Felicidade Clandestina…

Esta história, escrita por Clarice Lispector, foi publicada por Sonja. Pedi emprestada imediatamente. Porque ela parece minha… Não, porque ela é minha.
Reinações de Narizinho foi o primeiro livro que ganhei. Um livro meu!? Haja felicidade!
E o Lorde, às vezes, chamava-me de Narizinho Arrebitado, que para mim era um elogio e tanto! Mais do que quando me disseram, muitos anos depois, que eu parecia com Florinda Bolkan!!!
Digo que a história é minha porque descreve o que é felicidade clandestina
Descreve, como eu já descrevi, o que era deixar um envelope cerrado sobre a mesa e fazer de conta que ele não estava ali ainda…
Descreve o que era sentar na rede e adiar a felicidade guardada em poucas frases…
Quem leu a História de Amor, escrita neste blog, sabe do que estou falando! E juro que eu nem conhecia este texto antes de hoje.
Ah! Essa Clarice!
Que mulher para escrever o que eu sinto!

*****************************************
Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres.
Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa.
Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu nao vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.”
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito.
Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Clarice Lispector

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Categorias: Livros, Outro Fala Por Mim, Poesia & BelosTextos | Tags: , | 18 Comentários

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18 opiniões sobre “Felicidade Clandestina…

  1. Mas que ideia tão feliz a de colocares aqui esta história tão real que parece um sonho.
    Jinhos

  2. Kátia

    Para não entrarmos em atrito, vamos dizer que a história é de todas nós??? Mesmo porque a Clarice, como já partiu, não se importar da nossa apropriação índébita.
    Beijos e muita ansiedade.
    Kátia

  3. É também a minha. 😉
    beijo daqui onde chooooveeee.

  4. Quem sabe escreve… outros, como eu… apreciam…
    Beijos

  5. Nora,
    So quem leu esse livro quando crianca pode saber o que ela descreve neh nao?
    beijinhos e bom domingo,

  6. Nora, fiquei aqui totalmente envolvida pela belíssima história e imaginando você. Coisa boa é ter uma amiga como a Sonja, não só pela grande sensibilidade, mas também por ela ter me trazido até você.
    Beijos.

  7. Tereza

    Nora, quem me trouxe aqui foi a Helô do Banana e Etc.
    O seu blog é muito bom.Eu acho a Clarice uma das melhores escritoras que já li.
    Beijos.

  8. Nora, que delícia de post!
    Lembrou-me imediatamente de ter lido este texto em uma aula de português, na quinta série…
    Bons tempos que vão longe!
    Mas as coisas boas ficam em nós, indeléveis.
    Beijos, querida.

  9. Li isso em algum canto esses dias, onde será? Me lembra eu roubando temporariamente livros na biblioteca da escola. Eu sempre devolvia, mas para a transgressão me justificativa dizendo que aquilo era um tesouro que merecia mais do que ficar confinado àquelas estantes que ninguém visitava. Nostalgia é cousa buena.

  10. Nefertari

    Um pedaço de nossa vida é sempre identificada em parte da vida de outrem..
    As reinações de Narizinho foi um livro especial… e te leio com um amor que se expande em mim… como se tivesse sido comigo!
    te beijo

  11. Nora, quase chorei de emoção, não conhecia este texto,, o pior é que sei exatamente o que é isto e é de doer.
    Estou adorando teus posts, me identifico.
    Voltarei sempre.
    bj. laura

  12. Clarice sempre é emocionante… adorei, Norinha!

  13. Ah, poderia ser comigo essa historia, com certeza…
    Beijo pra ti

  14. nora guapa, belo post! No mais, sinceramente nao sei se vou enfrentar a feira. É muita muvuca para meu gosto. Além disso, trabalho pela manha todos os dias… quem sabe nos vemos depois da sua visita a feira para almoçar ou bater um papinho? me escreve depois, bjs

  15. Querida Nora: eu hava comentado, no post anterior sobre o quanto La Piaf me trazia lembranças de Paris, por uma série de motivos, na minha viagem…
    Sumiu este cometário.
    Coloquei outro.
    Sumiu, também….rs
    Aí, desisti.
    Beijão! Dora

  16. Estou lendo “A paixão segundo G.H.” e é surpreendente como, logo no início, o que vai dentro de mim se identifica com as palavras do livro: “perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não é mais”. Clarice é assim, essencial.
    Você tem muito bom gosto pra leitura, num tempo onde as pessoas pouco lêem. Bom, até que muita gente lê, mas lê auto-ajuda! Estão no topo dos mais vendidos. Esquecem-se de buscar ajuda dentro de si mesmas.
    Well, me empolguei um pouco. Sou uma apaixonada pelos livros.

  17. President George W. Bush’s call for bipartisan support on a range of domestic issues while sticking to his guns on Iraq played well in the TV ratings, at least compared with his last two State of the Union speeches…

  18. “Quem lê constrói um castelo. Quem escreve passa a habitá-lo”

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