O Lorde e Seus Ví­cios…

O Lorde fumava. De tudo. Cigarros, cachimbo, charutos. Era um fumante inveterado, desses que desperta no meio da noite para acender um cigarro. Uma vez dormiu com um entre os dedos e quase provocou um incêndio na cama.
Era seu ví­cio incontrolável. Fumava Hollywood sem filtro, charutos importados de Havana e fumos ingleses like Half&Half.
Além do prazer que sentia em fumar, tinha verdadeira adoração por seus cachimbos importados. Passava horas limpando-os. Tinha até mesmo uma caixinha de instrumentos especiais para a tarefa. Era como um ritual que executava com paciência e cuidado, cantarolando os Cantos Gregorianos ou as Cantatas de Bach, nos domingos de chuva pesada e caudalosa que Casa Forte nos dava de presente.
Eu gostava da imagem que via. Tanto que guardo-a até hoje na lembrança. A música, o janelão aberto para o grande sí­tio de árvores centenárias, o braço do rio Capibaribe colado no muro, coberto por baronesas enormes. E a figura de meu pai, recortada nessa paisagem, imerso em suas paixões. A música, os livros e o tabaco.
Até muito tempo após sua morte, o gabinete tinha o cheiro do Lorde. E, apesar do que possam pensar, ele não cheirava mal. Cheirava a um Lorde. Um mistura de colônia inglesa, linho, tabaco e conhaque. Um cheiro que ” sinto” ainda, basta recordar de sua figura única.
Ele tinha uma coleção de cinzeiros espalhada pela casa digna de museu. Vinham de todos os paí­ses que havia visitado, de todos os hotéis onde havia se hospedado, de quase todos os restaurantes onde havia comido. Era um Lorde, mas adorava roubar cinzeiros. Tinha-os de madeira, chumbo, cobre, cristal, cerâmica, louça,porcelana…
Nenhum deles era enfeite. Usava todos. E a maioria tinha história.

A melhor de todas foi a que lhe aconteceu num restaurante tradicional de Recife. Um desses restaurantes finos, cheio de frescuras, como ele gostava.
Depois de comer com um grupo de amigos, foi servido o café, os licores e conhaques e meu pai sacou da caixinha de couro um de seus perfumados charutos. O maitre trouxe um cinzeiro lindo, com a marca do restaurante. Pronto. Esse estava morto. Mais um fadado a fazer parte de sua coleção.
Depois de pagarem a conta, quando meu pai já se dirigia para a porta, com o cinzeiro dentro do bolso do paletó, o maitre se aproximou com um embrulho na mão.
– Com sua licença, doutor. Leve esse que está limpo.
– Como? Meu pai perguntou, surpreso.
– O cinzeiro, doutor. Esse aqui está limpo. E mostrou o embrulho bem arrumado em um guardanapo de papel.
O Lorde avermelhou de constrangimento. Mas não se encolheu. E com sua voz grave e séria, perguntou:
– Você quer estragar minha coleção é, rapaz?
Aí­ foi o maitre quem ficou surpreso.
– Como doutor?
– Minha coleção é de cinzeiros roubados, rapaz. Não doados. Roubados, entendeu?
– Sim senhor… entendi senhor.
E meu pai saiu do restaurante com seu passo londrino, de cabeça erguida, como se o ofendido tivesse sido ele.
Voltou ao mesmo restaurante inúmeras vezes. O maitre sempre o recebia com um sorriso cúmplice de velhos amigos, donos do mesmo segredo. E eram.

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