A Caixa…

Entrei na agencia dos correios do bairro com a caixa na mão. Era uma dessas agencias minúsculas, cujo horário está condicionado a que passe a furgoneta que coleta a correspondência para levar à principal, ainda a tempo de ser enviada naquele mesmo dia. Era imprescindí­vel para mim enviá-la naquele dia, ao que somando mais dez, seria aberta na data desejada.
A caixa havia sido preparada com todo cuidado. Um ritual na escolha de cada componente do quebra-cabeças. Na verdade, não queria que fosse um quebra-cabeças, mas tinha uma seqüencia a ser seguida.
Faltavam poucos minutos para encerrar o horário de expedição dos Correios quando cheguei ao balcão, depois de esperar com impaciência a minha vez. Nunca sou muito tolerante com as esperas em filas. E menos naquele dia.
O homem que me atendeu deu-me um formulário para preencher, onde eu tinha que descrever o conteúdo e o valor de cada objeto. Preenchi. Ele leu. Olhou-me com cara de curioso. Disse-me que eu tinha que abri-la. Perguntei por que. Por causa da faca, ele disse. Não é uma faca, é um abre-cartas, contestei. Tem que abrir, não sei se ela pode entrar no paí­s. Existe um código, insistiu.
A furgoneta chegou. Não quis discutir. Abri.
Dentro havia um pacote embrulhado em papel de seda azul. Desfiz o embrulho e ele ficou olhando os objetos, devidamente numerados, com uma cara engraçada.
1.Uma garrafinha miniatura com uma mensagem dentro.
2.Um pergaminho com um antigo mapa do Brasil.
3.Um búzio do mar.
4.Um abre-cartas de metal trabalhado.
5.Uma carta.
6.Um CD com a foto de uma bússola como capa, gravado com as minhas músicas prediletas, chamado “Carta de Navegação”
7.Um livro de Garcia Lorca. “Poemas de Amor Obscuro”


Ele ficou ali, olhando para aquele monte de coisas, como querendo entender, saber mais, até que notou a fila atrás de mim. Chamou uma ajudante para a fila, pegou o abre-cartas e foi falar com a gerente. Voltou com um sorriso largo dizendo que se fosse para os EUA não podia, mas para a Espanha sim.
Disse-lhe que aquilo tinha que ir AGORA!
Ele chamou o sujeito da furgoneta ao lado pedindo-lhe para esperar uns minutinhos. E sorridente, ignorando o resto da agencia, tomou-se de cuidados com meu pacote. Ajudou-me a embrulhar tudo outra vez. Foi buscar uma caixa mais bonita e papel para preencher os espaços e manter o conteúdo mais protegido. Depois disse, com cara de cúmplice: Ele vai gostar.
Agradeci pela ajuda e saí­ rindo do posto de correio, pensando que só faltara me pedir para voltar lá e contar a ele a reação do dono da caixa.

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Categorias: Coisas de Amor | Tags: | Deixe um comentário

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