Enquanto Janeiro Passa…

Hoje o velho espírito Shirley Valentine baixou com tudo que tinha direito. Passei a manhã conversando com as paredes da casa. Fiz perguntas ao wok chinês. Antes era ao I Ching. Agora é ao wok. Ho ho ho!
Ah! os tempos! Gargalhei alto com a porcaria de verduras que fiz. Só tinha gosto de gengibre. E sal. Desisti de cozinhar por enquanto. Minha competência na cozinha está intimamente relacionada com o meu estado de espírito. Quando estou assim-assim sai tudo mal. Quando estou bem a possibilidade de acertar é bastante maior.
Queria uma amiga brasileira por perto para consultar o I Ching como antigamente. Sozinha é meio sem graça.
Pendurei o mp3 no pescoço e saí por entre os pinheiros. Fazia um frio de entorpecer, mas estava bom.
Depois da ducha aproximei-me da janela e afastei as cortinas… por trás dos cristais vi as colinas brancas de neve. Queria mesmo era afastar as colinas e ver o mar. Aliás, queria afastar o mar e ver além do horizonte. Ver além desta raia em que corro meus dias, meus anos, minha vida.
Maldita tpm menopausica!
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Pus Mozart no meio da manhã, muito alto. Presente meu para os coelhos e perdizes que habitam as redondezas. Mozart faria duzentos e cinquenta anos em 2006 se estivesse vivo. Todo o mundo musical está lembrando o grande gênio.
Eu não fui compositora, nem artista, nem ativista política, nem pintora. Eu não fui nada importante, ninguém me recordará duzentos e cinquenta anos depois de meu nascimento.
O que poderiam falar sobre mim se eu desaparecesse hoje? Em mais quantos anos alguém ainda saberia quem eu fui ? O que diriam? Que fui boa mãe, boa filha, boa amiga, boa amante? Não fui. Nem sempre, eu sei. Não. Não por isso. Que eu gostava muitíssimo de música, de vinho tinto e de comidas preparadas com creme-de-leite? Que amei muitas vezes, a maioria errado, que morri uma ou outra vezinha antes de morrer de verdade? Que eu gostava de banhos de chuva ou que eu tinha um baobá que vivia no Poço da Panela e ninguém sabia que ele era meu, somente ele e eu? Que eu tinha cadernos de textos e poesias que se perderam nas enchentes do rio Capibaribe e que meu pai tinha jeito de Lorde mesmo quando chorava a perda dos livros que o rio lia?
Ninguém vai saber nada de mim. Depois de alguns poucos anos de minha morte serei de novo pó de estrelas.
Também isso não é importante.
Voltei para a sala, minha raia, meu momento. Melhor fechar a cortina e mergulhar no livro. A gente se esquece um tanto da gente quando viaja no que lê.
Aqui vão duas dicas deliciosas para o inverno, leia se possível na rede, próximo à lareira, sentindo o cheiro de madeira queimada misturado com perfume de pinheiros, frio e café. Se estiver em pleno verão deixe os livros embaixo da cama e vá ver o mar… por favor.
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O primeiro é A Ponte de Alcântara, de Frank Baer. Uma novela histórica muito maravilhosa, cuja trama desenrola-se no século XI ( entre os anos 1063 y 1086) e que nos leva para dentro dos mundos árabe, judeu e cristão, simultaneamente existentes da Península Ibérica da época, através de três personagens principais: um moço cavaleiro à serviço do mundo cristão, um médico judeu e um poeta árabe.
As descrições dos lugares, dos costumes, dos dramas que se desenvolvem me inunda a mente de cheiros, sensações, ruídos, e não são poucas as vezes que eu os levo para os sonhos que tenho durante à noite, onde posso encontrar-me num castelo ou em um madjlis árabe ou até mesmo conversando com um hakin judeu. Por sinal estou absolutamente atrapada pelo livro.
Aprendendo muito! Delícia de leitura!
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O segundo é uma biografia extremamente bem escrita sobre Jesus de Nazaret. Armand Puig é doutor em ciências bíblicas, professor de Novo Testamento na Faculdade de Cataluña, presbítero da arquidiocese de Tarragona de onde dirige o Instituto Superior de Ciências Religiosas, entre outras atribuições.
O livro é uma referência importante para crentes e não crentes interessados em saber mais sobre esta controvertida figura da história da cultura ocidental.
Puig escreve de uma forma leve e simples, apelando sempre para o rigor histórico. Utiliza os quatro evangelhos canônicos, aprovados pela Igreja e os denominados evangelhos apócrifos, ademais de outros escritos “civis e extra eclesiásticos” ( fontes judias e islâmicas, e fontes históricas como Flavio Josefo ou alguns escritores romanos ) além de remeter também a autores reconhecidos e consolidados como E.P.Sanders, M. Hengel ou G. Theissen.
A obra se reparte em três grandes núcleos: o perfil humano; a mensagem; e a conclusão.
Ainda estou no comecinho. Mas não queria esperar para indicar porque sei que nele ainda vou demorar. É um livro para se ler com calma, sem pressa. Mas falei dele para o Zadig e ele ficou interessado.
Então tá.
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Outro dia li nos blogs da Leila e do Milton Ribeiro posts que falavam de um bucólico jogo do curriculum vitae.
Taí, vou tentar escrever um. Espero conseguir explorar a minha memória e extrair dela um currículum que se preze.
Au revoir.

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Categorias: Baú de Cultura, Pensando Alto | Tags: , , , | 16 Comentários

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16 opiniões sobre “Enquanto Janeiro Passa…

  1. Nora, como você escreve bem!
    Mas, para que ser lembrada por pessoas que nem te conheceram, nem te amaram? Basta ser lembrada pelas pessoas que nos importam.
    bjs – e Janeiro tá quase acabando!

  2. Quero te mandar um livro meu. Envia-me alguma caixa postal.

  3. Oi Nora,
    Estou com blog novo, dá uma passadinha lá!
    Bjinhos da Dani*

  4. Espero que tu estejas mais calma depois do teu Mozart… :¬))
    E o níver de Mozart é em 27 de janeiro. Quando este mês estará findando! Aproveite! Sinceramente, não entendi muito bem a tua referência ao CD de Tarifa. Eu tinha prometido falar nele no blog? Não lembro, mas acho que não.
    Na verdade, ele está na minha fila e só será ouvido depois que passar minha fase Messias + CPE Bach + Bartoli + Réquiem de Verdi + A Criação de Haydn. A Mônica sabe que posso ganhar ou comprar um CD e levar 6 meses para ouvi-lo. Estou no Vol. 11 dos 69 CDs de Cantatas de Bach que a Claudia me deu de aniversário em 19 de agosto! Sou lento mesmo.
    Leste o livrinho do Blog de Papel? E a Paixão e as Suítes, fizeream sucesso?
    Enquato espero o teu currículo,te beijo.

  5. Nora! Estou aqui, derretendo de calor, com este ar condicionado ligado (mas, se eu sair daqui, o mundo vira sauna…), e leio vc, e vejo sua foto toda encapotada!
    Acho muito agradável sentir esse contraste de temperatura…
    Mas, dentro de nós, parece estar um clima bem mais parecido: o som de Mozart,as leituras de livros, os pensamentos de (i)mortalidade, as lembranças.
    O mar, eu vejo mais que você.Tenho-o a uns 60 quilômetros de onde moro…
    Gostoso demais ficar aqui, conversando. Quer saber? Gostaria imensamente de conhecê-la pessoalmente e poder caminhar com vc, no ar gelado…ou, na beira da praia…Seria maravilhoso!
    Querida Nora, fique bem.
    Cuide-se.
    Meu abraço, com um pouco do meu calor, para você!
    Dora

  6. Nora! Voltei! Estava até agora, acompanhando vc nas andanças pela Espanha e, preocupada com sua dieta…rs, mas, não consegui deixar minhas impressões lá no Cicratizes…Empaquei no preenchimento dos itens…rs
    Quando for à Espanha ( pretendo ir Portugal, primeiro, ver um resto de parentalha que ainda tenho lá…),vou ler todos os posts seus, de novo…
    E vai ser bom, andar pela Espanha, guiada por vc, de uma certa forma…
    Beijos num domingo ensolarado e preguiçoso, de São Paulo (interior).
    Dora

  7. Há braços!!!

  8. Olá Nora! É sempre bom ler o seu diário. Tudo sai com força e simplicidade, do fundo da alma. Uma beleza. Jesus controvertido??? Desculpe-me, sou cristão é por isso.
    Um abraço

  9. Socorro

    Também gostaria de ser muito lembrada, mas penso que também deve ser bom o total esquecimento. Como neste poema do teu conterrâneo Manuel Bandeira:
    A morte absoluta
    Morrer.
    Morrer de corpo e de alma.
    Completamente.
    Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
    A exangue máscara de cera,
    Cercada de flores,
    Que apodrecerão – felizes! – num dia,
    Banhada de lágrimas
    Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
    Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
    A caminho do céu?
    Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
    Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
    A lembrança de uma sombra
    Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
    Em nenhuma epiderme.
    Morrer tão completamente
    Que um dia ao lerem o teu nome num papel
    Perguntem: “Quem foi?…”
    Morrer mais completamente ainda,
    – Sem deixar sequer esse nome.

  10. Escrevi um comentário longo e ele nao seguiu. Acho que, sem querer, cliquei no Preview, e a coisa desandou. Agora vou deixar so um abraço.Fiquei mto tempo fora e estou feliz de estar de volta.
    Bjs

  11. Nora, ma chère:
    Obrigado pela referência.
    Não conhecia o Puig e uma busca rápida me mostrou que ele é um sacerdote católico bem ativo em España.
    É claro que neste terreno, fico sempre com Maritain: nem 100 comentaristas do Evangelho substitui um S.Lucas ou um S.Mateus!
    Abraço fraterno,
    BetoQ.

  12. Esta época, como você mesma já constatou anteriormente, é crítica em lembranças, evocações, mas a vida seguirá seu curso e você se perpetuará através dos seus descendentes, como seus pais através de você.

  13. Nora,
    Procurei A Ponte de Alcântara aqui nas minhas fontes habituais (Powell, etc) e não encontrei. V. sabe se tem em inglês?
    Adoro Shirley Valentine. Aquele monólogo inicial na cozinha, depois no ponto alto, tomando vinho – diz tudo, acho que não tem quem não se identifique – o final mais que feliz, e real. E uma coisa que simboliza tanto, pra mim, o momento de virada – a mulher independente, realizada, ideal, o sucesso total naquela época, a amiga dela: que profissão naquele momento permitiria a uma mulher ser tudo isso? Prostituta de alta classe. Não é emblemático? Ai, que dói!
    Bjs, Marilia

  14. Amei isso aqui. Outro coracao que eh um balde despejado. Querida, Praga vale mesmo a pena, daquelas cidades que jah no 3o. dia voce conhece, como se soubesse de todo cenario, ocupando-se em somente enredar-se bela e romanticamente. Mozart aqui eh pop star, porque estreou Dom Giovanni aqui pela primeira vez. Deixo-lhe um beijo, e vou para as ruas ouvindo:”La ci darem la mano, la dirai qui si, vienne non e lontano, partiamo bem mio daqui.” E fico respondendo: “Vorrei e non vorrei, mi treme o core un poco…”
    Becitos miles!

  15. Adorei a referencia a Mozart no seu Post.
    Sabado passado fui na Galeria de Arte do DC, assistir um concerto em homenagem ao grande genio da musica classica.
    HAPPY BIRTHDAY MOZART.
    bjos,
    ME

  16. Pobre de mim. Brincando de fazer historinhas passadas na idade médis, diante de gente desse calibre. Enfim, a gente vai aprendendo aos poucos, né? Vou ver se já existe edição brasileira. Na verdade a minha idéia é bem simples: uma grande batalha vista pelos olhos da gente que faz a “massa” e morre sem que ninguém saiba. Sem grandes dramas humanos, mas simplesmente a vida de um “alguém” que se vê forçado a participar de uma luta que não é a sua. A vida que ninguém lembra… beijão

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