Viajando Para o Brasil…

Onze da noite de um domingo.
Mas não qualquer domingo. Um domingo especial.
Durante o dia inteiro não consegui comer, nem dormir, nem ler. Coisas de fazer todo domingo sobraram nas mãos, no corpo, na mente. Eu só queria engolir o tempo.
Assim saí de casa com o coração derretido de emoção, mesmo com o frio de 6 graus.
Aeroporto de Barajas, Madrid. Voo da Ibéria, marcado com antecedência de três meses, com destino ao Rio de Janeiro.
Depois, um dia no Rio com a ilusão de um encontro marcado com Manoel Carlos, meu amigo do blog Agreste, para um almoço com paisagem de Pão de Açúcar e tudo.
Ao final, coroando meus sonhos, um voo direto para Recife, com direito a um grande grupo de amigos queridos nos esperando no Aeroporto dos Guararapes.
Dois anos sem ver meu país e minha gente, sem sentir o calorzinho (insuportável) de suas cidades e (adorável) de suas praias! Dois anos sem ir à Recife.
Que delícia de ansiedade!
Resisti bravamente à tentação de ir ao cabeleireiro antes da viagem. Nem pensar em arriscar a sair da Espanha com os cabelos rosa-mercúrio-cromo ou esticados como os de uma japonesa. Botas no armário. Escolhi uns mocassins cômodos e leves. A gente aprende, né? Esqueci os chocolates, companheiros inseparáveis das longas viagens.
Pois é…
Dois anos sem tomar um avião, sem encarar as bruxas dos aeroportos e eu já havia esquecido que elas existem.
O vôo sairia às 01:45 da madrugada do dia 20. Daria para uma boa cochilada e já acordaríamos no Rio. Perfeito!
Mas não saiu.
Depois de manter-nos dentro do avião por mais de três horas, o comandante avisou que havia um defeito nos equipamentos eletrônicos e que em 20 minutos estaria tudo resolvido. Não estava.
Suspirei e pedi calma a mim mesma. Desta vez estava com olhos-de-mar-azul ao meu lado. Não deixaria que meu ânimo se esvaísse. Afinal, iríamos juntos ao Brasil. JUNTOS! Isso era o único que importava!
Saímos do avião para um aeroporto vazio e com tudo fechado. Meu estômago colado nas costas de tanta fome e sede. Cadê meus chocolates?!
Levaram-nos para uma lanchonete onde podíamos escolher um sanduíche e um refrigerante ou um sanduíche e um refrigerante. Uma fila enorme e um único atendente com cara de “que-é-que-vocês-estão-fazendo-aqui-a-essa-hora? “
Um grupo de baianos reclamava seus direitos a uma funcionária da Ibéria que nos olhava como se fôssemos todos refugiados de guerra, dando-lhe trabalho extra na madrugada tranquila de Barajas. Uma senhora negra, com cara de entender de santos e orixás disse que o avião ia cair, que ela tinha sonhado, mas que suas orações fizeram com que o mesmo não decolasse de nenhuma forma. Exigia que trocassem-nos de avião. Naquele ela não iria mais! Uma perua loura-oxigenada com umas botas salto 15cm, levando uma caixa de madeira com um gato dentro exigia comida para seu bichinho aos gritos. Sem opção. Sanduíche e coca cola era tudo o que havia. Tentei ver a cor do gato, mas não deu. Ui!
Depois de quase uma hora levaram-nos por escadas e esteiras rolantes para tomar um ônibus para um hotel em Madrid com a maravilhosa notícia de que o nosso voo só sairia às 16:00 horas.
Heim!?
Por que meus encontros com os aeroportos tem que ser assim? Por que eles não gostam de mim?
Engoli o cansaço e enfrentei outra fila no recepção do hotel para conseguir um quarto. Não podia acreditar que minha linda viagem estivesse reduzida a isso. Dormir num hotel a 30 quilômetros de casa.
Depois de um sono leve e faminto de apenas três horas, um café reforçado e um breve contato através da Internet com os amigos avisando sobre o atraso, estávamos novamente entulhados na recepção do hotel.
Fila para o almoço, fila para o ônibus que nos levaria de volta ao aeroporto, fila para embarcar finalmente para o Brasil.
Na sala de embarque a Ibéria nos informou que não garantia reembolso de nenhuma conexão perdida que não estivesse acoplada às passagens da companhia. Isso queria dizer que perderíamos o vôo da Gol e – quem sabe – o dinheiro também.
O grupo de baianos queria falar com um supervisor. A loura do gato surtou e quase bateu na atendente. Os fumantes procuravam o metro quadrado pintado de azul para acenderem os malditos e execrados cigarros. Eu entre eles.
Telefonei para a agência em Recife e pedi que mudassem meu vôo para as duas e meia da madrugada, já que chegaríamos no Rio às 23:00 horas. Tudo bem, pagaríamos a taxa e a diferença de preços entre as passagens previamente reservadas. Dos males o menor. Eu queria chegar! E sem surtos.
Não ia dar para ver o Manoel Carlos também. Que pena!
A baiana conferia o nome do avião e garantia que era outro. Dizia que seu sonho salvara todo mundo de uma desgraça. Acreditei.
Dois passageiros não compareceram ao embarque. Tiveram que abrir o compartimento de bagagens para retirar as “suspeitas” maletas dos ” desaparecidos”.
Uma hora e meia depois do previsto, isto é às 17:30 da tarde, o avião decolou de Barajas rumo ao Galeão.
Ufff…. agradeci a Deus por deixar uma poltrona vazia ao meu lado onde eu poderia esticar um pouco as pernas e tentar cochilar durante o voo.
Sim?
Não. Três rapazes atrás de minha poltrona resolveram tomar cervejas e contar piadas em Inglês a noite TODA! Gargalhavam e batiam os pés, os desgraçados!
Quase fui buscar a baiana lá na frente para ela fazer uma oraçãozinha das boas…
Onze horas depois eu era um maracujá amarfanhado, com olheiras magníficas, todas as juntas doloridas e odiando a Inglaterra profundamente.
No Galeão, às 00:30 da noite, corri para o boxe da Gol para não perder o prazo do check in para Recife, enquanto olhos-de-lago-cinza-chumbo esperava a nossa bagagem.
Aquele bichinho que come meu estômago, meu fígado e se instala em meus intestinos nas tensões aeroportuárias, despertou com ganas de matar-me.
A Gol informou-me gentilmente que minha reserva estava garantida para Recife, mas que APENAS MEU NOME CONSTAVA DA MESMA.
HEIM?!!
Como assim???
Pois assim… A agência só garantiu meu lugar no voo. Não havia outra vaga. Estava lotado.
Minha cara deve ter sensibilizado o rapaz do boxe. Disse-nos que esperasse um pouco para ver se faltava alguém no trecho que vinha de São Paulo. Era muito provável que ocorresse um no-show. Sempre acontece, ele garantiu.
Esperamos. Esperamos. Esperamos.
Uma hora em pé diante do boxe da Gol. Ainda bem que estava perto do banheiro, pois o bichinho estava adorando a brincadeira das bruxas!
Finalmente o rapaz nos chamou… e disse que INFELIZMENTE não podíamos embarcar juntos. Não faltou nenhum passageiro.
Nem sempre o sempre acontece. Ainda mais quando as bruxas resolvem divertir-se às minhas custas.
O próximo voo para Recife sairia às 15:30hs da tarde, com co-ne-xão em Salvador e chegada prevista para as 20:15hs em Recife!!!
Comecei a chorar.
Para melhorar o meu astral, meu lindo e calmo companheiro de viagem resolveu brincar dizendo: ” Da próxima vez que viajarmos para o Brasil, você vai na frente e uma semana depois eu vou. Nos encontraremos no aeroporto de Recife.”Eu queria rir, juro! Mas minha boca não conseguiu. Estava atordoada de cansaço, de frustração, de raiva. Ele tem mais senso de humor do que eu nestas horas. Ainda bem.
Caminhamos pelo enorme corredor vazio até os boxes da VARIG e da TAM, atrás de outras possibilidades. Fechado. Tudo fechado!
Voltamos para o boxe da Gol. Teríamos que aceitar a miserável proposta. Inferno!
Chegar em Recife estava parecendo mais impossível que voltar para Madrid! E no aeroporto do Rio nem metro quadrado azul tem. Quem quiser fumar tem que sair do recinto! Sair por onde se estávamos no segundo andar???
Desafiei as bruxas. Fumei três cigarros de uma vez! No meinho do corredor! Queria ver se alguém vinha prender-me!
O moço da gol ficou ainda mais sensibilizado com minha agonia e disse-me que “não tinha certeza, mas havia escutado que a Ibéria estava pagando um hotel para os que perderam suas conexões.”
Corremos – melhor dizer “arrastamo-nos”- para o outro lado do corredor. Ainda não entendi por que tudo que você tem que fazer num aeroporto está exatamente no ponto oposto de onde você está. Nunca, nunca, nunca!!! está logo ao lado.
Acho que neste momento, as bruxas cansaram de brincar e foram dormir.
No boxe da Ibéria a moça simpaticamente atendia aos últimos passageiros do voo. Escutei que ela estava dando passagens em outras companhias para quem havia perdido a conexão. Nem pensei duas vezes. Apresentei a ela minhas reservas na Gol e ela me ofereceu dois lugares na TAM às 8:40 da manhã, direto para Recife, além de um quarto no hotel Luxor do aeroporto.
E claro, estava do outro lado do enooooooorme corredor.
Eram quase quatro horas da madrugada quando entramos no último quarto vago do hotel. Era nosso até às 6:00hs.
Deu-nos duas horas de sono, uma ducha e um café da manhã.
Quando o voo da TAM sobrevoou Recife e pousou no aeroporto dos Guararapes eram 10:30hs da manhã da terça-feira.
Um mar verde esmeralda nos esperava, alguns amigos queridos e persistentes, um calor abafado de 32 graus…
Emprestaram-nos um carro, um telefone e um apartamento…
Nos encheram de beijos e abraços, convidaram-nos para uma cerveja…
As bruxas dormiam ainda, com certeza.

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Categorias: Corpo&Alma de Mulher, Viagem | Tags: , | Deixe um comentário

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