Em Terras de La Mancha…

Pois sim… quando uns amigos nos convidaram para um final de semana em Albacete, claro que adoramos a idéia e a aceitamos na mesma hora.
Albacete é a capital da província de mesmo nome e fica em Castilla La Mancha. Seu nome vem do árabe “Al Basit”, que significa A Planície. Fica há 250 km de Madrid.
A cidade é bonita e simpática. Parece que está esperando que você chegue e aproveite seus parques e museus, seus bares e suas lojas, seus arredores e suas festas populares.
Me pareceu um lugar manso e agradável, apesar de estarmos justamente no final de semana da inauguração da Féria Anual, a maior festa da capital.
A Féria de Albacete é considerada uma das melhores da Espanha.
É muito organizada e oferece uma variedade imensa de opções de divertimento para o público em geral. E tudo muito tranquilo. Não vi nada frenético, nada desvairado e em nenhum momento senti-me sugada por algum torvelinho de gente puxando ou empurrando para conseguir espaço ou ter acesso às atividades sugeridas pelas luzes coloridas das barracas.
Uma das mais bonitas era a que oferecia vinho moscatel, com manequins bailando sobre tonéis de uvas e uma música bobinha e aguda que atraía todo mundo para perto.
A foto está publicada dois posts abaixo.

Sem pressa a gente ia descobrindo as coisas, respirando devagar e aproveitando tudo o que a festa oferecia, sem agonia. Adorei uma “estátua viva” de Don Quixote. Passei um tempo enorme admirando a beleza de seu traje cheio de luzes brilhantes e vendo como se movia com garbo e elegância ao receber as moedas. Estava lindo! Não sei onde anda a foto.
Embora houvesse muita gente passeando e divertindo-se por entre as dezenas de lojinhas de artesanato, comidas, bebidas e atrações do grande parque de diversões armado em torno do edifício principal, pudemos caminhar entre as pessoas, escolher o que e onde comer, beber ou dançar.
Escolhemos várias iguarias, em vários lugares, sentadinhos e bem servidos. Mas entre todas, o melhor foram umas Berinjelas de Almagro, feitas em conserva e servidas na mão, em pé, sem prato nem nada. Era pedir, pagar e comer.
A mulher enfiava um garfo numa tina de madeira e tirava dali uma coisa do tamanho de um punho fechado, de cor meio esverdeada, escorrendo em vinagre e azeite e estendia-o com um guardanapo de papel bem grosso que era para a gente enxugar a meladeira entre os dedos. Também tínhamos direito a uma esguichada na boca do vinho tinto que estava numa bota de couro negro pendurada numa coluna da barraca para quem quisesse servir-se. Delícia! Só de lembrar me dá água na boca! Eita coisa gostosa!

Também podíamos comprar uma infinidade de artigos de couro ou corda, cerâmicas cruas ou pintadas e – principalmente – a especialidade da região:facas, navalhas e tesouras.
Albacete é conhecida pela variedade e qualidade de sua cutelaria.
Não comprei nenhuma, mas tive a sorte de ganhar, num sorteio de tômbola, um conjunto completo para churrasco. Bien!
Voltamos para casa a pé, sem sobressaltos, sem riscos de assalto, sem confusão. Adorei que fosse assim. Esse é um dos melhores aspectos das médias cidades espanholas: a segurança. É tão prazeiroso poder ir tranquilamente caminhando pelas ruas em direção à casa às três da madrugada…
Enfim… por falar em casa, ficamos hospedados num antigo apartamento de uma amiga da mãe de Carlos. A dona do apartamento nunca casou nem teve filhos. Agora, com o avanço da idade não pode mais viver sozinha. Está vivendo numa residência para velhinhos no final da mesma rua.
A amiga tem as chaves para manter o apartamento arejado e dar ordens à “muchacha” que vem semanalmente limpar tudo. É um pedido pessoal de um sobrinho da proprietária e este, em troca, lhe concede que hospede seu filho ali quando ele vai visitá-la. Assim, ficamos bem no centro da cidade, sem alterar a rotina de ninguém. Maravilha!
A casa está perfeitamente em ordem, como se ela fosse entrar pela porta a qualquer momento. Mas ela nunca vai voltar e sua ausência já se espalha por cima de tudo…
Seus pequenos objetos de adorno estão condenados ao silêncio apesar de permanecerem espalhados pelos móveis, seus quadros parecem tristes nas paredes frias, seus paninhos bordados sobre os braços das poltronas, inúteis…
As belas roupas e espetaculares casacos de vison, pendurados no armário, envolvidos em sacos de plástico transparente, como mortos, já cheiram apenas a passado…
Quantas histórias e casos vividos por aquela velha dama eles guardam? De quantas viagens foram testemunhas? Em que belas festas estiveram, que cenários enfeitaram?
Quem saberá contar uma de suas histórias de inverno ao acariciar de leve o belo abrigo marrom? Quem saberá de onde vem aquela antiga boneca com a cara de porcelana e vestido de rendas que mora no sofá de veludo vermelho da saleta de leitura?
Tive pena por ela não estar ali para contar-nos um pouco de sua vida e de seus significados… mas me disseram que ela já não saberia contá-los.
Recordei minha mãe e seu desaparecimento precoce dentro das brumas de sua doença. Recordei quantas vezes eu mesma lhe contava as melhores histórias de sua vida ou cantava as músicas que ela mais gostava.
Pelo menos a Princesa tinha quem lhe recordasse, mesmo que por breves e espaçados minutos, as belas noites de inverno de Casa Forte, o dia em que avistou, de longe, o Lorde e soube que se casaria com ele, as músicas que ganhou de presente ao longo de seus anos de casada…
Tive muita pena que aquela senhora de Albacete não tivesse alguém que lhe recordasse sua história.
Senti-me, por alguns momentos, como uma intrusa, invadindo frivolamente a intimidade de seu quarto. Pensei como deve ter sido estranha e difícil a primeira noite longe de seu ninho, num impessoal abrigo ao final da mesma rua em que sempre viveu.
Tive vontade de ir ali para visitá-la mas achei que seria incompreensível para ela. Aliás, seria incompreensível para todos. Pensei também que talvez eu quisesse rever nela a Princesa. Seria puro egoísmo de minha parte.
Sua amiga vai vê-la todas as semanas. Contará que estivemos ali, que se abriram as grossas cortinas e antigas janelas, que a brisa da manhã arejou os salões, os quartos, as bonecas… Que a casa respirou e reviveu por três dias e que quatro corações desconhecidos pulsaram entre suas paredes.
Talvez ela goste de saber…talvez nem se inteire de nada.
E esse foi o traço meio-amargo de minha passagem por Albacete.

(Foto: prefeitura antiga de Albacete, iluminada e bonita, enquanto caminhavamos pelas noites da cidade)
A mãe de Carlos foi o traço alegre e cheio de vida.
A senhora movia-se com uma agilidade e determinação incríveis.
É uma mulher cheia de coisas a dizer, forte e bonita, de bochechas rosadas.
E cozinha maravilhosamente!
Fez-nos umas fritillas com chocolate quente e nos convidou para o café-da-manhã em sua casa.
Que bela forma de começar o dia!
Bela e gorda forma de começar o dia!
As fritillas são deliciosas e é simplesmente impossível comer apenas uma.
Preferi abrir mão do chocolate e comê-la com café preto e bem quente.

 

Aqui o chocolate é muito espesso e eu acho meio enjoado.
Ingeri menos calorias e a culpa diminuiu bastante!
Então pude comer só mais uma… ho ho ho!
A receita vai aí abaixo, num post separado para que fique no arquivo de Coisas de Comer.

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Categorias: Cicatrizes da Mirada | Tags: | 9 Comentários

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9 opiniões sobre “Em Terras de La Mancha…

  1. Nora,
    Que maravilha sua história, como sempre, muito sensível.
    Beijo

  2. Espero que essa seja realmente uma relação de amizade, de partilha e de confiança…vai sendo cada vez difícil criar amigos e ainda mais difícil mantê-los.

  3. É uma delícia poder ler o que você escreve sobre a Espanha. Beijocas

  4. Maria

    Hola Nora: Soy Maria. No puedo mandarte correo desde mi trabajo, así que tengo que utilizar el de Quique. Manda tu dirección de e-mail, y así estaremos en contacto. Me gusta mucho tu blog, aunque lo visito poco porque me cuesta entender todo lo que dices. Podrías poner una versión en español?
    Besitos.

  5. Maria, estoy pensando empezar a escribir en Español… tal vez escriba una version de ese blog porque ahora ya tengo algunos lectores aquí. Pero si hablar ya me resulta dificil, imagine escribir!
    Besitos.

  6. Oi, Nora
    Cada vez que leio suas descrições das coisas, lugares, comidas, etc, da nossa querida Espanha, mais me aguça a vontade, mais a necessidade, de conhecer esse belo Pais.
    Quando irei, até mesmo se irei,não consigo saber. Mas, como quero!
    Beijos agradecidos pela narrativa
    fernando cals

  7. Os espanhóis roubam mulheres de outros países? Brasileiras, suecas, etc.?
    Um grande abraço, Pepe!

  8. da espanha porque é espanha, as coisas que vc escreve sempre são bacanas e curiosas.
    mas acho que o que conta é o jeito de escrever mesmo.
    se fosse contando das coisas daqui da minha vizinhança, ainda assim despertariam o mesmo tipo de surpresa boa.
    a beleza está nos detalhes. e você os descreve muito bem.
    parabéns, de novo nora, ótimo post.
    também me emocionei com a dona do ap.

  9. No amar-ela há um bolinho à sua espera!
    Beijinhos

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