E Haja Saudade…

De vez em quando o Brasil se esquece – ou finge que esquece – que anda enfermo, ferido, magoado, perdido de sonhos e esperanças e me envia ventos perfumados, brisas sonoras, beijos com gosto de caldo de cana gelado.

Amigos me presenteiam com seus poemas, romances, músicas, notícias sem siglas, sem sangue, sem vergonhas e humilhações… só saudades em cartas escritas a mão, como antigamente, com direito a envelope e selo carimbado…
É mel direto no coração!
Eu deixo que me mimem.
As dores e medos já vem sozinhos, em largas golfadas de enxofre expelidas pelos noticiários, internet, jornais e televisão. Delas, nem aqui no meu monte de coelhos e raposas, eu escapo.
Desde que morri e renasci, entretanto, deixo que – apesar de tudo, seja o que for esse tudo – me mimem.

Pois sim…
Desta vez a dose de mel foi grande demais. Uma amiga brasileira, que vive há muitos anos em Madrid e que eu só descobri por acaso no ano passado, deu-nos convites para a estréia de um filme. “Vinicius de Moraes: Quem Pagará o Enterro e as Flores Se Eu Me Morrer de Amores”, de Miguel Faria Jr.

Fui.
Borboletinhas fazendo “fruf-fruf” na boca do estômago…

Sentada numa das poltronas do clássico Cine Avenida, na Gran Via, meu coração derretido cantava em silêncio cada canção de Vinícius, meus olhos úmidos comiam cada paisagem do Rio de Janeiro, meus ouvidos guardavam cada depoimento de seus amigos, parceiros, parentes, – ai, Chico…meus sais! Vem sorrir lindo assim aqui, vem! – minha alma reconhecia cada poema declamado.
A cada lembrança, uma saudade dos tempos… deles e meus.
Vinícius foi meu primeiro poeta. Cresci com seus livros agarrados no peito e sabia muitos dos seus poemas de memória. Cantei todas as suas músicas, por toda a minha vida…
Amei para sempre, antes de saber que o para sempre, sempre acaba. Mas aprendi também que o amor vivido, se foi amor, não morre, só adormece. A gente guarda ele ali, num cantinho da memória. Ele desencarna… mas não desaparece. Amores vividos jamais a gente esquece. E isso deve ser a eternidade…
Em um 9 de julho chorei sua morte como a de um amigo querido. Depois, passei um tempo sem poder ouvi-lo ou ler a sua obra. Dava um nó no meio do estômago e a melancolia enchia minha alma.
Aos poucos a dor foi dando lugar a uma linda e gostosa nostalgia… até que nunca mais se separou delas.
Hoje, quando leio ou escuto Vinícius, sinto mais do que um simples admiração pela sua obra. Sua poesia e sua música estão irremediavelmente entramadas com minha vida, desde a infância.

Elas provocam-me sentimentos mais íntimos, como se soubessem e dissessem muitas coisas de mim.
Faz-me sentir esse leve rufar de asas de mariposa no coração, respirar um perfume de adolescência que se espalha pelo ar, junto com vagos traços de rostos de antigos namorados, nomes e caras de amigos perdidos pelo tempo, casas, árvores, praias, assobios de meu pai e seu jeito de lorde… mares mansos e verdes… os sorrisos lindos da minha mãe e seus ares de menina e princesa!
Um tudo de cor e alegria invade minha alma e minha cara vira “tela de cinema”.
Se algum-alguém tivesse a capacidade ou o dom para assistir meu filme, veria que belas imagens…

Mas não… parece que ele passa só pelo lado de dentro.
É por isso que eu venho aqui e escrevo.
………………………………….

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal…
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto…
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo…
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?

Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada…
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

Vinícius de Moraes
Rio, 1950
……………………………………………
Ninguém, meu velho e querido amigo.
Mas prometo não deixar-lhe morrer…

Ensinarei suas músicas aos meus filhos e netos, escutaremos juntos pelas madrugadas, presentearei seus livros aos amigos, e com eles rememorarei seus poemas em noites de grandes luas.
Estreitarei você no peito até o infinito.

…eternamente sua enamorada.

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Categorias: Baú de Cultura, Poesia & BelosTextos | Tags: , , | 19 Comentários

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19 opiniões sobre “E Haja Saudade…

  1. adelaide

    Nora querida, contente de ser a primeira a comentar essa revolução viniciana, converso a sós com você sobre este homem único, incrível, que soube fazer tanta gente feliz e conseguiu a proeza de “trair” e ser amigo de todas. Provou que o amor não é só isso que se vê, é muito mais, como diria Paulinho sobre a vida. Também saí do cinema com a cara molhada de chorar. Quanto à nossa terra, só mesmo rezando, quem sabe. Beijo carioca pra você.

  2. Nora,
    Lindo texto, o seu. Nao sei quando esse filme passara por aqui. Conheci hoje o Pepon, uma gracinha de menino…Obrigada por tudo, ja to escutando o Nat sem parar, ainda nem tive tempo de mudar de disco….depois agradeco por email….
    Beijos menina,

  3. Poxa Nora, que coisa boa. Eu qquase vi esse filme uma vez, mas fui ver A marcha dos pingüins que é um documentário poético, belíssimo, que creio que vc ia gostar muito…. Um bjo

  4. Ahhhhhh! Comprei o DVD a semana passada e assisti duas vezes. Pretendo ver muitas outras.
    Fiquei emocionada, nostalgica, triste e feliz. Tudo ao mesmo tempo, um mix de Vinícius dentro de mim…
    Beijo grande

  5. Nora, endosso todas as palavras do seu post. Vinícius foi e para sempre será imprescindível. Beijocas

  6. Oi, Nora!
    Que coisa boa você ter tido a chance de assistir ao filme! É lindo! Eu já tenho em DVD. Não poderia deixar de tê-lo. Foi meu primeiro contato com a poesia, o poema, o soneto… Antologia do Vinícius na biblioteca da minha mãe, eu vivia com ele pra lá e pra cá… Teu post está lindo. Poema puro!
    Grande beijo!

  7. Lindo post adorei, vou voltar p ler com calma. bj laura

  8. Maravilha ler teu texto e o poema ao som de Chega de Saudade. Teu mel (e o dele) me envolveram nesta manhã fria.
    Beijo.

  9. Seu post me emocionou Nora. Tenho certeza que vc terá muito o que falar e ensinar aos seus filhos e netos, a respeito de Vinicius, assim como de todas as preciosidades brasileiras.
    Beijo enorme

  10. Nora, voltarei para reler e comentar, agora, deixo a indicação solicitada por você.
    O autor é Mia Couto, moçambicano, cujos livros, na Europa, são distribuídos pela Editorial Caminho, de Portugal.
    Sugiro dois romances: Terra Sonâmbula e Estórias Abensonhadas; e dois livros de contos: O fio das missangas e Na berma de nenhuma estrada.

  11. Eu não consegui ver este filme no cinema, mas meu marido ganhou-o em dvd, vamos assistir este final de semana.

  12. Queridos, o filme é imperdível !
    Os que ainda não o viram, procurem uma forma de vê-lo.
    Muito beijos e obrigada pelas visitas e comentários.

  13. Manoel, obrigada. Já anotei aqui!
    Beijos

  14. Nora,
    seria uma proposta muito indecente se eu lhe convidasse para ser entrevistada no Diario Brasileño Podcast, o primeiro podcast brasileiro en español? É, um programa experimental que começarei a produzir. O meu blog está em migração, tá indo pra casa nova do diariobrasileno.com. A entrevista seria feita por Skype (dá pra baixar em http://www.skype.com/download.html, caso vc n tenha).
    Se topar a brincadeira, me mande um email, que aí combinaremos os detalhes (Um dos temas principais que eu quero falar é sobre a película do Almodovar).
    Bjos

  15. Adoro Vinicius. Ele é eterno igual Mozart.
    Beijos,
    ME

  16. Passando aqui para conhecer seu blog. E tbm para falar do meu, passe lá e descubra os encantos culturais da minha cidade. Se gostas de cultura de conhecer novos sons, peças teatrais, lugares encantadores , lá é o lugar certo para isso.
    Um abraço e boa semana.
    http://www.imagensesons.blogspot.com

  17. pollyana

    Tia, sinto enormes saudades de você e de loly… sempre leio seu blog pra tentar ter ao menos uma idéia se você está bem… beijo muito grande, e um abraço bem demorado. Nana.

  18. parabéns pelo blog…muito bom

  19. Pelo lirismo, o Poetinha deveria ser o primeiro poeta de todos nós, sobretudo se o primeiro contato se der na adolescência.

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