Pedaços de Mim…(Cap13 )

A sala estava cheia de caixas de papelão, etiquetas e rotuladores de cores variadas…
Enquanto eu desfazia as estantes de livros e tentava não pensar que teria que separar-me deles, a minha vida ia passando diante dos olhos como um filme antigo, em preto e branco…
Olhava o livro, lembrava onde o tinha comprado, em que época havia lido, que sentimentos havia despertado em mim. Alguns iam direito para uma das caixas. Poucos, devo admitir. Outros, muitos, ficavam ali na mão, pedindo para serem abertos, relidos, mostrando as notas feitas a lápis nas margens de algumas páginas, reagindo a serem trancados entre quatro paredes de papelão por um tempo indeterminado. Um sofrimento!
Eu já sabia que não poderia levá-los comigo, pelo menos de imediato. Mas onde guardá-los?
Pensei nele. Um dos meus irmãos que adora ler. Mas os livros em sua casa, depois de lidos (apenas por ele), eram objetos sem categoria. Perdiam qualquer batalha por algum status na família. Ficavam guardados numa antiga e fria despensa, misturados com trastes velhos.
Sua esposa adorava que as estantes de sua sala fossem super-clean. No máximo uns pequenos objetos decorativos de vidro transparente, um ou outro vaso com arranjos de flores secas, belos candelabros. E só.
– Livros? Na sala? Nem pensar! Dizia que cheiravam a papel velho e guardavam toda a poeira do mundo.
Pois então… os maravilhosos livros de meu irmão dormiam na gélida despensa mesmo. E digo dormiam porque sequer estavam dignamente em pé, com o lomo aparecendo. Jaziam deitados. Todos. E de frente. Irreconhecíveis!
Por cima de seus corpos, um sem número de objetos: sapatos velhos, cabides quebrados, bacias furadas, espanadores rotos, sacos plásticos vazios… “Pedacinhos de morte”, como diria Cortázar.
Para lá eu não mandaria um só dos meus queridos pedaços de vida…
Escolhi apenas os didáticos que pudessem ajudar seus filhos nos exames de vestibular. Esses sim… estariam espalhados pelos quartos dos meninos, até que não fossem mais tão úteis e acabassem no Cemitério dos Esquecidos. A terrível e bolorosa despensa-trasteiro-biblioteca.
Separei também Obras Completas de Freud, que ele pediu-me com os olhos brilhantes, mas só com a promessa de que ficassem na prateleira do quarto de um de seus filhos, se esse concordasse. Não podia sequer imaginar que Totem e Tabu ou a Interpretação dos Sonhos fossem enterrados naquele monte de tranqueiras!
Bueno, pensei em meu outro irmão. O Pescador de Ilusões.(Um dia eu explico esse apelido.) Essa criatura nunca leu um livro inteiro. Mentira minha. Leu sim. Um. O Alquimista…
Suas estantes são cheias de troféus de pesca, cinzeiros e estatuetas horríveis. Mas ele as adora!
Bueno, não custava tentar.
Suspirei quando ele disse que não tinha espaço para guardar meus livros. Eu já sabia… suspirei nem sei por que.
Depois de trocar mil vezes de opinião sobre o que fazer com eles, revendo preços das companhias aéreas, navios, correios, passando inclusive pela encantadora idéia de tirar tudo das malas e transformá-las numa biblioteca ambulante (as roupas são perfeitamente compráveis em qualquer parte do mundo) e descobrindo que o peso das pobres coitadas quadruplicava sem resolver a questão, – cabiam tão poucos! – voltei às caixas. Separei tudo de novo e criei categorias para eles. Categorias afetivas, diga-se de passagem! Deixei tudo ali, no meio da sala, até conseguir pensar com calma. Tarefa difícil naqueles dias.
Ainda tinha que saber o que fazer com as cartas, bilhetes, fotografias… Antes sabia que podia contar com a cumplicidade e discrição da Princesa. Mas… agora que ela não vivia mais, como deixar minha vida assim, por escrito, nas mãos de outro alguém que não fosse ela??!
Meu coração parava quando olhava para o armário e via a enorme caixa de cartas…cópias das enviadas junto com as recebidas, no mesmo envelope. Maços e maços envolvidos em fitas. Meus sentimentos escancarados, escritos em épocas distintas para os personagens importantes de meu passado… Mas esse capítulo merece um post a parte.
Concentrei-me nos livros. Tinha que encontrar uma saída.
Finalmente tive uma idéia fantástica! Chamei uma amiga querida (ela, aquela que rondava minha porta nos dias de escuridão)  e fiz uma proposta semi-indecente. Ela ficaria com meus livros mais queridos (muitos) em sua casa e em lugar de honra ( por favor!) e assim que eu pudesse iria buscá-los, pouco à pouco. O resto eu deixaria com o Pescador de Ilusões, mesmo sabendo que seriam abandonados nas prateleiras do quarto de serviço. Um lugar arejado, pelo menos! Seriam resgatados assim que eu pudesse.
Pois sim…ela disse sim. Mas não poderia quitá-los das caixas. Ainda não tinha casa. Receberia seu apartamento em alguns meses, mas não poderia mobiliá-lo até que pagasse as últimas prestações. E não sabia quando poderia viver nele.
Foi aí que minha idéia cresceu. Ofereci-me para mobiliar sua casa. E emprestei tudo o que estava destinado a um depósito: lavadora de roupas, geladeira, fogão, micro-ondas, televisão, cama de casal e solteiro, mesinhas, luminárias, condicionador de ar, estantes, objetos de cozinha, etc… e livros. Muitos e deliciosos livros. Sabia que estaria tudo muito bem cuidado. E vivo! Respirando, fazendo parte do seu cotidiano.
Que mais precisa uma pessoa para começar a vida num apartamento novo e sozinha?
Sim, sei. Música. Isso ela já tinha, ainda bem.
Seus olhos faiscavam de alegria. Já podia contar com a casa montada!
Agradeceu-me contentíssima! Que graça! Ela me faz o favor e ainda agradece!?
Disse-lhe então que eu deixaria com ela só mais uma coisinha. Grande, mas que não ocupava espaço: toda a minha gratidão. Na verdade, nossa. Pois creio que os livros também agradecem a vida que estão levando…
Soube que está lendo como nunca… e sorrio feliz com a notícia!
………………….

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Categorias: Coisas de Amor, Livros, Memórias e Saudades, Viagem | Tags: , | 15 Comentários

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15 opiniões sobre “Pedaços de Mim…(Cap13 )

  1. Nora! Sofri aqui pelos seus livros…( por vc, na verdade…rs),pensando em quanto espaço, ar puro, estantes(eu compraria novas…até!!), etc…eu poderia oferecer a eles. E teria a coleção de Freud em minhas mãos!!!!! E outras preciosidades!!! E leria tanto ou mais que sua amiga.
    Enfim, gostei de ler seu texto, saboroso e interessante, como sempre.
    Beijo você. Dora

  2. Querida Nora, que prazer lê esse post isso mim faz lembrar da montanha de livros que eu comprava quando tinha 15 anos, como era evangélica só tinha livros cristãos sobre libertação das drogas, países onde era proibido a pregação do evangelho e assim por diante. Gostava tb de livros de literatura: Iracema, gd sertoes veredas, dentre outros, mais o que mais gostei foi ” O caso da borboleta Atiria” Só que toda vez que lia, emprestava ou dava os livros qd queria comprava de novo o mesmo livro. Sempre olhava para eles e achava tão tristinho fechado, que logo arrumava uma pessoa para lê-lo e saborea-lo. Menina, escrevi tanto que ñ sei mais o que escrevi

  3. Que relato lindo, Nora! Sabe, meus livros têm uma importância fundamental na minha vida também! Se precisar me desfazer deles um dia, por qualquer que seja o motivo, será uma angústia sem fim.
    Que bom que os seus tiveram este destino!
    Beijos.

  4. Os livros são na realidade as pessoas que os escreveram e que eu saiba, não se abandona assim gente. Cada livro tem uma alma própria e que é definida pela junção da alma de quem o escreveu com a alma de quem o leu, o que o torna único, mesmo de exemplar para exemplar.
    Essa ternura para com os seus livros é tocante e comovedora, demonstrando que você é uma pessoa sensível e de grande sentido artistico.

  5. Bom , Nora, o negócio é o seguinte. Vou me mudar daqui uns 6 meses. Não queres deixar teu livros comigo….? E pode trazer o resto também!
    Depois, vamos juntos discutir com todas estas pessoas horríveis (sorry, esposa do irmão) sobre as salinhas “clean”, aquelas que nos afastam da cultura e nos aproximam da beleza (?!?!?!). Aquelas que nos fazem ir buscar CDs e livros lá longe quando acontece uma conversa bem interessante, civilizada e amiga…
    Despeço, esperando que a super-clean não leia este destampatório! Não vai ler, deve estar sempre no banho.
    Um beijão. (Adorei falar contigo pelo MSN. É sério, fiquei comovido e feliz. Ah, belo post, belo gesto. Coisas que a amizade produz.)

  6. Nora, livros para mim são o que há de melhor. Minha sala tem estante abarrotada de livros, fora os que estão na parte de cima dos armários. Ainda bem que você deu um jeitinho. Beijocas

  7. Nora, o problema aqui em casa é o contrário do seu irmão, não há estantes que cheguem para a quantidade de livros expostos… Não jogamos nada fora, nem depois de lidos, falta coragem. E também temos centenas que ainda nem começamos a ler.

  8. Nora,
    Quando vim pra ca larguei tudo que tinha, de casa e cozinha e roupa lavada. Minha irma nao ia cuidar das minhas coisas como eu e eu pensei que sao coisas materiais e que nao ia me apegar a elas. Salvei mais de mil discos, mas estao num armario e quando vou la tiro as traças. Queimei um caixote com todas as minha cartas, de 1o.namorado ao ultimo, de amigos e inimigos…Quando penso nisso e tenho vontade de me arrepender, deixo a vontade passar, pq tudo ja foi embora mesmo. Os livros eu trouxe o que pude, e muitos ficaram para tras…Nao quero chorar por eles embora tem hora que choro.
    Beijos,
    A Ella eh otima mesmo, menina…

  9. Nora, que injustiça com a minha “biblioteca”. Estavam lá mas não sozinhos, abandonados. Eu visitava-os diariamente. Infelizmente tive de optar entre dois amores. Era demais o convencimento de música erudita e livros ao mesmo tempo. Escolhi a música, de mais fácil adaptação e tive que recolher meus livrinhos ao “asilo” (mas não ao exílio). Com a mudança não tive como leva-los comigo. Doei parte deles a uma biblioteca comunitária que conheci, num bairro da periferia, e eles vêm fazendo a alegria dos jovens que a fequentam. A tua coleção de Freud continua comigo e, nesses dias de ventania, estão sendo visitados mais do que nunca. Beijos

  10. Se precisar pago passagem de ida e volta para eles, lugar de destaque num escritório cheio de livros, com direito a tirada de pó, individual, uma vez por semana. Topas? bjs

  11. Quando mudei para o sul deixei alguns livros com meu irmão. Agora que tive a oportunidade de leva-los para a minha casa, em Santa Maria, soube que meu irmão tinha doado para a biblioteca da universidade. Fiquei triste, mas acho que agora eles estão sendo bem aproveitados, visto que a biblioteca estava necessitando de livros técnicos.
    Meu irmão me disse para não ter apego às coisas, mas é difícil… Bjo, Nora!

  12. Sim, é verdade que não de deve ter tanto apego às coisas, mas livros não são coisas, como disse o Velho da Montanha. E doar a uma biblioteca, uma escola ou a uma pessoa, apenas o verdadeiro dono pode fazê-lo.
    Penso que se meu irmão “doasse” meus livros, sem sequer me perguntar, seria como se os tivesse roubado de mim! Imaginem se eu fosse doar seus troféus! Ele me mataria!

  13. Ai, Norinha, como eu entendo você! não tenho apego à coisas materiais, não, e penso igualzinho, roupa se compra em qualquer lugar, mas livros… hummmm… esses, não… cada um tem um pedacinho da minha história. Tenho trazido todos eles, aos poucos (esse aos poucos é uma tortura!)… gosto de olhar pra eles e pegar, passar a mãeo, sentir o cheiro hehehe… são como gente, mesmo…
    Beijos, querida! e tenha um lindo fim de semana!

  14. lilia

    eu nunca tive muitos livros. devo ser parente do “pescador de ilusões” hehehe. se sabia que não ia reler, passsava-s adiante.
    mas essa coisa de morar noutro país e recomeçar a vida é uma grande oportunidade de praticar o desapego.
    eu deixei meu apto do jeito que era, por quase 1 ano. não sabia o que ia acontecer, se ia gostar, se ia ficar… quando finalmente resolvi desocupar o apto, estava tão doidinha que dei tudo! tudo! separei algumas poucas coisas e pasme: as caixas sumiram como por encanto, da casa da minha mãe.
    quis ficar triste, mas logo vi que não tinha importância alguma. a história da minha vida ta aqui dentro. e, se vim morar aqui sem meu filho, sem minha família, sem meus amigos, que são verdadeiramente o que mais me importa, deixei de lado o apego ao que se foi, ao que se perdeu. e ai sim, me libertei do que me prendia lá e comecei a viver por inteira aqui.
    belo post, como sempre, nora querida.
    beijos

  15. Mais um texto escrito com um requinte que me deixa encantado.
    Obrigado por esceveres tão bem, Nora.
    Jinhos

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