Evas…

Domingo molhado, úmido, cinza. Ficar em casa até que é bom num dia assim, mas almoçar no Chez Georges com as amigas é melhor ainda.
As quatro amigas entram no restaurante bem decorado e fino da cidade, dispostas a comer bem, beber mais e melhor e falar de qualquer coisa, menos de si mesmas.
Rita tem 35 anos, dois filhos e está separada há 3 anos. Quando estava grávida do segundo filho – seu marido havia insistido para que engravidasse pois queria uma famí­lia grande – Rita descobriu que ele tinha uma namorada.
Sim, ele queria uma famí­lia muito grande. A namorada também estava grávida. Iriam dar à luz no mesmo mês e no mesmo hospital.
Rita recusou-se a ficar para ver. Pediu o divórcio com a barriga no pescoço, o coração despedaçado e a auto estima mortinha da silva.
Faz poucos meses que está se recuperando da decepção, às custas de muití­ssimo trabalho numa rotina mais dura que a de uma “mula de roçado”. Acorda às cinco da madrugada e só vai para a cama depois da meia noite. Sua folga quinzenal (quando os filhos ficam com os ex-sogros) é comemorada com um vinhozinho e um bom filme na TV, dormir até as doze e se puder, um almoço com as amigas.
Amor não tem, nem quer. Por enquanto quer distância dos homens. Bastam-lhe os filhos e o trabalho. Stress mais que suficiente.
Júlia tem 34 anos. Casou aos 19, grávida do primeiro namorado. Separou-se aos 27, duas filhas e duas tentativas de suicí­dio.
O ex-marido está noivo de uma dondoca da cidade e vive nas colunas sociais, mas ainda se encontra com ela às escondidas da noiva e das filhas, para um sexo saudoso e cheio de acusações mútuas.
Depois de se agarrarem e transarem desesperadamente, começam as intermináveis brigas. Ele a culpa por ela ser uma mulher exageradamente ciumenta e possessiva. Ela o culpa por ser um degenerado que não pode ver um par de pernas na praia sem ter que segui-las num afã de conquistador barato, um “rato de areia” dos mais nojentos. Ele sai batendo a porta. Ela promete a si mesma que foi a ultima vez. E até a próxima… ninguém sabe até quando seguirão assim. A última foi antes de ontem.
Foi ela quem marcou o almoço. Está precisando desabafar, gritar, beber, comer, contar. Nunca mais vai pensar em morrer por causa daquele desgraçado. Precisa de ajuda, urgente! Amigas, pelo amor de Deus!
Não, melhor nem falar do assunto. Aproveitar para espairecer a cuca, falar dos outros, do livro muito louco que está lendo, do último filme que viu na TV a cabo, antes que aquele pedaço de carne sem sentimentos (e que pedaço!) viesse com aquela conversa de saudades e tesão…
Não! Falar dos outros é melhor. Pronto. Falar qualquer coisa menos da idiota que ela é!
Silvia é solteira. Não pensa em casar-se. Sua independência financeira veio com 22 anos, num emprego público que conquistou num concurso dificí­limo. Poucas horas de trabalho, bom ambiente, bom salário. Tem casa, carro, amigos, viagens, liberdade. Não gosta de sofrer e aos 31, depois de algumas (poucas) tentativas de relacionamento afetivo, desistiu por pura preguiça. Não sente muito a falta de sexo. Às vezes nem se lembra deste detalhe…
E quando lembra, telefona para seu “fornecedor de hormônios”, marca um encontro, resolve a parada e pronto. É bom. Sem promessa e sem cobrança. Está sempre tão entretida com seus planos para as próximas férias…
Ontem mesmo foi na agência e está quase decidida por Nepal.
E depois, amar dá muito trabalho, ela diz com um meio sorriso na cara bonita.
Nenhuma das outras três pode contestar que não.
Que o diga Clarice, 38 anos. Depois de nove anos e meio de um noivado em que os dias foram gastando o amor, se é que amor existia, de forma que não havia qualquer motivo para um matrimônio, exceto o desejo das suas famí­lias, que ao final eram mais noivas que eles dois, o casamento foi o único caminho possí­vel para a separação.
Oito meses depois da festa, que suas famí­lias se esmeraram em fazer es-pe-ta-cu-lar, a farsa finalmente acabou. Ficaram as fotos e um ví­deo, mostrado mil vezes pelas mães-sogras às suas amigas.
Clarice deixou os álbuns com elas. Não queria recordar aquele dia, nem os meses depois dele. Oito intermináveis meses em que tinha que controlar-se para não pular pela janela.
Finalmente, um dia de verão azul, saiu do trabalho, tomou seu carro e dirigiu-se ao aeroporto. Comprou uma passagem para São Paulo, telefonou para o marido e pediu o divórcio. Ele sequer questionou sua decisão.
Clarice esperou um mês que as famí­lias se recuperassem do choque. Nunca a perdoaram. Ele sim. Se não fosse ela quem tivesse tomado a decisão, seria ele…
Claro, iria demorar ainda um pouco. Não tinha coragem de dizer a ela que estava apaixonado por uma colega de trabalho há mais de dois anos e arrependido de não ter evitado o casamento com medo da reação de sua mãe e do pai da noiva.
Queria casar-se com a moça o mais breve possí­vel, assim que sua mãe se acostumasse com a idéia. Já fazem 6 anos que esperam.
Clarice saiu pela vida em busca de amor. Encontrou algo parecido. Inúmeras vezes se apaixonou, nenhuma das vezes a relação deu flores e frutos. Todas acabam depois de dois ou três meses de saí­das. A cada final, um desgaste de energia para criar o clima apaixonado em que desejaria viver.
Depois de uns anos, conformou-se em ter sexo de vez em quando, que de ferro ela não é. Os homens de sua geração preferem as amizades coloridas ao amor propriamente dito.
É que amar dá muito trabalho, dizem.
Clarice vive sozinha, em um belo apartamento, há mais de dez anos. Seu pai nunca mais falou com ela.
Ela já não acredita que vale a pena ir atás do amor. Dá muito trabalho. E por favor, não a chamem de Clarice que esse é nome de mulher doce e sincera. Agora só atende por Clara.
No domingo chuvoso de Abril as quatro mulheres se encontram para o almoço.
Bebem, comem, riem, falam de amenidades, dos livros que lêem, dos filmes que assistem, da vida dos outros, dos que morreram, dos que nasceram, dos que casaram, dos que separaram, dos que se escondem por trás das máscaras, dos que só querem aparecer…
Na mesa lá do outro lado, outras quatro mulheres comem, bebem e riem…
Conversam em tom mais baixo… as paredes tem ouvidos!
Comentam umas com as outras as histórias de Rita, Júlia, Silvia e Clarice, quer dizer,Clara…
Que?
Falar das vidas delas, nem pensar!
Pelo menos não antes do café e do licor…

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Categorias: Corpo&Alma de Mulher | Tags: , , | Deixe um comentário

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