Arquivo do mês: agosto 2006

Elas descobriram…(Cap 15 )


Quando olhos-de-mar-azul perguntou-me se eu “casaria com ele” eu ri, meio assustada. Que pergunta!
Mas com ele eu faria qualquer loucura, inclusive casar-me! Disse sim com um sorriso que não cabia no rosto. Ele recostou-se, sorriu satisfeito e não disse mais nada.
Como assim? E o pedido? Perguntar se eu me “casaria” com ele era apenas investigar uma possibilidade. Assim não vale!
Encostei mais perto e perguntei:
– E você, casaria comigo?
– Por supuesto que si!
– De verdade? Assim, no papel?
Claro. En el papel. No resto já estamos cassados. (Eu adoro quando ele fala Portunhol com um sotaque gostosíssimo!)
Mas no fundo tremi um pouco. Esse negócio de casar sempre me assustou. Nunca casei no papel. Meu casamento anterior foi só no religioso. Havia um consenso entre nós para não perdermos uns benefícios econômicos que eu tinha, herdados do Lorde. E assim foi. Depois, para separar-nos, foi muito fácil. Ele ficou com tudo, apesar de termos dividido todas as despesas, sempre. E eu saí com a minha filha, meus livros e discos… minhas duas trêmulas e desconhecidas pernas e um desejo incomensurável de ser feliz.
Êi! Mas agora era diferente. Nada de medos! Eu nunca fui tão feliz em toda a minha vida. Os danados dos papéis podiam ajudar-me a ser gente fora de meu país! Era, inclusive, a forma mais simples de consegui-lo. E para ele também haveria um peso positivo no âmbito profissional, embora o mais importante fosse casar-nos apaixonados a essa altura da vida. Era muito mais do que qualquer sonho romântico que tivéssemos alimentado antes de vivermos juntos. Voltei ao assunto.

– Bueno,e o pedido? Perguntei.
– Hum? Que pedido?
– O pedido! Quero que me peça em casamento. Falei sorrindo.
– Hahahahahahhahaha! A gargalhada dele foi linda.
– Era un pedido! Afirmou, com cara de surprêsa.
– Não. Era só uma pergunta. Não valeu. Insisti mais ou menos insegura.( Porque será nos incutiram por toda a vida que este momento tem que ter um traço renascentista?)
Mas eu sou renacentista! Que é que tem? Algum problema? E Ainda bem que ele não veio com aquela história de “eu estava só brincando.”
Levaria um tufo no olho. Juro!
– Quieres casarte conmigo? Perguntou sorridente. (Eu também adoro quando fala em Errpañol! )
– Vou pensar. Respondi. Hahahahahhahaha! Era minha vez de gargalhar! Que delícia! Mas não exagerei na brincadeira. Respondi dois segundos mais tarde…
– Pois… já pensei. SIM. SIM…Seria lindo poder casar com você.Quando? ( Que coragem! )


Era quase inverno. Haviam coisas a fazer antes. Ele disse que seria melhor esperar a próxima primavera. Daria tempo de enfrentar-nos à burocracia e seria uma bela época. Clima ameno, flores por toda parte… Concordei.
Em Janeiro comecei a mexer com os meus documentos, pois como eles tem um prazo de validade muito reduzido não se pode antecipar demasiado os trâmites. Pedi a um dos meus irmãos que providenciasse uma certidão de nascimento original e reconhecida. Simples. Até dei para ele o número do livro, da página, etc… etc…
Depois era necessário mandar para o Ministério de Relações Exteriores, em Brasília, para uma validação, e finalmente enviar para o Consulado Espanhol, em Salvador, para um reconhecimento da validade.( Recife não tem Consulado da Espanha, só uma Representação Consular.) De volta às suas mãos, que enviasse-me por Sedex. Era preciso cuidar das datas. Quando isso chegasse aqui já estaríamos em Março…quase Primavera.
Depois de alguns dias sem dar notícias meu irmão disse-me que precisava de uma procuração. Liguei para a Embaixada do Brasil em Madrid, onde trabalha uma amiga e ela disse que não era necessário procuração alguma e que alguns despachantes pedem até por telefone!
Claro, ele nem tinha ido no cartório ainda quando perguntei pelo andamento do documento. Insisti que ele podia retirar a certidão sem a procuração e ele disse que iria “tentar outra vez”. Dias depois ele me mandou um e-mail afirmando que o número do livro estava errado pois haviam encontrado outro nome no lugar do meu.
Como assim?
Confirmei tudo o que havia dito, escaneando a certidão que tenho comigo. Esperei mais uns dias, nem lembro quantos. Então, ele me escreveu que o cartório havia sofrido um incêndio e alguns registros estavam confusos, mas que havia conseguido retirar a minha certidão.
Uff! Um passo tão pequenino e demorou mais de um mês para ser dado.


Aí… foi chegando o Carnaval e ele disse que agora só podia mandar para Brasília depois desta época… que, “sabe como é, está tudo parado…” Alertei para a data e o prazo de caducidade. Tá.
Fiquei sem resposta até muito depois do Carnaval.
Em Março ele disse que ia mandar para Brasília, mas estava com muitos problemas no trabalho e sempre esquecia. Enquanto isso, nós aqui decidimos adiar a época do casamento para o verão. Os papéis de Pepe também estavam atrasados. Tudo bem. Relaxei. Seria mais uma vez num verão! Como sempre na nossa história!
Em Abril ainda não tinha qualquer notícia e aquele pedaço de papel não valia mais nada. Era melhor começar de novo. Meu irmão desapareceu. Escafedeu-se.
Em Maio ele retirou outro documento ( ou teria sido o primeiro de verdade?) e depois de remanchar mais um tempo, enviou-o para Brasília. Pelo menos foi o que me disse.
Em Junho recebi a certidão em Madrid e fui imediatamente ao Ministério de Relaçãos Exteriores daqui para validá-lo, antes de enviá-lo para uma tradução juramentada.( Essa é outra exigência do Cartório Civil. Tudo tem que ser traduzido por profissionais autorizados. Caríssimo! )
Bueno, pelo menos ali me atenderam muito bem, MAS o documento não valia nada porque faltava o selo do Consulado da Espanha.
Como assiiiim? Voltei para casa decepcionada. E com raiva também! Muuuuita raiva!
Decidi pedir ajuda à uma amiga de Recife e ela concordou em ajudar-me. Mandei o documento por Sedex para que ela agilizasse o selo do Consulado. Aí ela me mandou um e-mail dizendo que faltava também o selo de Brasília.
– Heim??? ( Leia isso muito alto!)


Sim, ela disse que não havia selo nem do Ministério, em Brasília, nem do Consulado, em Salvador e – por causa da data – era melhor pedir outra certidão, pois essa já estaria vencida quando voltasse para mim.
Oh! As bruxas… elas descobriram! Eu sabia que deveria ter dedinhos delas nesta confusão toda.
Começar de novo? No final do verão???
Liguei para o outro irmão, pois nem queria falar com o primeiro para não triturá-lo com minha raiva. E este, mas do que prestativo, disse que “sim, claro que sim… não se preocupe!” Nem contei para ele o que já havia acontecido. Eu queria apenas que ele tirasse a certidão nova no cartório e depois entregasse-a a minha amiga. O resto era melhor deixar com ela. “Sim.. sim… claro”. Concordou imediatamente. Mas quando eu perguntei se ele podia fazer isso no dia seguinte ele se assustou.
– Amanhããã?
– Sim, amanhã.
– Amanhã não vai dar. É o jogo!
– Que jogo?
– O jogo do Brasil, minha filha!
– E a que horas vai ser o jogo? Perguntei engolindo a raiva. Tenho cada parente!
– Às 4 da tarde. Mas sabe como é dia de jogo, né? Está tudo fechado!
– E cartório também?
– Também.
– E você não pode ir de manhã cedo?
Ele esfriou a voz e respondeu muito formalmente.
– Não se preocupe que eu vou resolver o SEU problema, tá! Você está ME pedindo um favor, não é? Pois vou fazer assim que EU puder.
Que impotência! Que vontade de gritar! Xingar a mãe dele! ( Mas ela era a minha também!) Não quero mais brincar de “irmãzinha querida, estou com saudade! “
Ele nem sequer estava trabalhando para poder botar a culpa no trabalho e na falta de tempo. Copa do Mundo. Jogo do Brasil. Tá.
QUATRO DIAS DEPOIS ele entregou o documento a minha amiga.


Enquanto isso eu já havia contactado com a BethS, de Brasília, minha amiga virtual, que nunca me viu mais gorda ( nem mais magra ) para receber o documento em sua casa e ir pessoalmente ao Ministério. Seria muito mais rápido do que resolver pelos caminhos do correio oficial. E ela, que nem é minha irmã, disse que faria tudo sem problemas, no mesmo dia que recebesse o envelope. E ainda era Copa do Mundo!
Trocamos e-mails entre as três, mas uma não recebia as mensagens das outras… e sem explicação plausível.Simplesmente não recebíamos todas as mensagens trocadas…
Finalmente, Beth recebeu um envelope selado que precisava ser aberto diante de um tabelião, pois senão perderia o valor, além da minha certidão e me perguntou o que era aquilo. Eu perguntei à minha amiga de Recife, que mandou a resposta direto para Beth e eu fiquei sem saber a resposta até hoje. Também nem perguntei mais… Ela conseguiu selar a certidão e devolveu para Recife em um tempo record! Maravilha!
Sem palavras para agradecer tamanha gentileza e disponibilidade da Beth, que teve que ir duas vezes ao ministério! Muchíssimas gracias, querida!
Depois disso, minha amiga de Recife resolveu a parte do Consulado, em Salvador, e o documento partiu para a Espanha bonitinho, como devia ser. E, detalhe da minha amiga, já traduzido. Outra maravilha!
Sem problemas no MRE espanhol, em 5 minutos estava validado. Agora só faltava ir ao Consulado do Brasil, em Madrid e recorrer a carterinha de inscrição consular, já solicitada desde Junho.
Aí sim, as atendentes pareciam minhas irmãs. Atendimento VIP, de primeira categoria familiar!


Depois de um tempo razoável numa fila cheia de brasileiros e brasileiras e crianças de braço e carrinhos de bebês, a pessoa que me atendeu do outro lado do grosso cristal, com três ou quatro furos minúsculos cinco centímetros mais altos que a altura de sua boca, o que fez com que ela tivesse que esticar bem o pescoço e gritasse bem alto que era para que eu a ouvisse BEM e toda a fila também e quem sabe mais alguém que passasse do outro lado da rua… consegui apoderar-me da carteirinha.
Saí com aquilo na mão, desconfiada. Isso não tem cara de valer nada para casar-me. Fui no carro e peguei o papel de instruções do Cartório Civil. Voltei para o Consulado e entrei de novo na fila. Outra pessoa atendeu-me. Esta um tanto mais simpática e discreta que a anterior. Examinou o papel e confirmou minhas suspeitas. Não era aquilo. Olhou com cara de dúvida para o relógio e disse: ” É, ainda dá tempo de você ir ali na esquina pagar essas duas taxas e voltar. Corra viu!” Conselho de quem sabe o que está dizendo!
Corri. Saquei dinheiro. Paguei as taxas. Voltei. Entrei de novo na fila, já quase extinta. Uma terceira pessoa atendeu-me. Não. Atender tem outro conceito.68.gif Ela gritou pelo outro lado do vidro que eu não tinha ficha, que ela não atendia mais, que já terminou o expediente. Volte outro dia, viu?! Nem me deu tempo de explicar nada.
Mas eu fiquei ali, olhando para ela. Fiz cara de “Não estou entendendo nada! O que? É comigo?” Quando ela parou de berrar, disse-lhe numa voz tranquila e baixa ( aaaaanos de treinamento!) que a sua companheira de trabalho havia permitido que eu voltasse.
– “Claro que não poderia ter sido você.” “Você nunca o faria, não é mesmo?”Continuei, sem resistir à vontade de alfinetá-la.
A companheira da azeda e mal educada atendente pegou meu comprovante de pagamento e… mágica! trocou por outro comprovante. Disse-me que voltasse DEZ DIAS DEPOIS para buscar os dois papéis que eu precisava: Um certificado de inscrição consular, daqueles tipo modelo-único, que só muda o nome da gente. E outro que explica a não necessidade de proclamas no Brasil. Só isso. DEZ DIAS para emitir duas bobagens dessas.
Bueno, menos dez dias no prazo de validade da minha certidão de nascimento. Toda a rede de amigas disponíveis no Brasil jogada fora por causa da lentidão e falta de eficiência do Consulado do Brasil de Madrid.
O dia foi ontem. Fui lá mais uma vez. Três ou quatro pessoas diante do guiché de ” entrega de documentos”. Que bom!

…Era um engano. Desta vez me haviam preparado um atendimento muito pior que o anterior pois não bastava estar em pé atrás do último a chegar. Era tudo muito mais complicado!
Uma senhora, segurança do Consulado e responsável pela organização no atendimento, que não fala Português e age como se todos nós fôssemos retardados mentais, avisou-me que eu não ficasse na fila e sim que perguntasse na saleta de espera “quem é o último?”. Assim. Como numa feira. Como se eu quisesse comprar tomates na barraquinha do mercado de Alcalá.
“Quem era o último?” Agora era eu. Haviam umas dez pessoas na minha frente. E nos próximos 50 minutos ninguém foi chamado a subir as escadas para o atendimento. Uma hora e quinze minutos depois, as três ou quatro pessoas que estavam lá em cima ainda não haviam saído. O que será que eles estavam buscando? Aquela não era uma fila só para “Entrega de Documentos”? Era. Uma hora e meia depois eu estava em pé, segurando um bebê nos braços, enquanto sua mãe preenchia uma solicitação para a Certidão de Nascimento. Tão pequenininho e já sofrendo para ser alguém.
Duas pessoas na minha frente voltaram sem os documentos que haviam solicitado. A mãe do meu bebezinho também voltou para casa sem resolver seu problema. Faltavam-lhe outros papéis.
Todos foram tratados com desdém como se fossem um grande estorvo.
É verdade que o atendimento apressou bastante nos últimos minutos. Agora os funcionários já tinham pressa em fechar. Não tinham mais tempo para dar explicações detalhadas, mesmo que incompletas. Estavam cansados de estar ali, em pé, atendendo gente que perdeu passaporte, foi roubado, quer viajar com crianças ou simplesmente casar. Que voltem mais vezes. Muitas vezes. Que mais dá?!


E eu pensava que Consulado Brasileiro existia fudamentalmente para dar apoio e suporte aos brasileiros. Me enganei. Nós incomodamos muito. Eles detestam ter que receber gente com problemas ou necessidades que só eles podem resolver. Eles odeiam ter que dar-nos informações corretas e completas. Negam-se terminantemente! E nem se animem a tentar obter alguma pelo telefone. Eles NUNCA atendem. Somos o terror dos funcionários do Consulado Brasileiro em Madrid.
E eles são nosso karma.
Enfim, consegui meus papéis. Voltei para casa cansada, faminta e irritada, mas com eles na mão.
E hoje era o dia D. Acordei com cara de noiva. Juro! Espreguicei contente da vida, escolhi uma roupa bonita, fiz o café cantando… Hahahahahaha!
Com a pasta de documentos debaixo do braço, duas testemunhas documentadas para afirmarem que me conhecem (e que sou solteira) e de mão dadas com olhos-de-mar-azul, desci sorridente e feliz o morro de Santorcaz para Alcalá de Henares.
Entrei meio nervosa no Registro Civil, um prédio antigo bem diante da Plaza de Cervantes, para dar entrada nos trâmites finais.
Achei bonito estar diante da praça, mas o ambiente da sala era um tanto desorganizado. E bem diante da porta por onde eu deveria entrar havia um cartaz branco com letras pretas que dizia: “O Registro Civil esta cerrado hasta el dia 7 de Septiembre.”


Não podia ser! Não acreditei!
Ainda me aproximei de um grupo de pessoas que tinham papéis numerados nas mãos, mas eles confirmaram o absurdo. Estavam ali por outros motivos.
O Registro Civil está de “vacaciones”. Só abre dia 11 de Setembro. Porque o cartaz dizia dia sete mas estava errado. Nos informaram que só vai funcionar mesmo no dia ONZE.
Fatídica data, não? E ainda por cima, aniversário de um dos meus irmãos…
Alguma dúvida de que foram elas????? As Bruxas?
Eu não tenho nenhuma!
Como um Registro Civil de uma cidade com mais de duzentos mil habitantes fecha por férias de verão? Eles trabalham com documentos importantes e que TEM DATA DE VALIDADE CURTAS!!!! Como podem fechar um mês????
Fecharam. Eles fecharam! É inacreditável! E inadmissível!
Agora, aqui para nós, desde o começo desta história, os absurdos se sucedem, um após o outro. Cada vez que estamos movendo-nos para estarmos mais juntos, as bruxas experimentam novas poções mágicas…
Primeiro a amiga mentirosa, depois a festa de Carnaval…os anos de distância, as cartas espaçadas, a bomba d´água que explode, o assalto, a delegacia, o avião em Cabo Verde, as esperas eternas… a maleta desaparecida, o portão de desembarque equivocado,os sapatos vermelhos… até botas que se dissolviam pelos corredores do aeroporto…
Quantos absurdos! Quantas horas de angústia!
Podem rir. Eu também rio. Depois de tudo eu sempre acabo dando risada. Coisas de quem quer e sabe ser feliz.
Porque eu já disse a elas mais de mil vezes: ” Não vai adiantar. Desse amor eu não desisto!”
E também tenho minhas fadas!

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Era um Sábado…

Eu já contei essa história antes mas faz tempo demais. E, como expliquei no post passado, decidi organizar minha vida de blogueira. Mais uma vez.
Para começar, resolvi dar uma revisada geral nos antigos arquivos que tenho guardados e ver o que vale a pena manter, republicar ou até mesmo imprimir. Encontrei algumas histórias que gosto muito e tive uma idéia. Achei que seria um bom presente de final de ano para minha filha construir um belo caderno com alguns dos meus escritos. Quem sabe um dia ela poderá contar algumas destas histórias aos seus filhos e netos.
Naturalmente pretendo mantê-los em disco, mas não é o mesmo contar uma história lida no papel, não é?
Então…essa é uma das que resolvi imprimir.
……………………………………………………..
Era um sábado. Não sei há quanto tempo atrás…
Naquela manhã fui, com alguns amigos, tomar umas cervejas e plantar arvorezinhas numa praça do Poço da Panela.
Chamar de praça um minúsculo triângulo de terra, com um busto de Mano Teodósio e quatro palmeiras…. é boa vontade e carinho.
A rua não era minha, nem a praça, mas o Poço foi meu lar por quase toda minha vida. O lugar da casa e do rio. Vocês sabem qual casa, qual rio….
Pois é… eu estava lá, limpando a terra, cavando e plantando, manhã tão linda! As mãos sujas de esterco e barro. Chico Buarque no som do carro, cantando ao vento: ” Morena, dos olhos d´água, tira os teus olhos do mar, vem ver, que a vida ainda vale o sorriso que eu tenho para te dar…”
Aí passa um carro, faz a volta… uma mulher desce com ar desconfiado.
– Vocês vão fazer o que?
– Estamos limpanho e plantando a pracinha…
– Vocês conheciam o Mano Teodósio?
– Não… mas gostamos dele.
– Não vão mexer no busto, não é? Da última vez pintaram ele de verde.
– Não… só vamos lavar. Por que?
– Ele era meu irmão…
Tinha os olhos molhados.
Arrepiei a nuca. Acreditei.
Ela entrou no carro e se foi. Senti sua falta. Um silêncio por dentro, apesar da música. Abrimos mais uma cerveja… brindamos com Mano.
Ela voltou depois de um tempo, com uma velhinha no carro. Era a mãe de Mano Teodósio. Uma senhora de brancos cabelos e andar claudicante. Ficou nos olhando e dizendo… “Obrigada… Obrigada…”
Arrepiei de novo.
Minha amiga sugeriu que voltassem ao final do dia, para ver o trabalho terminado.
– Sim. Elas disseram.
Prendemos uma fita amarela entre as palmeiras, para reinaugurar a praçinha. A cerveja rolando solta… e a alegria também.
Lavamos a praça, o busto, aguamos as novas plantinhas.

Ela voltou, pelo braço da filha. E trouxe fotos. Falava do filho com orgulho. Disse que ele adorava Chico Buarque, que gostava de beber e era muito alegre… assim como nós.
Disse que ele era muito querido, respeitado até pelos inimigos políticos! Que foi comunista perseguido. E que era um homem lindo, de corpo e de alma.
A lua nascendo, enorme, abusada de bonita… exatamente de frente para o busto dele. E a gente cantando: ” Estava à toa na vida… o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor… ”
Na presença dela, eu olhava para ele com mais cuidado, pensando ver o homem por trás da pedra, o homem que havia sido, o amigo de copo e de cruz, o Filho daquela mulher… o Mano de outra…
Estávamos todos de olhos marejados. Se eu fosse mais pura, teria acreditado que ele também chorava…
Foi um belo dia.
Voltei para casa pensando na pergunta de um amigo: ” Voce sabe ser feliz?”
E lá estava eu … feliz, assim de repente.
Por nada…

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Meus Queridos,

É provável que estejam sentindo-se um tanto abandonados, mas jamais duvidem do meu bem querer. O que passa é que quando estou aqui em casa fico meio perdida entre as horas dos dias comuns e emaranhada nas tarefas – irrelevantes, eu admito – de uma casa onde vivem pessoas que comem, vestem, dormem.
Todos os dias há o que fazer. Nunca imaginei que poderia deixar-me envolver assim pelo todo dia de uma casa. Sempre fui daquelas que saíam pela manhã e voltavam à noite. Como a minha casa se arranjava, não sei!
Agora, sempre que posso eu fujo, claro. Só que para fora das minhas paredes.
O mais comum é que vou caminhar entre os pinheiros e cantar em voz alta – não há ninguém para rir de mim – acompanhando as músicas que soam dentro dos ouvidos através dos fones do aparelhinho de MP3.
Não me importo com meus ridículos ruídos musicais. Nem os pássaros, nem os esquilos, nem os enormes e negros besouros ou as torcazes, gordas e felizes. Parecem que todos já se acostumaram.
Por sinal, que felizes são as torcazes! A beleza delas é ser gorda, não é maravilhoso? Nenhuma preocupação com as curvas. Elas voam ruidosamente felizes e fazem ninhos lindos e grandes. Este está justamente em um dos três prunos do meu jardim.
Elas parecem orgulhosas de si mesmas. Seu tempo de serem magras e leves passou. Agora já procriam, alimentam seus filhotes, os ensinam a voar e podem apresentar-se assim, mais redondinhas, mesmo que isso lhes façam menos rápidas e mais escandalosas no farfalhar de asas com que me presenteam durante o passeio. São tão lindas com suas barriguinhas estufadas!
(Enquanto penso isso apresso o passo no intuito de gastar mais as calorias acumuladas nas dobrinhas, pois ainda não consegui acreditar que não caber na última calça comprada é algo de que deva orgulhar-me. Hunf! )
Pois sim…Faz tempo que procriei, alimentei e ensinei a voar a minha cria. E ainda ajudo-a a repensar seus planos de vôo e abro as asas para aninha-la quando necessita de colo. Ultimamente ela tem precisado de mim e eu fico encantada em poder suprir suas carências de mimos. Me entrego inteira e agradeço por estar aqui, tão perto dela. Muitas mães de amigas suas não têm essa facilidade, então estufo o peito e transbordo de tanto amor. Como uma torcaz.
Mas… não consigo olhar para as dobrinhas da barriga e pensar que elas já podem instalar-se ali para toda a eternidade. Ainda luto contra. Mansamente, é verdade, mas constantemente! Mudei de médico e recomecei um plano de guerra contra elas. Tirei a bicicleta da garagem e estacionei bem diante do terraço. Para recordar-me que ela pode ajudar-me.

Agora que deixei de fumar já posso bicicletear diariamente por 10 quilômetros de altos e baixos e ainda ganhar de graça um pôr-do-sol distinto a cada tarde!
A bicicleta me cansa uma barbaridade, mas o pôr-de-sol não. Nunca são iguais!
O sol surpreende sempre com as cores com que pinta o céu e as nuvens esgaçadas ou emboladas, imitando formas mitológicas. A cada tarde o céu modela e o sol colore diferentes deusas, unicórnios, cavalos alados, barcos e balsas…monstros marinhos.
E o vento que acaricia meu rosto tem cheiro de mato, de infância, de liberdade, de simples e pura alegria. É uma maravilha que preciso aproveitar antes que venham os ventos gélidos e os dias curtos do inverno madrilenho. (As dobrinhas estão desesperadas.)
Ahahahahha!
Também tenho aproveitado o tempo de calor para curtir a piscina, que durante as manhãs dos dias de semana está ali só para mim.
Bem, um ou outro visitante faz-me companhia. De vez em quando avisto esquilos ruivos que passam correndo entre os pinheiros ou andorinhas que se arriscam a rasantes espetaculares sobre minha cabeça para beberem um pouco de água fresca.
Belos momentos… tranquilos e mágicos momentos.
Adoro mergulhar no silêncio azul e frio das águas tranquilas e esquecer o calor. É uma sensação muito agradável deixar-me boiar, abraçada pelo azul, escutando o nada. O problema é que a temperatura da água não é das mais acolhedoras e não aguento ficar ali por muito tempo. Assim, é necessário mover-me, nadar, bater pernas, qualquer coisa que esquente o sangue. Ou esperar fora d´água por olhos-de-mar azul… sua presença (ainda e sempre) aquece tudo em mim e ao meu redor. Mas ele só pode vir na hora do almoço…
De vez em quando aproveitamos para que me ensine a mergulhar com equipamentos. Temos uns planos incríveis para alugarmos um barco com alguns amigos e mergulharmos juntos nas próximas férias.
Não pensem que não tenho histórias interessantes para contar aqui. Tenho umas lindas, outras tristes, outras ainda supreendentes!
Também poderia falar dos acontecimentos no mundo. Acompanho as notícias dos jornais, leio os principais artigos, me enraiveço com o cinismo, a crueldade, a falta de vergonha e de cidadania, de compaixão, a extrema violência dos seres humanos. Me entristeço com as notícias que leio sobre o Brasil, penso em comentar… depois desisto. Já muitos blogueiros fazem isso mais e melhor do que eu. De vez em quando imprimo uns posts espetaculares para ler mais tarde. Lá fora. Na rede. Muitas vezes penso em escrever sobre eles…mas me falta ganas de estar diante da tela como antes.
Na verdade, ultimamente o que me falta é vontade de estar longe do céu azul, das borboletas amarelas, das flores que ainda enfeitam meu terraço, dos livros que me chamam a sussurros sedutores para que os leia, mesmo que seja só mais um capítulo.

Tá… me falta também a vontade de perder tempo com as tarefas caseiras. Mas essas, infelizmente, necessitam serem feitas, mesmo que eu as deteste. E quando digo que estou perdida nelas significa isso mesmo. Per-di-da!
Assim…começo a arrumar a sala e quando levo um copo na cozinha já fico por lá, guardando coisas, arrumando a geladeira, varrendo migalhas de não-sei-o-que… aí descubro uma planta sem água e vou aguar todas elas – e são muitas – e já estou de volta ao jardim. Fico por ali largos momentos, tirando folhas mortas, limpando os vasos… aí vejo os vidros das janelas pedindo socorro! E lá vou eu buscar um jornal e um limpa-cristais para passar sobre eles. Então descubro notícias que não li e perco-me nelas por uns momentos, até descobrir que ainda não terminei de arrumar a sala…e também que há um montinho de roupa bem diante da máquina de lavar, que eu mesma empilhei ali, em alguma das milhares de vezes que atravessei a área de serviço. Isso sem falar na montanha de camisas que deixo formar antes de passa-las a ferro. Oh! my god!
Sei que tenho um privilégio de viver numa casa deliciosa, mas paga-se um preço razoável de tempo para mantê-la habitável!
E mais porque ainda convidamos amigos e familiares para compartilhar um espaço tão agradável como o nosso e isso também gasta – e eu adoro investir meu tempo em estar com as pessoas que eu amo – um bocado de horas em comprar e preparar comidas gostosas ( as dobrinhas a-do-ram! ), arrumar os espaços do jardim, proporcionar momentos agradáveis a quem nos visita, criar ou estreitar laços afetivos com aqueles que nos rodeiam e que também nos escolhem como companhia.

Os convites para visitá-los e comer com eles também tem sido constantes. Acho que todos querem aproveitar o verão, os tempos cálidos, os dias mais longos para aproximarem-se mais. No inverno todo mundo se entoca nos sofás e é mais difícil deslocar-se por aí ou por aqui.
Por isso e por mais outras coisas, meu amigos queridos, tenho passado de raspão pelo computador. Mas tenho sentido falta de vocês também. Preciso encontrar uma forma de organizar-me e guardar um espaço no meu dia para nós. Prometo que vou tentar estar mais presente!
Acho que vou fazer um planejamento semanal de horas e tarefas!
Começando por hoje!
Já pensaram… uma psicóloga desempregada precisando de agenda!
Como fui capaz de mudar tanto assim?
Ps: Sobre a orquestra que fui ver em Madrid, posso dizer que estava perfeita, linda… e impossível de se chegar perto. Nove mil pessoas dentro da praça. Não deu para encarar! Não tenho mais o ânimo para ficar em pé e imprensada como uma sardinha, acuada numa das portas que dão acesso à Plaza Mayor de Madrid para escutar, de longe, a apresentação.Eu queria mais do que isso. Fui lá para ver e ouvir, mas o espaço era pequeno demais para um presente daquele tamanho e já estava completamente ocupado duas horas antes do primeiro acorde. Inclusive os pórticos da praça estavam repletos de gente espalhada pelo chão, com carrinhos de bebês que choravam de calor e agonia. Eu, heim!
Uma pena!
Saímos por ali e aproveitamos para passear devagar pela Madrid de los Austrias, sempre um grande e agradável passeio.
Depois escutei a Nona de Beethoven, por Barenboim, em casa mesmo. Um vinho na taça, um queijo na tábua. Feliz. E sem traumas.

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Tá Bom…

Eu admito que estou devendo umas desculpas… sumi daqui, né?
Mas ando perdida por outras plagas, outras ondas literárias…
Ando com preguiça de sentar aqui e escrever. Não consigo ficar no computador muito tempo e menos ainda para pensar e escrever. E o pior é que tenho assunto de sobra!
Desculpem-me, queridos.
Estou mais para ler. E no papel mesmo!
Prometo tentar outro dia. Acontece que hoje também não vai dar…
Vamos ver Daniel Barenboim e uma orquestra composta por jovens palestinos, judeus e espanhóis, interpretando a 9• Sinfonia de Beethoven. Grátis, na Plaza Mayor de Madrid.
Imperdível!

Aí, depois eu conto. Juro!

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