e quatro dias eu gastei mais de vinte treinando. E algumas noites também.
Levantava da cama e ia fumar um cigarro no sofá da sala prometendo a mim mesma perguntar-lhe no dia seguinte, à primeira hora…
Era uma mulher ou um prato de papa?
Coragem mulher!!!
Papa… Eu era um prato de papa.
Passava horas confabulando comigo mesma e pensando que homens e mulheres têm ritmos distintos, formas diferentes de encarar a vida. Homens usam as palavras com economia, pensam que a gente já sabe o que eles sentem, só porque nos abraçam com paixão.
E pensava também que nós mulheres gostamos de es-cla-re-cer tudo com explicações, em longas conversas. Queremos controlar passado, presente e futuro. Queremos entrar na mente do sujeito e descobrir cada detalhe de seus pensamentos.
Eu tinha que mudar isso. Tinha que ser prática. Tinha que esquecer por alguns minutos que estava irremediavelmente apaixonada, com surtos de adolescente do século XVIII, imaginando que a criatura iria se ajoelhar aos meus pés e pedir minha mão em casamento.
– Não… não…nãoooo… era um mulher madura, separada, vivida e sofrida, independente (exceto para matar baratas!) e livre. Se tudo aquilo não fosse adiante, teria valido cada segundo. Muito mais do que qualquer outra história que tinha vivido antes.
Mas custava perguntar? Era só para saber o que faria do resto dos meus dias…
Se tudo aquilo que viví­amos iria se transformar num mundo de lembranças para guardar no baú das saudades…
Onde estava o meu lado “prático”? Perdido na mala?
Um dia ela saiu. A pergunta. Saiu sozinha, escapou da boca pulando pela sala, nem sei com que tom:
– E agora?
– Que?
– E agora nós dois?
– Que?
Engasguei. Uuui que medo! Lá vai…
– Que faremos agora com nós dois? Perguntei com uma voz que nem parecia minha.
– Vamos viver juntos, quando você puder vir. Eu agora não posso ir. Ele disse.
– Viver-viver? Juntos? Eu miei.
– Sim.
– Quando?
– Quando você quiser. Ele disse rindo. Sim, com aquele sorriso!
– Sim? (De onde eu tirei essa voz idiota?)
Tun-tun-tun… taquicardia!
Eu já derretendo por dentro, fogos de artifí­cio explodindo dentro do umbigo.
– Sim, vai ter coragem? Ele, sério.
– Vou.
Sim.. sim… sim!
Eu não sou um prato de papa! Pensei, surtando de novo e com um sorriso idiota, de filme idiota, de comédia idiota americana, pregado na cara de idiota.
– Venho no final do ano. Eu disse. Minha voz de verdade voltando. Firme e forte.
Sem joelhos, sem pulmões, sem estômago… tomada por uma onda explosiva de alegria absoluta. Mas firme e segura. E só aí­ me dei conta das muitas vezes em que ele me mostrava um lugar, uma cidade, um museu e dizia que quando eu voltasse, terí­amos mais tempo para tudo. Eu estava tão dentro de meu medo que não escutava como um projeto de viver juntos, e sim como leve alusão a voltar a ver-nos, quando desse e se desse.
Dali por diante os dias foram leves, cheios de planos . Esqueci os cabelos, as roupas, a pele irritada e seca. Esqueci tudo o que teria que deixar para começar uma vida nova em outro paí­s: famí­lia, amigos, casa e trabalho. E fui ser feliz pelos dias a fora.
Cantava por dentro as canções de Violeta Parra..”Gracias a la vida, que me ha dado tanto…” ou “Volver a los 17, después de vivir un siglo…”
Mas ainda não sabia o que era deixar, até voltar ao Brasil e começar a despedir-me desse tudo.
Não foi tão fácil quanto eu pensava. Aliás, eu não pensava que seria fácil, mas não imaginava que seria tão difí­cil.
Voltei com a certeza de que tinha tomado uma das mais importantes decisões da minha vida e que estava escolhendo o amor. Tinha que valer a pena!
Ao chegar em Recife, como não podia deixar de ser, pois os aeroportos me adoram, a mala remanescente, a única, também desapareceu.
– Heim? O que? Inacreditável. Um raio não pode cair duas vezes no mesmo lugar!
– É?
Pois sim… não era UM raio, eram DOIS. E sim, duas malas podem desaparecer numa mesma viagem. Principalmente se forem as minhas!
A segunda mala, com minhas últimas roupinhas, sumiu entre Portugal e Brasil.
Virei uma leoa feroz e ataquei com sanha de sangue o funcionário da companhia aérea. Ele me deu um formulário para preencher, igualzinho ao de Madrid, prometendo levá-la em minha casa assim que a maleta aparecesse. Perguntei se ele queria que eu acreditasse nesse conto do vigário e prometi, cuspindo ódio e frustração, que iria processar a sua empresa.
Entrei em casa chorando as lágrimas presas desde 9 horas de vôo, com a bolsa e os malditos sapatos vermelhos quem mandou escolher os miseráveis de novo – que a partir daquele dia foram viver no fundo do armário, com a culpa de tudo. Nunca mais vesti os desgraçados!
Diz uma amiga minha que tem roupa que traz “mala suerte”. Achei que eram os sapatos. Nunca mais me fantasiaria de Dorothy!
A segunda mala pareceu um dia depois, mas a primeira escafedeu-se de verdade! A raiva foi tanta que decidi procurar o gerente da empresa e avisar que iria processá-los se não me indenizassem de imediato. Fiz uma lista de tudo o que tinha na mala, com preços (das melhores lojas, claro!) incluí­dos. Em cinco, CINCO… apenas cinco dias a mala, que estava em Madrid, devidamente etiquetada com meu nome e endereço, apareceu.
O gerente ficou tão indignado com a negligência de seus funcionários que me pagou os $100 que deveriam ter-me dado nas primeiras 24 horas do desaparecimento e me ofereceu como indenização uma passagem de ida e volta para a Espanha, “se eu aceitasse, naturalmente.”
Ho ho ho… sim, sim, sim. Para o final do ano.
Para mim era melhor e mais rápido que uma ação judicial.
Em três meses consegui que um colega me substituí­sse nas consultorias, embalei meu passado em caixas enormes, sofrendo a cada livro que não podia trazer, a cada objeto que havia pertencido ao Lorde, a cada quadro que pintara a Princesa em seus tempos de jovem aspirante a artista, suas peças de cerâmica, seus santos de madeira…
Minha história inteira foi selecionada em o que guardar, o que levar, o que jogar fora. E minha história incluí­a outras histórias, anteriores a mim, anteriores a minha memória. Objetos, fotografias, quadros e livros que foram de meus avós. Móveis que foram de meus bisavós…
Não era um exercí­cio muito fácil de fazer. Mas era necessário.
Assim, embalei o que não foi possí­vel me desprender, emprestei ou presenteei o resto que não podia trazer e trouxe a essência da essência da essência dos meus anos. Minhas máscaras venezianas, duas luminárias e dois quadros da Princesa, uma estatueta de marfim do Lorde, seus cachimbos, fotografias de famí­lia, alguns poucos livros (pouquí­ssimos, ai meu Deus!) e todos os meus quatrocentos e sessenta e dois CDs. Todos. Cada mala vinha recheada de CDs, sem as capas plásticas, mas envolvidos nos libretos de papel. Isso eu não podia deixar de forma alguma. Cada vez que arrumava as malas, me aparecia uma coisa a mais para tirar… e outra para entrar. Um verdadeiro inferno!
Finalmente, com quatro malas grandes, duas mochilas e a permissão para bagagem extraordinária assinada pelo meu amigo gerente, cheguei ao aeroporto de Recife triunfante! Vestida para o inverno madrilenho, cabelos escovados, castanhos e normais, botas antigas, negras e discretí­ssimas. Despedi-me da famí­lia e amigos mais í­ntimos e tomei o avião para o começo de uma nova fase na minha vida. Sem choro nem velas! Estava feliz e segura de que tudo ia dar certo… tinha que dar certo!
Para coroar o momento, na hora de embarcar, ganhei um upgrade para viajar em primeira classe, com direito a champanha e jantar especial.
Uau!!! Agora sim…os aeroportos estavam aprendendo a gostar de mim!
Desci em Madrid confiante e feliz…Todas as malas chegaram comigo… Ele estava no portão certo, esperando-me com seu olhar-de-mar-azul e o sorriso de derreter iceberg…
-Por fim!
Perfeito!
Parece que não…De repente notei que meu andar estava capengando…como assim?
Assim. Olhei para o chão notei pedacinhos de borracha num rastro negro que vinha atrás de mim. As antigas botas que eu havia escolhido para usar sem sustos naquela viagem estavam se desfazendo a cada passo que eu dava. O salto de uma delas já estava totalmente esfarelado e o outro estava começando o mesmo processo de esfacelamento! Tanto tempo sem usá-las e agora queriam me matar de vergonha!
Ele me olhou e soltou uma estrondosa gargalhada…Bingo!
Era mesmo essa a mulher que ele esperava para começar a dividir seu mundo e seus dias.
No mí­nimo eu lhe faria rir.
Sorri também e continuei em frente.
Ninguém viu… Ninguém.

* O Mundo Em Nossas Mãos

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