Meus Queridos,

É provável que estejam sentindo-se um tanto abandonados, mas jamais duvidem do meu bem querer. O que passa é que quando estou aqui em casa fico meio perdida entre as horas dos dias comuns e emaranhada nas tarefas – irrelevantes, eu admito – de uma casa onde vivem pessoas que comem, vestem, dormem.
Todos os dias há o que fazer. Nunca imaginei que poderia deixar-me envolver assim pelo todo dia de uma casa. Sempre fui daquelas que saíam pela manhã e voltavam à noite. Como a minha casa se arranjava, não sei!
Agora, sempre que posso eu fujo, claro. Só que para fora das minhas paredes.
O mais comum é que vou caminhar entre os pinheiros e cantar em voz alta – não há ninguém para rir de mim – acompanhando as músicas que soam dentro dos ouvidos através dos fones do aparelhinho de MP3.
Não me importo com meus ridículos ruídos musicais. Nem os pássaros, nem os esquilos, nem os enormes e negros besouros ou as torcazes, gordas e felizes. Parecem que todos já se acostumaram.
Por sinal, que felizes são as torcazes! A beleza delas é ser gorda, não é maravilhoso? Nenhuma preocupação com as curvas. Elas voam ruidosamente felizes e fazem ninhos lindos e grandes. Este está justamente em um dos três prunos do meu jardim.
Elas parecem orgulhosas de si mesmas. Seu tempo de serem magras e leves passou. Agora já procriam, alimentam seus filhotes, os ensinam a voar e podem apresentar-se assim, mais redondinhas, mesmo que isso lhes façam menos rápidas e mais escandalosas no farfalhar de asas com que me presenteam durante o passeio. São tão lindas com suas barriguinhas estufadas!
(Enquanto penso isso apresso o passo no intuito de gastar mais as calorias acumuladas nas dobrinhas, pois ainda não consegui acreditar que não caber na última calça comprada é algo de que deva orgulhar-me. Hunf! )
Pois sim…Faz tempo que procriei, alimentei e ensinei a voar a minha cria. E ainda ajudo-a a repensar seus planos de vôo e abro as asas para aninha-la quando necessita de colo. Ultimamente ela tem precisado de mim e eu fico encantada em poder suprir suas carências de mimos. Me entrego inteira e agradeço por estar aqui, tão perto dela. Muitas mães de amigas suas não têm essa facilidade, então estufo o peito e transbordo de tanto amor. Como uma torcaz.
Mas… não consigo olhar para as dobrinhas da barriga e pensar que elas já podem instalar-se ali para toda a eternidade. Ainda luto contra. Mansamente, é verdade, mas constantemente! Mudei de médico e recomecei um plano de guerra contra elas. Tirei a bicicleta da garagem e estacionei bem diante do terraço. Para recordar-me que ela pode ajudar-me.

Agora que deixei de fumar já posso bicicletear diariamente por 10 quilômetros de altos e baixos e ainda ganhar de graça um pôr-do-sol distinto a cada tarde!
A bicicleta me cansa uma barbaridade, mas o pôr-de-sol não. Nunca são iguais!
O sol surpreende sempre com as cores com que pinta o céu e as nuvens esgaçadas ou emboladas, imitando formas mitológicas. A cada tarde o céu modela e o sol colore diferentes deusas, unicórnios, cavalos alados, barcos e balsas…monstros marinhos.
E o vento que acaricia meu rosto tem cheiro de mato, de infância, de liberdade, de simples e pura alegria. É uma maravilha que preciso aproveitar antes que venham os ventos gélidos e os dias curtos do inverno madrilenho. (As dobrinhas estão desesperadas.)
Ahahahahha!
Também tenho aproveitado o tempo de calor para curtir a piscina, que durante as manhãs dos dias de semana está ali só para mim.
Bem, um ou outro visitante faz-me companhia. De vez em quando avisto esquilos ruivos que passam correndo entre os pinheiros ou andorinhas que se arriscam a rasantes espetaculares sobre minha cabeça para beberem um pouco de água fresca.
Belos momentos… tranquilos e mágicos momentos.
Adoro mergulhar no silêncio azul e frio das águas tranquilas e esquecer o calor. É uma sensação muito agradável deixar-me boiar, abraçada pelo azul, escutando o nada. O problema é que a temperatura da água não é das mais acolhedoras e não aguento ficar ali por muito tempo. Assim, é necessário mover-me, nadar, bater pernas, qualquer coisa que esquente o sangue. Ou esperar fora d´água por olhos-de-mar azul… sua presença (ainda e sempre) aquece tudo em mim e ao meu redor. Mas ele só pode vir na hora do almoço…
De vez em quando aproveitamos para que me ensine a mergulhar com equipamentos. Temos uns planos incríveis para alugarmos um barco com alguns amigos e mergulharmos juntos nas próximas férias.
Não pensem que não tenho histórias interessantes para contar aqui. Tenho umas lindas, outras tristes, outras ainda supreendentes!
Também poderia falar dos acontecimentos no mundo. Acompanho as notícias dos jornais, leio os principais artigos, me enraiveço com o cinismo, a crueldade, a falta de vergonha e de cidadania, de compaixão, a extrema violência dos seres humanos. Me entristeço com as notícias que leio sobre o Brasil, penso em comentar… depois desisto. Já muitos blogueiros fazem isso mais e melhor do que eu. De vez em quando imprimo uns posts espetaculares para ler mais tarde. Lá fora. Na rede. Muitas vezes penso em escrever sobre eles…mas me falta ganas de estar diante da tela como antes.
Na verdade, ultimamente o que me falta é vontade de estar longe do céu azul, das borboletas amarelas, das flores que ainda enfeitam meu terraço, dos livros que me chamam a sussurros sedutores para que os leia, mesmo que seja só mais um capítulo.

Tá… me falta também a vontade de perder tempo com as tarefas caseiras. Mas essas, infelizmente, necessitam serem feitas, mesmo que eu as deteste. E quando digo que estou perdida nelas significa isso mesmo. Per-di-da!
Assim…começo a arrumar a sala e quando levo um copo na cozinha já fico por lá, guardando coisas, arrumando a geladeira, varrendo migalhas de não-sei-o-que… aí descubro uma planta sem água e vou aguar todas elas – e são muitas – e já estou de volta ao jardim. Fico por ali largos momentos, tirando folhas mortas, limpando os vasos… aí vejo os vidros das janelas pedindo socorro! E lá vou eu buscar um jornal e um limpa-cristais para passar sobre eles. Então descubro notícias que não li e perco-me nelas por uns momentos, até descobrir que ainda não terminei de arrumar a sala…e também que há um montinho de roupa bem diante da máquina de lavar, que eu mesma empilhei ali, em alguma das milhares de vezes que atravessei a área de serviço. Isso sem falar na montanha de camisas que deixo formar antes de passa-las a ferro. Oh! my god!
Sei que tenho um privilégio de viver numa casa deliciosa, mas paga-se um preço razoável de tempo para mantê-la habitável!
E mais porque ainda convidamos amigos e familiares para compartilhar um espaço tão agradável como o nosso e isso também gasta – e eu adoro investir meu tempo em estar com as pessoas que eu amo – um bocado de horas em comprar e preparar comidas gostosas ( as dobrinhas a-do-ram! ), arrumar os espaços do jardim, proporcionar momentos agradáveis a quem nos visita, criar ou estreitar laços afetivos com aqueles que nos rodeiam e que também nos escolhem como companhia.

Os convites para visitá-los e comer com eles também tem sido constantes. Acho que todos querem aproveitar o verão, os tempos cálidos, os dias mais longos para aproximarem-se mais. No inverno todo mundo se entoca nos sofás e é mais difícil deslocar-se por aí ou por aqui.
Por isso e por mais outras coisas, meu amigos queridos, tenho passado de raspão pelo computador. Mas tenho sentido falta de vocês também. Preciso encontrar uma forma de organizar-me e guardar um espaço no meu dia para nós. Prometo que vou tentar estar mais presente!
Acho que vou fazer um planejamento semanal de horas e tarefas!
Começando por hoje!
Já pensaram… uma psicóloga desempregada precisando de agenda!
Como fui capaz de mudar tanto assim?
Ps: Sobre a orquestra que fui ver em Madrid, posso dizer que estava perfeita, linda… e impossível de se chegar perto. Nove mil pessoas dentro da praça. Não deu para encarar! Não tenho mais o ânimo para ficar em pé e imprensada como uma sardinha, acuada numa das portas que dão acesso à Plaza Mayor de Madrid para escutar, de longe, a apresentação.Eu queria mais do que isso. Fui lá para ver e ouvir, mas o espaço era pequeno demais para um presente daquele tamanho e já estava completamente ocupado duas horas antes do primeiro acorde. Inclusive os pórticos da praça estavam repletos de gente espalhada pelo chão, com carrinhos de bebês que choravam de calor e agonia. Eu, heim!
Uma pena!
Saímos por ali e aproveitamos para passear devagar pela Madrid de los Austrias, sempre um grande e agradável passeio.
Depois escutei a Nona de Beethoven, por Barenboim, em casa mesmo. Um vinho na taça, um queijo na tábua. Feliz. E sem traumas.

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10 opiniões sobre “Meus Queridos,

  1. Nora, gostei tanto de saber das suas novidades. As flores estão lindas, o por do sol idem. Curta bastante a sua vida e quando puder dê um alo para nós. Beijocas

  2. Sem dúvida é um ótimo cotidiano, o seu! Tb ando lutando contra a barriguinha, mas no meu caso ela é sinônimo de falta de exercício regular. rsrsrsrs
    Obrigado pela visita ao blog e espero q vc volte sempre. Certamente voltarei aqui outras vezes. Embora nem sempre consiga, a intenção é seguir à risca no Alta Resolução o slogan “Porque você não precisa levar tudo tão a sério”.
    Respondendo à sua indagação, não sei se a questão é de reconhecimento, ou de publicar textos na Internet. A verdade é que não sei escrever ficção como uma atividade paralela, e não há como fazê-lo em tempo integral. Então, vamos imitar o replicante vivido por Hutger Hauer em Blade Runner: lamentar o que nunca será contado e parar de funcionar. rsrsrsrsrsrs

  3. Mércia

    Oi Nora
    Senti muita falta de você cada vez que entrava aqui, ai resolvi lêr post antigos, foi muito bom, te peço do fundo do meu coração que não deixe de escrever jamais, nem preciso falar o quanto gosto das coisas que você escreve.
    Estou fazendo aerobica afinal tenho muito mais que dobrinhas para perder

  4. Olha, passear de bicicleta já é uma delícia! Fica melhor ainda com esse pôr-do-sol diferente a cada dia. E os lugares pelos quais você passeia são, com certeza, mais limpos, mais seguros e agradáveis dos que temos em Sampa. Aliás, em todo o Brasil. Não é por falta de beleza. É de segurança mesmo que eu falo, de limpeza, de respeito.
    “Assinar a própria vida” é sorte. E é preciso coragem também.
    Como está a leitura? Eu tô numa fase de ler Shakespeare. Também tô lendo “a função do orgasmo”, do Wilhelm Reich. Deu vontade de conhecê-lo, depois de uma reportagem.
    É bom te ter de volta.
    Grande beijo!!! Boas pedaladas!

  5. Ceres

    Quão egoistas somos por não entender a sua ausência para aproveitar melhor a vida. Nós, como eu, que somente aproveitamos a brisa que do seu blog nos chega.
    Desculpe, mas, mesmo assim, não abandone essa sua plêiade de seguidores que saboream sua verve poética ! Continue a alimentar esses egoistas que você criou e alimentou …… beijos, Ceres

  6. Oi Norinha,
    Valeu a espera. Que post gostoso de se ler. Adorei, como adoro ler todos eles.
    Palavras e pensamentos em harmonia perfeita.
    Beijos e obrigada pela linda mensagem de feliz aniversario deixada la no meu blog.
    ME

  7. Nora, lindo post!
    Aproveita bem os teus dias de calor e luz para recarregares as energias.
    No inverno, estarás mais por aqui com toda a leveza e a serenidade que sempre fizeram parte de ti e que me encantaram logo que te conheci.
    Beijos e obrigada pela visita.
    P.S. Apesar da pouca idade, também achava Boone um gato. 😉

  8. Nora querida, que texto delicioso! Voce sempre coloca uma pitadinha de poesia em todas as linhas que escreve e isso é bárbaro! Consigo “viajar” lendo os seus posts.
    Que florzinhas mais lindas, simpaticas e coloridas! Faz muito bem ficar perto delas!
    Beijo enorme

  9. Mesmo que a filhota não precisasse, existe coisa melhor do que lamber a cria?

  10. Muito bom ler as tuas coisas…
    Já pedi – e recebi tua permissão pra transcrever algumas coisas que leio aqui no meu blog, porque me identifico demais com teu universo. Coisas como cuidar da casa enquanto a cabeça viaja e cuidar das flores pensando na beleza e repensar os filhos e a vida olhando o por de sol… Ser feliz é tão bom…
    Ah! As famigerada dobrinhas também me incomodam… Nada é perfeito!
    Beijos!

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