Eles invadiram minha casa…

E descobriram antigos sonhos perdidos…
Tentei aprender violão e flauta doce em épocas distintas de minha juventude.
Porém, apesar de adorar a música e ter um ouvido privilegiado para ela, não tive a resposta que pretendia com estes estudos. Talvez não tenha investido o tempo e a paciência necessárias para sair do estágio de “aprendiz de notas” para realmente tocar algo interessante.
Não tive, nunca, qualquer incentivo familiar para investir tempo e dinheiro nessas aprendizagens. Eu insistia por conta própria, pagando como podia as aulas e assistindo-as em horários quase impossíveis entre o trabalho e os estudos. Muitas vezes nem tinha tempo de preparar bem as lições antes das classes.
O esforço era grande demais e, talvez, o talento de menos. Pelo menos eu pensava assim naqueles idos.
As horas de estudo e treinamento eram “incômodas para a família” e eu não parecia tirar sons muito agradáveis daqueles instrumentos, enquanto lutava com as cordas do violão ou com os buraquinhos das flautas.
Até entendo o desespero deles, coitados!
Bueno… afinal tive poucos momentos de verdadeiro prazer e muitos de frustrações. Na verdade, apenas cheguei a fazer uma apresentação de música barroca – com um grupo de flautistas do conservatório pernambucano de música – numa Igreja de Recife. Ninguém da família foi assistir, naturalmente.

E o violão? Esse nunca abandonei em definitivo. Toquei-o, mesmo mal e limitadamente, a vida inteira…
Tocava só para mim, exceto quando tomava uns viskies a mais e perdia a vergonha de tocar diante de um público maravilhoso, que além de muito amigo também estava meio “borracho” e gostava. Ho ho ho! Inesquecíveis amigos!
Gostosas lembranças…
Mas quando vim para a Espanha, deixei o violão com um sobrinho.
Que pena!
Enfim… nunca entenderei porque meu pai, que tocava piano tão bem e era um incondicional amante da música, jamais tenha me dado um dedinho de ajuda e incentivo…
Talvez a culpa tenha sido do rio, que levou seu piano quando eu tinha uns sete anos de idade e recebia nele as aulas que me dava a bruxa da praça. Eu tinha medo dela e não gostava das aulas…
Talvez ele tenha pensado que eu não gostava do piano… ou pior, que eu não tinha talento.
Eu sempre pensei que ele achava que eu não tinha talento para nada…
Quando o piano boiou nas águas do Capibaribe e desmembrou-se todo, ele chorou, e nunca mais falou no assunto. Também nunca mais comprou outro piano. E eu parei com as aulas.
Engraçado… de vez em quando eu descubro tantas perguntas para fazer ao Lorde!
Quando ele morreu eu era jovem demais para entendê-lo…
Pois sim…

O que aconteceu este final de semana é que cinco jovens músicos invadiram minha casa por três dias… e eu tive saudades de mim. 
O grupo faz parte da European Union Youth Orchestra, e estava na Alemanha e na Áustria com toda a orquestra, para a gira da primavera 2006, durante todo o mês de Abril.
Então…
Maria José Ordoño (flauta) Espanha – José Luis Garcia Vegara (oboé) Espanha – Amanda Kleinbart (trompa) Luxemburgo – Povilas Bingelis (fagot) Lituania – Thomas Lessels (clarinete) Gran Bretanha.
Estes cinco vieram fazer um concerto de sopro em Madrid e os convidamos a ficar em nossa casa, pois José Luis ( o primeiro à direita ) é filho de Pepe e já fazia um bom tempo não o víamos.
A casa ficou ainda mais bonita com a presença dos jovens músicos! Que sol gostoso, que clima ameno, que conversas agradáveis, que sons maravilhosos de música, risadas e vozes juvenis!
Eles se divertiram e nos animaram com suas brincadeiras. Fingiram tocar os mini instrumentos de minha coleção, vestiram minhas máscaras, pintaram e bordaram pela casa inteira.
Que maravilha!

A bagunça da sala, transformada num lugar de ensaio, foi o de menos.
O gostoso foi vê-los e escutá-los preparando o concerto em minha casa.
Enchi os olhos d´água várias vezes!
Minha dificuldade maior era ter que falar Inglês e Espanhol ao mesmo tempo. Três deles falavam Espanhol mas os outros dois apenas falavam Inglês e fazem simplesmente 17 anos que não exercito meu Inglês.
Anyway, a mímica e o carinho ajudaram sempre…
Depois de alimentá-los, cuidá-los com mimo e atenção por todo o tempo que permaneceram aqui, imaginem que no concerto em Madrid, numa das salas da Fundação Carlos Amberes, era como se todos fossem um pouco meus filhos.
Eu estava mesmo com uma cara de mãe orgulhosa de seus pimpolhos.
Não faltaram, por supuesto, meus aplausos e exclamações de Bravo! Bravo!
Claro, eles tocaram maravilhosamente bem.
São os melhores da Europa.
Passam por um teste muito exigente para fazerem parte da Youth Orchestra.
O repertório foi um pouco de Mozart, Milhaud, Ibert, Hindemith e para fechar, o Opus Número Zoo de Luciano Berio.
Essa peça é composta por sons e vozes.
Os músicos contam pequenas histórias de animais, entrecortadas pelos sons de seus instrumentos e expressões corporais engraçadíssimas!
Embora algumas das peças fossem modernas demais para a idade média da maioria do público, surpreenderam a platéia… e os aplausos foram sinceros e abundantes.
Podem imaginar que eu dissolvi de prazer, não é?
E mais… admito que – no fundo no fundo – tive um pouco de inveja daquele grupo.
Grande escolha essa de ser músico!
Agradeceram-nos o carinho presenteando-nos com um livro de Garcia Marquez e um CD de Tchaikovsky, que eu estou simplesmente adoraaando!
Mas nós é que agradecemos a eles pela alegria que deixaram aqui, impregnando a nossa casa…

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Categorias: Cicatrizes da Mirada | Tags: , , | 13 Comentários

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13 opiniões sobre “Eles invadiram minha casa…

  1. Que máximo ter os músicos na sua casa, Nora. A foto na sala com o sol entrando ficou lindíssima.
    Eu torço demais para que meu filho seja músico. Meu pai tocava piano e minha tia, violino. Meu marido toca guitarra. Eu fui mais ou menos como você, fiz aulas mas desisti, porque não achei que tinha talento. E porque descobri que prefiro cantar a tocar.
    Enfim, bacana o seu enteado ser um músico de tanto talento. Eu também ficaria orgulhosa e emocionada.
    bjs

  2. Nora querida. Feliz daquele que traz música na alma, como vc. E tê-la em casa, mesmo que por alguns dias, apenas, é simplesmente presente de Deus.
    Beijos

  3. Oi Nora
    Que coisa boa receber umas visitas dessas,hein? Eu gosto quando vc conta suas mémórias,pois vc o faz com alma, parece até que estamos no meio da narrativa.
    Beijos

  4. Enfim, eis-me aqui, mais um frustrado por não ter investido nalgum instrumento. Sempre quis ser pianista… snif, agora é tarde. Lindo encontro. Imagina, um concerto só para ti, hehehe beijão

  5. Nora, o concerto foi muito bom, gostamos muito. “Miga”, somos duas que tentaram tocar alguma coisa. Também deixei o piano por falta de incentivo familiar e por falta de ter o dito cujo em casa. Tinha que praticar num teclado de papel ou no pianinho de brinquedo, é mole? Mais tarde tentei por conta propria, mas nao tive sufuiente “cojones” para insistir. Vamos comemorar o “cumple”? Aceito idéias… besito

  6. Às vezes a família não da aquela força e ficamos com a impressão de uma falta de talento. O tempo passa, mas à vontade não e o talento adormecido revela-se. Você me deu uma boa idéia! Abraços…

  7. Nora, que delícia seu blog!
    Penso que deve transpor estas belas palavras para um livro…nunca pensou nisto?
    Li o primeiro capítulo, sobre o primeiro encontro no barco e não encontrei o restante…estou aqui torcendo pra ler o restante, como foi que desenvolveu esta linda estória de amor!
    Seus escritos me prendem atenta a cada momento seu…
    Parabens1
    Beijos e pode me deixar um email..ondde estão os restantes nove capítulos?
    Até mais!

  8. Crônica absolutamente deliciosa e que foi lida avidamente por alguém que gostaria de ter sido músico, que teve incentivo familiar, mas que preferia ouvi-la. Um fiasco pessoal!
    Adoraria ter estado aí, convivendo com vocês. O filho do Pepe parece-se com ele e amo os quintetos de sopros de Hindemith. Essa peça do Berio deve ser o máximo.
    Um beijo, querida Nora.

  9. Oi, Juci.
    Se você clicar aí do lado na categoria – Coisas de Amor – vai encontrar a história toda. Mas espere carregar tudo e comece de baixo para cima, ok?
    Vou te mandar um e-mail também.

  10. Que o sopro jovial e musical do grupo tenha impregnado, definitivamente, sua casa e sua vida.

  11. Passei pra registrar a satisfação com tua visita lá no meu abandonado blog. Grato pelo elogio. Infelizmente não tenho dispendido o tempo que gostaria com o blog. As obrigações profissionais têm me ocupado todo o tempo.
    Grande abraço. Adorei a música.

  12. Amapola/
    Belíssima Amapola/
    Yo quiero tu amor somente para mi…
    Nora, queridíssima, você está bem,não é, querida?
    que alegria iluminadora!
    Amei seu comentário lá no sub rosa.
    Eu adoro o Pacino, mas temos que nos contentar agora com os papéis chamados *característicos*, como o de Angels of America ou os também maravilhosos shakespeareanos, mas caracterizados.
    O próprio De Niro não envelheceu *bem* digamos, como Eastwood e o sobrerbo Paul Newman.
    Estive procurando umas músicas populares lindas para você, até mesmo o Tiro o Alvaro, mas não achei as melhores *renditions*.
    De todo modo estou aguardando a trilha sonora (la banda) de Volver.
    Imagine, querida (olhe o bate-papo), que na banda sonora de Mala Educación, me tomei de amaores por Sarita Montiel cantando Maniqui, maniqui.
    Se me der na real veneta colocarei para nós duas. Basta ordenar.
    Não consegui ouvir Sarita, nunca tive um disco dela. Certa vez cheguei em Madrid e ela estava se apresentando, Não pude ir.
    Mas ela ainda é uma dama como Angela Maria (pra quem torcemos o nariz. mas Elis e todas as divas adoravam)o é aqui também.
    Muchos besos, carina.
    Meg

  13. Nora,
    Vc foi muito previlegiada de ter esses visitantes ilustres em sua casa.
    Se acontecesse comigo, tambem ficaria emocionada.
    Bjos,

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