Vozes Remotas…

Passei o dia com uma vibração dentro do peito. Fiz o que nunca faço: logo pela manhã elegi a roupa que pretendia usar à noite e, como a criança obediente que fui, deixei-a sobre a cama com zelo. Assim gostava de fazer a minha mãe,a Princesa. Eu, que jamais gostei de escolher a roupa antes da hora de vestir-me, estranhei.
Andei pela casa como suspensa numa nuvem antiga e reconhecida. Cuidei das plantas sem conversar com elas, deixando que os sons remotos das vozes perdidas ecoassem na minha memória. Engoli o almoço sem sentir seu sabor. Parecia… por momentos, estar de volta à lugares e idades distintas. Faço isso muitas vezes na minha vida.
Acho que não tenho muito delimitado essa coisa de passado, presente e futuro. Vivo e re-vivo e pré-vivo sentimentos e sensações com a memória e a imaginação frequentemente.
Ontem o tempo oscilava entre presente e passado a cada larga hora do dia…
Há anos que eu não sentia um dia passar tão devagar!

Sobre a mesa do gabinete, uma página impressa recordava o motivo de minha inquietude. Registrava que tínhamos entradas para a ópera em Madrid. La Bohème, de Puccini.
(Clique aqui e escute a ária Si, me chiamano Mimi , com Maria Callas. Também pode escutar Che gelida manina, com Pavarotti, na mesma página do site El Poder de La Palabra, cujo link eu indico aí ao lado.)
Então… minha primeira vez no Teatro Real de Madrid. E também minha primeira vez numa ópera ao vivo e a cores.E logo La Bohème! Emocionante demais! Mais do que se possa imaginar.
Apesar de ser minha estreia numa apresentação desse tipo, a emoção maior não era apenas por isso. Era algo mais visceral.
Eu nasci escutando ópera. Esta era uma das grandes paixões do Lorde. E La Bohème uma de suas prediletas.
Recordo, mais com a memória dos sentimentos que com a memória da razão, estar entre seus braços numa das muitas noites de brumas da casa do Poço da Panela, escutando Mimi em seus primeiros instantes de enamoramento…
“Mi chiamano Mimì,
ma il mio nome è Lucia.
La storia mia è breve.
A tela o a seta
ricamo in casa e fuori… “

Não que eu soubesse o que estava dizendo aquela voz tão extraordinária, era muito pequena, mas sentia que seu encanto e beleza se espalhavam por sobre nós e a casa, avançavam como uma onda por sobre as baronesas que cobriam o braço do rio e iam enfeitiçar as árvores centenárias da outra margem. Quem sabe estavam os seres encantados que viviam nas matas também fascinados como eu?
Depois, muitas foram as vezes que escutei Mimi e Rodolfo recitarem seu amor e desventuras… aí eu já sabia o que diziam e o prazer só aumentou.
Acho que já disse que a herança mais bonita que recebi de meu pai foi o amor pela música. E foi através dessa herança que eu “reabilitei” a minha relação com ele.
O Lorde era uma criatura fora de série. Podia ser o sujeito mais sensível do mundo para umas coisas e o mais rude para outras. Era dono de uma inteligência e sensibilidade privilegiadas, mas como pai não foi nada competente. Amava com muita crueldade. Quem sabe um dia eu fale sobre esse aspecto de nossa relação. Agora não creio que valha a pena.
Muitos anos depois de sua morte, resolvi rememorar apenas seus momentos suaves… embora, de vez em quando, os outros ressurjam das brumas e venham sombrear recordações de minha infância e juventude.
Ontem ele estava lindo, com seus verdes olhos molhados de emoção assistindo La Bohème comigo.

Antes, como para preparar-nos, levei-o dentro do peito para a bela praça diante do Palácio Real de Madrid. Sentamos na antiquíssima ” terraza “ do Café Oriente e tomamos um café com Drambuí e sorvete como sei que ele amaria, enquanto olhávamos as pessoas que chegavam para a função.
(Adoro olhar as roupas, sapatos, abrigos… Para mim já faz parte do “evento” observar como estão vestidas as pessoas. E mais, eu ainda crio histórias para elas… mas isso dá outro post sobre manias.Já descobri que mantenho algumas das antigas, só que tinha esquecido delas.)
Pois sim…

O coração batia forte quando entramos no teatro e buscamos nossos assentos. Quando a cortina abriu e a orquestra executou os primeiros acordes, temi deixar-me levar pela irritação por ter comprado lugares em um dos camarotes laterais, caros demais para uma visão tão reduzida. ( Como se atrevem?)
Mas depois, levantando-me muitas vezes, contando com a paciência amorosa de Pepe e o próprio cuidado da produção que fez com que os personagens se movessem por ambos lados do cenário, numa primorosa recriação da buhardilla parisiense ou da antiga rua do quartier latin francês de 1840 relaxei e aproveitei. E aos poucos, principalmente pela força da representação e da música, entrei em transe.
Tomei nos braços a minha lembrança daqueles belos momentos de intimidade com meu pai e desejei de todo coração que ele e minha mãe pudessem estar mesmo ali comigo e com Pepe. E, se não… imaginar que eles podiam assistir nossa ópera favorita através de meus olhos e de minha saudade.
A atuação da companhia foi deslumbrante!
E eu chorei feliz, como estava previsto, com o lenço branco de olhos-de-mar-azul em volta do nariz para não fazer barulho.
Assim, foi com o coração cheio de suave alegria e um toque de agradável nostalgia que brindei com Pepe, no hall do teatro durante um dos intervalos, ao sabor de uma bela taça de cava espanhol, à memória do Lorde e da Princesa, que infelizmente ele não conheceu.
Dediquei a eles minha estreia.
Sim, porque essa foi só a minha primeira vez. Tenho certeza que virão outras.
Pretendo, um dia, se Deus ajudar, ir ao Festival de Ópera de Verona.
E Deus gosta de mim. Eu sei.

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Categorias: Cicatrizes da Mirada, Música, Memórias e Saudades | Tags: , , , | 13 Comentários

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13 opiniões sobre “Vozes Remotas…

  1. Distant Voices… Há um filme com este nome. E trata de música.
    Sim, queremos também o outro lado do Lorde. O teu lado musical é parecidíssimo com o meu e poderia assinar esta frase: “…a herança mais bonita que recebi de meu pai foi o amor pela música”.
    Ah, ouvi atentamente o CD de Tarifa. Há um programa numa rádio de P. Alegre chamado “Música no mundo”. Este programa traz coisas de todo o lugar e então sabemos quantos árabes há no mundo. Gostei do CD, principalmente da faixa 5 ou 6 (aquela em que Lili Marlene vira música incidental) e da última, ultra-percussiva.
    Beijo.

  2. Que descrição mais linda, Norinha! deve ter sido emocionante!

  3. Obrigada por compartilhar esses momentos emocionantes com a gente… Você sabe contar tudo com uma delicadeza!

  4. Você tem uma incrível capacidade de descrever sentimentos e emoções com grande naturalidade; parece que estamos mais do que ao lado, sentimo-nos em seu lugar.

  5. Muito lindo, Nora! Mimi e Rodolfo tocam a alma. Também quero ir a Verona! Bjs.

  6. Esse post foi pura emoção, puro sentimento Norinha 🙂
    Vc tem esse dom maravilhoso de fazer a gente voar nas suas palavras, por isso sempre que preciso voar venho aqui 🙂 Obrigada!
    Bjokas

  7. Senti um certo arrepio, não é a primeira vez. Meu pai era idêntico ao seu…Escrevi sobre ele, um dia vc lerá, eu espero.
    Dele herdei o jeito brincalhão e o gosto pela música ( ele tocava qq instrumento).
    Nora, eu teria escolhido a roupa logo cedo tb.
    Vai ser sim a primeira de muitas, adoro ópera tb.
    Beijão

  8. Nora, meu pai ama música clássica e com ela eu e meus irmaos acordávamos em domingos ensolarados. Ele batia na porta, para confirmar que escutávamos, entrava triunfante, vibrando com a música, rejendo com batutas imaginárias e dizia: Vamos colocar os ossos de ponta! Com meu pai aprendi a sensibilidade de apreciar Bach, Mozart, Beetoven e sua pastoral, Vivaldi, Sinfonia dos brinquedos, coro dos ferreiros… e tantas!
    Lindo teu post, me emocionei, me senti a própria mosquinha participando contigo de toda emocao da tua estréia.
    Beijo

  9. Ah, Norinha… Você sempre consegue me emocionar muito. Um beijo e inté!

  10. Nora, poucas pessoas tem a capacidade de descrever os sentimentos do seu jeito. Todas as vezes que eu leio os seus posts fico numa tranquilidade só. Beijocas

  11. Nora seu post está lindo, emocionante e poético…

  12. Nora, li o Cicatrizes todo! Uma aula e uma sedução só!
    Lindas memórias aqui neste post. Não sei como foi sua vida antes, mas você, decididamente, encontrou o ritmo certo de viver, parece tão sintonizada consigo, com a batida de seu coração. Seguro, calmo, e a introspecção na medida certa, com alegria,paixão, afeto, compreensão. Você chegou lá! No sonho. Não?
    Outro dia fui assistir a Parsifal, a que nunca tinha ido. Não gostei de nada! Pela primeira vez uma ópera me deixou exausta e aborrecida.
    Acontece.
    Bjos
    Bom fim de semana!

  13. Nora,
    Não foi por acaso que você se identificou com meu Ovo Azul Turquesa. Senti uma grande emoção lendo seu post! Minha avó paterna e tias-avós eram cantoras líricas e cresci ouvindo minha avó cantar justamente estas árias! Foi como mergulhar no passado sem bóia.
    E meu pai também foi muito importante na formação do meu amor pela música – só que ele era jazzista.
    Linda maneira de evocar fantasmas. Emocionante, especialmente para mim. Parabéns.
    E obrigada pelos comentários no blog.
    beijão,
    Helena

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