Arquivo do mês: dezembro 2004

Leão do Norte…

“Eu sou mameluco, sou de Casa Forte… sou de Pernambuco, eu sou Leão do Norte.”
Agora já canto Lenine a cada segundo do dia…
Faltam apenas 5 horas para voar ao Brasil…
Estou numa ânsia que só vendo! Depois de dois anos vou rever meu passado, minha gente, meu mar!
Espero que possa, alguma vez, postar de lá.
Deixei dois antigos posts republicados, só para que não desapareçam daqui. O curioso é que escolhi duas cartas… cada uma escrita num tempo distinto.Talvez nelas alguns de vocês encontrem um presente de Natal!

 

Desejo a todos um Feliz Natal!
Muitos beijos!!!!

Categorias: Curtinhas | Tags: | Deixe um comentário

Carta de Amor…

Hoje eu queria te dar mil beijos, satisfazer teus desejos, te mostrar que sou teu par.
Hoje eu queria te fazer bem pela vida afora…
Te dar O Amor nos Tempos do Cólera para lermos juntos, um dia, na rede do invernadeiro.
Queria te contar mil estórias.
Te fazer rir até a boca doer. Até você se jogar num chão de areia branquinha e ficar soluçando de riso desperdiçado, espalhado, expandido, os braços abertos, a cabeça em meu colo até dormir de cansado…
Queria te fazer contente, como em dia de aniversário ou dia dos namorados, ou dos natais da infância.
Te dar meus sorrisos cheio de covinhas, meu colo macio, meu alento.
Queria te dar, numa cesta de vime, mil presentes: um adágio de Bach, duas estrelas cadentes, um prato de camarões vermelhos lá do bar da velha Beata, perto daquele rio…
Um por do sol rosado, incandescente, por trás das casuarinas. Daqueles bem demorados, por causa dos dias tristes…
O melhor banho de chuva do mundo, na Estrada Real do Poço, pulando com os dois pés na maior poça da rua, nos dois molhados até os ossos. Gargalhando… gargalhando…
Um abraço no meu Baobá, que só eu sei que é meu… e onde está.
Uma taça de vinho tinto, para esquentar o coração.
Ingressos para o festival de ópera de Verona, com estadia em Veneza… tudo grátis… tudo grátis!
Um sorvete de casquinha, o sabor você escolhe: cajá, pinha, pitanga?
Um algodão doce crequento, daquele antigo, feito em bacia. Parece nuvem…parece nuvem!
Limpar-nos os rostos a beijos doces.Tão doces!
Um Aleph, no décimo nono degrau de alguma escada, porque o J.L.Borges disse que se vê toda a vida e tudo em um mísero e rápido olhar…
Uma lua nascendo enorme, para você agradecer à vida.

Um búzio grande e rosado para voce ouvir o mar, qualquer mar que recorde…chuam!chuam!
Um caleidoscópio de lata, que faz txim..txim quando você o gira e vê mil formas coloridas. E voce ri como doido. E descobre como é bom rir como doido.
Toda a alegria que couber em você e o que derramar, você distribui por aí.
Uma caixinha de biscoitos da sorte. Cada um com uma mensagem de boa ventura. E se sentarmos para comer tudo de uma vez, teremos toda a sorte da vida num só dia…
Uma fogueirinha com todas as mágoas e maldades que a vida tenha deixado em você. E com a fumaça, o esquecimento. Assim faziam os índios, não?
Duas lembranças gostosas por dia, daquelas que fazem a gente ficar com o olhar fixo e perdido, um meio sorriso nos lábios e …depois um longo e ruidoso suspiro.
Uma lata grande de paz, mas só abra de vez em quando. Na natureza profunda, muita paz é como a morte. É preciso alguma forma de sofrimento, alguma dor de saudade para gente saber vale a pena estar vivo…” Mesmo uma pedra é uma dança de elétrons.” li em algum lugar. Nunca esqueci.
Então… ponho um vidro grande de lágrimas quentes, para o caso de precisar…
É preciso que dance sua música…e às vezes ela pode ser triste.
Mas também ponho uma cartola com o fundo falso e lenços coloridos, para voce fingir de Mandrake…palmas!palmas!
E um papagaio que fale mil e uma sacanagens, para voce embolar de rir, mesmo já sabendo delas todas.
Também tem uma caixinha com vários tipos de silêncios, para você escolher aquele que mais precise…
Ah! e dez noites seguidas de sono perfeito. E quantas quiser de amor bem feito…
Uma cortina de longos e castanhos cabelos, para vestir seu corpo de arrepios. Um par de olhos molhados, pedintes, entregues. Uma boca de lábios sedentos…e mil beijos de borboleta.
Um sonho bom como se fosse verdade.
Uma verdade que parece um sonho.
Um mar com um arco-iris…
E todo o amor da mulher que voce escolheu para amar.

Categorias: Coisas de Amor | Tags: , | Deixe um comentário

Cartas de Madrugada…

Havia uma banheira de mármore branco na casa onde eu morava, em Casa Forte. Na época, havia um braço de rio que lambia o muro. E palmeiras, como na poesia…
“Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá”…
Lá viviam muitos sabiás, centenas deles.
Mas eu falava da banheira que ficava bem ao lado do gabinete cheio de livros e discos. Os tesouros da casa.
Eu gostava de prepará-la para o banho. Era um ritual lento. Abrir a torneira, deixar correr a água, escolher a música. Um prazer antecipado imaginar-me dentro da concha de água cálida…
O ritual era muito mais que um banho. Mergulhar o corpo e deixar a água e a música passear pela superfí­cie da pele numa carí­cia sensual e paciente… Deixava a porta aberta, porque o gabinete, o quarto e o banheiro formavam um núcleo meio separado do resto da casa. Bastava fechar a porta do corredor e tudo o mais era só meu.
Rituais constantes das noites quentes, sinto desesperadamente a falta dela, neste calor de pedra do edifí­cio poente, onde falta água a lém de brisa.

Agora eu vivo aqui, neste pombal, em cima de 14 outros andares, habitados por desconhecidos outros, donos da mesma fantasia de pedaço… e sinto uma saudade da concha de mármore como de uma irmã.
Ela sabia de mim tanto ou mais do que eu. Descobriu comigo o meu corpo, o crescimento dos seios, os pêlos de mulher… Acolheu meus choros de menina-moça, apaixonada por uns verdes e impossí­veis olhos.
E, a medida que eu crescia, por dentro e por fora, bastava uma saudade, uma tristeza, uma paixão e o ritual aumentava em detalhes. Às vezes, apagava todas as luzes e deixava apenas a claridade do céu lá fora passando pelo vidro da janela ou acendia uma pequena vela perfumada… Sempre adorei perfumes e velas.
Quando havia lua cheia era imprescindí­vel apagar a luz.
As músicas também mudavam, de acordo com o estado de espí­rito.
Prelúdio ou Bachiannas, de Villa Lobos, para as viagens do coração. Noturno, de Chopin, e Sonata ao Luar, de Beethoven, para as saudades. Concertos de Brandenburgo, de Bach, para as tristezas profundas.
Bolero de Ravel e Prí­ncipe Igor, para as noites mais quentes, mais cheias de ânsias.
Beatles para as noites de Because ou Something.
Às vezes, Mahalia Jackson me embalava em The Upper Room ou Billie Holiday em I Cried for You.
Rachmaninoff para as noites de paz.
Eram tantas e tantas músicas!
Aí­ você me pergunta: “E daí­? Por que essa conversa de banheira, palmeiras?”
Porque eu queria te falar de saudades, de mim, de Casa Forte, do meu exí­lio neste rua sem rio, sem palmeiras nem sabiás. Sem brisa, sem sussurro de árvores, sem cantigas de sapos e grilos. Sem meus vaga-lumes queridos. Onde a chuva não cheira a mangueiras e terra molhada. Aqui a chuva tem cheiro de asfalto e esgoto.
Porque aqui a lua só chega depois que todos já se foram e… porque minhas estrelas são falsas. Um milhão de luzinhas de todas as cores piscando no chão das favelas distantes, onde não moram prí­ncipes nem rosas.
Ou só porque a banheira e a lua foram cúmplices de muitos desejos contidos, saudades e paixões.
Ou apenas porque não há água e na falta, parece que o desejo cresce.
Enquanto isso escuto aqui O Paciente Inglês, de Gabriel Yared, e imagino se eu tivesse – ah! se eu tivesse! – a banheira de Casa Forte, meus intermináveis banhos noturnos… a água levemente aquecida, a paciência com minhas silenciosas confidências, a companhia das músicas, o tempo que não tinha pressa, a cúmplice e irmã de minhas noites de verão!
Sua lembrança me recorda como eu era, tão encantada como a lua de lá.Crescendo, crescida, cheia de luz.
Não sei como você vai receber isso. Desculpe-me, mas estou apenas dividindo com você minhas saudades. Antigos fantasmas que dançam entre minha rede e a lua.
Então eu vim lhe escrever. Porque é bom lhe escrever. Porque você gosta que eu lhe escreva…
E que calor faz essa noite!
Por melancolia, talvez.
E um gostinho de solidão na taça de vinho tinto…

Categorias: Coisas de Amor | Tags: | Deixe um comentário

Contagem Regressiva…

Faltam poucos dias para a partida… e pouco tempo para postar.
Escolhi então, para representar meus sentimentos, um trecho da música que soa ao ritmo de meu coração…
A ponte não é de concreto, não é de ferro
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento
A ponte não é para ir nem pra voltar
A ponte é somente pra atravessar
Caminhar sobre as águas desse momento
(Lenine-Lula Queiroga)

 

 

 

 

 Foto: Recife.

Categorias: Memórias e Saudades, Outro Fala Por Mim | Tags: | Deixe um comentário

A Caixa…

Entrei na agencia dos correios do bairro com a caixa na mão. Era uma dessas agencias minúsculas, cujo horário está condicionado a que passe a furgoneta que coleta a correspondência para levar à principal, ainda a tempo de ser enviada naquele mesmo dia. Era imprescindí­vel para mim enviá-la naquele dia, ao que somando mais dez, seria aberta na data desejada.
A caixa havia sido preparada com todo cuidado. Um ritual na escolha de cada componente do quebra-cabeças. Na verdade, não queria que fosse um quebra-cabeças, mas tinha uma seqüencia a ser seguida.
Faltavam poucos minutos para encerrar o horário de expedição dos Correios quando cheguei ao balcão, depois de esperar com impaciência a minha vez. Nunca sou muito tolerante com as esperas em filas. E menos naquele dia.
O homem que me atendeu deu-me um formulário para preencher, onde eu tinha que descrever o conteúdo e o valor de cada objeto. Preenchi. Ele leu. Olhou-me com cara de curioso. Disse-me que eu tinha que abri-la. Perguntei por que. Por causa da faca, ele disse. Não é uma faca, é um abre-cartas, contestei. Tem que abrir, não sei se ela pode entrar no paí­s. Existe um código, insistiu.
A furgoneta chegou. Não quis discutir. Abri.
Dentro havia um pacote embrulhado em papel de seda azul. Desfiz o embrulho e ele ficou olhando os objetos, devidamente numerados, com uma cara engraçada.
1.Uma garrafinha miniatura com uma mensagem dentro.
2.Um pergaminho com um antigo mapa do Brasil.
3.Um búzio do mar.
4.Um abre-cartas de metal trabalhado.
5.Uma carta.
6.Um CD com a foto de uma bússola como capa, gravado com as minhas músicas prediletas, chamado “Carta de Navegação”
7.Um livro de Garcia Lorca. “Poemas de Amor Obscuro”


Ele ficou ali, olhando para aquele monte de coisas, como querendo entender, saber mais, até que notou a fila atrás de mim. Chamou uma ajudante para a fila, pegou o abre-cartas e foi falar com a gerente. Voltou com um sorriso largo dizendo que se fosse para os EUA não podia, mas para a Espanha sim.
Disse-lhe que aquilo tinha que ir AGORA!
Ele chamou o sujeito da furgoneta ao lado pedindo-lhe para esperar uns minutinhos. E sorridente, ignorando o resto da agencia, tomou-se de cuidados com meu pacote. Ajudou-me a embrulhar tudo outra vez. Foi buscar uma caixa mais bonita e papel para preencher os espaços e manter o conteúdo mais protegido. Depois disse, com cara de cúmplice: Ele vai gostar.
Agradeci pela ajuda e saí­ rindo do posto de correio, pensando que só faltara me pedir para voltar lá e contar a ele a reação do dono da caixa.

Categorias: Coisas de Amor | Tags: | Deixe um comentário

Dois Anos Depois…( Cap11)

Muitos leitores desta página dividiram comigo as ânsias, sofrimentos e prazeres de uma história de amor que demorou aaaaanos para se concretizar.
Da primeira troca de olhares – em 1995 – até minha chegada à Espanha – em 2002 -muitos sonhos, muitas dores, muitos encontros e desencontros se passaram.
Neste mês comemoramos dois anos de convivência amorosa e feliz, com dois presentes.
O primeiro é que exatamente hoje, no primeiro dia de dezembro, formamos um “casal de fato.” Temos um documento que reza oficialmente: somos “una pareja de hecho”.

Champanha na geladeira! Tin.tin!
Mais uma vez o sol, que ontem brilhava dourado sobre os campos frios e cobertos de folhas, decidiu guardar os raios e deixar que a chuva e o vento cobrissem o meu monte.
Normal. Não é a primeira vez que chove sobre meu telhado em meus dias especiais e particulares.
Agora com todo direito que lhe cabe. O outono anda pelos últimos suspiros… até que no dia 21, chegue oficialmente o inverno.
Apesar de estarmos dispostos a viver juntos todas as estações, este ano vamos roubar um pedacinho do verão nordestino… e este é o segundo presente.
Estamos com data marcada para uma viagem ao Brasil. No dia 20 deste mês vamos comemorar com os amigos de Recife, além das festas de final de ano, o feliz resultado de nosso encontro.
Para marcar o dia de hoje e dividir minha alegria também com meus amigos do blog, publico um lindo poema de um bom poeta pernambucano, que diz exatamente o que eu venho dizendo a Olhos-de-Mar-Azul nesses dois anos juntos.
………………………

Dulcí­ssimo senhor, dono de meus amores,
escrevo esse poema docemente
assim como quem dorme, assim dormente,
a construir segredos sobre as flores
Traduzo deste sonho seu enredo
que se não sonho durmo, e o sono é nulo
pagando como um morto seu pecúlio
de ser fiel ao chão e amar seu medo
Mas gosto de viver, desde dezembro,
teu nome, tão mais forte do que chamo
incrivelmente puro, agudo acento,
Criando sobre o tudo o nada atento,
e o sonho é pouco menos do que amo
se estás ao meu redor enquanto lembro.

Waydson de Barros Leal
*foto de Margarida Delgado Casal

Categorias: Coisas de Amor | Tags: | Deixe um comentário