Arquivo do dia: julho 14, 2005

Anjo de Si Mesmo…( Falando de Depressão)

Eu olhava no espelho e via outra mulher. Na verdade não era outra, mas também não era a mesma. Não era mais aquela da foto que estava pregada na porta da geladeira, com um brilho inocente no olhar e o sorriso auto suficiente de mulher independente e bem resolvida.
E apenas um ano me separava dela!
Também não era mais aquela rota e amarrotada criatura que vivia sem viver, com olhar embrumado e olheiras profundas, oca de alegria, murcha de energia, emudecida pela total falta de ganas de expressar em palavras qualquer sentido para a vida.
Agora, dia após dia, o que via no espelho era uma mulher que começava a experimentar uma nova forma de ver o mundo e de relacionar-se com ele. Agora os olhos no espelho eram mansos, doces, condescendentes. Parecia-me que era mais humana, mais real e verdadeira com meus sentimentos, meus sonhos, meus desejos.
Uma das transformações que percebi em mim foi que eu não corria mais atrás do tempo, andava mais lentamente, fazia as coisas mais simples ou mais complexas com mais intensidade e consciência, quero dizer, não mecanicamente como antes de adoecer, nem com tanta tensão.
Deixei de explorar-me e passei a realizar com calma e tranquilidade aquilo que o dia e minhas forças me permitiam.
Não mais assumia mil e uma responsabilidades, nem compromissos com prazos impossíveis ou metas inalcançáveis.
Deixei de ser escrava de minha auto-crítica e de meu perfeccionismo.
Permiti-me ser também o anjo de mim mesma.
Exigia menos de mim e então descobria que o dia era mais produtivo e saboroso.
Descobri naqueles nove meses de tratamento que precisar não diminui ninguém, muito ao contrário. Ajuda a crescer. Precisar é uma aula de humildade.
Clarice Lispector disse que “a solidão é não precisar”. E que “não precisar deixa um homem muito só, todo só.”
Para mim é a mais pura verdade.
Não só aceitei a ajuda desinteressada daqueles que me deram apoio sem que eu o pedisse formalmente, como também aprendi a pedir.
Saber receber é uma virtude. Nem todos sabem. Os muito independentes e auto suficientes não sabem receber. Sentem-se até mesmo ofendidos quando alguém tenta ajudá-los.
E saber pedir?
Ah… isso é uma violência para os solitários.
Além de acreditar que “não precisam”, quando descobrem que isso é falso, trocam de crença para “não quero incomodar ninguém com meus problemas!”
Mas é lindo aprender a pedir. Difícil, mas lindo.
Pedi companhia, pedi paciência, pedi colaboração… pedi o que achava que precisava.
Nem sempre fui atendida, é verdade. Algumas pessoas, inclusive dentro de minha própria família, simplesmente não compreenderam nunca o que estava se passando comigo. E justamente porque era comigo.
A rota e amarrotada criatura não combinava com a imagem que sempre tiveram de mim e talvez por isso nunca conseguiram vê-la… Continuavam vendo-me como lhes parecia que eu era. Acreditavam que a melhor “ajuda” era não admitir minha doença, minha mudança, minhas novas e, para eles, inacreditáveis necessidades.
Alguns chegaram ao ponto de criticar a medicação dizendo que eu não estava louca e só quem estava doido precisava desses remédios.
Acabei entendendo que eles também não tinham culpa disso.
Paguei todos os preços pela desorganização em que havia transformado a minha vida. Para acertar todas as dívidas, tive que fazer muitas mudanças, desfazer-me de muitas coisas, desprender-me de algumas pessoas e aproximar-me mais de outras.
Recebi muitíssima ajuda nesses momentos e finalmente entendi que saber receber também é dar. Porque a gente está devolvendo amor, confiança, respeito. E isso também faz feliz aos nossos anjos.
Tomei algumas decisões muito importantes naqueles meses: preservar-me mais do stress do “mundo moderno”, escolher melhor as pessoas com quem trocar afeto, retomar meus sonhos mais profundos, cuidar mais de mim aceitando e respeitando minhas limitações, não correr atrás de um futuro idealizado, nem pessoal nem profissional mas, “passo à passo”, ir construindo um presente mais saudável, mais tranquilo e feliz.
Aproveito a oportunidade para dizer às pessoas que sofrem algum tipo de depressão que tirem suas máscaras e peçam ajuda, ou apenas aceitem que seus anjos se aproximem. Eles estão aí por perto…
Não se escondam mais… não lutem sozinhos. Não tenham vergonha de assumir seriamente um tratamento para não serem taxados de “maluquinhos”, “pobrezinhos”, “coitadinhos”. O sofrimento crônico de adiar uma decisão de curar-se não vale a pena.
Não me envergonho de contar o que passei porque considero que, apesar de terrível, foi uma imensa aprendizagem. Renasci melhor. E não sou eu apenas que pensa assim.
Também a experiência de perder a Princesa, minha mãe, vítima da Síndrome de Alzheimer, apenas dois anos depois, mostrou-me muito cruamente e cruelmente que valores são realmente importantes na vida: a saúde mental e física, a paz de espírito e o amor.
O resto é resto.
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Ps: Espero ter respondido com este post os maravilhosos comentários que recebi nos anteriores. E, talvez, ter ajudado alguns a encontrar um fio de luz dentro de suas penumbras.

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