Mais um Toque de Beleza …

Esta é uma época em que fico menos disposta a passar meu tempo diante do computador. A primavera está explodindo por toda parte. As amapolas estão invadindo todos os campos e dividindo protagonismo com centenas de flores silvestres de cores e formas distintas.
Claro, ela é rainha. Sua singela forma é plenamente compensada pela cor rubro-extravagante. Ela é como um splash vermelho no meio do verde, amarelo e branco, rosa, violeta e azul das outras florzinhas lindas dos meus caminhos.
Ela é, em parte, a responsável pela minha ausência do blog. Venho aqui meio de passagem, leio uma coisinha ou outra e um cheiro delicioso de mato vem pela janela e me chama… e eu vou. Vivo lá fora, caminhando, plantando, aguando, passeando…
Dia desses, ele e eu resolvemos sair por aí, quase sem destino certo. Digo quase porque tínhamos apenas uma idéia em mente: tentar seguir umas das rotas dos Pueblos Negros de Guadalajara. Esses pequenos lugarejos ficam na serra norte-ocidental da província e são mais antigos que a presença romana na Península Ibérica.
A arquitetura popular desses povoados é única na Espanha, pois consiste em conglomerados de casas, currais e armazéns de cereais totalmente construídos de ardósia, com sua coloração escura, cinza-azulada ou negra, abundante nessas serras.
Resolvemos o passeio em cima da hora e não tínhamos muita informação, mas resolvemos arriscar, de qualquer forma.

Montamos um kit-excursão-sem-destino: uma mini geladeira com cerveja, água e coca cola, alguns sanduiches de pão artesanal com morcilla e chorizo, biscoitos, manta, canivete mil-e-uma-utilidades e um mapa.
Ah!… e música boa e variada para encantar qualquer estrada.
Entramos e saímos de muitos pequenos povoados ao longo da serra. E NADA DE CASINHAS NEGRAS!
No início do passeio não vi nada distinto aos outros minúsculos pueblos quase despovoados de Castilla La Mancha. Exceto por suas imponentes igrejas românicas, o resto das construções não chamavam qualquer atenção e as casas não apresentavam nenhum indício das famosas e populares pedras-ardósia.
Em Hita ( fotos acima) nos encontramos com la Puerta de los Caballos e pedaços de uma muralha medieval, além de um singelo relógio solar em plena praça.
Também havia uma grande plaza de toros, só que ao contrário do que se vê hoje, todas redondas, essa era retangular, o que indica que a cidade mantém a tradição das Plazas de Justas medievais, onde se celebravam os torneios e jogos durante a idade média.
Ao ver a grande porta da cidade, percebe-se a intenção de recuperar lugares históricos do povoado para atrair também os turistas que trafegam por aquelas pequenas e estreitas estradas.
Em Cogolludo ( que nome! ) nos encontramos com um palácio renacentista do século XV, dos Duques de Medinacelli, que – dizem – foi o primeiro desse estilo a ser construído em Espanha e por isso é precursor das mudanças arquitetônicas dos castelos medievais.
Tentamos buscar informações na oficina de turismo que estava ao lado da grande praça diante do palácio, mas estava fechada. Hora de la siesta.
Tá. Em um feriado internacional, a oficina de turismo fecha para “la siesta”.
Estamos na Espanha, lembram?
Tudo bem. Subimos as estreitas ruas em direção à Igreja de Santa Maria, construída no século XVI. Também estava fechada. Bingo!
Eu já estava ficando com fome e resolvemos parar perto de um rio e fazer o lanche programado.

Isso sim… relaxadamente. Sem pressa e sem agonia.
Afinal saímos para passear, investigar… e nada de estresse só porque as coisas não estavam saindo como a gente imaginava.
E depois, com olhos-de-mar-azul ao lado, qualquer programa, por mais simples que seja, fica gostoso.
Sabe quando a gente está em um lugar e pensa: ” que bom ter um amor de verdade com quem compartilhar as coisas mais simples” e olha para o lado e não é apenas um sonho, um desejo… É justamente isso que a gente tem?! De verdade.
Que privilégio da vida!
Adoro estar com ele e trocar impressões sobre os assuntos do jornal, a música que está tocando ou o livro que cada um está lendo. Adoro fazer planos mirabolantes com um dinheiro imaginário que ganharemos – um dia – na loteria. Adoro estar fazendo planos para um casamento, com viagem de lua de mel incluída, que eu sequer imaginei ou desejei nos últimos 20 anos de mulher separada. Mas agora estou gostando da ideia.
Ainda não temos a data, mas qualquer dia destes os papéis ficam prontos e pimba! Casaremos. He he he…
O melhor de tudo: continuo perdidamente enamorada pelo sujeito do sorriso tarja-preta que vi naquela bendita festa há 11 anos atrás.
Qualquer dia conto mais desta história…
Bueno…voltamos ao mapa e escolhemos ir a Valverde de los Arroyos. Não sabíamos o que nos esperava, mas a esta altura não nos importava muito.

A medida que subíamos mais a serra, a paisagem ficava ainda mais bonita, a estrada mais estreita e antiga e estávamos tão relaxados que resolvemos aproveitar o que encontrássemos. Esta seria apenas uma primeira excursão para arrecadar informações.

 

 

Foi uma boa escolha. Valverde de los Arroyos é um pueblo encantador. Muito procurado pelos turistas para ser um ponto de apoio das excursões a pé pelas muitas trilhas, cascatas e florestas de pinhos que a circundam.
Este povoado é um dos mais conhecidos da região e muitas casas já foram reformadas e transformadas em pequenos hotéis de turismo ecológico ou restaurantes. Outras foram transformadas em chalés de final de semana das famílias de Madrid ou Guadalajara, pois no inverno há pistas para esquiar e no verão pode-se seguir muitas trilhas de montanhismo. Essas oportunidades levam muitos visitantes , tanto espanhóis como estrangeiros, ao lugar.
É um dos Pueblos Dorados da serra e pertenceu nos século XIII ao Señorío de Galve.
A diferença é que suas casas tem os telhados cobertos pela ardósia negra, mas suas paredes são construídas com pedras de vários tons de marrom que, sob a luz do sol, refletem tons dourados.
A arquitetura das antigas construções é mais ou menos a mesma, sem janelas e apenas com pequenos orifícios para entrada de luz e ar, insuficientes para deixar entrar o frio dos largos e duros invernos da região, os currais e armazéns adosados às casas, demonstrando a forma simples de viver dos antigos pastores de cabras e ovelhas, cujas famílias dividiam com os animais o mesmo espaço físico, separados apenas por baixos muros de pedra.
Os quartos eram cubículos minúsculos e escuros. O lugar nobre dessas casas era a cozinha onde reinava uma enorme lareira de pedra em constante utilização. Diante dela a vida da casa acontecia.

Muitas delas estão em ruínas, mas é possível encontrar ainda casas dessas em plena restauração.
Algumas prefeituras estão incentivando com ajuda financeira a que os moradores mantenham a arquitetura original de suas casas, pelo menos na fachada, evitando desvirtuar o conjunto arquitetônico da cidade.
Essa estrutura arquitetônica popular não é muito diferente das casas de taipa que ainda podemos ver no interior de Pernambuco, onde chiqueiro, galinheiro e curral também são peças coladas às pequenas habitações de seus donos. Só muda mesmo o material utilizado em sua construção. Enquanto as nossas são de taipa e madeira, as daqui são de madeira e pedra.
Ainda não desisti de visitar os Pueblos Negros. Queremos explorar mais esta região e já compramos um guia sobre as várias rotas onde encontrá-los. Assim que pudermos vamos montar outro kit-excursão: tortilla de patatas, jamon serrano, vinho tinto, música boa, câmara fotográfica…e a vontade de passar bem.
Fico devendo umas fotos. Demoro mas cumpro!

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Categorias: Cicatrizes da Mirada | Tags: , , , | 15 Comentários

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15 opiniões sobre “Mais um Toque de Beleza …

  1. Nora,
    acabei de “fazer” esse passeio com vocês. Obrigada, Raquel

  2. lingua portuguesa
    ooiieee..muito legal seu blog
    quando der eu volto

  3. Nora, será que esses pueblos negros lembram o Piódão português? Lá as casas são negras, pois são construídas com pedras de xisto.
    Fico feliz por você estar com “ele” e por seus passeios. Mais ainda por ver como os valoriza, coisa que muita gente não sabe fazer. Onde a vida a levar, essa lembrança será um tesouro que você vai guardar para sempre.
    Grande beijo. Apareça na Estante!
    Ana

  4. Que coisa linda. Me convida na próxima? Kit-excursão com cerveja e dirigindo? Mas que incorreto… Hahahaha
    Beijos.

  5. Mércia

    Muitas vezes não deixo comentários, mas tenha uma certeza todos os dias dou uma olhadinha se tem blog novo, sinto-me viajando pela Espanha. Mil beijos

  6. nora borges

    Milton, cerveja dá pra tomar duas, sem problema! Mas vc está convidado.
    Beijos na Cláudia!

  7. Que fotos maravilhosas, Norinha, você é uma sortuda, mesmo, por poder aproveitar isso tudo, num passeio de carro!
    Beijão!

  8. “Quando o inverno chegar…eu quero estar junto a ti.
    Eu…é primavera!
    Nora Borges você escreve com perfume.
    beijinho dcoemaior

  9. Nossa que delícia. Me trouxe boas memórias. Vou começar a ler os antigos. Maravilhoso esse mundo de blogs! Beijos

  10. Socorro

    Que bom te ver de volta. Com suas flores, suas músicas e seu jeito encantador de compartilhar a tua vida.Sempre faço um pouco dessas viagens contigo.
    Gente como você dá mais colorido ao planeta. Como as flores dessa primavera, faz o mundo parecer melhor.
    E merece muuuuuuuuuuuito ser feliz.
    Desse estranho e chuvoso outono nordestino, um abraço desta tua “irmã de alma”

  11. Oi Nora, você é mesmo sortuda por morar num lugar tão lindo!
    Tambem tenho sorte de re encontrar tantos amigos na internet, estava mesmo com saudades.
    Como você pode ver, voltei!
    Beijo grande, boa primavera!

  12. Nora, aqui nós também adoramos fazer esses passeios de fim de semana sem um roteiro definido, mas só com uma idéia vaga do que queremos ver. Gostamos de explorar estradas pequenas e rurais, que sempre surpreendem com paisagens bonitas, casario antigo de fazendas ou animais selvagens.
    Amei a parte que você fala de se dar conta de que realizou um sonho com o seu amor. É mesmo um privilégio poder viver isso! 🙂
    bjs

  13. Amapola/
    Belíssima Amapola/
    Yo quiero tu amor somente para mi…
    Nora, queridíssima, você está bem,não é, querida?
    que alegria iluminadora!
    Amei seu comentário lá no sub rosa.
    Eu adoro o Pacino, mas temos que nos contentar agora com os papéis chamados *característicos*, como o de Angels of America ou os também maravilhosos shakespeareanos, mas caracterizados.
    O próprio De Niro não envelheceu *bem* digamos, como Eastwood e o sobrerbo Paul Newman.
    Estive procurando umas músicas populares lindas para você, até mesmo o Tiro o Alvaro, mas não achei as melhores *renditions*.
    De todo modo estou aguardando a trilha sonora (la banda) de Volver.
    Imagine, querida (olhe o bate-papo), que na banda sonora de Mala Educación, me tomei de amaores por Sarita Montiel cantando Maniqui, maniqui.
    Se me der na real veneta colocarei para nós duas. Basta ordenar.
    Não consegui ouvir Sarita, nunca tive um disco dela. Certa vez cheguei em Madrid e ela estava se apresentando, Não pude ir.
    Mas ela ainda é uma dama como Angela Maria e Dalva (para quem torcemos o nariz, mas Elis e todas as divas adoravam)o é aqui também.
    Muchos besos, carina.
    Meg
    ****
    Ah, Dom Pedro ganhou o prêmio “Principe de Asturias, não é?
    Viva Dom Pedrito!, “homem de la mancha”

  14. Faz tempo que nao olho meu blog, Nora, mas vim visitar o seu, e li tudo até aqui onde parei na última visita. Como sempre, uma delícia, envolvente, sedutor. Coisa de gente que sabe viver. Parabéns. Seu blog vai aumentar o turismo brasileiro na Espanha.:)
    Bjs
    M

  15. Você e suas queridas amapolas 🙂
    Interessantes as rústicas contruções.
    Eu casei em dezembro, com a mulher com quem vivo há vinte anos.

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