Arquivo do mês: março 2005

Heranças…

As heranças que o Lorde me deixou foram o amor à música e à leitura.
Apesar de lutar sempre e até a morte com o rio, que a cada subida levava os pedaços da casa, ele chorava apenas quando perdia seus livros e discos.
Meu pai tinha a música como a linguagem da sua alma. Dizia com ela seu estado de espírito. Nos domingos felizes e ensolarados, ele enchia o ar com o melhor de The Brother Four; Peter, Paul and Mary; Nat King Cole; Billy Holliday; Piaf; ou Aznavour.
Nos domingos de chuva despertávamos ao som de Cantos Gregorianos
E se a chuva fosse noturna e tomada de gosto, se caía em tormentas com raios e trovões, Carmina Burana invadia a casa, o jardim, a mata e o rio. O som numa altura impossível para quem tivesse vizinhos humanos e chatos. Mas nós não tínhamos…
Aprendi a conhecer as emoções do Lorde pela música que ele escutava.
As óperas tinham lugar de destaque nas noites úmidas de Casa-Forte. La Traviata, La Bohème, Madame Butterfly, Carmem, Tosca.
Aprendi desde muito cedo a escutar os lamentos de Mme. Butterfly por dentro da névoa que cobria o jardim nas noites de inverno, numa das árias mais emocionantes que já ouvi na vida. Nessas noites ele parecia triste… tinha os olhos molhados.
Ainda hoje eu sinto seus cheiros, vejo seus olhos verdes semi fechados e suas belas mãos de arquiteto enquanto tocava o piano – que o rio roubou numa das suas investidas traiçoeiras – quando ouço a Sonata ao Luar ou a Passionata de Beethoven.
Quando ele queria ler ou apenas olhar o matagal escuro que se estendia além dos muros, uma diferente música lhe acompanhava. Quando queria emocionar minha mãe, usava invariavelmente o Concerto Número 2 de Rachmaninov. E a Princesa desligava a televisão e de mansinho desaparecia dentro do gabinete.
Uma vez ele deu a ela a música La Bohème, cantada por Aznavour. Não.. ele não chegou com o disco de presente. Ele deu A música. Cada vez que ela escutava, sorria com o cantinho da boca e perdia o olhar brilhante em algum espaço da memória.
Muitos anos depois da morte do Lorde, a Princesa ainda ria assim antes de cair em lágrimas quando ouvia a Sua música.
Quando eu soube que Aznavour cantaria em Recife, não pude resistir. Comprei dois ingressos para levar a Princesa. Ela não cabia em si de contentamento. E eu mais que ela, só por poder proporcionar-lhe uma alegria assim. Lembro-me que foi caríssimo!
Pois foi.. a Princesa vestiu-se como para um grande encontro. Chegamos muito antes de começar, sentamos e esperamos. Quando seu cantor preferido entrou no palco ela tremia e ria nervosa. Mas quando ele começou a cantar La Bohème, a Princesa perdeu o controle e fechou os olhos, os ombros tremendo em soluços. Tentei brincar dizendo que chorasse de olhos abertos, que tinha sido muito caro… mas minhas palavras saíram com gosto de lágrimas. Choramos abraçadas como se não houvesse mais ninguém na platéia além de nós duas.
E talvez nem nós duas.
Era como se estivéssemos na antiga casa do Poço da Panela, sentindo os cheiros de mato e jasmim, os cheiros de cachimbos e conhaque, do assoalho encerado do gabinete… os cheiros da névoa no jardim. Era como se Aznavour estivesse cantando ali, só para nós. Foi mágico!
Ainda hoje sorrio com o canto da boca, antes de ter os olhos molhados e perdidos, quando escuto a voz doce e suave de Aznavour cantando La Bohème.
Herdei-a da Princesa.

*Man Ray-Violon de Ingres1924

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Em Todo Deserto Há um Poço…

Sí­ cada dí­a cae,
dentro de cada noche,
hay un pozo
donde la claridad esta prisionera.
Hay que sentarse en el borde
del pozo de la sombra
y pescar la luz caí­da
con paciencia.
Pablo Neruda ( Últimos Sonetos)

 

 

Um dos livros mais líricos que li na vida!

*tradução:
Se cada dia cai, dentro de cada noite há um poço onde a claridade está prisioneira. Há que sentar-se na borda do poço da sombra e pescar luz caí­da com paciência.

Foto: Claudio F. Costa-Ilusão de Ótica

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Minha Amiga Querida…

Sei que faz um tempo que não te escrevo uma carta como Deus manda. Sem perdão. Uma das coisas mais agradáveis nesse exí­lio voluntário é receber uma carta de amigo, parente, aderente, vizinho do aderente, periquito, papagaio, orangotango, quem seja.
Desculpe o toque animal. Não tinha a intenção de comparar-te com qualquer um desses bichinhos, embora eu não ache que seja nenhum insulto, uns bichinhos que são tão simpáticos. Meu humor anda assim mesmo, meio tumultuado ultimamente. Alterações hormonais. Coisas da idade, parece.
Mas falando sério, querida…se a carta for tua então, o prazer é dobrado. Antes de fazer um café e montar na rede do terraço, com a música posta no salão, não abro o envelope. Adoro o ritual de abrir uma carta de verdade, de papel e selo colorido, como antes de toda essa facilidade da Internet.
Não me queixo. Imagino que se eu tivesse que esperar pelas antigas formas de escrever, estaria exilada de verdade. Os e-mails são imediatos. Trazem fotos, mensagens de amor e de bons fluidos, recortes de jornais e revistas, carinhos diversos todos os dias, de gente amiga-conhecida e de desconhecidos-amigos. O blog me ajudou muito a encontrar essas almas carinhosas espalhadas pelos labirintos da Web.
Mas tua carta, amiga, essa é felicidade simples e profunda. Posso imaginar onde e como a escreveste. Posso vê-la com a caneca de café fumegante sobre a mesa da cozinha, procurando uma caneta que escreva e xingando a última geração de teus próprios filhos em resmungos ininteligí­veis aos que não te conhecem, pedindo a Deus explicações para o desaparecimento dos objetos inanimados desta casa: canetas e lápis, pentes, prendedores de cabelo e o tapete do banheiro.
Nunca há respostas para isso, não é mesmo querida? Nem Deus, nem os três adolescentes-quase-adultos que habitam o teu lar sabem responder.
Bueno… já está. Algo encontraste para escrever, pois posso ler aqui troços em lápis e outros em canetas de distintas cores. Não sabes a ternura que transborda de meu sorriso enquanto leio o que me escreves e como eu gostaria de compartir a bela e deliciosa caneca azul com o café que só tu sabes fazer.
Pois não penses que isso é brincadeirinha de novo. Pois não. O café sai ao gosto de quem o faz. Posso pôr a mesma medida de água e de pó. Não sai igual ao teu. Juro!
E veja que ultimamente tenho carregado um pouco no café. Um dos poucos prazeres da cozinha que me restam. Tive a infeliz idéia de visitar uma endocrinologista para uns exames hormonais e etc. E a danada me pegou pelo tornozelo. Resultado: dieta.
Como tal um bebê. Seis refeições que de refeições só tem o nome. Um periquito pediria dose dupla do que como. Cada porção pesada e medida numa balança que vive sobre o micro ondas, malvada e sensí­vel como uma madrasta de conto infantil. Qualquer pedacinho de pão pesa mais do que deveria.
E o pior é o que posso beber. Leite desnatado, água, café e chá.
Também, quem mandou procurar uma endocrinologista abstêmia!?
Só vendo a cara que ela fez quando descrevi minhas noites de vinho tinto frente a lareira… Parecia que eu tomava heroí­na na veia! Acho que a bruxa teve uma invejazinha, ou não?
Imaginas a arredondada aqui tomando vinho tinto diante da lareira e dançando ao som da voz memorável de Billi Holliday, com um par de “olhos-de-mar-azul” acompanhando cada movimento meu? Rá!
Acho que ela pensou que era alucinação minha.
Não era. Não era!
Agora posso comer um iogurte com gosto de qualquer coisa (menos de vinho) e ir dormir com cara de mulher-de-meia-idade-triste. Difí­cil viu amiga. Difí­cil.
Mas, segundo os exames, vou ter que submeter-me à tortura.
Usei uma estratégia antiga, dos tempos da depressão. Naquela época colei na geladeira uma foto minha com largo sorriso, só para lembrar que eu já havia sido feliz, um dia. E estava magra.
Agora fiz o mesmo. Preguei a última foto tirada no Brasil de biquí­ni. Para lembrar-me de como não quero estar, daqui por diante.
O pior é que nesta foto estou sorrindo feliz como nunca havia sido na vida… e me confundo.
Preciso ser magra e feliz. E parece que as duas coisas não se casam no mesmo corpo.
Bueno… vamos ver quanto eu consigo conciliar das duas necessidades.
Por enquanto estou lutando para manter a classe e não comer uma lata inteira de sorvete. Que pobre de espí­rito heim?!
Também estou tentando não ter mais os sonhos eróticos com morangos e chocolates, que me acossam nas noites famintas e me deixam cansada e com o humor de Garfield pela manhã.
E por falar em manhãs, as de agora estão lindí­ssimas. O clima mudou completamente e as amendoeiras, que nem estão de regime nem nada, se cobrem de flores numa alegria que só vendo.
Aqui a gente dormiu inverno e acordou primavera. Quem dera meu programa de dieta permitisse o mesmo.
A bruxa disse que eu vou ter dificuldades para perder peso agora. Coisas da idade, parece.
Sabe que até passou o nozinho de tristeza que levo no peito desde uns dias? Acho que escrever-te ajudou-me a melhorar o astral. Prometo escrever mais vezes.
Beijo-te com toda a saudade e amor. Como sempre.

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Ciranda de Saudades…

Hoje eu acordei com o assovio de Dorival Caymmi tocando no meu ouvido. Comecei o dia cantando com ele ” Um pescador, tem dois amor… um bem na terra, um bem no mar.”
E bateu uma saudade daquela que espreme o coração. Saudade do mar. Saudade da onda batendo na areia… Do cheiro de maresia mesclado com “o vento que balança os coqueiros”… Aquele velho pescador e violeiro cantando: ” O mar, quando quebra na praia, é bonito… é bonito…”
E saudade das casas da minha vida, onde Dorival Caymmi tinha um pedestal, erguido com cuidado pelo Lord arquiteto e pescador.
Meu pai, eu já disse aqui, tinha gostos requintados. Mas quando se esquecia de querer ser inglês, sua nordestinidade tomava conta da nossa vida. Acordava assoviando o baiano Caymmi…
Preparava suas varas de pescar, com molinetes (cheios de frescuras, é verdade) e suas iscas nojentas , pesos de chumbo de todos os tamanhos, enquanto Dorival cantava com ele às alturas.
Nesses dias ele ficava lindo, o meu pai.
Seus dentes apareciam por nada. Sua alegria contaminava a casa de paz…
Catarolava com uma voz grave, acompanhando seu í­dolo “Marina, morena Marina, você se pintou…” E lá í­amos todos para a praia.
Não, não era uma praia para inglês ver. Era o Janga.
Quase duas horas de viagem pela estrada de barro e areia, em direção a uma pequena casa de portas e janelas vermelhas, rodeada de terraço. Era de meu avô e ficava já quase chegando em Pau Amarelo, onde uma antiga fortaleza de pedras, com seus canhões de chumbo nos esperava para as brincadeiras de crianças.
No caminho do Forte, uma venda. Um “tem de tudo” de antigamente. Farinha, feijão, milho para as galinhas em grandes sacos de pano branquí­ssimos! Manteiga nas latas enormes. Varas de bambu, carretéis de linha, graxa para sapato, pregos, bonecas de plástico com olhos azuis pregados em decalcomania, bruxas de pano iguais às das feiras de interior, caminhões de madeira, cachaça, café, açúcar, vassouras… coisinhas para tudo. Nem lembro mais que tudo.
Eu me fixava nos grandes vidros transparentes, repletos de bombons coloridos em branco e rosa, em verde e rosa, em azul e rosa… A gente dava a moeda e seu Vavá enchia uma pá de alumí­nio com aquelas belezuras doces, embrulhava em papel marrom e duro, o mesmo que usava para embrulhar os pregos, que enrolava nos dedos, como um pastel… e a gente saí­a feliz que só vendo.
Dia de ter mais moedas era dia de peixinho de chocolate. Dourado, prateado, vermelho, verde e azul. Um de cada cor, eu queria. Não importava que o chocolate fosse igual. Queria de cores diferentes… um de cada. E pronto. Era imbirrenta, eu.
Uma das delí­cias da venda de seu Vavá era o chão do pequeno terraço, de cimento encerado. Fresco, quase gelado. Sair do sol quente e areia pelando os pés e entrar na venda eram duas delí­cias de uma só vez. Deitar de costas no chãozinho frio e comprar os “confeitos” coloridos. Dava vontade de morar ali. E eu pensava “quando eu crescer, quero ter uma venda.”
Naquela época criança andava pelo mundo. Sem riscos que não fossem as imprudências que elas mesmas cometiam. Hoje eu sei que a venda era muito perto de casa, mas na época parecia que a gente tinha que atravessar, não um pequeno maceió e a faixa de areia quente, mas um grande rio e depois o deserto do Saara, para chegar àquele paraí­so.
E o mar do Janga… o que dizer do mar do Janga?
Água limpa e verde e morna e cheia de arrecifes onde pescar e pequenas piscinas de profundidades diversas. Praia sem ônibus de veranistas. Praia de pescadores.
Do lado oposto ao Forte, outro paraí­so. Era O Curaçado. O bar de taipa de dona Duda, uma senhora de lindos olhos verde-azulados, cor que variava de acordo com o mar. E que fazia as delí­cias da comida nordestina.
Meu pai voltava da pesca com o samburá cheio e levava para dona Duda. Lá a gente comia o peixe ao molho de coco e a farofa branca feita com coentro, cebola e água quente com manteiga.
A mesa sobre o chão batido. O teto de palha trançada. A vida como uma brisa suave de felicidade…
Era bom viver esses dias.
À noitinha a gente voltava… para dançar a Ciranda.
Muitos anos antes de ficar famosa a Ciranda de dona Duda já era nossa. Nossa e dos pescadores do Janga.
Enlaçávamos os braços e bailávamos ao som das vozes em falsete das meninas e mulheres, os pés descalços avançando e retornando, no ritmo das ondas do mar…
Nesta noite dormí­amos cansados e felizes, embalados pelo ruí­dos das palhas de coqueiros e do mar cheio, que quebrava com força na areia…
E escutávamos entre sonhos, desde o terraço da casinha, a voz grave do pai, desnudo de sua Lordice, cantando… “Quem vem para beira do mar… nunca mais quer voltar…
Andei, por andar andei…e todo caminho deu no mar…”

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Amantes e Amados…

Ontem assisti uma entrevista com Antonio Gala, um famoso escritor espanhol.
A pergunta que lhe fizeram era sobre o efeito do amor em sua larga vida e porque ele sempre chamava seu par de “amante”.
Ele respondeu que era sempre o amado. Que existiam dois tipos de pessoas. Uns que são amantes e outros que são amados.
O amante doa, se entrega, mima, inunda.
O amado recebe, se deixa tomar e mimar, deixa-se inundar.
Ele defende que ambos amam. Ambos estão inteiros na relação. Nenhum dos dois amores é maior que o outro. Nenhum dos dois enamorados é dono de mais amor. Gala diz que é apenas a forma de amar que faz a diferença.
Hum? É?
Pensei então que dois amantes ou dois amados não poderiam permanecer muito tempo juntos. Correriam o risco de viverem exaustos.
Os amantes sofreriam por excesso. Os amados pela falta constante.
Refleti sobre a questão enquanto fazia um café, e como a Shirley Valentine do filme, fiz perguntas às paredes, mas desta vez eu queria respostas mais reais que as que eu mesmo crio para elas.
Com o blog descobri que do outro lado da tela do computador há um mundo à escuta. E que maravilha! – um mundo que responde.
Achei que o tema era bom para compartilhar, para provocar a reflexão nas pessoas.
Pois sim…
Decidi começar e reponder já escrevendo minha opinião.
Aí vai.
Sou muito amante. É minha natureza.
Creio, porém, que ninguém pode viver um amor feliz se for apenas amante ou amado.
Os enamorados mais felizes são, dentro do mesmo ser, amantes e amados.
Uma destas partes pode ser a dominante, o que não quer dizer que a outra não exista e exija sua parte.
Foi preciso um tempo para que eu aprendesse a deixar minha parte que quer ser amada fluir, florescer, brotar. Aos poucos fui aprendendo a revesar os papéis, deixar-me cuidar e mimar, deixar-me ser levada. É tão bom!
Agora eu penso que sou melhor amante do que quando era mais jovem, porque aprendi a deixar-me ser amada.
Se eu pudesse interferir na entrevista de ontem diria que ser só amante cansa e ser só amado enjoa.
Talvez por isso tantos casais vivem, depois do tempo da paixão, num terreno vazio…

Foto: Quint Buchholz, “On the Way Book”

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