Minha Amiga Querida…

Sei que faz um tempo que não te escrevo uma carta como Deus manda. Sem perdão. Uma das coisas mais agradáveis nesse exí­lio voluntário é receber uma carta de amigo, parente, aderente, vizinho do aderente, periquito, papagaio, orangotango, quem seja.
Desculpe o toque animal. Não tinha a intenção de comparar-te com qualquer um desses bichinhos, embora eu não ache que seja nenhum insulto, uns bichinhos que são tão simpáticos. Meu humor anda assim mesmo, meio tumultuado ultimamente. Alterações hormonais. Coisas da idade, parece.
Mas falando sério, querida…se a carta for tua então, o prazer é dobrado. Antes de fazer um café e montar na rede do terraço, com a música posta no salão, não abro o envelope. Adoro o ritual de abrir uma carta de verdade, de papel e selo colorido, como antes de toda essa facilidade da Internet.
Não me queixo. Imagino que se eu tivesse que esperar pelas antigas formas de escrever, estaria exilada de verdade. Os e-mails são imediatos. Trazem fotos, mensagens de amor e de bons fluidos, recortes de jornais e revistas, carinhos diversos todos os dias, de gente amiga-conhecida e de desconhecidos-amigos. O blog me ajudou muito a encontrar essas almas carinhosas espalhadas pelos labirintos da Web.
Mas tua carta, amiga, essa é felicidade simples e profunda. Posso imaginar onde e como a escreveste. Posso vê-la com a caneca de café fumegante sobre a mesa da cozinha, procurando uma caneta que escreva e xingando a última geração de teus próprios filhos em resmungos ininteligí­veis aos que não te conhecem, pedindo a Deus explicações para o desaparecimento dos objetos inanimados desta casa: canetas e lápis, pentes, prendedores de cabelo e o tapete do banheiro.
Nunca há respostas para isso, não é mesmo querida? Nem Deus, nem os três adolescentes-quase-adultos que habitam o teu lar sabem responder.
Bueno… já está. Algo encontraste para escrever, pois posso ler aqui troços em lápis e outros em canetas de distintas cores. Não sabes a ternura que transborda de meu sorriso enquanto leio o que me escreves e como eu gostaria de compartir a bela e deliciosa caneca azul com o café que só tu sabes fazer.
Pois não penses que isso é brincadeirinha de novo. Pois não. O café sai ao gosto de quem o faz. Posso pôr a mesma medida de água e de pó. Não sai igual ao teu. Juro!
E veja que ultimamente tenho carregado um pouco no café. Um dos poucos prazeres da cozinha que me restam. Tive a infeliz idéia de visitar uma endocrinologista para uns exames hormonais e etc. E a danada me pegou pelo tornozelo. Resultado: dieta.
Como tal um bebê. Seis refeições que de refeições só tem o nome. Um periquito pediria dose dupla do que como. Cada porção pesada e medida numa balança que vive sobre o micro ondas, malvada e sensí­vel como uma madrasta de conto infantil. Qualquer pedacinho de pão pesa mais do que deveria.
E o pior é o que posso beber. Leite desnatado, água, café e chá.
Também, quem mandou procurar uma endocrinologista abstêmia!?
Só vendo a cara que ela fez quando descrevi minhas noites de vinho tinto frente a lareira… Parecia que eu tomava heroí­na na veia! Acho que a bruxa teve uma invejazinha, ou não?
Imaginas a arredondada aqui tomando vinho tinto diante da lareira e dançando ao som da voz memorável de Billi Holliday, com um par de “olhos-de-mar-azul” acompanhando cada movimento meu? Rá!
Acho que ela pensou que era alucinação minha.
Não era. Não era!
Agora posso comer um iogurte com gosto de qualquer coisa (menos de vinho) e ir dormir com cara de mulher-de-meia-idade-triste. Difí­cil viu amiga. Difí­cil.
Mas, segundo os exames, vou ter que submeter-me à tortura.
Usei uma estratégia antiga, dos tempos da depressão. Naquela época colei na geladeira uma foto minha com largo sorriso, só para lembrar que eu já havia sido feliz, um dia. E estava magra.
Agora fiz o mesmo. Preguei a última foto tirada no Brasil de biquí­ni. Para lembrar-me de como não quero estar, daqui por diante.
O pior é que nesta foto estou sorrindo feliz como nunca havia sido na vida… e me confundo.
Preciso ser magra e feliz. E parece que as duas coisas não se casam no mesmo corpo.
Bueno… vamos ver quanto eu consigo conciliar das duas necessidades.
Por enquanto estou lutando para manter a classe e não comer uma lata inteira de sorvete. Que pobre de espí­rito heim?!
Também estou tentando não ter mais os sonhos eróticos com morangos e chocolates, que me acossam nas noites famintas e me deixam cansada e com o humor de Garfield pela manhã.
E por falar em manhãs, as de agora estão lindí­ssimas. O clima mudou completamente e as amendoeiras, que nem estão de regime nem nada, se cobrem de flores numa alegria que só vendo.
Aqui a gente dormiu inverno e acordou primavera. Quem dera meu programa de dieta permitisse o mesmo.
A bruxa disse que eu vou ter dificuldades para perder peso agora. Coisas da idade, parece.
Sabe que até passou o nozinho de tristeza que levo no peito desde uns dias? Acho que escrever-te ajudou-me a melhorar o astral. Prometo escrever mais vezes.
Beijo-te com toda a saudade e amor. Como sempre.

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Categorias: Coisas de Amor, Corpo&Alma de Mulher | Tags: , , , | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Minha Amiga Querida…

  1. Nora querida, fica triste não. Quando você menos esperar, o peso ideal foi alcançado, o corpo está de novo como dantes e a alegria pode voltar com um vinhozinho diante da lareira… Não é tanta idade assim, não são coisas da idade, pode crer. Fica firme, pensa no futuro que sorri. Não tenho nada com isso, mas você não falou em atividade física. Não tem? Isso faz muita falta nessas horas, porque ajuda a chegar ao peso ideal e porque dá certa euforia que não deixa a tristeza tomar posse do pedaço. Enquanto isso, tem olhos-cor-de-mar e cartas gostosas pra confortar. E agora tem árvores em flor Um beijo grande e pode contar com a torcida.
    adelaide | Homepage | 03.15.05 – 1:19 pm | #
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    Sem ânimo para atividades físicas Adelaide, mas forçando um pouco a barra, comecei algo.Conto depois!
    nora borges | Homepage | 03.15.05 – 3:12 pm | #
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    Estou mim sentindo desse jeito, flacidez, barriguez, estriez e gordurez, tudo isso dá uma tristeza e ficamos naquele dilema comer, e ser feliz ou emagrecer para se tornar feliz, eis a questão
    Denise | Homepage | 03.15.05 – 8:22 pm | #
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    Oi Nora,
    Tenho deixado a dieta sempre para amanha, mas acho que agora é hora de começar.
    No inverno a gente tem os casacos amigos, mas com a primavera chegando, talvez seja o momento de trocar os prazeres.
    Em vez de um delicioso (e enorme) chocolate, uma bela caminhada.
    O negocio é a gente encontrar (começa-se por tentar) prazer nas trocas. Depois que o peso estiver na medida certa, a gente toma um vinhozinho para comemorar e tenta manter em equilibrio a energia que entra e aquela consumida.
    O pior é que esse negocio da idade avançar nao ajuda muito, pois, entre outras coisas, o metabolismo fica mais lento. Mas a gente tem charme de sobra e o tempo nao vai ser nosso inimigo. Jamais!!
    Um beijo
    Gabriela | 03.16.05 – 7:52 am | #
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    Nora, que post mais lindo!!! adorei mesmo… ah, a tal da dieta é um inferno… estava em uma, até que perdi um bocado, mas cansei, chutei o pau da barraca e comi muito de tudo que estava sentindo saudades, ultimamente, amanhã começo tudo de novo… que saudades de quando não precisava disso… também ando com sonhos eróticos com morangos e aquelas tortas bem cheias de merengue… mas depois dos 40 a gente precisa se cuidar… não é tudo somente maravilhas não
    Beijos!!!
    Denise Arcoverde | Homepage | 03.16.05 – 8:21 pm | #
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    Ei, coragem. Comece a caminhar que emagrece mais depressa. Fiz isso e sem muito sacrifício tô emagrecendo numa boa. Olha, valeu , viu? E nem engordei apesar da n cervejas, em ótima companhia de uns olhos-cor-de-mel, nessa última semana.
    Beijo.
    Márcia | Homepage | 03.17.05 – 2:28 pm | #
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    Estou 1 Kg a menos do meu maior peso em 47 anos… Ai…
    Milton Ribeiro | Homepage | 03.17.05 – 4:58 pm | #
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    de repente me deu uma saudade das missivas vindas pelas mãso do carteiro..
    te beijo
    Nefertari | Homepage | 03.17.05 – 5:51 pm | #
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    Cartas.
    Sempre fui mandrião para escrevê-las, mesmo adorando recebê-las.
    Há um deleite maior quando a carta é em papel, mas a instantaneidade do MSN, com voz e imagem (com uma WEBCAM), sem o custo de interurbanos, é incomparável.
    Sílvia, minha mulher, diz que ninguém está gordo; é-se gordo, pelo metabolismo, pelas preferências…
    Combinar as exigências estéticas e sócio-culturais com o modus vivendi é uma árdua tarefa.
    Talvez, nem tanto ao mar, nem tanto à terra….
    Manoel Carlos | Homepage | 03.18.05 – 9:37 am | #
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    Nora, respondendo à sua pergunta no meu blog, eu abri o Cicatrizes super fácil, não tive problema nenhum!!! E quanto a esse post, uma delícia de ler, equivaleu a uma sobremesa de morangos com creme (não diet)!!! Eu não estou gorda, mas estou acima do meu peso ideal (o que me faz sentir bonita) e tenho que tomar tento e parar de comer tantas porcarias no horário de trabalho. Vou passar férias no Rio daqui a dois meses e meu corpo não está bikini-ready no momento. Beijos,
    Leila | Homepage | 03.18.05 – 11:44 am | #
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    Cartas, amigas e novos dias, estás nos melhores dos mundos Nora. Ter a possibilidade de fazer novos planos e ter com quem é uma maravilha. E com tua força então! Abraço.
    Reginaldo Siqueira | Homepage | 03.18.05 – 3:20 pm | #
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    Nora, ando sumida dos comentários, mas sempre lendo vc. Essa carta está deliciosa e reflete bem as agruras de um regime. Acho que poucas não passaram por ele, né? Se não é por gordura é por colesterol, por diabetes, por sei lá o quê… Beijo grande e força aí.
    ariane | 03.20.05 – 5:09 am | #
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    Querida Nora… infelizmente o tempo para visitar os cantinhos da blogosfera que tanto gosto tem sido pouco.MAs ainda bem que hoje consegui e pude visitar este bonito espaço. Que dois blogs bonitos A saudade é realmente um sentimento muito complicado… mas por vezes o quente das recordações serve para aquecer o coração. Beijinhos grandes. Malae***** ah! acho que vou passar a visitar os dois blogs
    Malae | Homepage | 03.20.05 – 8:03 am | #
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    Nora querida, pena que não posso levar o pc pra varanda e ficar lá lendo sua carta. Pena que ela não me chegou com aquele cheiro de tinta Parker. Mas que bom que ela chegou, porque realmente não há nada mais gostoso do que as danadas. Só mais gostoso é aquele momento em que a gente termina de ler e a traz pra perto do coração e revira os olhinhos. Quanto ao regime, liga não. Se der, deu. Se não der, azar. Já vi muita gente magra e infeliz. Almas magras minha querida, nunca são bonitas. A alma há que ser gorda, transbordante que nem um copo de vitamina, isso é o que vale. Beijo-te.
    Geórgia | Homepage | 03.21.05 – 10:31 pm | #
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    Eu, que adorei ser baleio do Sergio Borges venho, atrasada como sempre, e saber não em regime mas algo problematizada… Ah minha amiga… regime não tem coisa boa. Mas a sua carta… me lembrou quando recebi correio dia sim outro também das tias interioranas. A maior das delicias.
    Beijos de saudades
    Odila
    Maria Odila | Homepage | 03.23.05 – 5:32 am | #
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