Presente de Natal…

Véspera de Natal.
E eu tirei o dia de folga. Nada de arrumar, limpar, guardar, comprar. Já estava tudo perfeito desde o dia anterior. Aquele era dia para descansar. Queria-o só para mim. Acordei tarde e fui ao salão de beleza, cuidar da casca…
Estava recém saí­da daquele poço profundo e escuro.
Queria retocar cabelo, unhas, sobrancelhas. Tudo o que me permitisse ficar ali, recebendo dengos.
Curtir os momentos relaxados de escutar as conversas fiadas entre desconhecidas. Todas parecendo tão felizes! Cafezinhos, bolachinhas…ti-ti-ti!
Ah, como era bom fingir de dondoca… Igual àquelas de cabelos aloirados pelas tintas mágicas da L´Oreal.
Começo de dia bom. Dia de Mulher-Chic… e eu gostando!
Almocei com a minha mãe. E depois de um café e um licor, mais dengos. A Princesa gostava…e eu também!
Então…
Voltei para casa, pensando em ouvir as Suites de Bach para violoncelo, dormir um pouquinho na casa limpa, sozinha… Ahamn! Um sooono!
Dei de cara com o rosto apavorado do porteiro, já na garagem:
– A Sra. deixou uma torneira aberta. Quando a água chegou, inundou tudo. Só descobrimos quando começou a escorrer pelas escadas.
– Hem?! Não é comigo. Não pode ser COMIGO! Continuei andando. E o porteiro me seguindo.
Era. Era comigo.
Pânico!
Entrei em casa e estava tudo, absolutamente tudo ensopado. Tapete, almofadas, quarto, cozinha! Eu andava e fazia poft…poft…poft… Os pés provocando ondinhas. Água por todo lado!
Tive vontade de fechar a porta e fugir. Deixar o tempo secar tudo. Mas o porteiro estava ali. Era testemunha de que EU VI.
Fechei os olhos. Não adiantou.
Tive vontade de voltar no tempo e nada aconteceu... “…apenas seguirei como encantada…”
Tive vontade de beber a garrafa inteirinha de whisky que estava na estante.
Tive vontade de jogar tudo pela janela. Era tão pouquinho mesmo.
Tive vontade de sentar e chorar…
Procurei uma ilha e sentei na única parte seca da casa , diante do computador, no quarto da minha filha. Ela estava morando nos EUA e eu tentava esquecer a falta que me fazia.
Abri meus e-mails. Muitos eram cartões de ” Feliz Natal ” dos amigos.
Havia uma carta dela dizendo que me amava muito. Eu também… eu também…
Acendi um cigarro e pensei… ” nunca mais volto para a sala…” Ficaria ali por toda a minha vida.
Meu reino por uma faxineira!
– Que reino?
– Cadê meu anjo?!
Nem o porteiro estava mais!
Três horas e meia tirando tudo do lugar, secando o chão, mandando um tapete de quatro toneladas para a garagem. De camiseta e calcinha, rabo de cavalo, dançava e bebia um whisky na sala úmida. Foi a melhor opção.
Adeus mulher dondoca! Adeus cabelos escovados! Adeus dia de delí­cias!
Adeus Bach!

Botei um disco de Roberto Carlos, dos antigos… para lembrar que era Natal, que dali a pouco estaria com meus irmãos e minha mãe, comendo e bebendo!
– Por quanto tempo ainda a terí­amos por perto?
Dancei… “Ah! esse amor selvagem, passagem…pra loucura e pra dor…”
Era mais feliz agora.
Achei que era louca.
Depois pensei que não devia ser, senão teria ido embora e deixado tudo como estava. Ou pior, jogado tudo pela janela do 15· andar.
Por falar em janela… da minha eu podia ver as verdadeiras mulheres-dondocas saindo do shopping em seus carros importados, com motorista e tudo! Para elas só a cor dos cabelos era falso. O resto era tudo verdade!
Aí­ sentei de novo e resolvi escrever. Registrar o inusitado presente de Papai Noel, que piscava como um sinal de que a vida podia mudar nossos planos de uma hora para outra…
Tudo era possí­vel acontecer no dia de Natal? Inclusive uma inundação no 15° andar de um prédio, aparentemente inatingí­vel pelas águas, em pleno racionamento da seca no Nordeste do Brasil!?
Embora parte da responsabilidade seja sempre nossa, às vezes o mundo gira ao contrário!
Não lembrava de ter deixado a torneira aberta E, realmente, só estava mal fechada. O que dava no mesmo…
Escrevi que mais tarde faria um brinde silencioso a mim mesma. Por eu ter saí­do definitivamente do poço, por eu não ter desabado de novo na tristeza, por estar suportando com raça a grave doença da Princesa.
Como mostravam os filmes natalinos que eu via quando era criança, a felicidade era um momento mágico, e a mágica devia estar mesmo dentro da gente…
A sala já estava seca. A cozinha, o banheiro e os quartos ainda úmidos, mas menos ameaçadores. Já tinha Bach para violoncelo tocando alto no som…
Nem pulei pela janela…
Sentia uma estranha alegria no coração…
Talvez porque era Natal…
Mas… se eu nem gosto de Natais!

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Categorias: Corpo&Alma de Mulher | Tags: , | Deixe um comentário

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