Tarifa Conquistou-me…

Pois é… agora voltei mesmo.
O corpo se queixa da mudança brusca de temperatura. A saudade do mar aperta. A vontade de fumar também.
Pois é… deixei de fumar.
Hum… isto é, estou deixando. Ainda não posso falar no passado. Só fazem quatro dias! Nem vou tocar neste assunto agora, pois o medo de não conseguir me assalta e a ansiedade vai lá na lua!

Melhor contar sobre Tarifa. Sim. Melhor, sim.
Apesar de já haver escrito algo sobre ela durante a semana santa, desta vez pude explorar melhor a cidade e seus arredores.
Tarifa é um pueblo especial para mim. Primeiro, porque ali nasceu olhos-de-mar-azul e lá sua história permanece entranhada nas antigas e estreitas ruas iluminadas pela amarelada luz dos lampiões durante as noites ou pela luz de um sol extraordinariamente brilhante durante os dias.
Tarifa tem sempre uma luz especial, seja qual for o momento em que alguém assome “a la calle”.

Além disso, sua situação geográfica é privilegiada. Está situada entre os dois mares, o Atlântico e o Mediterrâneo e por isso oferece um espetáculo marítimo extraordinário. Por seu horizonte desfilam todas as embarcações que entram ou saem do Mediterrâneo, desde lanchas de passeio, veleiros e botes de pescadores a enormes navios de cargas ou de guerra.

É um eterno ir e vir de embarcações com bandeiras diversas singrando as águas azuis do Estreito de Gibraltar, embora esse nome não faça jus ao verdadeiro “estreito”. A parte mais estreita realmente não fica em Gibraltar e sim entre Tarifa e Punta Cires, no Marrocos, com 14 quilômetros de largura.
Pero… batizaram-no os ingleses e não os espanhóis ou os marroquinos. E assim ficou, até quem sabe quando…


Bueno… apesar de meu sangue genuinamente pernambucano, acostumado as tépidas águas das praias nordestinas, não pude deixar de aproveitar os mares de Tarifa, embora a temperatura de suas águas oscile entre absurdos 16 a 22 graus, dependendo do vento que sopre.
Ah… esse personagem é o mais importante de Tarifa. O vento.
Todos acompanham com imenso interesse as previsões meteorológicas, seja pelo jornal, rádio ou TV.
É que nesta cidade o vento é quem organiza a vida das pessoas.
Se há vento poente, a cidade se move de uma forma, as pessoas fazem algumas coisas. Se sopra o levante, os planos mudam e as pessoas fazem coisas distintas. E isso é sério!
Desde muito pequenos os habitantes já aprendem a respeitar os ventos de Tarifa. Eu achava meio exagerado esse negócio de falar do vento todo-dia-e-o-dia-todo. Até que entendi… Quando o levante começou a açoitar a cidade e não dava nem para caminhar pela rua!
Ele sopra com uma força descomunal! Os barcos não podem sair a pescar, nem os adeptos a esportes de vento podem sair ao mar. É muito arriscado.
Mas, se o vento é “flojo”,isto é, fraquinho, seja poente ou levante, as praias se enchem de gente. À Praia dos Lances, no Atlântico, se vai quanto o vento é levante, isto é, vindo do Mediterrâneo. Pois se um desavisado insiste em ir com vento forte, vai comer ondas de fina e branca areia até pelos ouvidos. Se ousa ir com vento poente, vai morrer de frio.
Com este é melhor se dirigir à Praia Chica, que é mais protegida do vento gelado que sopra desde o Atlântico, mas em compensação a agua é muito mais fria devido às correntes e profundidade de suas águas. Para mim era um suplício enfrentar os primeiros minutos de um mergulho, mas depois… a saudade dos banhos de mar ganhava sempre a luta entre os arrepios de frio e o prazer de poder mergulhar e nadar um pouco.
Não perdi um dia sequer de praia. Nem mesmo quando o pueblo amanheceu negro e chuvoso. Nada mais delicioso num dia assim que abrigar-se bem e sair para uma bela caminhada pelo passeio marítimo que circunda as praias e rochas, o castelo e as muralhas da cidade antiga.
Outra delicia foi passar o dia visitando os pequenos povoados próximos.

Estivemos em Vejer de la Frontera, uma cidadezinha linda no alto de uma colina, com uma vista impressionante do Estreito e de Tanger, do outro lado do horizonte. Daí fomos a Barbate, onde comi uma porção de delícias como almoço: polvo, lula com alho frito e atum com batatas, vinho e etc…
De sobremesa um assassino flan de figos confeitados ao vinho Pedro Jiménez. Uma coisa de matar de gosto uma pessoa normal, imagine uma fã de doces como eu.
E para fechar com chave de ouro, uma tarde inteira de sol e mar cristalino em Zahara de Los Atunes, só com a parte de baixo do biquíni, numa gostosa e descontraída experiência de top less, aos “quase” 50 anos! Fato absolutamente normal aqui, para mulheres de qualquer idade e manequim. Peitos de todos os tamanhos e formatos passeiam pela praia e tomam sol sem que ninguém os examinem com olhos críticos ou maliciosos. Uma delicia de liberdade e prazer.
Olha só uma das paisagens de Barbate!
Bronzeadíssima, fui convidada a assistir a abertura da Féria Anual de Tarifa, com a entrada na cidade da Virgem de la Luz, acompanhada por 577 cavalos montados por velhos e jovens, homens e mulheres, todos vestidos à carater, com a vestimenta de gala do campesino tarifenho.
Para isso vesti um belo traje de cigana, com rosa no cabelo e xale no pescoço. Estava a própria andaluza!
Me encantei tanto que não queria mais tirá-lo.
He he he…

Ainda bem que tive a oportunidade de usá-lo outra vez num jantar oferecido por uma das “casetas” armadas na Féria para comemorar a festa da patrona da cidade.
Linda festa!
A maioria das mulheres e meninas vestidas com seus alegres e coloridos trajes, as músicas sevilhanas dançadas com maestria, a manzanilla rolando solta em todas as mesas.( Manzanilla é um tipo de vinho branco, servido muito gelado.)
Eu estava tão integrada ao grupo que ninguém podia imaginar que eu era uma brasileira “infiltrada”.
Só não arrisquei dançar no palanque porque fiquei simplesmente babando com a performance das mulheres. Tanto que uma delas ofereceu-se para ensinar-me numa próxima visita à cidade.
Oferecimento aceito, óbvio.
Um encanto foi assistir uma apresentação da dança típica de Tarifa, com homens e mulheres cantando e tocando as guitarras e os pedaços de bambu ( as cañas ), numa demonstração clara de que a tradicional vida do campo pernamenece viva ali, apesar da invasão de estrangeiros atrás de férias de sol e mar, iguais em quase toda parte do planeta.
A casseta mais tradicional passava as noites tocando e cantando a Chacarrá, música e dança específica de Tarifa. Emocionante e diferente de tudo o que já vi até agora na Espanha.
Depois eu conto mais sobre roupas, costumes, gastronomia…e minha última descoberta: música!

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Categorias: Cicatrizes da Mirada, Viagem | Tags: , | 24 Comentários

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24 opiniões sobre “Tarifa Conquistou-me…

  1. Nora, que maravilha de passeio… Aposto que mexeu com o coração de muitos marmanjos aqui com a sua sugestão de topless, ha ha ha…
    Aproveita essa felicidade toda e pare mesmo de fumar, vai ser tão bom para a sua saúde!
    Bjs,

  2. Nora, que dias maravilhosos você viveu. Estou aqui babando de inveja e morta de vontade de conhece esse pedaço da Espanha. Beijocas e volte logo

  3. Nora, que bárbaro! Enquanto isso, aqui no Brasil a gente só quer saber é de fugir da tarifa. Qualquer que seja.

  4. Que férias maravilhosa! E que lugar bonito e aconchegante! Beijus

  5. Que prazer poder viajar assim, contigo, e conhecer lugares como esses. Cada vez que vejo uma foto do estreito fico encantado, pois desde criança tentava imaginar como era esse tal de Gibraltar. bjs

  6. que delícia vijar com vc, Nora. imagino a sua saudade do mar.
    beijos e beijos do seu Recife azul. 😉

  7. Nora
    Morei em Barcelona por 07 anos. Ano que vem voltamos para mais uma temporada. Quando quiseres fazer um churrasco de charque, procure uma carniceria cujo dono seja um argentino ou uruguaio, eles pdoerão conseguir um charque.
    A técnica é a mesma do Jamon Serrano.
    Em Barcelona tinhamos um CTG (Centro de Tradições gaúchas? Não Cemu Tudo Groçu!) onde mensalmente faziamos churrasqueadas (com espeto e não grelhas) e carreteiros com charque.
    Bom proveito! Agora bom mesmo é o meu arroz de carreteiro de Bolacha Maria.

  8. Oi Nora..
    Otima a leitura aqui como sempre.. Viajar e descobrir lugares diferentes, culturas diferentes, é maravilhoso..
    E obrigado pela força lá no Proteste!. Andei meio desanimado mas to tentando voltar..
    Beijos..

  9. Que aventura maravilhosa, Nora.
    Toda força pra você e seus propósitos, embora eu como charuteiro não tenha moral nenhuma pra falar, n’est-ce pas?
    Amitiés,
    BetoQ.

  10. … que vontade de conhecer esse tan arabigo cantinho da Espanha!
    Um dia eu ainda vou. Ah se vou…!
    Beijos, me visita!
    Ana

  11. Nefertari

    tuas viagens e descobertas são nossas também..
    o colorido das fotos e das palavras. vou contigo…
    te beijo

  12. Vai no mudança espiar meu gato. 😉
    Beijo de comecinho de primavera.

  13. Tarifa vai estar no meu roteiro quando eu visitar a Europa.
    A experiência do topless aos “quase 50” é coisa pela qual eu tambpem quero passar. Um viva a liberdade! Palavra muito usada, porém pouco exercitada por aqui. Teu texto é vivo e excitante que parece viagem!
    Um bom abraço!

  14. Norinha, adorei conhecer Tarifa com você. Já aguardo ansiosa o próximo post. Beijo grande, querida, e inté!

  15. Nordestinos, direto a meu blog.

  16. Hola! Qué tal?
    Li o post do Milton e fiquei curiosa por saber mais de ti.
    Simplesmente adorei teu último escrito, sobre a España!
    Acredito que, em breve, estarei visitando esta terra ímpar.
    Obrigada, pela oportunidade.
    Agora vou te ler mais um pouquinho.
    Bjinhos e fica bem.

  17. Nora, te ligo esta semana e marcamos alguma coisa, me avisa o melhor horario pa ti. Amanhã tem show do Paulinho Moska na Sala Clamores, às 20:30, estou pensando no assunto… Esta semana rola uma mostra de cine brasileiro na Casa do Brasil. Talvez veja alguma coisa. Vou deixar a programação lá no meu blog. Besitos

  18. anlene

    p.s. Te vi lá no blog da Virginia, que bonitos estão todos!

  19. nora borges

    Anlene
    , Loly chega amanha do Brasil. Vou entrar no teu blog assim que puder.
    Violet, assim que der vou retribuir a visita, ok?
    Beijos pra todos!!!!

  20. Coisa boa passear por essas descrições. 🙂 Dá pra viajar junto.
    Beijos!

  21. Ai,ai Norinha…
    Viajo sempre com vc…:)
    Essa Espanha é linda demais, moraria nesse país sem sombra de dúvida alguma…
    Vc ficou linda nessa roupa típica, nem parecia uma pernambucana 🙂
    Essas histórias,trajes,festas são tão fascinantes 🙂
    Um bjão amiga e força na luta contra o tabaco.

  22. Gabriela

    Norinha,
    Mas que guapa!! Caramba, que sorriso mais lindo e essa roupa, essa alegria estampada. Eta coisa boa é ver gente feliz. A gente acaba se contagiando.
    Mandei um e-mail bem antes do seu aniversario, pois fiquei praticamente sem internet em parte de agosto e de setembro.
    Mas o que importa é lhe enviar um abraço, com toda a boa energia que eu posso, agradecendo por essa delicia de blog que sempre me encanta.
    Un bacio

  23. Bons ventos poentes a tragam de cada viagem bem saboreada por nós pelo seu magnífico relato.

  24. Oi Nora
    Vendo essa sua foto lá em cima ,achei engraçado ,pois outro dia ,vi uma foto de Fafá de Belem com um xale,de relance pensei que era vc,hoje vi a sua ,pensei que era Fafá.
    Como sempre adoro seus escritos.
    Beijos

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