Ciranda de Saudades…

Hoje eu acordei com o assovio de Dorival Caymmi tocando no meu ouvido. Comecei o dia cantando com ele ” Um pescador, tem dois amor… um bem na terra, um bem no mar.”
E bateu uma saudade daquela que espreme o coração. Saudade do mar. Saudade da onda batendo na areia… Do cheiro de maresia mesclado com “o vento que balança os coqueiros”… Aquele velho pescador e violeiro cantando: ” O mar, quando quebra na praia, é bonito… é bonito…”
E saudade das casas da minha vida, onde Dorival Caymmi tinha um pedestal, erguido com cuidado pelo Lord arquiteto e pescador.
Meu pai, eu já disse aqui, tinha gostos requintados. Mas quando se esquecia de querer ser inglês, sua nordestinidade tomava conta da nossa vida. Acordava assoviando o baiano Caymmi…
Preparava suas varas de pescar, com molinetes (cheios de frescuras, é verdade) e suas iscas nojentas , pesos de chumbo de todos os tamanhos, enquanto Dorival cantava com ele às alturas.
Nesses dias ele ficava lindo, o meu pai.
Seus dentes apareciam por nada. Sua alegria contaminava a casa de paz…
Catarolava com uma voz grave, acompanhando seu í­dolo “Marina, morena Marina, você se pintou…” E lá í­amos todos para a praia.
Não, não era uma praia para inglês ver. Era o Janga.
Quase duas horas de viagem pela estrada de barro e areia, em direção a uma pequena casa de portas e janelas vermelhas, rodeada de terraço. Era de meu avô e ficava já quase chegando em Pau Amarelo, onde uma antiga fortaleza de pedras, com seus canhões de chumbo nos esperava para as brincadeiras de crianças.
No caminho do Forte, uma venda. Um “tem de tudo” de antigamente. Farinha, feijão, milho para as galinhas em grandes sacos de pano branquí­ssimos! Manteiga nas latas enormes. Varas de bambu, carretéis de linha, graxa para sapato, pregos, bonecas de plástico com olhos azuis pregados em decalcomania, bruxas de pano iguais às das feiras de interior, caminhões de madeira, cachaça, café, açúcar, vassouras… coisinhas para tudo. Nem lembro mais que tudo.
Eu me fixava nos grandes vidros transparentes, repletos de bombons coloridos em branco e rosa, em verde e rosa, em azul e rosa… A gente dava a moeda e seu Vavá enchia uma pá de alumí­nio com aquelas belezuras doces, embrulhava em papel marrom e duro, o mesmo que usava para embrulhar os pregos, que enrolava nos dedos, como um pastel… e a gente saí­a feliz que só vendo.
Dia de ter mais moedas era dia de peixinho de chocolate. Dourado, prateado, vermelho, verde e azul. Um de cada cor, eu queria. Não importava que o chocolate fosse igual. Queria de cores diferentes… um de cada. E pronto. Era imbirrenta, eu.
Uma das delí­cias da venda de seu Vavá era o chão do pequeno terraço, de cimento encerado. Fresco, quase gelado. Sair do sol quente e areia pelando os pés e entrar na venda eram duas delí­cias de uma só vez. Deitar de costas no chãozinho frio e comprar os “confeitos” coloridos. Dava vontade de morar ali. E eu pensava “quando eu crescer, quero ter uma venda.”
Naquela época criança andava pelo mundo. Sem riscos que não fossem as imprudências que elas mesmas cometiam. Hoje eu sei que a venda era muito perto de casa, mas na época parecia que a gente tinha que atravessar, não um pequeno maceió e a faixa de areia quente, mas um grande rio e depois o deserto do Saara, para chegar àquele paraí­so.
E o mar do Janga… o que dizer do mar do Janga?
Água limpa e verde e morna e cheia de arrecifes onde pescar e pequenas piscinas de profundidades diversas. Praia sem ônibus de veranistas. Praia de pescadores.
Do lado oposto ao Forte, outro paraí­so. Era O Curaçado. O bar de taipa de dona Duda, uma senhora de lindos olhos verde-azulados, cor que variava de acordo com o mar. E que fazia as delí­cias da comida nordestina.
Meu pai voltava da pesca com o samburá cheio e levava para dona Duda. Lá a gente comia o peixe ao molho de coco e a farofa branca feita com coentro, cebola e água quente com manteiga.
A mesa sobre o chão batido. O teto de palha trançada. A vida como uma brisa suave de felicidade…
Era bom viver esses dias.
À noitinha a gente voltava… para dançar a Ciranda.
Muitos anos antes de ficar famosa a Ciranda de dona Duda já era nossa. Nossa e dos pescadores do Janga.
Enlaçávamos os braços e bailávamos ao som das vozes em falsete das meninas e mulheres, os pés descalços avançando e retornando, no ritmo das ondas do mar…
Nesta noite dormí­amos cansados e felizes, embalados pelo ruí­dos das palhas de coqueiros e do mar cheio, que quebrava com força na areia…
E escutávamos entre sonhos, desde o terraço da casinha, a voz grave do pai, desnudo de sua Lordice, cantando… “Quem vem para beira do mar… nunca mais quer voltar…
Andei, por andar andei…e todo caminho deu no mar…”

Anúncios
Categorias: Memórias e Saudades | Tags: , , | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s