Arquivo do dia: dezembro 19, 2004

Leão do Norte…

“Eu sou mameluco, sou de Casa Forte… sou de Pernambuco, eu sou Leão do Norte.”
Agora já canto Lenine a cada segundo do dia…
Faltam apenas 5 horas para voar ao Brasil…
Estou numa ânsia que só vendo! Depois de dois anos vou rever meu passado, minha gente, meu mar!
Espero que possa, alguma vez, postar de lá.
Deixei dois antigos posts republicados, só para que não desapareçam daqui. O curioso é que escolhi duas cartas… cada uma escrita num tempo distinto.Talvez nelas alguns de vocês encontrem um presente de Natal!

 

Desejo a todos um Feliz Natal!
Muitos beijos!!!!

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Carta de Amor…

Hoje eu queria te dar mil beijos, satisfazer teus desejos, te mostrar que sou teu par.
Hoje eu queria te fazer bem pela vida afora…
Te dar O Amor nos Tempos do Cólera para lermos juntos, um dia, na rede do invernadeiro.
Queria te contar mil estórias.
Te fazer rir até a boca doer. Até você se jogar num chão de areia branquinha e ficar soluçando de riso desperdiçado, espalhado, expandido, os braços abertos, a cabeça em meu colo até dormir de cansado…
Queria te fazer contente, como em dia de aniversário ou dia dos namorados, ou dos natais da infância.
Te dar meus sorrisos cheio de covinhas, meu colo macio, meu alento.
Queria te dar, numa cesta de vime, mil presentes: um adágio de Bach, duas estrelas cadentes, um prato de camarões vermelhos lá do bar da velha Beata, perto daquele rio…
Um por do sol rosado, incandescente, por trás das casuarinas. Daqueles bem demorados, por causa dos dias tristes…
O melhor banho de chuva do mundo, na Estrada Real do Poço, pulando com os dois pés na maior poça da rua, nos dois molhados até os ossos. Gargalhando… gargalhando…
Um abraço no meu Baobá, que só eu sei que é meu… e onde está.
Uma taça de vinho tinto, para esquentar o coração.
Ingressos para o festival de ópera de Verona, com estadia em Veneza… tudo grátis… tudo grátis!
Um sorvete de casquinha, o sabor você escolhe: cajá, pinha, pitanga?
Um algodão doce crequento, daquele antigo, feito em bacia. Parece nuvem…parece nuvem!
Limpar-nos os rostos a beijos doces.Tão doces!
Um Aleph, no décimo nono degrau de alguma escada, porque o J.L.Borges disse que se vê toda a vida e tudo em um mísero e rápido olhar…
Uma lua nascendo enorme, para você agradecer à vida.

Um búzio grande e rosado para voce ouvir o mar, qualquer mar que recorde…chuam!chuam!
Um caleidoscópio de lata, que faz txim..txim quando você o gira e vê mil formas coloridas. E voce ri como doido. E descobre como é bom rir como doido.
Toda a alegria que couber em você e o que derramar, você distribui por aí.
Uma caixinha de biscoitos da sorte. Cada um com uma mensagem de boa ventura. E se sentarmos para comer tudo de uma vez, teremos toda a sorte da vida num só dia…
Uma fogueirinha com todas as mágoas e maldades que a vida tenha deixado em você. E com a fumaça, o esquecimento. Assim faziam os índios, não?
Duas lembranças gostosas por dia, daquelas que fazem a gente ficar com o olhar fixo e perdido, um meio sorriso nos lábios e …depois um longo e ruidoso suspiro.
Uma lata grande de paz, mas só abra de vez em quando. Na natureza profunda, muita paz é como a morte. É preciso alguma forma de sofrimento, alguma dor de saudade para gente saber vale a pena estar vivo…” Mesmo uma pedra é uma dança de elétrons.” li em algum lugar. Nunca esqueci.
Então… ponho um vidro grande de lágrimas quentes, para o caso de precisar…
É preciso que dance sua música…e às vezes ela pode ser triste.
Mas também ponho uma cartola com o fundo falso e lenços coloridos, para voce fingir de Mandrake…palmas!palmas!
E um papagaio que fale mil e uma sacanagens, para voce embolar de rir, mesmo já sabendo delas todas.
Também tem uma caixinha com vários tipos de silêncios, para você escolher aquele que mais precise…
Ah! e dez noites seguidas de sono perfeito. E quantas quiser de amor bem feito…
Uma cortina de longos e castanhos cabelos, para vestir seu corpo de arrepios. Um par de olhos molhados, pedintes, entregues. Uma boca de lábios sedentos…e mil beijos de borboleta.
Um sonho bom como se fosse verdade.
Uma verdade que parece um sonho.
Um mar com um arco-iris…
E todo o amor da mulher que voce escolheu para amar.

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Cartas de Madrugada…

Havia uma banheira de mármore branco na casa onde eu morava, em Casa Forte. Na época, havia um braço de rio que lambia o muro. E palmeiras, como na poesia…
“Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá”…
Lá viviam muitos sabiás, centenas deles.
Mas eu falava da banheira que ficava bem ao lado do gabinete cheio de livros e discos. Os tesouros da casa.
Eu gostava de prepará-la para o banho. Era um ritual lento. Abrir a torneira, deixar correr a água, escolher a música. Um prazer antecipado imaginar-me dentro da concha de água cálida…
O ritual era muito mais que um banho. Mergulhar o corpo e deixar a água e a música passear pela superfí­cie da pele numa carí­cia sensual e paciente… Deixava a porta aberta, porque o gabinete, o quarto e o banheiro formavam um núcleo meio separado do resto da casa. Bastava fechar a porta do corredor e tudo o mais era só meu.
Rituais constantes das noites quentes, sinto desesperadamente a falta dela, neste calor de pedra do edifí­cio poente, onde falta água a lém de brisa.

Agora eu vivo aqui, neste pombal, em cima de 14 outros andares, habitados por desconhecidos outros, donos da mesma fantasia de pedaço… e sinto uma saudade da concha de mármore como de uma irmã.
Ela sabia de mim tanto ou mais do que eu. Descobriu comigo o meu corpo, o crescimento dos seios, os pêlos de mulher… Acolheu meus choros de menina-moça, apaixonada por uns verdes e impossí­veis olhos.
E, a medida que eu crescia, por dentro e por fora, bastava uma saudade, uma tristeza, uma paixão e o ritual aumentava em detalhes. Às vezes, apagava todas as luzes e deixava apenas a claridade do céu lá fora passando pelo vidro da janela ou acendia uma pequena vela perfumada… Sempre adorei perfumes e velas.
Quando havia lua cheia era imprescindí­vel apagar a luz.
As músicas também mudavam, de acordo com o estado de espí­rito.
Prelúdio ou Bachiannas, de Villa Lobos, para as viagens do coração. Noturno, de Chopin, e Sonata ao Luar, de Beethoven, para as saudades. Concertos de Brandenburgo, de Bach, para as tristezas profundas.
Bolero de Ravel e Prí­ncipe Igor, para as noites mais quentes, mais cheias de ânsias.
Beatles para as noites de Because ou Something.
Às vezes, Mahalia Jackson me embalava em The Upper Room ou Billie Holiday em I Cried for You.
Rachmaninoff para as noites de paz.
Eram tantas e tantas músicas!
Aí­ você me pergunta: “E daí­? Por que essa conversa de banheira, palmeiras?”
Porque eu queria te falar de saudades, de mim, de Casa Forte, do meu exí­lio neste rua sem rio, sem palmeiras nem sabiás. Sem brisa, sem sussurro de árvores, sem cantigas de sapos e grilos. Sem meus vaga-lumes queridos. Onde a chuva não cheira a mangueiras e terra molhada. Aqui a chuva tem cheiro de asfalto e esgoto.
Porque aqui a lua só chega depois que todos já se foram e… porque minhas estrelas são falsas. Um milhão de luzinhas de todas as cores piscando no chão das favelas distantes, onde não moram prí­ncipes nem rosas.
Ou só porque a banheira e a lua foram cúmplices de muitos desejos contidos, saudades e paixões.
Ou apenas porque não há água e na falta, parece que o desejo cresce.
Enquanto isso escuto aqui O Paciente Inglês, de Gabriel Yared, e imagino se eu tivesse – ah! se eu tivesse! – a banheira de Casa Forte, meus intermináveis banhos noturnos… a água levemente aquecida, a paciência com minhas silenciosas confidências, a companhia das músicas, o tempo que não tinha pressa, a cúmplice e irmã de minhas noites de verão!
Sua lembrança me recorda como eu era, tão encantada como a lua de lá.Crescendo, crescida, cheia de luz.
Não sei como você vai receber isso. Desculpe-me, mas estou apenas dividindo com você minhas saudades. Antigos fantasmas que dançam entre minha rede e a lua.
Então eu vim lhe escrever. Porque é bom lhe escrever. Porque você gosta que eu lhe escreva…
E que calor faz essa noite!
Por melancolia, talvez.
E um gostinho de solidão na taça de vinho tinto…

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