O Almoço…

Li um post no Pretensos Colóquios da amiga Dora, e não pude resistir a trazer aqui um dos meus pedaços prediletos do livro de Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas.
Porque desde que vivo na Espanha, muitas vezes assisti-me como uma estranha numa mesa onde comensais pareciam amigos sem o serem… medindo palavras e gestos aos mínimos detalhes.
De repente eu queria que toda aquela deliciosa comida, as belas flores e os magníficos vinhos fossem para outros… distantes e queridos outros.
Cortázar é divino quando descreve um almoço entre cronópios, famas e esperanças.
Ai, vai. Para você Dora!
E para todos os que também amam Cortázar ou apenas sentem falta de verdadeiros amigos em suas mesas.
…………..

“Não sem trabalho um cronópio chegou a estabelecer um termômetro de vidas. Algo entre termômetro e topômetro, entre fichário e currículum vitae. Por exemplo, o cronópio em sua casa recebia a um fama, uma esperança e um professor de línguas. Aplicando seus descobrimentos estabeleceu que o fama era infra-vida, a esperança para-vida, e o professor de línguas inter-vida.
Enquanto a si mesmo, considerava-se ligeiramente super-vida, mais por poesia que por verdade.
Na hora do almoço este cronópio gozava em ouvir falar a seus contertúlios, porque todos acreditavam estar referindo-se às mesmas coisas e não era assim.
A inter-vida manejava abstrações tais como espírito e consciência, que a para-vida escutava como quem ouve chover – tarefa delicada. Naturalmente, a infra-vida pedia a cada instante o queijo ralado, e a super-vida trinchava o frango em quarenta e dois movimentos, método Stanley Fitzsimmons.
Depois das sobremesas, as vidas se saudavam e partiam para as suas ocupações, e na mesa permaneciam apenas pedacinhos soltos de morte.”

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Categorias: Livros, Outro Fala Por Mim, Poesia & BelosTextos | Tags: , | 14 Comentários

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14 opiniões sobre “O Almoço…

  1. Oi, Norandorinha,
    Fui lá, Cicatrizes, falaram para eu vir pra cá. Vim!
    Agora eu sei que é um único endereço. Por enquanto, para não perder o rumo, deixo o link do Cicatrizes lá no Observador. Quando for o caso de remove-lo, avise-me.
    E mais: falei que baixei, guardei, tudo do Cicatrizes. Abri pasta e tudo. Guardadinho, como convém as nobres coisas.
    Beijos
    fernando cals

  2. Cortázar é o cara.
    Aquele conto dos telegramas é delirante.

  3. Nora,
    Em primeiro lugar, agradeço as tuas palavras tão gentis no meu cantinho. Obrigada! A recíproca é verdadeira.
    Ah, esses “cronópios”, estes seres verdes, úmidos, etc.; que acreditam na poesia, na brincadeira… Cortázar era o maior deles!
    * * *
    Um cronópio encontra uma flor solitária no meio dos campos. Primeiro pensa em arrancá-la, mas percebe que é uma crueldade inútil, e se coloca de joelhos junto dela e brinca alegremente com a flor, isto é: acaricia-lhe as petálas, sopra para que ela dance, zumbe feito uma abelha, cheira seu perfume, e deita finalmente debaixo da flor envolvido em uma enorme paz.
    A flor pensa:”É como uma flor”.

  4. Nora! A temática pode ser parecida, mas Cortázar deixa meu “texto” chorando de vergonha…rs Brincadeiras à parte, um escritor genial faz uma obra de arte sobre qualquer tema, enquanto eu apenas “emendo palavras”…
    Obrigadíssima por colocar o texto dele, referindo-se, de alguma forma, a mim, no seu blog…Isso sim é motivo de orgulho!! Ser “citada” por você!
    Beijo enorme!
    Dora

  5. Nora,
    Cortazar foi um dos escritores que mais li (li tudo) numa época em que ainda não era moda ler Cortazar. O curioso é o modo surrealista que ele usa para falar de coisas tão cotidianas. Acaba o nosso cotidiano parecendo surreal.
    Quanto ao Cicratizes da MIranda, acho uma pena, mas compreendo. Melhor concentrar todas as energias num canto só.
    Ciao

  6. nora, obrigada pelo carinho da visita e por suas palavras. é sempre muito bom quando o caminho nos apresenta pessoas inteiras, que se entregam, mesmo diante de tudo o mais. gosto disso. gosto de caminhos verdadeiros. que presente intenso sonja me ofereceu ontem… e me fez chorar ainda com as teclas de marfim a boiar… e na constatação de que o rio sabia ler… fui ao teu passado e ao teu presente… e crescer dói. ainda que seja necessário e um caminho sem volta. como a criança sorri banguela por mais um dente de leite que igual gangorra balança e cai. sem se machucar… mas com a certeza de que nada será como antes.
    estou de banho tomado. e definitivamente, sei que nada, absolutamente nada, é igual ao minuto passado.
    meu beijo, apareça sempre que quiser. é muito bem-vinda.

  7. Adoro esse livro, Nora. Beijazul ( e tricolor rs)do Recife.

  8. Escutava como quem ouve chover…
    Cotazár e verdadeiros amigos em nossas mesas. Pra que mais? Pena não ser sempre assim…
    Beijão, Nora.

  9. Nora, acho que Cortázar consegue unir o espaço exterior com o espaço interior, mental, de forma perfeita. Tudo o que escreveu é intenso, importante e cheio de significados. Mas eu queria na realidade fazer uma reclamação. Eu estava lendo o post tranquilamente e de repente apareceu um inseto na tela. Como um ninja, dei um soco no monitor que como consequencia me causou uma forte dor no pulso, mas pior, afundou a tela toda. Só então fui sacar que apesar do monitor dobrado em dois, o inseto continuava passeando calmamente. Essa mariposa é um perigo!

  10. Jussara

    Oi,amiga!
    Passei aqui pra deixaer um beijo,desejos de luz e paz!
    Saudades

  11. Cortazar é fantástico sempre. Tks, bj laura

  12. A violência urbana tem mudado, para pior, os hábitos dos brasileiros.
    Sinto falta de compartilhar a mesa com mais freqüência; continuo a conviver (menos, é verdade) com verdadeiros amigos.

  13. Estes dias comentava com uma amiga sobre os amiguinhos e da saudade que tenho dos verdadeiros amigos. As vezes tb me desligo numa mesa cheia, olhando os gestos comedidos e pensados, as avaliações femininas, até as ironias… escandalosamente entre eles também!
    Que saudade de pensar em voz alta com uma amiga.
    bj

  14. ah! postei isso recentemente no meu blog. e como você dedicou o texto aos amigos que gostam de Cortázar…obrigada, señorita!
    😉

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