Aprendiz de Feiticeira…

Ela estava fazendo 21 anos. Uma idade linda!
Comprei vários presentes. Um abrigo novo, roupinhas. E o principal: Don Quixote de La Mancha, em uma edição comemorativa dos 400 anos da publicação do romance de Miguel de Cervantes. Escrevi num cartão – pintado por mim mesma – uma dedicatória bem emocionada!
Pronto?
Claro que não!
Resolvi mudar as cortinas da cozinha. Nunca costurei na vida, mas não custava começar.
Pedi ajuda à vizinha. Tudo bem. Ficou bonita apesar de imperfeita. Deu para disfarçar com um jeitinho brasileiro. Comprei tapetes novos para os banheiros. Espalhei quadros pelo corredor. Passei a semana atrás do sujeito que vinha trocar as duchas, pregar os suportes da rede nova, trazida do Brasil nas últimas férias.
Ela merecia. E merecia também uma festinha…
E eu, como boa mãe neurótica que vê a filha entrando na vida adulta, resolvi fazer uma espécie de despedida da infância-adolescência. Prometi coxinha de galinha, empadas de camarão, brigadeiros coloridos e bolo de chocolate, com cobertura e etc. Cabeça de mãe tem cada idéia!
Nunca havia feito nada disso. No Brasil encomendava tudo… mas não custava tentar!
Pois… peguei uma gripe dois dias antes de começar os trabalhos. Uma moleza no corpo, nariz entupido, dor de cabeça, vontade de ficar sob as cobertas sem fazer absolutamente nada.
Impossí­vel! Tinha que limpar toda a casa, preparar os quartos para ela e os amigos que viriam passar o final de semana, organizar as compras necessárias e o menu de três dias inteiros. Quem manda inventar festa!
Entrei na Internet e procurei as receitas mais simples, pois na cozinha sou quase iniciante. Estou tentando aprender.
Primeiro os recheios das empadas e coxinhas.Temperei o camarão das empadas com sal e limão enquanto cozinhava o frango para as coxinhas e telefonei para o Brasil para conferir as receitas com minha cunhada (uma cozinheira com mãos de fada).
Distraí­-me conversando sobre a famí­lia e… de repente um cheiro de coisa queimada invadiu a sala. Corri para o fogão e estava tudo negro! Nada do molho perfumado de alguns minutos atrás e uma branca fumaça começava a invadir a casa inteira.
Desliguei o telefone e tentei salvar o que ainda tinha cor de frango. Era pouco. Muito pouco. Perdi a graça e guardei os camarões no gelo para o dia seguinte. Estava cansada e doente.
Bueno… no outro dia, assim que terminei de organizar os quartos, fui para as empadas. Refoguei as verduras, juntei o camarão, o creme de leite… e ficou lindo. Agora era só fazer a massa e rechear as danadinhas. Resolvi provar um recheio tão lindo… Hummmm! Sal puro.
Sal! Sal! Sal! Insuportável.
Como assim?
Assim… os camarões estavam mergulhados no sal desde o dia anterior.
Não podia fazer empadas com pasta de sal ao camarão!
Mas ainda tinha que fazer o bolo.
Por que não segui os sinais e desisti de uma vez por todas?
Não, eu tinha que fazer pelo menos UMA coisa que prestasse. Pelo menos o bolo tinha que ficar bom.
Pois não… nem ele.
A massa estava maravilhosa, mas a forma era pequena e eu não pensei que ele ia crescer como o pé de feijão do conto infantil…
O bolo cresceu e cresceu… tanto que suicidou-se pulando para fora do molde como um vulcão em erupção e enchendo o forno com uma massa negra e esfumaçante…
Acham que ainda iria tentar o brigadeiro? E a cobertura? Para botar onde?
Nem pensar! Tive uma crise de riso daquelas que beiram o choro enquanto tentava descolar a forma imersa na larva vulcânica em que se transformou a merda de chocolate, ainda pensando em onde botar as velinhas coloridas que havia comprado. Louca!
Acabei o dia com a auto-estima deitada no chão, com a cara enterrada num buraco escuro!
Resultado… a festa foi mesmo um churrasco em que não meti a mão.
Um amigo dela assou a carne, outra fez a salada, a aniversariante fez a farofa, Pepe fez a batata e os molhos… e saiu tudo saborosí­ssimo! Nada queimou. Nada salgado. Nada ruim.
Arrisquei abrir a garrafa de vinho e dizer com os olhos rasos d´água: Feliz Aniversário, minha filha.
E quando eu penso que no próximo final de semana teremos 16 pessoas para almoçar, tenho vontade de pintar a cara com pontinhos vermelhos e dizer que estou com uma doença contagiosa e de quarentena.
Na cozinha eu não entro por pelo menos dois meses!
Socorro!

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Categorias: Corpo&Alma de Mulher | Tags: | Deixe um comentário

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