Arquivo do mês: janeiro 2006

Ah… Os Invernos!

Está nevando. Como um presente tardio da borrasca que quatro dias atrás invadiu toda a Espanha, menos no pedacinho de céu sobre a minha casa. A neve despencou com generosa beleza até nas areias do Mar Cantábrio, mas em Madrid não quis dar o ar de sua graça.
Hoje sim. Hoje um restinho de poeira branca e gelada cobre todo o meu jardim e convida a um passeio que se não fosse já tão tarde para arvorar-me por dentro dos pinheiros pintados de branco e prata, não resistiria ao chamado. Fui dar uma espiada lá fora e descobri pegadas de raposa bem diante do meu terraço. Sim, isso mesmo. Aqui moram raposas de verdade. Ruivas.
Melhor aproveitar a proteção do invernadeiro e suas enormes vidraças transparentes para admirar o espetáculo, um bom Neruda nas mãos, nas costas a manta de lã macia, pés dentro de meias coloridas e Mozart dando um concerto privado para mim e minhas azaléias e gardênias, lindas apesar do frio. Assim está bom.
Aí encontrei um poema que precisava vir parar aqui. Está no livro Estravagario do grande poeta chileno, minha paixão de toda a vida, meu inspirador para encontrar o caminho do amor, mesmo sem me chamar Matilde.
O poema chama-se Sucedió en Inverno. (Traduzo no final do post se preferirem ler em Português.) E chamou-me a atenção porque reconheci a flor que apesar do profundo adormecimento do abandono, dentro da minha casa ( meu eu ) insistiu em buscar a própria primavera.

Sucedió en Invierno
No había nadie en aquella casa.
Yo estaba invitado y entré.
Me habia invitado un rumor,
un peregrino sin presencia,
y el salón estaba vacío
y me miraban con desdén
los agujeros de la alfombra.
Los estantes estaban rotos.
Era el otoño de los libros
que volaban hoja por hoja.
En la cocina dolorosa
revoloteaban cosas grises,
tétricos papeles cansados,
alas de cebolla muerta.
Alguna silla me siguió
como un pobre caballo cojo
desprovisto de cola y crines,
con tres únicas, tristes patas,
y en la mesa me recliné
porque allí estuvo la alegria,
el pan, el vino, el estofado,
las conversasiones con ropa,
con indiferentes oficios,
con casamientos delicados:
pero estaba muda la mesa
como si no tuviera lengua.
Los dormitorios se asustaron
cuando yo traspuse el silencio.
Allí quedaron encallados
con sus desdichas y sus sueños,
porque tal vez los durmientes
allí se quedaron despiertos:
desde allí entraron en la muerte,
se desmantelaron las camas
y murieron los dormitorios
con un naufragio de navío.
Me senté en el jardin mojado
por gruesas goteras de invierno
y me parecia imposible
que debajo de la tristeza,
de la podrida soledad,
trabajaran aún las raíces
sin el estímulo de nadie.
Sin embargo entre vidrios rotos
y fragmentos sucios de yeso
iba a nacer uma flor:
no renuncia, por desdeñada,
a su pasión, la primavera.
Cuando salí crujió una puerta
y sacudidas por el viento
relincharon unas ventanas
como si quisieran partir
a otra república, a otro invierno,
donde la luz y las cortinas
tuvieran color de cerveza.
Y yo apresuré mis zapatos
porque si me hubiera dormido
y me cubrieran tales cosas
no sabría lo que no hacer.
Y me escapé como un intruso
que vio lo que no debió ver.
Por eso a nadie conté nunca
esta visita que no hice:
no existe esa casa tampoco
y no conosco aquellas gentes
y no hay verdad en esta fábula:
son melancolías de invierno.
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Aconteceu no Inverno
Não havia ninguém naquela casa. Eu estava convidado e entrei. Havia me convidado um rumor, um peregrino sem presença, e o salão estava vazio e me olhavam com desdém os buracos do tapete.As estantes estavam quebradas. Era o outono dos livros que voavam folha por folha. Na cozinha dolorosa revoloteavam coisas cinzentas, tétricos papéis cansados, asas de cebola morta. Alguma cadeira me seguiu como um pobre cavalo manco desprovido de cauda e crina, com três únicas, tristes patas, e na mesa me reclinei porque ali esteve a alegria, o pão, o vinho, o ensopado, as conversas com roupa, com indiferentes ofícios, com casamentos delicados: mas estava muda a mesa como se não tivesse língua. Os dormitórios se assustaram quando eu atravessei o silêncio.
Ali ficaram encalhados com suas desditas e seus sonhos porque talvez os dormidos ali se despertaram: desde ali entraram na morte, se desmantelaram as camas e morreram os dormitórios com um naufrágio de navio.
Sentei-me no jardim molhado por grossas goteiras de inverno e me parecia impossível que debaixo da tristeza, da podre solidão, trabalhassem ainda as raízes sem o estímulo de ninguém. Sem embargo entre vidros quebrados e fragmentos sujos de gesso ia nascer uma flor: não renuncia, por desdenhada, à sua paixão, a primavera.
Quando saí rangeu uma porta e sacudidas pelo vento relincharam umas janelas como se quisessem partir a outra república, a outro inverno, onde a luz das cortinas tivessem cor de cerveja.
E eu apressei meus sapatos porque se tivesse dormido e me cobrissem tais coisas não saberia o que não fazer. E escapei como um intruso que viu o que não devia ver.
Por isso nunca contei a ninguém esta visita que não fiz: não existe essa casa tampouco e não conheço aquelas pessoas e não há verdade nesta fábula:
são melancolias de inverno.
Pablo Neruda em Estravagario
( Tradução minha )

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Acho que Não Sei…


<< Um dia nasceu em sua alma o desejo de modelar a estátua do “Prazer que dura um instante”. E partiu pelo mundo para buscar o bronze, pois só em bronze imaginava conceber suas obras.
Mas o bronze do mundo inteiro havia desaparecido e em nenhuma parte da terra podia encontrar-se, exceto o bronze da estátua da “Dor que se sofre toda a vida”.

E era ele mesmo com suas próprias mãos quem havia modelado essa estátua, colocando-a sobre a tumba do único ser que amou em sua vida.
Sobre a tumba do ser amado colocou aquela estátua que era sua criação, para que fosse mostra do amor do homem que não morre nunca e como símbolo da dor do homem, que a sofre por toda a vida.
E no mundo inteiro não havia mais bronze que o daquela estátua.
Então, pegou a estátua que havia criado, colocou-a em um grande forno e entregou-a ao fogo.
E com o bronze da estátua da “Dor que se sofre por toda a vida” modelou a estátua do “Prazer que dura um instante”.>>
Poesia em prosa de Oscar Wilde

Esse texto é para quem vive intensamente o aqui e agora. Mas também para os que compreendem o que significa reviver as antigas emoções com força quando escutam uma música, relêem uma carta, revisam um velha caixa de fotografias.
Minha filha acaba de chegar do Brasil. Trouxe-me antigas vidas minhas nos pratos que foram da Princesa, livros cheios de pequenos bilhetes, riscos no ar de histórias que não lembrava mais que eram minhas… e fotos. Muitas fotos. Todas as fotos que sobreviveram aos anos…
Imaginem a bagunça no meu coração!

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Crepuscular…

Pegou o chápeu, embrulhou o sol, então nunca mais amanheceu.
Menalton Braff

Em:Os cem menores contos brasileiros do século.
Organização: Marcelino Freire
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Enquanto Janeiro Passa…

Hoje o velho espírito Shirley Valentine baixou com tudo que tinha direito. Passei a manhã conversando com as paredes da casa. Fiz perguntas ao wok chinês. Antes era ao I Ching. Agora é ao wok. Ho ho ho!
Ah! os tempos! Gargalhei alto com a porcaria de verduras que fiz. Só tinha gosto de gengibre. E sal. Desisti de cozinhar por enquanto. Minha competência na cozinha está intimamente relacionada com o meu estado de espírito. Quando estou assim-assim sai tudo mal. Quando estou bem a possibilidade de acertar é bastante maior.
Queria uma amiga brasileira por perto para consultar o I Ching como antigamente. Sozinha é meio sem graça.
Pendurei o mp3 no pescoço e saí por entre os pinheiros. Fazia um frio de entorpecer, mas estava bom.
Depois da ducha aproximei-me da janela e afastei as cortinas… por trás dos cristais vi as colinas brancas de neve. Queria mesmo era afastar as colinas e ver o mar. Aliás, queria afastar o mar e ver além do horizonte. Ver além desta raia em que corro meus dias, meus anos, minha vida.
Maldita tpm menopausica!
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Pus Mozart no meio da manhã, muito alto. Presente meu para os coelhos e perdizes que habitam as redondezas. Mozart faria duzentos e cinquenta anos em 2006 se estivesse vivo. Todo o mundo musical está lembrando o grande gênio.
Eu não fui compositora, nem artista, nem ativista política, nem pintora. Eu não fui nada importante, ninguém me recordará duzentos e cinquenta anos depois de meu nascimento.
O que poderiam falar sobre mim se eu desaparecesse hoje? Em mais quantos anos alguém ainda saberia quem eu fui ? O que diriam? Que fui boa mãe, boa filha, boa amiga, boa amante? Não fui. Nem sempre, eu sei. Não. Não por isso. Que eu gostava muitíssimo de música, de vinho tinto e de comidas preparadas com creme-de-leite? Que amei muitas vezes, a maioria errado, que morri uma ou outra vezinha antes de morrer de verdade? Que eu gostava de banhos de chuva ou que eu tinha um baobá que vivia no Poço da Panela e ninguém sabia que ele era meu, somente ele e eu? Que eu tinha cadernos de textos e poesias que se perderam nas enchentes do rio Capibaribe e que meu pai tinha jeito de Lorde mesmo quando chorava a perda dos livros que o rio lia?
Ninguém vai saber nada de mim. Depois de alguns poucos anos de minha morte serei de novo pó de estrelas.
Também isso não é importante.
Voltei para a sala, minha raia, meu momento. Melhor fechar a cortina e mergulhar no livro. A gente se esquece um tanto da gente quando viaja no que lê.
Aqui vão duas dicas deliciosas para o inverno, leia se possível na rede, próximo à lareira, sentindo o cheiro de madeira queimada misturado com perfume de pinheiros, frio e café. Se estiver em pleno verão deixe os livros embaixo da cama e vá ver o mar… por favor.
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O primeiro é A Ponte de Alcântara, de Frank Baer. Uma novela histórica muito maravilhosa, cuja trama desenrola-se no século XI ( entre os anos 1063 y 1086) e que nos leva para dentro dos mundos árabe, judeu e cristão, simultaneamente existentes da Península Ibérica da época, através de três personagens principais: um moço cavaleiro à serviço do mundo cristão, um médico judeu e um poeta árabe.
As descrições dos lugares, dos costumes, dos dramas que se desenvolvem me inunda a mente de cheiros, sensações, ruídos, e não são poucas as vezes que eu os levo para os sonhos que tenho durante à noite, onde posso encontrar-me num castelo ou em um madjlis árabe ou até mesmo conversando com um hakin judeu. Por sinal estou absolutamente atrapada pelo livro.
Aprendendo muito! Delícia de leitura!
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O segundo é uma biografia extremamente bem escrita sobre Jesus de Nazaret. Armand Puig é doutor em ciências bíblicas, professor de Novo Testamento na Faculdade de Cataluña, presbítero da arquidiocese de Tarragona de onde dirige o Instituto Superior de Ciências Religiosas, entre outras atribuições.
O livro é uma referência importante para crentes e não crentes interessados em saber mais sobre esta controvertida figura da história da cultura ocidental.
Puig escreve de uma forma leve e simples, apelando sempre para o rigor histórico. Utiliza os quatro evangelhos canônicos, aprovados pela Igreja e os denominados evangelhos apócrifos, ademais de outros escritos “civis e extra eclesiásticos” ( fontes judias e islâmicas, e fontes históricas como Flavio Josefo ou alguns escritores romanos ) além de remeter também a autores reconhecidos e consolidados como E.P.Sanders, M. Hengel ou G. Theissen.
A obra se reparte em três grandes núcleos: o perfil humano; a mensagem; e a conclusão.
Ainda estou no comecinho. Mas não queria esperar para indicar porque sei que nele ainda vou demorar. É um livro para se ler com calma, sem pressa. Mas falei dele para o Zadig e ele ficou interessado.
Então tá.
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Outro dia li nos blogs da Leila e do Milton Ribeiro posts que falavam de um bucólico jogo do curriculum vitae.
Taí, vou tentar escrever um. Espero conseguir explorar a minha memória e extrair dela um currículum que se preze.
Au revoir.

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Ano Novo… e Júlio Cortázar.

Estou em plena crise de Janeiro.
Depois de uma semana em Tarifa, entre os novos outros da minha vida, mais uma vez cruzei as horas que separam a “noche vieja” do “año nuevo”. Desta vez estava bem diante do Estreito de Gibraltar, feliz por estar com olhos-de-mar-azul ( e sempre e sempre! ) e triste por estar mais um Dezembro tão longe de meu lugar, dos meus outros de antes.
Voltei mas ainda não me recuperei do mergulho na saudade.
Agradeço com a alma dissolvida numa colher de sopa ( sensibilidade à flor da pele) os beijos e carinhos deixados aqui por tantos queridos e queridas. Eu ando que nem Zeca Baleiro, qualquer beijo de “propaganda” me faz chorar. Aqui não vejo novelas. E mire-veja, nunca pensei que teria saudades até delas!
Aqui faz um frio de três graus. Talvez neve esta noite. A neve não faz ruído. O céu também sabe chorar em silêncio nas noites frias, embora diga-se que um bom pranto necessita de algum gemido, por pequeno que seja.
Pois sim…
Ando tão Janeiro!
Entre um ou outro pranto e belos cantos ( ganhei muita música de presente de natal ) deixo-me estar assim por mais uns dias. Organizando a casa, a simbólica e a real, curtindo o frio e a lareira, as muitas saudades, os novos livros…
Cada livro maravilhoso! Depois eu conto sobre eles. Prometo.
E vou voltar a escrever sobre o Lorde e a Princesa, sobre o passado do rio e do Poço da Panela, sobre as histórias que me construíram. Algumas só agora fazem sentido!
Como Janeiro é meio assim-assim pra muita gente, deixo aqui dois fragmentos de Julio Cortázar, para usar um e outro à medida da necessidade de cada um.
Entre ambos, um momento de silêncio enquanto se cozinha ou se põe água nas plantas é recomendável.
Essas crises de nostalgia pedem um tempo de algum silêncio.
Segue a graça e a beleza poética de um mago das palavras…
Instruções para chorar. 
“Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um pranto que não ingresse no escândalo, nem que insulte o sorriso com sua paralela e torpe semelhança. O pranto médio ou ordinário consiste em uma contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e mocos, estes últimos ao final, pois o pranto se acaba no momento em que se assoa o nariz energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto resulta-lhe impossível por haver contraído o hábito de crer no mundo exterior, pense em um pato coberto de formigas ou em esses golfos do estreito de Magalhães em que não entra ninguém, nunca. Chegado o pranto, se tapará com decoro o rosto usando ambas as mãos com a palma voltada para dentro. As crianças chorarão com a manga da camisa contra a cara, e de preferência em um canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos. ”

Esse homem dizia cada coisa!
Se a gente está meio monga, meio assim-assim mergulha em cada lago-palavra que ele escrevia e fica lá no fundo, surpresa com tanto de silêncio contido nelas !
Mas… volta e meia eu canto.

Instruções para Cantar.
“Comece por romper os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça-se. Cante uma só nota, escute por dentro. Se ouve (mas isto ocorrerá muito depois) algo como uma paisagem sumida no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas semi nuas acocoradas, creio que estará bem encaminhado, e o mesmo se ouve um rio por onde descem barcas pintadas de amarelo e negro, se ouve um sabor pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo. Depois compre solfejos e um fraque, e por favor no cante pelo nariz e deixe em paz a Schumann.”
É verdade que eu não segui isto tão à risca, de forma que Schumann está aqui ao lado e… ainda não tive a coragem de quebrar os espelhos.
Se bem que deveria. Ah sim… deveria sim!

Ps* Paciência comigo. Não desapareçam.

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