Heranças…

As heranças que o Lorde me deixou foram o amor à música e à leitura.
Apesar de lutar sempre e até a morte com o rio, que a cada subida levava os pedaços da casa, ele chorava apenas quando perdia seus livros e discos.
Meu pai tinha a música como a linguagem da sua alma. Dizia com ela seu estado de espírito. Nos domingos felizes e ensolarados, ele enchia o ar com o melhor de The Brother Four; Peter, Paul and Mary; Nat King Cole; Billy Holliday; Piaf; ou Aznavour.
Nos domingos de chuva despertávamos ao som de Cantos Gregorianos
E se a chuva fosse noturna e tomada de gosto, se caía em tormentas com raios e trovões, Carmina Burana invadia a casa, o jardim, a mata e o rio. O som numa altura impossível para quem tivesse vizinhos humanos e chatos. Mas nós não tínhamos…
Aprendi a conhecer as emoções do Lorde pela música que ele escutava.
As óperas tinham lugar de destaque nas noites úmidas de Casa-Forte. La Traviata, La Bohème, Madame Butterfly, Carmem, Tosca.
Aprendi desde muito cedo a escutar os lamentos de Mme. Butterfly por dentro da névoa que cobria o jardim nas noites de inverno, numa das árias mais emocionantes que já ouvi na vida. Nessas noites ele parecia triste… tinha os olhos molhados.
Ainda hoje eu sinto seus cheiros, vejo seus olhos verdes semi fechados e suas belas mãos de arquiteto enquanto tocava o piano – que o rio roubou numa das suas investidas traiçoeiras – quando ouço a Sonata ao Luar ou a Passionata de Beethoven.
Quando ele queria ler ou apenas olhar o matagal escuro que se estendia além dos muros, uma diferente música lhe acompanhava. Quando queria emocionar minha mãe, usava invariavelmente o Concerto Número 2 de Rachmaninov. E a Princesa desligava a televisão e de mansinho desaparecia dentro do gabinete.
Uma vez ele deu a ela a música La Bohème, cantada por Aznavour. Não.. ele não chegou com o disco de presente. Ele deu A música. Cada vez que ela escutava, sorria com o cantinho da boca e perdia o olhar brilhante em algum espaço da memória.
Muitos anos depois da morte do Lorde, a Princesa ainda ria assim antes de cair em lágrimas quando ouvia a Sua música.
Quando eu soube que Aznavour cantaria em Recife, não pude resistir. Comprei dois ingressos para levar a Princesa. Ela não cabia em si de contentamento. E eu mais que ela, só por poder proporcionar-lhe uma alegria assim. Lembro-me que foi caríssimo!
Pois foi.. a Princesa vestiu-se como para um grande encontro. Chegamos muito antes de começar, sentamos e esperamos. Quando seu cantor preferido entrou no palco ela tremia e ria nervosa. Mas quando ele começou a cantar La Bohème, a Princesa perdeu o controle e fechou os olhos, os ombros tremendo em soluços. Tentei brincar dizendo que chorasse de olhos abertos, que tinha sido muito caro… mas minhas palavras saíram com gosto de lágrimas. Choramos abraçadas como se não houvesse mais ninguém na platéia além de nós duas.
E talvez nem nós duas.
Era como se estivéssemos na antiga casa do Poço da Panela, sentindo os cheiros de mato e jasmim, os cheiros de cachimbos e conhaque, do assoalho encerado do gabinete… os cheiros da névoa no jardim. Era como se Aznavour estivesse cantando ali, só para nós. Foi mágico!
Ainda hoje sorrio com o canto da boca, antes de ter os olhos molhados e perdidos, quando escuto a voz doce e suave de Aznavour cantando La Bohème.
Herdei-a da Princesa.

*Man Ray-Violon de Ingres1924

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Categorias: Memórias e Saudades, O Lorde e a Princesa | Tags: , , | 4 Comentários

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4 opiniões sobre “Heranças…

  1. Tanto trocamos e-mails para aprontar a casa. Vim reivindicar agora um lugarzinho confortável no sofá das visitas, para tomarmos um café.
    😉

  2. Este lembro de ter lido e comentado recentemente no endereço anterior.

  3. Que herança maior você poderia receber que o amor?
    Amor pela música e pela literatura.
    Este foi um relato comovente, pungente.
    Se você não tem, disponibilizarei em MP3 La Bohème, com Charles Aznavour.

  4. Agora consigo ler.
    E em boa hora.
    Um lindo texto, em particular para quem tem uma certa sensibilidade e conhecimento musical, como eu.

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