Voz no Vento…

Abriu a janela lentamente, com um esforço brutal, temendo debruçar-se e não resistir ao chamado do vento. Acendeu um cigarro… para ganhar tempo.
Debruçou-se, apesar do medo.
Quanto tempo dura um cigarro? Quanto tempo ele retirava de sua vida?
Aquele durou o suficiente para mostrar-lhe uma cena: muitos andares abaixo do seu apartamento, decorado com cuidado e bom gosto, estava a favela. Assim era aquele bairro. Os edifícios de 15 andares colados com pequenas “manchas” de barracos.
No quintal de um deles, uma mulher dobrava o corpo diante da bacia prateada pelo sol. Vestia blusa sem mangas, decotada, vermelho-paixão. A saia estampada entrava por entre as pernas entreabertas. Os pés descalços – unhas pintadas de rubro – eram duas fortes patas de águia prendendo a mulher ao chão.
A seu lado, a lata enferrujada cheia de água. A mulher jogava água na bacia e esfregava a roupa ensaboada por uma daquelas antigas barras de sabão amarelo. Cantava com voz suave, que subia sem barreiras até as últimas janelas do edifício.
Que música era aquela? Parecia uma canção de ninar.
Como podia cantar tão bonito se estava cercada de tamanha pobreza? Como podia ser doce e feliz a voz que vinha de uma garganta sufocada em um corpo encarcerado no pequeno quintal de terra batida, entrincheirado pelos arranha-céus?
Ela nunca olhava para baixo – a pequena favela era feia e triste.
Ela só olhava para o longe, para o lindo horizonte embaçado pela névoa do dia e enfeitado de falsas estrelas coloridas, à noite.
Era bonito…
Talvez apenas porque era longe… T

Talvez por ali ela pudesse escapar para longe deste insensato mundo.
A voz da mulher abriu uma fenda na névoa do seu olhar.
O que era mais insensato: ela e sua tristeza sem nome, sua vontade de fugir sem saber para onde?
Ela e suas impossibilidades de escapar da auto-compaixão?
Ela e sua atração mórbida e medrosa pela loucura ou pela morte?
Para onde a levariam?

Ninguém que seguiu um desses caminhos provou que havia sensatez neles.
Quem já voltou da loucura não recorda lógica alguma nela. O mundo não foi melhor para si, nem para os outros que lhe rodeavam.
E quem disse que voltou da morte, por algum acidente inexplicável de apego à vida, encontrou nesta mais razão de ser que na outra, apesar de seu túnel de luz calma e tranquila.
Fechou os olhos e deixou a voz e o vento acariciarem seu rosto como um gesto, secarem as suas lágrimas como um beijo. Que estranho momento foi aquele! Tão pouco durou … mas ofereceu-lhe uma outra forma de ver a própria vida.
Ela não estava louca – nem morta.
Estava viva e podia escolher ser feliz.
Fechou a janela, abriu a porta do apartamento e saiu…

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Categorias: Cicatrizes da Alma | Tags: | Deixe um comentário

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