Ano Novo… e Júlio Cortázar.

Estou em plena crise de Janeiro.
Depois de uma semana em Tarifa, entre os novos outros da minha vida, mais uma vez cruzei as horas que separam a “noche vieja” do “año nuevo”. Desta vez estava bem diante do Estreito de Gibraltar, feliz por estar com olhos-de-mar-azul ( e sempre e sempre! ) e triste por estar mais um Dezembro tão longe de meu lugar, dos meus outros de antes.
Voltei mas ainda não me recuperei do mergulho na saudade.
Agradeço com a alma dissolvida numa colher de sopa ( sensibilidade à flor da pele) os beijos e carinhos deixados aqui por tantos queridos e queridas. Eu ando que nem Zeca Baleiro, qualquer beijo de “propaganda” me faz chorar. Aqui não vejo novelas. E mire-veja, nunca pensei que teria saudades até delas!
Aqui faz um frio de três graus. Talvez neve esta noite. A neve não faz ruído. O céu também sabe chorar em silêncio nas noites frias, embora diga-se que um bom pranto necessita de algum gemido, por pequeno que seja.
Pois sim…
Ando tão Janeiro!
Entre um ou outro pranto e belos cantos ( ganhei muita música de presente de natal ) deixo-me estar assim por mais uns dias. Organizando a casa, a simbólica e a real, curtindo o frio e a lareira, as muitas saudades, os novos livros…
Cada livro maravilhoso! Depois eu conto sobre eles. Prometo.
E vou voltar a escrever sobre o Lorde e a Princesa, sobre o passado do rio e do Poço da Panela, sobre as histórias que me construíram. Algumas só agora fazem sentido!
Como Janeiro é meio assim-assim pra muita gente, deixo aqui dois fragmentos de Julio Cortázar, para usar um e outro à medida da necessidade de cada um.
Entre ambos, um momento de silêncio enquanto se cozinha ou se põe água nas plantas é recomendável.
Essas crises de nostalgia pedem um tempo de algum silêncio.
Segue a graça e a beleza poética de um mago das palavras…
Instruções para chorar. 
“Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um pranto que não ingresse no escândalo, nem que insulte o sorriso com sua paralela e torpe semelhança. O pranto médio ou ordinário consiste em uma contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e mocos, estes últimos ao final, pois o pranto se acaba no momento em que se assoa o nariz energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto resulta-lhe impossível por haver contraído o hábito de crer no mundo exterior, pense em um pato coberto de formigas ou em esses golfos do estreito de Magalhães em que não entra ninguém, nunca. Chegado o pranto, se tapará com decoro o rosto usando ambas as mãos com a palma voltada para dentro. As crianças chorarão com a manga da camisa contra a cara, e de preferência em um canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos. ”

Esse homem dizia cada coisa!
Se a gente está meio monga, meio assim-assim mergulha em cada lago-palavra que ele escrevia e fica lá no fundo, surpresa com tanto de silêncio contido nelas !
Mas… volta e meia eu canto.

Instruções para Cantar.
“Comece por romper os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça-se. Cante uma só nota, escute por dentro. Se ouve (mas isto ocorrerá muito depois) algo como uma paisagem sumida no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas semi nuas acocoradas, creio que estará bem encaminhado, e o mesmo se ouve um rio por onde descem barcas pintadas de amarelo e negro, se ouve um sabor pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo. Depois compre solfejos e um fraque, e por favor no cante pelo nariz e deixe em paz a Schumann.”
É verdade que eu não segui isto tão à risca, de forma que Schumann está aqui ao lado e… ainda não tive a coragem de quebrar os espelhos.
Se bem que deveria. Ah sim… deveria sim!

Ps* Paciência comigo. Não desapareçam.

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Categorias: Outro Fala Por Mim, Poesia & BelosTextos | Tags: , , , | 29 Comentários

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29 opiniões sobre “Ano Novo… e Júlio Cortázar.

  1. Nora,eu já disse várias vezes que evocação é uma palavra pernambucana. Herdamos a noltagia sebastiana.
    Além disto, como diz Paulinho da Viola, voltar é quase sempre partir para um outro lugar.
    Você, em pleno frio, só pode se lembrar do verão Pernambucano, Praia dos Carneiros… mas a felicidade é aí, desfrute-a.

  2. Gabriela

    Oi Norinha,
    Entendo perfeitamente o que voce sente nesse momento. Estou partida em muitos pedacinhos também. Parece que o frio potencializa a saudade e as festas de fim de ano sao a “cereja” que faltava para o bolo ficar pronto. Periodo dificil. Estou tentando segurar a minha onda até fevereiro, quando estarei sentindo aquele calorzinho bom.
    Quando tiver mais dicas de Madri lhe envio.
    Beijos

  3. Oi Nora!
    Te achei aqui porque estou afim de trocar informções com a galera de outros países, baixei
    esse programa pra poder falar com outros países pelo computador que tá de graça!=]
    Dai tu também pode ligar pros teus amigos!
    Se tu quiser baixar, o link é esse:
    http://voip.terra.com.br/html/download.htm
    E se tu puder entrar no meu blog, ficarei feliz=]
    =*beijos!

  4. ja ia perguntar onde foi para a mariposa que rondava por aqui
    que bom que vc reapareceu
    poeticamente como sempre
    fique bem
    continuaremos por aqui
    tudo de bom
    tati

  5. Também estou no maior bode de janeiro, sei como é. Mas fiquei feliz em saber que eu te ajudei a sentir melhor com aquela foto, he he he! Foi uma terapia para mim e para todas as minhas amigas!!!

  6. Oi Nora,
    muito lindo como você escreve..cheio de poesia…Um abraço pra você.

  7. adelaide

    Nora, minha flor,me mande o endereco dela em Recife que o livro chega la. Ou entao, se nao houver tempo, me mande teu endereco ai de Madrid. Ando sumida porque, alem das andancas de ferias, estou numa conexao discada que nao se garante muito. Beijos imensos e obrigada pelo Cortazar.

  8. Nora, ma chère amie.
    Gostei foi muito desses textos e da delicia de “com a alma dissolvida numa colher de sopa”, embora eu esteja agora nesse meu janeiro aquariano bem mais para aprender sobre como atrair passarinhos, aprendendo com as árvores como viajar…
    Amitiés,
    BetoQ.

  9. Amiga,
    Ainda bem que você decidiu que é por culpa do janeiro. Já estamos quase no meio! Concordo com o Manuel. A sua felicidade é aí. Não fica pensando para trás no inverno. Curta seu olhos-de-mar azul junto à lareira e uma taça de vinho. Saúde!
    Beijo,

  10. Pois não posso reclamar do meu janeiro. A Condessa se encarrega de a tudo alegrar. De mais a mais, depois de uma semana com 40ºC não há sentimento que resista. beijão

  11. Janeiro tem até sido generoso comigo, apesar do repeteco da dengue, dez anos depois.
    Um beijo e um buquê de raios do sol do seu Recife, Nora.

  12. Oi querida,
    E Feliz Ano Novo pra voce tambem.
    Ja que vc esta escrevendo sobre instucoes, preciso de uma urgente: Instrucoes para tocar violino. Pior de tudo Nora é que adorei o meu Presente de Grego, como chamaste. hehehehe
    Bjokas,
    ME

  13. Eu sumo, mas não te esqueço minha maravilhosa Nora 🙂
    É importante passarmos por “janeiros” em nossas vidas…Parece que nessas horas colocamo muita coisa em ordem dentro e fora da gente…
    Desaparecer????? NUNCA amiga!!!
    Bjokas no coração

  14. E aí amiga, será que desta vez vai nevar? Aqui tá um frio de bode, só de pensar que amanhã tenho que madrugar me dá tristeza… quando vai fazer um dia de sol outra vez? Valeu a visita lá no blog. Esta semana fazemos outra tentativa para nosso encontro cinematográfico. Inté e bom início de semana pa·ti. Beijocas 🙂

  15. Puxa, tb sinto-me assim em Janeiro.

  16. Apresentada pela Marília Mota, minha amiga do DE NOVO, bato à porta e peço para entrar.

  17. Nora,
    Nós somos pacientes, minha cara…estaremos aqui, firmes. Esse texto sobre chorar é muito interessante, não conhecia. Quanto a cantar, não ouso.
    Beijos

  18. Claudia Roberta

    Bom Dia, pior que sentir saudade quando se está longe do seu lugar…é sentir saudade de alguma coisa que não se sabe que, nele próprio. Também estou me sentindo meio morna nesse começo de ano e compreendo perfeitamente como se sente, apesar de ter um par de olhos castanhos incrivelmente lindos do meu lado…

  19. Seja benvinda a 2006!!! Muito poético seu post de hoje. Que o ano seja assim: poesia, poesia, poesia.

  20. Oi, Nora
    Desejo que essa fase “janeiro” passe logo, mas te digo que acontece com muita gente também.
    Mas Cortázar é ponte para o lado de lá, o lado bom e doce das coisas. Você deve se lembrar de que eu sou muito fã da escrita dele, portanto me deixou muito feliz lê-lo aqui também. A leitura é múltipla. Tão múltipla quanto é a vida!

  21. Olá Nora.
    Feliz ano novo !
    Muitas felicidades para você e os seus. Que muitos janeiros de cajueiros floridos lhe aconteçam !

  22. Sandra

    Vendo teu blog, deu vontade de ter um…achei belissimo!!
    Bjs p ti!

  23. O que tu achou do programa Nora?
    Gostou???
    =**Beijinhos!

  24. Ola querida, vê se aparece com mais frequencia sentimos saudades de vc, e´tão maravilhoso tudo que vc escreve que até um problema se torna uma poesia. Deus te abençoe

  25. Nora,
    Tudo de muito bom pra você!
    A recíproca é verdadeiríssima!
    Beijo grande.

  26. Vim pelos caminhos da Belgica , de mãos dadas com a Leila. E gostei muito do que vi. O Schumann então foi demais!!!
    Um abraço e parabéns
    vera do val

  27. Estranho. Sempre acho o final de ano mais desesperador do que o recomeço. Bem, nas palavras acima já está um certo otimismo janeirista, não? Fico pior ao pensar no passado e no que ele poderia ter sido.
    E, bem estou há alguns minutos com o blog aberto. Divertido este Schumann. Para cantar, poderias ouvir as Canções Sem Palavras, não?
    Beijo e que teu janeiro vá logo embora. O meu até está bom.

  28. Nora, eu estarei sempre por perto te esperando com um sorriso.
    Gostei do que disse sobre erótico lá no Milton, entrei l´por acaso e vi, tbm penso assim. Bom que pensamos assim.
    Um abraço forte, moça, laura

  29. rec

    Nora
    talvez funcionem aquelas teorias climáticas, onde se diz que o sol deixa o povo dos trópicos mais lentos mas também mais leves. Aqui, ao contrário, o janeiro é cheio das promessas de verão, sol, mar, passeio, encontros, amigos, festas… a nostalgia a gente deixa para sentir embaixo das chuvas de junho e julho, onde a luz faz falta para os que se acostumaram com ela. beijos e saudades.

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