Arquivo do dia: junho 9, 2005

E Por Falar Em Cicatrizes…( Falando de Depressão)

Adelaide disse assim:“Ela vem e senta nos teus movimentos… um peso branco que te trava todo e nem te dá vontade de morrer, razão pela qual você continua vivo, mas assim, a contragosto…
Aliás, ela é contragosto mais do que desgosto.”

E eu disse assim: “Morrer, o que se diz morrer mesmo, não morri. Mas morri assim mesmo.”

Enquanto contava a história dos encontros e desencontros que me trouxeram até aqui, mencionei algumas vezes um período de minha vida em que perdi-me de mim mesma.
Há algum tempo venho tentando escrever sobre isso.
Cortázar diz que ” é mais fácil falar de coisas tristes que das alegres” e que ” dos bons sentimentos nasce a má literatura… que a felicidade é somente de um, em troca a desgraça parece ser de todos”.
Não para mim. Escrever sobre esse mergulho no poço profundo da dor sem lugar e sem sentido foi muito difícil. Desvelar-me não. Já fiz isso muitas vezes. Mas, desvelar o estar escondida na penumbra da alma e não saber como encontrar de novo a luz, foi como bordear o precipício por onde se caiu…
Pois esse post pretende contar um pouco, só um pouco, o que foi esse curto-circuito na minha vida.
Acho que o texto publicado no Umbigo do Sonho deu-me um ponto de apoio, um fio condutor.
Há mais ou menos 8 anos atrás, nesta mesma galáxia (acho!), minha alma adoeceu.
Não sei bem como começou, mas fazendo um esforço de memória recordo um sono quase incontrolável em horários não muito comuns, um desânimo em relação ao trabalho, uma vontade de parar o mundo e descer…
Parecia impossível acompanhar a velocidade da vida e eu estava tão cansada!
Fui deixando algumas atividades… não me dava tempo ir, me exigiam uma energia que eu não tinha.
Depois, também não sei quando, uma tristeza sem nome foi se instalando, se insinuando por baixo da pele, transformando o sorriso em ação rara, apagando do olhar o brilho, freando os impulsos do prazer.
Eu tentava reagir. Buscava a companhia dos amigos de sempre. Mas, no meio do encontro, perguntava-me o que estava fazendo ali, que conversa era aquela, porque não ia para casa e ficava sozinha escutando música e lendo alguma coisa? “Para não me divertir, melhor não ir!”
Voltava para casa e não queria a música, nem o livro. Ligava a televisão e não via nada… deixava o telefone tocar mil e duas vezes sem atendê-lo.
Um dia saí de casa e deixei, sem perceber, a torneira do banheiro aberta. Eram épocas de racionamento de água e haviam horas certas para o abastecimento. Quando cheguei a casa estava inundada. Essa foi só a primeira vez…
Num outro, botei um pedaço de pizza para esquentar no forno, peguei a bolsa e saí de casa. Quando voltei, a cozinha era um verdadeiro inferno pela fumaça e pelo calor que vinha do fogão. Os azulejos já estavam negros na parede atrás dele. Não sei como o incêndio não havia ainda começado!
Depois,deixei o computador ligado, o ferro de passar, a janela da sala aberta, pronta para que qualquer chuva entrasse livre-leve-e-solta, banhando o tapete e as almofadas, que eram meu sofá.
Contava esses casos rindo amarelo (ainda) de mim mesma. Não percebia que eram sinais de que algo em mim estava acontecendo. E que era um algo muito perigoso.
Depois que se repetiram, deixei de contá-los. Não tinham mais graça alguma!
Assim fui deixando mansamente de ir, de contar, de querer, de falar, de desejar, de ser.Tudo muito mansamente…
Tive que escrever uma lista de coisas a fazer antes de sair de casa e pregar na porta da sala.
-Desligar TUDO que estiver ligado.
-Fechar as janelas.
-Levar o lixo para fora.
-Fechar as torneiras.
-Check list da bolsa: chaves, carteira, contas, e todas as quinquilharias que eu achava que precisaria todos os dias.
Parecia engraçado, mas não era. A lista crescia todo dia.
As madrugadas me viam absorta na janela de um 15 andar, acompanhada de uma lua tardia. Tão solitária como eu. Pensava que ambas éramos românticas, mas sempre estávamos sós. Estávamos tão perto de tudo e esse tudo era tão inalcançável! Pensei que era porque ambas éramos desertas…
Contava a ela e a mim mesma os fracassos da vida. Não gostava mais do trabalho que sempre me havia encantado. Só tinha podido ter uma filha e nem sabia se tinha sido a mãe que ela precisava! Não sabia administrar minha própria casa, nem a vida afetiva: um noivado desfeito, uma casamento fracassado, namoros superficiais, algum amante proibido que esvaziava mais do que preenchia minhas carências. E agora nem isso! Insegurança profissional e financeira. Tanto estudo para nada! Trabalhava um horror de horas para poder pagar as contas e olhe lá!
Era isso viver?
E ainda por cima gastava em discos quando nem havia pago ainda a conta da luz, do condomínio, do IPTU… e tudo, e tudo. Comprava sete discos de uma vez e os escondia na prateleira. Escondia-os de mim mesma…da culpa. E nem sequer os escutava. Pela culpa. Melhor não.
Agora nem música, nem livros, nem televisão…
Sentia como se estivesse imersa em um silêncio interno, morno, pegajoso, cansado. Quando ele me vencia, dormia entre sonhos de desassossego.
Despertar era um esforço imenso, como se tivesse que lutar para desenterrar a cabeça de um buraco no fundo da terra…
“Reaja!” Eu me dizia. “Você está virando uma ameba!”
Escolhi umas fotos em que estava bonita e sorridente e prendi na porta da geladeira, para lembrar de quando eu era feliz! Não queria esquecer quem eu era!
Com a ajuda de um despertador, forçava-me a sair da cama, beber um copo de água e me jogar para fora de casa.
Comecei a caminhar na praia pelas manhãs. Precisava manter algum exercício físico já que não ia mais à academia. Sair era o pior momento, mas depois, “estar diante do mar seria um bálsamo”, pensei.
Isso durou alguns dias… só alguns.
Em pouco tempo, encarar a luz do dia me fazia mal. Olhar o mar me fazia chorar… a solidão parecia maior.
Aquela figura embaçada que eu era, caminhando contra o vento marítimo, molhada de lágrimas, era patética demais. Melhor não ir.
A janela da sala agora permanecia fechada, com as cortinas cerradas. O sol me doía dentro do coração.
Começava coisas que nunca terminava… tinha pelo menos 5 livros iniciados espalhados pela casa. Um deles – Bom dia, Angústia, de Sponville – obrigatório para um curso que estava fazendo, me arrepiava de medo só pelo título. Olhava para ele como quem descobre uma cascavel entre os lençóis da cama, sempre desfeita. Pânico!
Me exigiam também um resumo comentado de O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro. A cada página lida, uma raiva surda que me subia das entranhas! Imaginava a fogueira que eu iria fazer no meio sala com o livro, assim que acabasse de lê-lo. Mas nunca terminava… nunca terminava… ele crescia em páginas a cada tentativa minha de avançar. Era mágico! O desgraçado ficava mais grosso todo dia!
Eu chegava atrasada a todos os compromissos. Talvez porque não quisesse mesmo ir. “Melhor não ir”, pensava.
Mas ia. Depois de rodar pela casa vestindo todas as roupas que não gostava, tirando tudo de dentro do armário e não encontrando justamente aquela que me deixaria pelo menos apresentável, guardando a escova de cabelo dentro da geladeira, comendo em pé no meio da cozinha, esquecendo de levar pastas importantes (mais coisas para a lista) e depois, o pior…
Perdia-me!
A cidade era a mesma de sempre, mas eu me perdia. Entrava em ruas desconhecidas, dobrava a esquerda quando deveria ir pela direita, ia para uma casa que não era mais a minha…
Não lembro o que pensava enquanto dirigia. Um perigo! Por duas vezes cruzei sinais vermelhos jurando que haviam ficado verde. É que estava olhando para o sinal contrário à minha direção. Alguma vez parei o carro em pleno sinal verde. Também só vi o vermelho fechado para o sentido contrário. Sentido? Que sentido?
Parava o carro às vezes e me perguntava para onde estava indo? Eram apenas segundos de dúvida, mas podiam levar-me por avenidas enormes onde tinha que dirigir quilômetros até encontrar uma forma de voltar. Voltar para onde?
Outras vezes saía disposta a visitar uma amiga. Desistia no meio do caminho e decidia ir ver minha mãe. Desistia disso também e resolvia voltar para casa. E perdia-me outra vez. Parava muitas vezes chorando por alguma música que tocava no rádio… “Eu nem sei, porque me sinto assim… vem de repente uma anjo triste perto de mim…”
Preferia que nada tocasse no rádio. Desligava.
Mesmo assim, chorava.
Perdi o sentido. Perdi todos os sentidos!
A verdade é que a cidade não era mais a mesma. Parecia desconhecida.
Gostava mais dos dias de chuva agora… sentia-me mais acolhida, encolhida, abraçada.
Gostava? Não sabia mais o que era gostar de alguma coisa. Mas pelo menos não havia um sol brilhante a me ferir a pele e os olhos, nem céu azul, nem rebuliço de gente feliz pelas ruas. Como podiam rir aquelas pessoas com aquele sol e calor?
A chuva era fresca. A chuva chorava. A chuva pintava a cidade de cinza. Tudo ficava da minha cor. Cinza.
Por que não chovia todos os dias? Era tão mais fácil viver!
Então, dormir foi ficando impossível… tinha fantasias de morte. Pensava que morrer não seria tão mal assim. Já havia vivido o melhor e o pior da vida. Achava que seria apenas fechar o olho e não abri-lo nunca mais. Mas tinha tanto medo! Melhor não dormir!
Mas estava tão cansada!
Por uns dias, parei com todas as atividades “obrigatórias” e resolvi contar tudo a minha mãe. Fiquei indo lá sempre que podia e era em sua cama o único lugar em que descansava. Ela me dava um suco ou um café, eu deitava e dormia. Ali não morreria!
Ela me dizia que eu tinha que reagir… que eu tinha tudo para ser feliz, que não entendia porque me queixava, se era livre, independente e dona do meu destino! Era tudo que ela não havia podido ser…
Fiquei com vergonha. Deixei de ir lá e disse-lhe que já estava melhor.
Comecei a frequentar a casa de uma amiga que trabalhava com bijou.Ela trabalhando e eu dormindo no sofá… uns quatro ou cinco dias.
Depois fiquei com vergonha…
E não ia mais a lugar nenhum, exceto aos lugares “obrigatórios”.
Ali ficava, como uma sombra… ninguém notava nada. Se alguém percebia algo estranho e me perguntava se estava bem, eu respondia que não, mas que era passageiro. Já ia passar! E ficava por isso mesmo. Ninguém percebia que eu não estava ali. Era só a casca de mim que perambulava pelo mundo!Eu era uma replicante.
Descobri um trabalho para ficar em casa. Selecionar cenas de filmes para ilustrar as habilidades de liderança. Era só alugar fitas de vídeo, assistir, anotar e gravar. Quatro dias por semana sem obrigação de ir mais longe que a locadora mais perto. Perfeito!
Sofria nos filmes violentos, sofria nos filmes tristes, invejava os felizes.
Comia desreguladamente. Nem lembro o que comia. Coisas congeladas, eu acho. Sorvetes, pipocas, jujubas.
E aí fui diminuindo por dentro e crescendo por fora.
E chorava… e chorava…
Isso durou mais ou menos três meses, embora hoje eu saiba que começou antes de que eu mesma pudesse perceber.
Um dia, sentei para fazer xixi e fiquei ali por um tempo indefinido…
Quando o telefone tocou e me levantei para atendê-lo, caí sem sentir as pernas. Estavam completamente adormecidas…
Tentei “nadar” até a sala, mas quando cheguei lá, chorava tanto que não atendi.
Alguns minutos depois, o telefone tocou outra vez…
Levantei-o do gancho, tremendo. Era uma amiga que eu não via há mais ou menos dois anos.
Ao escutar meu rouco e sussurrado “alô”, perguntou: “O que você tem?”
Respondi ” não sei, acho que morri…”

Adelaide disse assim: “… desmorona num vazio de dentro… até cair feito fantoche sem ninguém pra mover os fios, boneco de ventríloquo sem o amo pra falar por ele…
E eu? Eu não disse mais nada…
Entreguei os pontos.

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