Arquivo do mês: maio 2007

Rosas, rosas, rosas…

Rosas formosas se espalham por Madrid.
Em cada jardim, cada praça, elas se mostram, simplesmente espetaculares, na mais gloriosa festa da natureza: a Primavera.
Não lhes importam que as águas das torrenciais chuvas dos últimos dias tenham inundado as ruas, os túneis, as garagens subterrâneas e tenham alimentado – com gosto e vontade – os imensos buracos cavados pelos obreiros municipais e transformado a cidade num enorme campo cheio de poços de água e lama.
Não lhes importam nada disso…
Elas aproveitam a confusão e pintam as folhas com novo verde, afiam discretamente os espinhos, suspiram com feminilidade… e amanhecem no dia seguinte, bem ali ao lado, na encosta de uma estrada, na cerca de um parque, nas rotondas, nas varandas das buhardillas, nos jardins dos museus, nas praças… lindas, radiantes, sedosas, magníficas em suas cores, cada uma escolhida com cuidado na vagarosa toilete matinal.
Umas ainda mantém, penduradas nas pétalas, as gotas de orvalho que roubaram da névoa que na madrugada cobriu a cidade…
Acho que durante as noites de chuva elas mergulham na terra, deitam sob mantos de folhas perfumadas e dormem como deusas surdas. Nem percebem a tromba d´água, as sirenas dos bombeiros, os prantos dos que perdem o rumo e o prumo em noites de tempestade.
Elas apenas descansam. E isso é absolutamente necessário, ninguém discute. Dormem em um leito verde e mágico só para que, ao dia seguinte, quando despertem, todos os desesperados, sobreviventes dos assustadores relâmpagos e escandalosos trovãos que os deuses cuspiram sem dó sobre a cidade indefesa, possam recuperar o juizo, a ternura, o desejo de viver e serem felizes apenas ao vê-las.
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Psit um :
Nem só de amapolas vive meu coração na Primavera. Para um boa crise de ego, nada melhor que um largo passeio entre as rosas de Madrid !
Psit de novo!
Perdoem mais um vez o abandono!
Crises de ego são poderosas, intimidam, paralisam. Cada movimento abre feridas do passado. Recomendo um passeio entre as rosas, amapolas, margaridas… o que estiver ao alcance de cada um…
Ah, psit again:
Vou responder a todos os comentários… vocês arrasaram!
Também pudera, com um texto assim como o do post passado! Já soube que ninguém sabe quem o escreveu, o que não diminui em nada a força de sua poesia.

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A Solidão é fera… a Solidão devora…

Onde está Deus, ainda que ele não exista?
Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, desfrutar de ser perdoado por uma carícia não propriamente maternal. Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e ainda assim próximo, quente, feminino, ao lado de qualquer fogo…Poder chorar ali coisas impensáveis, faltas que não sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grande dúvidas crispadas de não sei que futuro…Uma infância nova, uma ama velha outra vez e uma cama pequena onde acabe por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se põe frouxa, de raios que penetravam em jovens cabelos dourados como o trigo… E tudo isso muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, mais além do fundo triste e sonolento da realidade última das coisas…Um regaço ou um berço ou um braço quente ao redor de meu pescoço…Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar… O ruído das chamas no lar…Um calor no inverno…Um extravío suave de minha consciência… E depois, sem ruído, um sonho tranquilo em um espaço enorme, com a lua rodando entre estrelas…
Quando ponho em um canto, com um cuidado pleno de carinho – com vontade de dar-lhes beijos – meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases – e fico tão pequeno e tão inofensivo, tão só em um quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste! Depois de tudo, quem sou eu quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio nas esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e que comer o pão doado pela Fantasia. De um pai sei o nome; me disseram que se chama Deus, mas o nome não me dá idéia de nada. As vezes, de noite, quando me sento sozinho, o chamo e choro, e me faço uma idéia de um ele a quem possa amar…Mas depois penso que não o conheço, que talvez não seja assim, que talvez não seja nunca esse pai de minha alma… Quando terminará tudo isto, estas ruas por onde arrasto minha miséria, e estes degraus onde encolho meu frio e sinto as mãos da noite entre meus farrapos? Se um dia viesse Deus a buscar-me e me levasse a sua casa e me desse calor e afeto… Mas o vento se arrasta pela rua e as folhas caem sobre a calçada…Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm nenhum sentido… E de tudo isto apenas fico eu, um pobre menino abandonado… Tenho muito frio. Estou tão cansado em meu abandono! Vai buscar, oh vento, minha Mãe. Leva-me pela Noite à casa que não cheguei a conhecer…Volta a dar-me, oh Silêncio, minha alma e meu berço e a canção com que dormia.”

Bernardo Soares, em O LIVRO DO DESASSOSSEGO.

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Que soco no estômago! Que dor! Fiquei querendo ser mãe desta criatura, ser sua deusa,seu colo…
Então recordo que minha filha escreveu assim: “Mãe, tu és a melhor invenção do universo!”
E eu agradeci por ter podido ser, pelo menos em parte, o que ela precisava.
Obrigada, minha linda. Você também é minha deusa, meu regaço imenso, minha estrela mais brilhante, minha canção de ninar, minha alegria…
Update:
Amigos blogueiros avisaram-me que o texto não faz parte dos escritos de Fernando Pessoa, nem de seus heterônimos. Bem que procurei nos meus livros e não achei nada.
Ainda não entendi como pode uma pessoa escrever um texto tão bom e não assumir sua autoria! Se alguém souber a quem pertence, por favor avise-me.
Obrigada a Manoel Carlos e Meg.
Update feliz: Meus queridos amigos, o texto é MESMO de Fernando Pessoa. É com imenso prazer que ponho de volta sua assinatura embaixo do fragmento do texto publicado.
Obrigada a Luis Madureyra e Bill.

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