Questão de Mulheres…Ou de Justiça…

Ela nasceu em 1532 em Cremona, no ducado de Milão, na Itália. Recebeu um nome espetacular, mesmo para a época: Sofonisba Anguissola.

Forte, não é?
Uma mulher com um nome desses não podia passar pela vida sem deixar uma marca indelével e ela não fez por menos. Foi uma excelente e bem sucedida pintora, autora de obras admiradas por reis, rainhas, papas, nobres, além de outros artistas conceituados de sua época.
Apesar do sucesso de suas pinturas, Anguissola nunca foi paga por qualquer de suas obras, nem mesmo por aquelas que eram fruto de encargos importantes, tanto da nobreza quando da Igreja Católica, por certo os melhores clientes. Pagar-lhe não seria “bem visto” pela sociedade, então a artista recebia caros presentes ou regalias para si e sua família. Assim, jamais foi considerada uma profissional da arte e quase não existem registros de suas obras.
Eu nunca havia ouvido falar dela. E vocês?
Morreu jovem? Pintou pouco?
Nada disso. Anguissola teve uma vida larga e produtiva. Pintou até bem perto dos noventa anos. Quase um século de vida, numa época em que a grande maioria das mulheres morria antes dos quarenta.
Então o que aconteceu com seu nome e sua obra?
Simplesmente sumiram nas brumas.

Muitos de seus quadros foram atribuídos a outros artistas ( homens ) e seu nome foi “borrado” da história da pintura do século XVI e XVII e sequer aparece nos famosos compêndios de historiadores e críticos de arte.
E sabem qual o motivo?
Ela era mulher. Ponto e acabou-se.
Como assim uma mulher pintora de sucesso?
Não se podia admitir talento, inteligência, criatividade às mulheres! Se nem alma possuíam!
Tcs…tcs…
Sofonisba Anguissola foi apenas mais uma das muitas mulheres que se rebelaram contra esse estigma. Mas foi uma das que não apenas lutou. Ela venceu. Por quase um século!
Esquecida por que? Depois de morta, absolutamente ninguém lutou por ela? Inclusive seus quadros foram atribuídos a importantes artistas como Rubens e Tiziano!
Que injusto! Por falta de talento não foi!
Pois sim…. Esquecida e pronto. E isso aconteceu com quase todas as outras.
Pintoras, poetas, escritoras, dramaturgas…foram muitas. Muito mais do que sabemos ou podemos imaginar.
Apesar de mulheres, elas encontraram – de alguma forma – a saída para expressar seu talento. Umas através dos claustros das congregações religiosas, outras apoiando-se em pais, irmãos ou maridos que as incentivavam mesmo em contra às regras vigentes. Mas a maioria teve que suportar as perseguições, a burla e a humilhação de serem consideradas prostitutas e hereges apenas por saberem ler e escrever, fazer versos, música ou teatro. E bem ! Grandes mulheres!
Entretanto, com sucesso ou sem ele, mesmo conseguindo suportar tudo isso em nome de seu talento, foram sumariamente esquecidas depois de suas mortes.
Incômodas mulheres que contrariavam as teorias e leis masculinas?
Pois é sobre isso que eu estou lendo.

Las Olvidadas – Una história de mujeres creadoras, de Ángeles Caso.

Um livro delicioso, cheio de citações de grandes pensadores masculinos sobre as mulheres, segundo eles destinadas à torpeza, ao silêncio e à ignorância. Só para dar dois exemplos:
“A fêmea é como se fosse um macho deforme e a descarga menstrual é sémen, só que impuro: falta-lhe o elemento básico, a alma.” Aristóteles
Heim?!
” Uma mulher é sempre mulher, quer dizer, louca, por muitos esforços que realize para ocultar-lo” Erasmo de Rotterdam
Ho ho ho…não diga!
Mas o livro é também cheio de luz e força que emanam de uma escritora que sabe como contar uma história, situando-a no contexto cultural, político e religioso de cada criatura e seu entorno. Las Olvidadas é um ensaio bem escrito sobre a vida e a obra de algumas dessas extraordinárias mulheres que viveram lutaram e venceram na Europa medieval e moderna, entre os séculos XII e XVII.
O ensaio de Ángeles não só é puro prazer de boa literatura, como também proporciona uma aprendizagem incrível. É um resgate histórico da participação feminina na arte e na literatura no mundo ocidental. Muitíssimo mais ampla do que todos nós pensávamos e apenas recuperada, pouco à pouco, nas últimas duas décadas.
Este livro é para homens e mulheres que apreciam e estimulam o prazer do saber.
Recomendo com gosto!

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Categorias: Baú de Cultura, Cicatrizes da Mirada, Corpo&Alma de Mulher, Livros | Tags: , , | 15 Comentários

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15 opiniões sobre “Questão de Mulheres…Ou de Justiça…

  1. Mas, como então conseguiram recuperar a história da Sofonisba (ô nomezinho…)? As pinturas dela são muito bonitas mesmo.

  2. Leila, um rastreamento dificílimo, buscando documentos, cartas, referências, um ou outro historiador que falava “levemente” sobre ela, etc… Um trabalho de formiguinha! Mas desde os anos 90 que é feito por um bocado de universidades.

  3. Menina, que nome feio. Coitada deve ter sofrido preconceito duas vezes pelo nome e por ser mulher.
    Aqui, quase não ouvimos falar em cultura, ´boas músicas, poesias, pinturas isso é raro por aqui, por isso que visito seu blog, mesmo quando não deixo recado tenho aprendido muito com voce. Um abraço

  4. Quanta injustiça para com nós mulheres. Você tem idéia de quantas mulheres maravilhosas caíram no limbo da história e ninguém sabe nada? Adorei. Beijocas

  5. O nome é assustador… Talvez castigo do pai que, provavelmente, sonhava com um filho homem… O livro parece ser divino! Beijo, querida Nora, uma boa semana e… Inté!

  6. Ótima dica de leitura! Se você gosta de ler sobre vidas de mulheres, tenho uma dica também, mas de ficção: “Moras y Cristianas”. É de duas autoras espanholas (uma acho que também se chama Ángeles, mas realmente não lembro os nomes agora) e compara a vida de mulheres de profissões semelhantes em vários períodos da Idade Média, durante e depois do domínio mouro na Espanha. As pessoas são fictícias mas a pesquisa é boa.
    Besos!
    Ana

  7. Ainda bem que foi reencontrada, junto com outras, mesmo que ainda sejam raras, poucas.
    Menina, Aristóteles e Erasmo, hein? Só rindo.
    Beijazul desse Recife escaldante.

  8. Oi querida,
    Será que era pelo fato dela ser mulher, ou simplesmente que naquela epoca aos grandes mestres nao lhes eram dados o devido valor, tanto monetario quanto intelectual. Veja o caso do grande imortal compositor Mozart. Fez mais de 600 obras musicais e morreu praticamente na miseria. Que tal se vc escreve um post sobre Chrysostomus Wolfgangus Theopillus Mozart, aproveitando a comemoracao dos 250 anos do seu nascimento, em 27 de Janeiro? Adoraria ler.
    Um beijo,
    ME

  9. Elena, é verdade que artistas naquela época eram considerados seres menores, que existiam para “deleitar” os nobres e eclesiásticos. Inclusive os pintores eram considerados apenas artesãos pois realizavam artes manuais.
    O caso das mulheres escritoras, poetas, pintoras, médicas, etc. era especial: elas eram em sua maioria nobres ou filhas de pintores de fama. Não foi pela profissão que elas foram esquecidas. Sua fama foi “apagada” da história.
    Ps: Adoro Mozart. Você até me deu uma dica para procurar o que vai ser oferecido aqui em Madrid por esse aniversário!
    Besitos.

  10. Na literatura e na música a repressão também foi imensa. O caso da mulher de Schumann, Clara Schumann, née Wieck, é muito representativo. Ela seria a primeira grande compositora alemã e chegou até a publicar algumas obras. Mas sempre foi considerada um apêndice de Schumann e do amigo Brahms. E o que dizer de George Eliot (1919-1880), que, para fugir ao preconceito, publicou incógnita suas grandes obras como se fosse um homem? Seu nome era Mary Ann Evans.

  11. Oi querida,
    Sorte sua que vc mora na Europa. A Europa, alias o mundo inteiro vai estar comemorando os 250 anos do Mozart. Talves em Janeiro vou viajar pra Portugal e estou querendo assistir alguns eventos dedicados a ele. Senao vou me contentar com Kennedy Center aqui no DC.
    Um beijo grande,
    ME

  12. Ramiro Conceição

    LIBÉLULA METÁLICA/
    Traduzir a música em palavras/
    mesmo que por enquanto /
    ninguém escute nada./
    Dominar a técnica /
    e depois esquecê-la /
    num significado além da palavra/
    que em si não é nada. /
    A Arte ainda não nasceu, /
    pois tudo ainda não morreu./
    Seremos nossas palavras!/
    Um dia, então, quando/ alguém /diferente
    encontrar nosso poema lírico /
    — em rimas sagradas/
    dentro da barriga /
    da libélula metálica /
    retirante dentre as galáxias — ,
    exclamará com todas as notas /musicais:/
    “Ah, palavras… Eles estiveram ali!”

  13. Ramiro Conceição

    CATASSOL
    by Ramiro Conceição
    O poeta fora prometido ao Deus da Vida;
    porém, sem saber, engravidou de poesias
    por ação do espírito humano.
    E o Deus da Vida, seu marido prometido,
    que era justo, não o denunciou
    porque sabia que o artista trazia frutos
    ao seu passado-presente-futuro.
    O poeta concebeu em sua língua
    para ensinar — em muitas línguas —
    sua linguagem estética, política
    e ética.
    E a lira não se quebrou.
    E um catassol cantou:
    “Sou um ruminante cérebro mutante,
    um ser que considera o ser maior que o ter,
    um lento catassol — sobre a leitura —
    que sabe que ler é conceber com ternura.
    Sou uma repetição, uma aliteração,
    Uma especiaria para condimentar iguarias,
    uma hortaliça que plantei em nossa horta.
    Sou homenagem póstuma a estrelas mortas!
    Perdi a hora de tudo.
    Meu relógio marcou todos os fusos.
    Sou a maçaroca no fuso do mundo.
    Cada vez mais, torna-se claro que sou feito
    de outra história.
    Não desta, mentirosa e sem memória.
    Cada vez mais, tenho a certeza
    de que pertenço ao mar bravio
    porque sou um peixe que não pertence a este aquário
    vil.”

  14. Sou noviço por aqui. E de cara topo com esse post, que curiosamente remete a algo que escrevi já num longínquo 08/05/2005, falando sobre Artemisia Gentileschi, mulher e pintora do século XVII e sua tela Judite e Holofernes(título do post: Das mulheres que não tive, mas amei.)
    Muito bom o post.
    Dá um abraço no Milton.

  15. Adorei o post e a dica do livro.
    Para ME: deve ser, sim, o fato dela ser mulher. Leonardo da Vinci e contemporâneos, por exemplo, eram muito bem pagos.
    Alguém ouviu uma conversa sobre a mulher de Einstein ter vivido uma situação semelhante? A mulher de quem ele divorciou antes de emigrar, e que seria a verdadeira responsável por suas famosas teorias? Norma, consegui ressucitar meus posts iniciais e estão lá, os 3 ou 4 últimos contam a “história”.
    Bjs
    Marilia

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