Adiamento…E Poesia. (Depressão)

Pois…
Sento-me aqui, em frente à folha em branco do word e escrevo reticências…
É tão difícil descrever o que é sentir-se ameba!
Como encontrar palavras para expressar uma morte simbólica, o medo, a penumbra da alma?
Pedi ajuda a um velho amigo.
O poema de Fernando Pessoa é assinado por Álvaro de Campos.
Eu, assim como ele, queria ter ( ou ser ) heterônimos. Não tive.
Assim que, por favor, esperem que me refaça das dores que as lembranças causam.
Permitam-me que seja reticente…
Há dores que mesmo quando passam, voltam a doer só de olhar para elas.
………………………………….
Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…
O porvir…
Sim, o porvir…

Álvaro de Campos

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Categorias: Cicatrizes da Alma, Outro Fala Por Mim, Poesia & BelosTextos | Tags: , , , | 17 Comentários

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17 opiniões sobre “Adiamento…E Poesia. (Depressão)

  1. Estás com uma escrita muito intimista. Sinal de agitação afectiva!
    Jinhos

  2. Ai que bom que vc me achou… mudou tudo por aqui :-).
    Beijos

  3. Força.
    Um beijo — imenso — desse seu Recife onde chooove.

  4. Curioso, estou numa inquietude, como o porvir, com o devir… e você posta isto?

  5. Comecei a ler e achei bonito. A uma certa altura achei familiar. Boas lembranças.
    (Curioso: já havia trocado o novo endereço no meu blog mas o velho continua lá. Vou trocar de novo.)
    Ciao

  6. anlene

    querida nora, esta segunda passei por uma que me fez desejar o mesmo que tu. às veses, devia ser possível rebobinar a vida, ou como dizem por aqui, “recapacitar” certas situações pra tentar pela segunda vez, pra ver se rola outro clima, mas c´est ne pas posible. Segunda-feira me lembrei do que costumava dizer uma amigo de brincadeira: “Pode deixar que amanhã eu vou lá hoje. Ou melhor, hoje, vou lá, só amanhã”. Nora, se já não passou passará. besitos
    Oye: dexei um arco-íris pa ti lá no blog!

  7. Hun, pêsames pela “perda”.
    O poema é lindo, e assassinar um amanhã é matar uma possibilidade, não destrua as possibilidades do amanhã…

  8. nora borges

    Estive em Segóvia pra dengar minha boneca, mas vou tentar escrever hoje.
    Mil beijos
    Ps: Parece que o sistema de comentários está com algum problema, vou perguntar aos meus vizinhos o que se passa.

  9. Oi Nora, valeu a indicação do “állan”, rsrs. O amanhã, isso me lembra aquela poesia “se eu morrer amanhã”. Se eu morrer amanhã quero ter feito tudo que podia hoje. bjs

  10. Bruno

    “A esperança é a assassina do hoje”,disse-me certa vez um amigo,e o belo texto de Fernando pessoa confirma…
    Estou em busaca do estado de espírito em que o “agora” seja efetivamente sentido como a única realidade….
    E,no “Poder do Agora”,que inclusive é nome de sábio livro,encontramo-nos com a essência ,e, consequentemente com
    as coisas do “sempre”…..
    Voltarei ao assunto por e.mail…
    Aqui,deixo apenas a minha impressão digital,evidenciando a visita …..
    Bruno

  11. Nora querida
    Esse Poema é lindo, o autor dispensa comentários,mas ele não condiz com essa mulher,que eu só conheço pela foto ao lado,mas sobretudo pelo que ela escreve.
    Adiamento não combina com vc ,resolva tudo imediatamente,sente em frente ao computador e escreva no Word,escreva muito ,como vc sabe tão bem fazê-lo

  12. Finalmente consegui abrir o “comment”. Já havia estado aqui de outra vez, e não abriu de jeito nenhum.
    O poema é lindo e é uma verdade que “depois de amanhã” você já há de estar tomada pela escritora que é. Sorte sua? Sorte nossa! Beijo e inté!

  13. Atrasada, eu estava atrasadíssima. Mês passado a operação da filha e comlo maio operando o dedo logo.. nada de escrever. MAs de tão irada consegui médico ontem. domingo. que aliviou a carga do dedo entalado e liberou, pouco diz ele, a escrita
    Então vim matar saudades… e tenho, bem sei, emails teus a responder. mas querida fiquei pensando.. sentir-se ameba? ai ai ai diga logo no que anda e o que acontece
    Beijos daqui, beijos mortos de saudade
    Odila

  14. Fiquei tão desarmadocom o começo deste post que não deixei comentários, mas fiquei pensando: o que terá acontecido? Volto aqui e faço a pergunta de verdade. Afinal, me (nos) deixaste preocupados. Um beijo.

  15. Credo! Isto é poesia!

  16. nora borges

    Meus queridos, não se preocupem com o tom do post. A dor é passado.
    A lembrança da dor é que não me deixou escrever o post que eu queria.
    Pensava que já podia!
    Sempre fui metida a achar que podia coisas!

  17. Nora,
    Espero que esteja melhor, com menos dores. E que volte logo a escrever…
    Beijo

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