Arquivo do mês: abril 2006

Eles invadiram minha casa…

E descobriram antigos sonhos perdidos…
Tentei aprender violão e flauta doce em épocas distintas de minha juventude.
Porém, apesar de adorar a música e ter um ouvido privilegiado para ela, não tive a resposta que pretendia com estes estudos. Talvez não tenha investido o tempo e a paciência necessárias para sair do estágio de “aprendiz de notas” para realmente tocar algo interessante.
Não tive, nunca, qualquer incentivo familiar para investir tempo e dinheiro nessas aprendizagens. Eu insistia por conta própria, pagando como podia as aulas e assistindo-as em horários quase impossíveis entre o trabalho e os estudos. Muitas vezes nem tinha tempo de preparar bem as lições antes das classes.
O esforço era grande demais e, talvez, o talento de menos. Pelo menos eu pensava assim naqueles idos.
As horas de estudo e treinamento eram “incômodas para a família” e eu não parecia tirar sons muito agradáveis daqueles instrumentos, enquanto lutava com as cordas do violão ou com os buraquinhos das flautas.
Até entendo o desespero deles, coitados!
Bueno… afinal tive poucos momentos de verdadeiro prazer e muitos de frustrações. Na verdade, apenas cheguei a fazer uma apresentação de música barroca – com um grupo de flautistas do conservatório pernambucano de música – numa Igreja de Recife. Ninguém da família foi assistir, naturalmente.

E o violão? Esse nunca abandonei em definitivo. Toquei-o, mesmo mal e limitadamente, a vida inteira…
Tocava só para mim, exceto quando tomava uns viskies a mais e perdia a vergonha de tocar diante de um público maravilhoso, que além de muito amigo também estava meio “borracho” e gostava. Ho ho ho! Inesquecíveis amigos!
Gostosas lembranças…
Mas quando vim para a Espanha, deixei o violão com um sobrinho.
Que pena!
Enfim… nunca entenderei porque meu pai, que tocava piano tão bem e era um incondicional amante da música, jamais tenha me dado um dedinho de ajuda e incentivo…
Talvez a culpa tenha sido do rio, que levou seu piano quando eu tinha uns sete anos de idade e recebia nele as aulas que me dava a bruxa da praça. Eu tinha medo dela e não gostava das aulas…
Talvez ele tenha pensado que eu não gostava do piano… ou pior, que eu não tinha talento.
Eu sempre pensei que ele achava que eu não tinha talento para nada…
Quando o piano boiou nas águas do Capibaribe e desmembrou-se todo, ele chorou, e nunca mais falou no assunto. Também nunca mais comprou outro piano. E eu parei com as aulas.
Engraçado… de vez em quando eu descubro tantas perguntas para fazer ao Lorde!
Quando ele morreu eu era jovem demais para entendê-lo…
Pois sim…

O que aconteceu este final de semana é que cinco jovens músicos invadiram minha casa por três dias… e eu tive saudades de mim. 
O grupo faz parte da European Union Youth Orchestra, e estava na Alemanha e na Áustria com toda a orquestra, para a gira da primavera 2006, durante todo o mês de Abril.
Então…
Maria José Ordoño (flauta) Espanha – José Luis Garcia Vegara (oboé) Espanha – Amanda Kleinbart (trompa) Luxemburgo – Povilas Bingelis (fagot) Lituania – Thomas Lessels (clarinete) Gran Bretanha.
Estes cinco vieram fazer um concerto de sopro em Madrid e os convidamos a ficar em nossa casa, pois José Luis ( o primeiro à direita ) é filho de Pepe e já fazia um bom tempo não o víamos.
A casa ficou ainda mais bonita com a presença dos jovens músicos! Que sol gostoso, que clima ameno, que conversas agradáveis, que sons maravilhosos de música, risadas e vozes juvenis!
Eles se divertiram e nos animaram com suas brincadeiras. Fingiram tocar os mini instrumentos de minha coleção, vestiram minhas máscaras, pintaram e bordaram pela casa inteira.
Que maravilha!

A bagunça da sala, transformada num lugar de ensaio, foi o de menos.
O gostoso foi vê-los e escutá-los preparando o concerto em minha casa.
Enchi os olhos d´água várias vezes!
Minha dificuldade maior era ter que falar Inglês e Espanhol ao mesmo tempo. Três deles falavam Espanhol mas os outros dois apenas falavam Inglês e fazem simplesmente 17 anos que não exercito meu Inglês.
Anyway, a mímica e o carinho ajudaram sempre…
Depois de alimentá-los, cuidá-los com mimo e atenção por todo o tempo que permaneceram aqui, imaginem que no concerto em Madrid, numa das salas da Fundação Carlos Amberes, era como se todos fossem um pouco meus filhos.
Eu estava mesmo com uma cara de mãe orgulhosa de seus pimpolhos.
Não faltaram, por supuesto, meus aplausos e exclamações de Bravo! Bravo!
Claro, eles tocaram maravilhosamente bem.
São os melhores da Europa.
Passam por um teste muito exigente para fazerem parte da Youth Orchestra.
O repertório foi um pouco de Mozart, Milhaud, Ibert, Hindemith e para fechar, o Opus Número Zoo de Luciano Berio.
Essa peça é composta por sons e vozes.
Os músicos contam pequenas histórias de animais, entrecortadas pelos sons de seus instrumentos e expressões corporais engraçadíssimas!
Embora algumas das peças fossem modernas demais para a idade média da maioria do público, surpreenderam a platéia… e os aplausos foram sinceros e abundantes.
Podem imaginar que eu dissolvi de prazer, não é?
E mais… admito que – no fundo no fundo – tive um pouco de inveja daquele grupo.
Grande escolha essa de ser músico!
Agradeceram-nos o carinho presenteando-nos com um livro de Garcia Marquez e um CD de Tchaikovsky, que eu estou simplesmente adoraaando!
Mas nós é que agradecemos a eles pela alegria que deixaram aqui, impregnando a nossa casa…

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Terra…

Sábado, dia 22 de Abril comemorou-se o dia da Terra.
Lúcia Malla sugeriu uma blogagem coletiva para o dia… e eu, como sempre, atrasada… só pude publicar agora.
Para ser muito sincera, eu não ia postar nada justamente por estar atrasada na data…

Mas não pude deixar passar uma imagem tão especial como esta.
Não sei quem é o autor, se alguém souber avise-me.
Para acompanhar, sugiro um trecho da música Terra, de Caetano Veloso
“Eu estou apaixonado por uma menina terra
Signo de elemento terra do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia
Terra, Terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Eu sou um leão de fogo, sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente, e de nada valeria
Acontecer de eu ser gente, e gente é outra alegria
Diferente das estrelas
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
De onde nem tempo e nem espaço, que a força mãe dê coragem
Pra gente te dar carinho, durante toda a viagem
Que realizas do nada,através do qual carregas
O nome da tua carne
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?”

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Beijos de Primavera…

Estive viajando por uns dias. Delícia!
Semana Santa em Andalucia é sempre um evento fantástico! E eu já fiz alguns posts sobre ela nos blogs anteriores a este. Há, inclusive, um post sobre a Semana Santa de Tarifa no baú do Cicatrizes da Mirada. Quem não viu, vale a pena ir ver.
E ver o mar então?
Ah! que saudade eu estava do mar!
Cantava Caymmi baixinho ao passear pela orla perfumada do Estreito de Gibraltar…
Quem diria! Cantar um velho baiano, pisando em terras flamencas e bem diante dos montes do Marrocos!
“… Andei, por andar andei…e todo caminho deu no mar.
Andei, por andar andei… nas águas de dona Janaína.
A onda do mar leva, a onda do mar traz
Quem vem pra beira da praia, morena…
não volta nunca mais…”

E eu quase podia ouvir o assovio do Lorde arrumando as varas de pescar, disposto a desaparecer no mar do Janga até o entardecer…
Ver o mar sempre é tão doce!
Tarifa é um “pueblo” muito lindo e gostoso. Só caminhar pelas ruas estreitas e ir ao mercado público comprar peixe e mariscos para fazer o almoço do dia já era uma alegria…

Na volta encontrei minhas flores enfeitando o jardim…
Plantei os bulbos em outubro passado e agora eles estão brotando por toda parte.
Jacintos, tulipas vermelhas,amarelas, rosas…
Um coisa linda de ver.
Ô momento espetacular é a Primavera!
Isso sem falar das minhas queridas amapolas, que já estão espalhadas por todos os meus caminhos!
Espero que tenham todos passado uma boa Páscoa e agradeço muito o carinho que recebi através dos comentários e e-mails.
Vou tentar postar o mais rápido possível.

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Volver…

Elas estão de volta. As mulheres de Almodóvar.
E o público agradece.
Não sei quando passará no Brasil, mas aqui já estreou e eu fui – com muito gosto – entregar-me a Volver
O novo filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar, um “homem de la mancha”, é um banho de luz e cores, de força e vitalidade femininas.
Esse é seu mais profícuo território. E ele sabe.
Como um Don Quixote moderno, Pedro desvela, recria, desperta – em cada personagem – as Dulcinéias que existem dentro das muitas Aldonzas que a vida maltrata.
Volver é uma história de repetidas histórias. Daquelas que a gente sabe acontecer com frequência nas sociedades do primeiro, terceiro ou quinto mundo. Mãe, filhas e neta que recebem porradas do mundo masculino e ainda assim são capazes de sobreviver e dar a volta por cima. São vítimas e algozes. Anjos e demônios. Amáveis e duras. Mulheres fortes e frágeis ao mesmo tempo. Mulheres divertidas e trágicas. Capazes de revelar a beleza do amor, da solidariedade e da cumplicidade apesar de condições extremas e complexas.
E quando se unem, seja nos risos e cantos, seja nas dores e misérias, transbordam.
Volver é isso. Um transbordamento. Verdades e mentiras, segredos e revelações se mesclam num jogo de cenas reais e surreais, retratadas com um talento espetacular.
Pedro consegue explorar temas importantes como a violência doméstica e de gênero, a enfermidade e a morte com uma crua leveza que sempre surpreende.

O filme é um prazer do início ao fim.
Penélope Cruz está linda, madura, envolvente. Uma mulher de carne e osso, bela por seus predicados mas também por suas imperfeições. Lembra, em alguns momentos la Loren.
Yohana Colbo faz de filha. É a nova chica -Almodóvar. Eu ainda não a conhecia, mas já tem um sólido currículum na cinematografia espanhola.
Carmem Maura ( desessete anos sem filmar com Almodóvar) dá um show de interpretação como a mãe que “volta do além”.
Lola Dueñas ( Rosa, de Mar Adentro) é uma das minhas atrizes espanholas preferidas e também está perfeita no personagem da irmã que eu queria ter.
E Blanca Portilho, que está magnífica no papel da vizinha de toda a vida. Uma vizinha como as que a gente precisaria nos momentos difíceis! Daquelas de pueblo pequeno. A que cuida, a que sabe das coisas, que tem a chave da nossa casa e das histórias que circulam através dos tempos, nossas ou de outros…
Volver é isso. Uma das muitas história que se pode contar sobre a história das mulheres, em todos os tempos e todos os cantos do planeta.
Acontecimentos mais explícitos em alguns, mais obscuros e escondidos em outros, mais reais ou surreais, porém presentes nos quatro cantos do mundo!
Volver não é comédia nem drama, embora seja um tanto de ambos. Tem a porção e a medida exata dos dois. Como as mulheres.
Como a vida e a morte.

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A Janela…

Domingo na casa de colunas.
Fazenda de cabras, flores e uma casa tranquila.
Um papagaio inquieto a andar de um canto para o outro no terraço, resmungando palavras incompreensíveis.
Música numa radiola do tempo da guerra: Augusto Patativa, o cantor da voz tremida.
Dr. Diniz nos mostra sua casa ensolarada, os empregados, sua solidão e uma janela.
– Aquela janela? É a mesma deste retrato aqui. Ela ficou pequena com o tempo, mas é a mesma. A moça era uma namorada que tive, sabem, eh,eh, quando era jovem. Faz muito tempo. Eu passava pela casa dela todas as tardes, e ela ficava na janela, nesta mesma janela, como no retrato.
– Era bonita. Muito bonita. Ele disse.
– Não casou com ela?
– Não. Ela já se foi. Disse abreviadamente. Mas ficou a casa. Sabem, eu não pude comprar a casa em que ela morou. Iam demolir, fiquei esperando, então comprei a janela.
– A fotografia? Paguei a Júlio Fotógrafo. Ele foi lá escondido e… plact! Custou-me dois contos a ousadia. Mas vale a pena. Não é linda?
-Tanto a foto como a janela.
– Não, a janela já não é mais. Ficou pequena. Antigamente era bem maior.
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Texto do livro A Idade da Pedra, um encantador e lindo presente que recebi de seu autor, meu amigo Luis Manoel Siqueira, Menção Honrosa Premio Othon Bezerra de Melo da Academia Pernambucana de Letras, 1990.
Por sinal, estou enamorada do livro do Luis Manoel. Seu livro é uma delícia do começo ao fim.
Depois vou publicar um post sobre essas alegrias que o blog tem me proporcionado.
Antes eu recebia um presente assim e ficava com pudores de publicar algo sobre eles, como se estivesse “expondo” demais as pessoas que me presenteavam. Agradecia por e-mail, como para protegê-los. Que grande bobagem!
Acho , agora que estou mais a vontade neste blog, que estava sendo até uma injustiça não compartilhar com todos as delicadezas que recebo aqui na Espanha, vindas de adoráveis leitores brasileiros que frequentam esta página.
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Quadro de Nicoletta Tomas Caravia . Uma pintora autodidata, bárbara, doce, sensível. Uma das minhas últimas descobertas.

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